Blog Segura a Moringa

Onde a prosa é boa.

Agora reformulado ( e recolorido).
Aguardem pelo primeiro podcast de algumas músicas que já passaram por aqui.



Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Monólogo sobre a divergêcia universal dos simulacros

Menezes, português todo erudito, óculos fundos, calças no umbigo, suéter de balõezinhos bordados, todinhos amarelos e verdinhos, pega sua mulher pelos braços, joga-a sentada na cama, olhando fixamente para sua dúvida maior.

MENEZES:

(olhando nos olhos)
Deixe-me falar.
Mulher, eu não te entendo.
Juro por Deus que não te entendo.

(abre os braços para cima, num evidente apelo ao divino)
Já houve retórica tão inapalpável?

(enfático)
Pois me resta perguntá-la agora, livre e direto, POR QUÊ?

(a perder o fôlego)
Por que não és direta comigo? Se queres comer bacalhau à moda do porto me preguntas se quero comer um bacalhau à moda do porto ao invés de simplesmente tascar uma lasca e comê-lo.
Simplesmente.

(gesticulando ao ritmo da fala, pausada, nervosamente)
Mulher, a vida não deveria ser mais simples?

(bota as mãos no bolso, vira-se de costas para ela, de frente a um espelho, olhando-a)
Entendo pois as ruas inclinadas e pedras no sapato de tua bioquímica, mas juro que não te entendo, mulher.

(gira em torno de si, como um cão atrás do rabo, coçando a iminente careca)
Por que não me respondes, evasiva, o que te pergunto?

(tornando ao olhar fixo)
Ficas com essa cara de gosto ruim, não te entendo, mulher!

(meiguinho, o rechonchudo)
Que te fiz? Magoei? Estou tão certo de meu raciocínio... que chego a duvidar de mim, me ponho em réu e proponho dizer a verdade, nada além da verdade ao meu eu, e que não deixa de ser teu, também.
Mas me diga: Por quê?

(já desistente da réplica muda do finório olhar que vem a ele, um império)
Fala, mulher, não sou teu adivinho.

(e deixa o palco após um profundo e interminável olhar, reminiscente da dúvida)

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Adendo de quinta-feira da semana da feira, vide o post abaixo

Que Newton que nada, o sono é a única lei que sofro influência hoje. E tal qual um diário de bordo, se eu tivesse um diário de bordo, diria nele que este foi o dia mais singular (pra não mencionar outros termos) do ano, acabando com um banho quente e lembranças do show arrebatador de MPB4 e Toquinho em que estive há pouco. Nem a gravidade impediu-me de flutuar. E o Michael Jackson morreu.

No salão de idéias de Moacir Scliar que fui quarta, perguntaram-no se a tristeza seria necessária para escrever. Scliar respondeu que não seria bem assim, bastaria um ligeiro incômodo para provocar o ímpeto de pôr no papel, pois a tristeza plena 'paralizaria' a pessoa, bloqueando-a, e a alegria plena, quem tem a alegria plena não escreveria. Sinto modestamente discordar de Scliar, conquanto eu sempre ter concordado com esse pensamento, hoje só tive o impulso de escrever algo aqui por conta da alegria plena proporcionada pelos momentum's vividos hoje.
Mas talvez seja o sono.
Ou textos ruins não se apliquem a isso.

Domingo, 14 de Junho de 2009

Dançando conforme o logaritmo

A questão é que estou logaritmando há umas seis horas e tenho pouco menos que dezessete horas para terminar toda a matéria acumulada da semana. Creio que não conseguirei, e olhe, obstinação nao se encontra em qualquer esquina. Compreensão.


(Adendo ao post de sábado:)
Estão vendo? Não deu tempo. E esta semana próxima não dará também, embora a boa intenção de estudar, vou abrir um hiato em minha carreira de estudante aplicado por conta da Feira do Livro, que tornará a semana intensa. Shows (hoje já teve Paulinho da Viola), palestras e churros na praça. Alguém precisa de mais? Ok, um algodão-doce é nada mau.
Bom feriado aos que o terão.

Ato-Falho

Ditou o professor:
-Di-ton-go
Mas pobre do aluno, capicongo,
No ato saiu um hiato.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

10.000 VISUALIZAÇÕES!

Não é pouca coisa.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Catálogo ou ...tampouco lhe trará a alegria do voar

Era um sabiá. Ouviram. Pensaram.
Anos atrás se sabia do sabiá.
Hoje se sabe também do assobiar do pássaro
Que ainda porém de um sabiá não passará

Ao Homem, maniento:
Pois saiba que não fará de ninguém sabiá
saber assobiar

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Bear Mountain

Em On The Road, logo no início da trama de Kerouac, Sal Paradise chega a Denver, após semanas de ansiedade e desejo quase incontrolável de quebrar sua monótona rotina através das estradas da América. Ao situar-se na frenética vida suada e boêmia que levavam seus camaradas na cidade – entre serviços de manobrista, jams poéticos, álcool e benzedrina –, Sal nota que as modestas 24 horas de cada dia não seriam suficientes para sobreviver àquilo tudo. Assim, no êxtase da noite fervorosa do velho Colorado, Salvatore conclui, delirante e devasso, que não vai mais dormir.
Eis que me encontro nesse mesmo labirinto beatnik. Não estou no Oeste, não tomo carona e nem uísque para esquentar a goela permeada pela gélida ventania das highways. Mas me afundo em mols de cadeiras, aulas, provas, módulos, fórmulas, regras, truques, anomalias e exceções, matando uma dúzia de leões amarelos com listras roxas por dia.
Deus, depois de criar o mundo, o homem e os ursos panda, resolveu que todos os seus filhos deveriam começar cedo a fazer algo parecido e, da costela de alguma coisa bem grande e feia, fez o vestibular.

Qualquer dia desses, delirante e exausto, eu também paro de dormir.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

A festa de Carlinhos

Muito pra estas coisas não sou, mas
Carlinhos, amiguinho meu
Do Colégio S. Bartolomeu
Fazia anos e me chamou.

Chegando lá encontrei
Entre doces e refrescos
Um anjinho, desconfiei.
Cumprimentou-me cortês,
Hesitei.

E Carlinhos, mão no ombro, brilho no olho:
-Vem, Igor, ser gauche na vida!

(E até o presente instante,
o infante caso elucida minha ida.)

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Descarga de consciência

Quarta-feira eu estava cansado, mais cansado que muitos que se dizem no mais elevado grau da canseira. Era um bocado de canseira, uma canseira do Olimpo. O que importa foi eu ter ficado papiando com meu pai mais dois homens numa mesa de bar, daquelas altas, mesmo eu em meu inconcebível, icomensurável cansaço. Não tente abstrair a palavra, ela irá se tornar tão grande que sairá de sua casa ou onde quer que seja, e logicamente não conseguirá vê-la, então proponho que não percamos mais tempo tentando equivaler canseiras ou discorrendo sobre. Retomando o assunto, na pequena mesa conheci S, um rosto solitário cuja profissão não recordo, devia ser um bom homem. S permaneceu atrelado à mesa durante todo o tempo em que estive lá - levantando só para urinar - e não ouvi sequer uma opinião a respeito de algo, ou melhor, uma opinião verdadeiramente legítima, carimbada a cartório formada por S a respeito de algo. Sabe bem que em qualquer mesa de bar os assuntos são dos mais variados, e geralmente obedecem à famosa gradação, começando pelos mais sóbrios e sãos até os inevitáveis temas: filosofia, situação da nação, do mundo, a morte, a vida e os severinos... Em síntese, claro. Está no superego do globo. E o assunto dos assuntos regados a etanol proferidos num bar rende no mínimo uma tese de mestrado, não, duas teses de mestrado, porque a avaliação do que ocorreu na noite anterior é proporcionalmente mais segura conforme o número de pessoas que se lembram. Pude ver em S um certo estado de melancolia e solidão de alma, aplacados no momento pelo próprio momento em si, vi um sujeito solitário que gostava de um bom chopp, não queria desagradar ninguém, então apenas concordava com um ou outro, e, se por ventura emitia alguma tese fora do tom, tratava logo tornar à posição do interlocutor para se redimir perante os companheiros de prosa. Tal caso é mais comum que se pensa. Eu estranhara o fato de meu pai chamá-los de doutor, era doutor pra lá, doutor pra cá, raios, ele não chama ninguém de doutor, e só após conhecer D - que estava esperando um pouco de carne seca do restaurante ao lado, sentado à nossa mesa - percebi a admiração e respeito de meu pai por eles. A lembrança de D sobe-me à cabeça com uma riqueza muito maior de detalhes em comparado com a enfadonhice de S. Fora a personalidade saliente da mesa, como uma coroa cravejada de diamantes, mas quem salta aos olhos é o rubi, profundo e farto. D formou-se em medicina oftalmológica há um bom tempo, formou-se e partiu para os Estados Unidos, relatou-nos casos tristes e engraçados a respeito de sua longa residência e das mazelas que desgraçou na cidade. D fora viver o sonho americano e conseguiu, teve filhos, fez a vida em Nova York por quarenta anos, aposentou-se e voltou a Ribeirão Preto para viver. Nas poucas horas que tivemos contato com D, tomamos lições de oratória (ressaltou as qualidades de um queijo parmesão picado sobre a mesa como ninguém), assuntos biomédicos em geral, e sobre como em Nova York todos os restaurantes têm pelo menos um enfermeiro e todos os hospitais têm pelo menos um juiz de Direito plantonista. D tinha uma presença maravilhosa, sempre que me encontro com alguém de tamanha presença me espanto, talvez por eu ser enfurnado em mim mesmo, cheio de olhos. Contou sobre como o juiz plantonista do hospital interfere na coibição de um suicídio de um paciente que por conta da religião não deixa que lhe injetem sangue de outra pessoa, tratando-se, portanto, de um suicídio 'indireto' e sobre como todos os restaurantes têm uma ferramenta, uma espécie de tesoura-pinça, e como fazem os enfermeiros para retirarem pedaços de comida da faringe de pessoas engasgadas - geralmente velhos, disse D, apontando para si, levantando de sua cadeira a cada história contornada, devia gostar de ilustrar a situação. Meu pai me olhava, marcando um sinal de aprovação com a cabeça. Antes da história dos enfermeiros e juízes e da história de como tratou de um homem que passara mal no mesmo restaurante outro dia, D nos falou de seu amigo diplomata, dando a mim conselhos futuros, provenientes de um comentário feito por meu pai de que eu acabaria enveredando para a política internacional, todo lugar há corrupção, há ambição, no Itamaraty não é diferente, veja só o que fizeram com fulano. Fulano estava na condição de escolher o país em que iria exercer o cargo, escolhendo Paris, mandaram-no para a África, disseram que tinha sido por cusa de seus sete filhos.
Falou da juventude sem o costumeiro escapismo saudosista inerente à idade, como é atual o velho, que a sociedade educa o jovem para um mundo de rápidas e constantes mudanças por meio das fotografias da televisão, apontou à tevê: "A televisão é programada para mudar de imagem a cada doze segundos, olhe, olhe!" E apesar de não ver televisão, conheço bem o jovem de hoje, pobre do jovem de hoje. Nunca me encontrei com uma provecta criatura de tamanha vivacidade. Andarei mais por lá para ver se qualquer dia desses encontro D sentado naquele banquinho alto, gesticulando e passando aos seus ouvintes um tantinho de sua sabietude ateniense. Qualquer dia cansado desses, para descansá-lo.

Mais uma coisa, leitor, use mais doze segundos de seu dia para refletir acerca da obra de Dalara Darabi, pintora iraniana de carreira efêmera que ganhou notoriedade internacional por aos dezessete anos ter sido presa, acusada pelo Estado Teocrático do Irã por um assassinato que nega ter cometido. Dalara será enforcada nesta segunda-feira, aos 23 anos. Fica aqui uma pintura dela.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Tune-up

Não é novidade que o tédio domina a indústria fonográfica e, consequentemente, a imprensa musical. No mês passado, por exemplo, a Rolling Stone americana elegeu os melhores álbuns homônimos da história, em mais uma enfadonha lista. São famosos também os rankings de melhores canções, discos, instrumentistas… Tudo um aborrecimento, uma imensa falta de assunto.

Listas sempre causam polêmica e mexem com gosto e orgulho alheios. E não poderia ser diferente, afinal, qual é o método? Meia dúzia de jornalistas e personalidades do rock citando alguns grandes nomes e esquecendo outros gigantes de fora do gênero. Sem pauta suficiente ou propagandas de desodorante para dar volume a revista e nem uma nova salvação da música para estampar na capa da edição? Dá-lhe lista!

Bons anos atrás, durante um carnaval, lembro de a MTV ter feito um Top 500, repetido algumas vezes ao longo do feriado. Provavelmente ninguém queria trabalhar, e um gênio da preguiça sugeriu a ideia. Não sei qual foi o critério (se é que havia um) na ordem dos quinhentos diferentes clipes passados naqueles dias. No entanto, ao menos eles foram honestos.

E honestidade é uma virtude cada vez mais rara por essas bandas. Pouco me importa se Carla Bruni canta bem, se Roberto Justus deveria estar interpretando Sinatra ou se o AC/DC é puro mais do mesmo. Eles acreditam naquilo que fazem e o fazem por isso. Difícil é engolir outra coletânea do Aerosmith, mais uma produção de Timbaland e conjuntos musicais com dez mulheres, sendo que uma canta e nove rebolam.

Sejamos honestos, por favor, e com uma pitada mínima de dignidade.

Domingo, 29 de Março de 2009

Uma pequena justificação atenuante...

É no sono que acontece, dispo-me de minha natureza taciturna e abro minha boca. E como estou perdido de sono e pormeti a mim mesmo não dormir antes de escrever aqui, lá vai. Primeiro me desculpem por essa mania chata de me desculpar. Tamanha insegurança? Sabe-se lá. Sei, porém, que a Moringa está um tanto abandonada por nós, queira nos desculpar, leitor, é a legítima falta de tempo, falo seguro das palavras, uma desculpa muito conveniente e comodista, não é? (não no nosso caso, pode ter certeza, não lembro mais de quem mora comigo.) (Essa insegurança minha se transporta aos mais variados níveis do quotidiano, o que acabou em gerar, digo, incubar, uma ligeira hipocondria no meu ser.) Já que estou aqui escrevendo, nessa noite vermelha de sábado para domingo, já que amanhã tenho muito a fazer do que não quero fazer, mas que preciso fazer, já que o sono me perturba... Desculpe, não tive como segurar o bocejo, é inevitável, não se acanhe em bocejar. E já que estou aqui me desculpando, aproveito a deixa para pedir a mais sincera escusa aos meus médicos, sei, falarão que o único prejudicado serei eu, mas tudo bem, a noite está linda. Vocês compreendem, doutores.

Tereza, dermatologista, não sei se seu nome é grafado com
s ou z, mas oh, pouco importa agora. Quero lhe dizer que não estou levando o tratamento a sério, mal tenho tempo para realizar minhas necessidades básicas (absorção, excreção, evacuação...). Eu não estou administrando o Dermotivim Espuma como o indicado, só consigo lavar meu rosto quando saio de casa e quando chego, ou seja, antes de amanhecer e um tanto após o anoitecer, para estudar depois. Peço perdão por às 13 horas, não passar o filtro solar Epsol 30 Water gel, após não ter lavado meu rosto com o Dermotivim Espuma, também.

À noite o problema persiste, quando me contemplo no lar, depois de alguns segundos de nostalgia antecipada olhando para o teto, só me lembro de lavar o rosto com a espuma - ressalto, agradabilíssima espuma!- na hora da escovação noturna, após não ter estado com o
Isotrexin gel prescrito para estar no rosto por duas horas exatas durante quinze noites, depois quatro horas por noite até a próxima consulta. Desculpe Teresa... Sempre me embanano na hora da escovação, por minha sobremaneira lerdeza. Demoro um bocado mais que noiva no dia do sim: é preciso escovar com o Sensodyne branqueador indicado pela multiladora, han, quer dizer, doutora Fátima, repetir o processo de escovação com o aparelho de contenção do ortodontista Rogério (que eu deveria usar a toda hora, tirar apenas para comer, ah, olhe bem para a minha cara, Rogério, só durmo com ele e está bom demais, qualquer abertura entre meus dentes será um charminho a mais!) Usar um enxaguante bucal, se necessário, fora os inconcebíveis Dermotivim Espuma e Isotrexin da dona Tereza.

É claro que muitas vezes acabo me esquecendo dos pormenores, você também se esqueceria, leitor. Ainda no pré-sono, dadas as minhas moléstias gástricas azia, refluxo e um translúcido início de gastrite, que deixa a vista opaca de dor, tomo um
Gelmax, ou um Gastrosil, de espinehira-santa, antes de dormir. Mas não sem antes ter lembrado de aplicar o Budecort Aqua, prescrito pelo otorrinolaringologista, doutor Tácito, uma suspensão em spray nasal para os que padecem da tão temida cá por estas terras quase-semi-áridas durante o inverno, RINITE ALÉRGICA. Também parei com o antialérgico Zyxem que prescreveu, doutor Tácito, não foi descaso de minha parte, apenas esqueci a contagem dos dias e horários...

Se jovem, na flor da idade já estou assim, imagine daqui a uns bons 30 anos, suponho que terei de andar com uma bolsa de remédios acoplada a outra de primeiros-socorros, soro na veia, o braço picado cicatrizado, sem mencionar as ancas doloridas por injeções de morfina e insulina diárias. Prefiro gastar minha preciosa renda mensal deitado confortavelmente num divã a lamentar de tudo e de todos e de como a vida passou num piscar de olhos, e como no meu tempo era melhor, e essa juventude transviada, éramos todos mais recatados no meu tempo. Pelo menos seria mais prazeroso, convenhamos, leitor sem humor.

Sim, é um hipocondríaco de primeira! Um loucão! Deve tomar alguns frontais também, além de todas aquelas drogas que terminam em -ina, você deve estar pensando... Não, apenas usei o ignorântico espaço democrático da intenet para me redimir perante os médicos, exelentes médicos, e dizer que não sigo corretamente seus tratamentos, dada a famigerada falta de tempo (lê-se disfemisticamente, saco)... Ah! Uma coisa, só os xampus, Tereza, estou usando como falou, intercalar cada dia um, o
Keirium gel e o Caspel, sem condicionador, e sabe que está dando resultado? Quer dizer, deve estar dando, um dia pode ser que dê. Enfim, o galo canta, vou dormir antes que o dia cresça e meu nível de melatonina desça. Nossos dias podiam ter 48 horas, não?

Sábado, 21 de Março de 2009

Ticking away

"And then one day you find, ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun.”


Há dias em que demoro a pegar no sono. Enquanto tento adormecer, pensamentos inusitados surgem na mente. Às vezes tento organizar fatos, mergulhando neles e procurando, através de lembranças, alguma pista de quando deram-se.
Percebi que uma série desses acontecimentos marcantes, de anos atrás, ocorreram em períodos de tempo muito pequenos. Aquilo que à época chamaria de anos eram, na verdade, meses ou semanas. Referências – seja algum lugar onde morei, alguma viagem que fiz ou uma final de Copa do Mundo – revelam-se períodos curtos para tantas recordações. O que ocorre hoje aparenta ser breve e distante.
Quando era pequeno, me disseram que os anos passavam mais rapidamente conforme envelhecíamos. E é verdade. Não sei se os dias eram lentos, se os meses arrastavam-se. Os anos, porém, eram intermináveis.
Os especialistas devem saber a razão; eu tento esboçar o porquê. Aos dez anos, por exemplo, um ano representa 10% do que se viveu até então. Com vinte anos, 5%. Aos cinquenta, apenas 2%. O que são 2%? Pouco, quase nada. Um ano valia mais no início, apesar do tempo continuar sendo o mesmo. Aquele mesmo pai que jamais encontramos.


Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Um Pontinho

Que é que é?
Um pontinho preto
Meio manco meio mané?
Inteiro vermelho laranja amarelo verde azul indigo lilás, ora, [tanto faz! - diz o velho, sorrindo branco.
Que
de pontual acaso
de um pontinho
eu não passo.

Terça-feira, 10 de Março de 2009

God only knows

Eu não vou dizer nada a respeito do inconcebível que é a gravidez de uma garota de nove anos, violada pelo padrasto, supostamente, desde os seis. Nem de Holocausto, Inquisição e todos os outros pecados cometidos em nome do divino.
Falarei sobre o mais recente e perturbante ato de uma conhecida instituição retrógrada e dogmática, relativo a submeter seus valores em assuntos nos quais apenas a lei racional e a sensibilidade ao descomunal sofrimento alheio devem ser utilizadas. É estranho pensar que leis (lê-se mitos) baseadas em crenças de dois, três ou quatro mil anos atrás sejam consideradas ao lidar com esse tipo de situação. São cínicas as notas eclesiásticas, supondo que se aguardasse o desenvolvimento da gravidez, ou que o caso resumia-se às duas vidas ali, de nada culpadas.
O Direito é, por natureza, uma ciência humana, na qual fundadas interpretações da legislação são imprescindíveis para obtenção da justiça. E o Código Canônico, seria uma ciência divina? Em caso de dúvida, mandamos um telegrama para Deus?
Os verdadeiros heróis e vítimas foram excomungados. O criminoso, por sua vez, continua no reino do Senhor. Talvez seja esse o décimo primeiro mandamento: estupra, mas não mata.



Hoje é aniversário da nossa querida leitora, consultora de economia e estilo (ui) Maria Eduarda Paiva, a Duda. Parabéns!

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

I Know There's An Answer

Desculpe, leitor, se não o agradei com o último post. Ele ficou, ao meu ver, bastante humorado e lúdico, não sendo logicamente de bom grado apagá-lo a esta altura. Gostei muito dos comentários, serei um pouco mais seletivo na escolha do texto ao blog, companheiro do anonimato. Bem ou mal, através dos comentários sabemos que outras pessoas nos leem (sem acento, né). Creio que o verdadeiro chulo é o que andamos sendo, nós brasileiros. O post irá ilustrar minha ideia, feito na madrugada de sábado, acompanhe.
Fui a um aniversário infantil. O ambiente embalado pelo Dj contratado, o qual tocava algumas músicas dance, nada em especial. Ao fundo avós, tios, tias, amigos e agregados, todos falando alto e gesticulando devido ao som, que não poupava os ouvidos ali presentes. Mesas vazias à frente, pista de dança vazia.
O nosso amigo Dj, encarando a pista muito vazia para um início de festa, e querendo fazer jus ao seu cachê, mudou de repertório: funk. Instantes após as primeiras batidas a pista se encheu de crianças de doze anos de idade a dançar o ritmo, e não cabiam-se em si mesmas de contentamento. Algumas meninas se atreveram mais, desceram até o chão, chão, chão, despudoradas no olhar e nas mãos.
Entretanto posso dizer que a pista realmente ferveu quando começou, tão amado entre os baixinhos, o sucesso
Créu, seguido de suas trocentas versões, inclusive uma paródia de Ilariê. As crianças, sim, ainda crianças, se atiçavam conforme as velocidades graduais da dança. Durante a última, os meninos formaram um círculo, deitados no chão, fingindo copular com o mesmo, achando a situação toda muito natural e divertida. Estavam se descobrindo, apenas.
Os adultos e os não tanto que viram, ou permaneceram indiferentes, ou se espantaram de ver como as crianças brincavam, também permanecendo, porém, indferentes de uma certa forma. Que fariam, afinal? O desespero nos trouxe o riso.
Durante o
Parabéns a Você a cerimônia ocorreu nos conformes de uma festinha infantil, Com Quem Será, bolo e docinhos ao fim. Tudo muito lúdico. E agora, eu com a lembrancinha nas mãos, e a aniversariante em sua casa, provavelmente abrindo seus presentes de mulher - já não se ganha mais brinquedos aos doze - só me ocorre um pensamento: preciso rever meus conceitos.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

ARDOLESCÊNCIA

te como

redonda prismática trigonometricamente como
redundantemente te como
como com amor,
com sorriso
como com bossa

como na fossa
como na escada
como lá atrás
como quem faz
que não quer ver

como como leão
na savana louco
doido de paixão
o rei do coito jus faz
à hegemonia do comer

te como

métrica linfática roboticamente como
cotidianamente te como
como café de manhã
como abelha na flor
como fedelho
come no chuveiro

te como

utópica retórica metaforicamente como
adolescentemente te como

romântica semântica antagonicamente como
etimologicamente te como
tal qual tu, feito eu
como nossos pais
comeram
um dia
te como

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Entre vidros

Pensei em uma narrativa em terceira pessoa para descrever o que está se passando aqui, mas creio que ficaria um tanto quanto limitado. Depois pensei numa narração em primeira pessoa (não como agora), com o personagem principal descrevendo sua moléstia de pré-morte. E, bem, depois lembrei-me de que o meu personagem vive num aquário, e tentar transmitir sua posição, mesmo que irracionalmente, seria um bocado impossível, visto que, logicamente, não sei dialogar com peixes. E, analisando muito bem a situação pela qual atravessamos nós dois, em meu quarto, decidi escrever eu, eu por eu.
Confesso que nestas linhas há um tom de remorso, por minha absoluta e humana comodidade em não ter limpado seu aquário. Nós que pensamos, esquecemo-nos de certas responsabilidades, a cargo de outras maiores (aparentemente), como comer, ou dar de comida ao subordinado próximo. Talvez esteja sofrendo, ou talvez não, sabe-se lá o que há naquela cabecinha minúscula e esbranquiçada do não viver.
O que sei é que, ao entrar no quarto, ver o peixinho imóvel, com a cabeça colada nas pedrinhas do aquário, trouxe-me um sentimento de profunda calma. Pareceu-me que gostei de ter livrado-me do fardo agonioso de tratar sem esperar melhoras do animal. E somente então após observar com minuciosidade percebi o resquício de vida que ainda lhe resta. Está ofegante, abdômen inchado, órgãos aparentes através da fina pele, escamas eriçadas, sem vida à vista. Uma cena horrível até aos sádicos.
E não pensem no meu sadismo em deixar o betta agonizar até morrer, sem sequer tentar reanimá-lo. Tentei. Pesquisei na internet, fui a um profissional: hidropsia. Troquei a água, como os conformes, dei o medicamento antibiótico e a ração nutritiva. Percebi uma significativa melhora nos primeiros dias, porém o pobrezinho só arredondou-se mais.
E, a escrever aqui, penso em desligar seus aparelhos, dar a ele um fim como o que, eu, em sanidade perfeita, pediria para mim. Mas não consigo, não consigo, não consigo!
Fraqueza de minha parte? Maldade? Uma torrente de antagonismos paira entre essas paredes. Festejei meu carnaval, e agora, que voltei ao quarto e lembrei da agonia do bichinho preso no aquário, penso em matá-lo? Mas que egoísmo preguiçoso de minha parte, não? Mereço um tapa na cara.
Sinceramente, se ele sobreviver até manhã - a irônica quarta de cinzas - levá-lo-ei ao veterinário, que saberá o que não fazer, pelo menos. Somos dois animais aqui, e o único antagonismo nesta cena é que um cometeu mais erros que outro.

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Last dance

Muita gente afirma não viver sem música, e que sua existência teria menos graça e significado sem a harmonia das notas musicais. Eu me incluo nessas pessoas, e apesar de ser um músico relapso, sou ávido farejador de ritmos e melodias. Da mesma maneira que outros fanáticos, não me contento em ouvir uma boa canção, mas em buscar a razão, o contexto, aquilo que veio antes e depois. Música é mais do que ruído, é uma máquina do tempo, de cores e de sentimentos. “Nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar. Música é perfume”, nas palavras de Maria Bethânia.

Pois então.

Faleceu no mês passado Walter Engracia de Oliveira, um senhor de 85 anos, em decorrência de complicações causadas por uma pneumonia. Era engenheiro, nascido em Ribeirão Preto. Foi professor da USP e, ainda muito jovem, prefeito da cidade de Atibaia, no interior do estado. Nos anos 40, fez um estágio com urbanistas na França, cultivando uma grande admiração pelo país.

Até aí morreu o Neves – ou o Walter, como preferir. Entretanto, um espantoso momento da vida desse homem aconteceu próximo a seu fim, com a cólera devastadora do Alzheimer estabelecida e suas memórias cruelmente dissipadas pela doença. O enfermo não conseguia sequer manter diálogos com outras pessoas. Contudo, em um dia singular, cantarolou inteiras a Marselhesa e La Vie en Rose, respectivamente o hino da França e um clássico do cancioneiro do país, uma das mais ternas melodias já criadas.

Médicos, enfermeiros e familiares ficaram pasmos com o tocante e surpreendente ocorrido. Não bastou à música ser apenas uma derradeira e resistente lembrança na vida de Walter; coube a ela também o papel de um último e melódico suspiro.

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Porquê

Oh, tortura de mundo...
Oh, vida insana, cheia da demagogia bacana. À banana, todos
[nós!

Oh, mundo cruel, que pra viver não basta um só bacharel
Tem também de ter a perspicácia da falácia!

E nesta tonta tortura tola e torta é que contentamo-nos
Em permanecer perversamente
tortos,
tolos
e tontos.
Como as baratas à espera da vassoura.

Pois neste mundo, só vai pra frente, meu caro, quem mente.
E por isso rimo, choro no canto, canto meu choro.
Porque rimar é brincar de os problemas da vida
amenizar.

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Groovin' high

Viver no alto e em meio a milhares de outros estranhos é curioso como poucas coisas. A vida alheia acontece em quadros incompletos, nos quais é preciso tanto ver e ouvir quanto imaginar o que se passa pelas janelas.

-x-

Tenho uma vizinha no edifício ao lado, que toca violão e trava longas conversas ao telefone às duas da madrugada. E uma tartaruga grande sobre a cama coberta pelo edredom rosa.
Outro vizinho, o qual vejo diariamente da janela do meu quarto, é todo bombadinho e parece não ter muitas camisas. Ao menos é raro vê-lo usando-as. Também fala ao telefone, mais cedo e alto. Isso quando não brinca com uma criança, que pula na cama e ri. Ou se não está enrolando alguma coisa estranha com os dedos.
Na sala de estar, o pai passa as noites à meia-luz. Não é possível ver bem o que faz, parece ficar até tarde tomando uísque e conversando sobre política e Hemingway com alguém; é uma daquelas salas com uma iluminação em que sempre se pode tomar um uísque e falar sobre os fatos como se estivesse acima deles. Mas, provavelmente, o velho fica apenas com a mulher, assistindo à novela.

No mesmo prédio, um casal juvenil às vezes se esquece de fechar as cortinas quando estas deveriam estar cerradas.

Do terraço, vejo uma jovem que demora muito a se vestir e caminha ocasionalmente na esteira. Seus pais bebem vinho – muito vinho.
A poucos andares, um homem tem o desagradável hábito de trocar nu a fralda do filho. Sob ele, um rapaz fuma sozinho na sacada.

Não queria ouvir o bombadinho gritando ao telefone com seus brothers, e sim saber o que a garota toca ao violão. Talvez se eu arremessasse uma pedra, com um bilhete colado, pedindo para tocar mais alto do que a chuva fina.

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Nem um pinguinho de nada

Ele me batia.
Aí, com raiva, não, com ódio, fui lá e fiz, sem dó.

Depois ainda descobri que maltratava a menina. Pobre menina, tão estudiosa, tão quieta. Não falava nada na hora da janta, só olhava pro prato, que parecia ser o único que entendia. Então fui lá e fiz, aquele vagabundo mereceu. Num domingo besta desses, tava ele no sofá vendo o jogo e pediu pra levar uma cerveja pra ele. Levei a quente de propósito, ele percebeu, e me bateu. Bateu muito, tacou a latinha na minha cara, depois já veio dando ni mim. Só parou quando o Corinthians fez o gol. Maldito, e a menina, não podia também maltratar dela, daquele jeito, ah, se eu soubesse disso antes... Eu fui deixando, roxa por fora e por dentro de ódio, fiquei quieta, na minha, se reclamasse apanhava mais, igual cachorro. Depois ele mandou eu chupar, na cara de pau, não acreditei, eu tava era com nojo daquele desgraçado! Mas ele pediu, ele pediu, então fui lá e fiz, mordi o bicho até arrancar fora, pra parar de bater em mulher e maltratar menina daquele jeito. Sabe que até gostei do gosto do sangue? É, achei bom, um vermelho bonito sai de dentro de gente feia. O vagabundo, depois de gritar feito louco, olhou pra baixo e desmaiou, tão corajoso era, né, tão valente, vagabundo, desmaiou de saber que não vai mais poder maltratar menina. Foi aí que liguei pra polícia, por mim eu enfiava uma faca nele, devagarinho que dói mais, mas sabe como é pobre, se fode de todo lado. Fui esperta em ter ligado. Agora ele tá enrolado bem mais que eu, e vai é viver pra sofrer, e quando sair da cana, manso é que não vai tá. Eu e a menina vamos embora pra São Paulo. Fácil também é que não vai ser. Minha cumadre mora lá e assim que acabar tudo isso ela vai me dar um arrego, só por uns tempos, até a gente se acertar. Vagabundo, não quero nunca mais ver a cara dele. Remorso? Nem um pinguinho de nada.

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Melô da Isotretinoína

Terminei meu tratamento com o capeta dos remédios e pra não deixar a semana em branco, aí vai o melô que fiz num comentário no Neurotropina:

Ina iina, não, não é a cocaína!

Ina iina, muito menos cafeína!
Ina iina, já foi seu tempo, anfetamina!
Ina iina, é menos mal que heroína!
Ina iina, cum'bucado de adrenalina
Essas rima são minha sina!
Ina iina, as espinha aglutina!
Ina iina, mas cuidado que alucina...
Ina iina, o cérebro não raciocina!
Ina iina, siga certo a rotina,
Que sem disciplina, cê se arruína!

E, você, leitor recém-chegado, o blog não é tão ruim, experimente os outros posts.

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Estudo sobre a ironia: O Destino ou A Força da Banalidade

- Quem fala?
- Eu, né!
- Eu quem?
- Você não sabe mais quem sou, amor?
- Isso lá é hora de ligar?
- Que falta de consideração. Não sei porque não desliguei na sua cara agora.
Ela deitada na cama rosa, com os pezinhos na parede, sujando-a. A camisola cede, as pernas todas para fora. O cabelo longo escorrido lembra uma cachoeira, linda como nunca. Não consegue dormir.
- Não consigo dormir!
- Ah, amor, desculpe, cabeça nas nuvens, sabe como é. O Jarbas disse que não vai aceitar o acordo, acabou, amor, tudo acabado. Me chamou pra ir tomar um café no bar mais caro da cidade. O que vai querer? Esses pãezinhos-de-mel são deliciosos. Vou ficar neles e mais um expresso. Sugiro a você este aqui, que é uma das maravilhas do paladar, você vai ver. Disse o desgraçado, com o charuto na boca, apontando pro cardápio na maior calma do mundo, frieza de advogado mesmo, e aquele jeito de falar que parece que está ruminando.
- Fica preocupado não, essas coisas se resolvem, assim, num pisco.
- É... acabou. Mas então diga, por que ligou?
- Já disse, insensível, não consigo dormir, tive um sonho estranho.
- Ah, ha! Eu aqui de cabelo em pé por causa do puto do Jarbas e você me vem com essas preocupações extraterrenas. Faz o seguinte: toma um banho quente, pensando em mim, daquele jeito, depois pega uma toalha fofinha, se enxuga, coloca a camisola que eu gosto, e depois dorme abraçadinha com o ursinho que te dei.
- Não, acabei de sair do banho, só quero falar com você. O ursinho tá aqui.
Diz ela, entre risadinhas. E o ursinho entre suas pernas, acariciando-a, mas nada de mal faz ele.
- Quer saber o sonho?
- Poxa, amor, to morrendo de sono, ainda tenho que tomar banho, não durmo sem um banho, você sabe, e esse chuveiro quebrou, justo agora. Não vai ficar tristinha?
Manhosa:
- Vou! Eu sonhei que tava dormindo e você apareceu da minha janela, mas veio co...
- Então eu vou colocar no viva-voz e consertar o chuveiro enquanto isso...
- Nossa, você me interrompe, tive um sonho estranho, você estava... Eu me preocupo com você, porra! Não entende?
- Caramba, tá no viva voz já, pode falar da sua vida que eu estou ouvindo, mas calma, foi um sonho, só um sonho. Não tem motivo pra se preocupar, a não ser que o Jarbas mande alguém aqui pra acabar comigo de vez...
- Não fala besteira! Ai, amor, acabei de lembrar, hoje lembrei de você. Um amigo no trabalho tava comendo aqueles amendoins que você gosta, não sei o nome.
- Peraí, vou pegar um banquinho. Vou deixar o celular em cima da pia.
- ...
- Pronto, e ainda coloquei música. Marvin Gaye.
- Ui, sexy. Tô ouvindo.
Seus pezinhos escorregam pela parede, até se encontrarem e entrarem na mais perfeita e ocasional comunhão. Está mais calma, seus olhos se fecham, seus lábios se abrem:
- Então, amor, vou contar. Eu estava dormindo, quando você me acordou, você tinha entrado pela janela, acho que voando, não lembro ao certo. Você estava entrando quando tropeçou e bateu com a cabeça no chão. Depois disso você levantou, com a cabeça sangrando, me olhou, deu um sorriso e saiu voando pela janela de onde entrou.
- Que coisa mais sem pé nem cabeça.
- É, rende um Dalí.
- Ou Picasso.
- Mas eu fiquei preocupada, resolvi te ligar pra ver se estava tudo bem.
- Benzinho, minha querida, meu pernilzinho, eu já disse, é só um sonho, um sonho bobo, sem direção.
- ...
- Eu também, sabe, a gente tem que ser mais pé-no-chão, a vida não é fácil. Não dá tempo de ficar imaginando coi... - shh trum toblof toblerg táck. Som de côco a ser tomado. Silêncio.
- Amor? Que barulho foi esse?
Ela senta na cama. Pezinhos no chão gelado. Aquela sensação gelada.
- Amor, porra!
- Aar. Não consigo me mexer, o chão do boxe tava molhado, o banquinho escorregou... Ai, caralho, tá doendo, minha barriga, dor de gastrite, minha cabeça. Tem sangue no chão. Tá turvo. Tô com medo.
Finda num chorinho de criança irresponsável.
- Não fecha o olho por nada desse mundo amor meu deus tá me ouvindo vou ficar aqui com você vou falar com você calma vou chamar a ambulância tá tudo bem vai ficar tudo bem só não fecha o olho tá bem? vou continuar conversando com você te amo, amor.
Amor, não fecha o olho. Não fecha.

Cortina ab
erta, o vento entra agudo no apartamento. E, gelada, pega o fixo e disca. Como é sexy, sua postura, seu perímetro. Até ao telefone não perde o appeal. Até desesperada é sexy, a maldita.

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

O mundo é um moinho

Há coisas simples que transformam dias apáticos. Pode ser um "muito obrigado", um belo par de pernas passando pela calçada, a música tocando no rádio. Aquela canção tão adorada, ou que pelo menos significa alguma coisa, começando a soar sem aviso em uma estação aleatória. É como reaver algo há tanto perdido, que nem lembrava da existência. É a nota encontrada no bolso da calça, o pedaço de pizza calabresa gelado na manhã faminta.

-x-

Não é raro celebrar boas coincidências, ou o destino, para os mais crédulos. "Deus está nas coincidências", como é dito em tantas esquinas. Tudo é fruto de encontros e desencontros casuais.
Mas e o que não aconteceu? O carro que não quebrou, a festa na qual a garota não foi, o vôo que não atrasou? Se o destino une casais no fim dos filmes, deve também cancelar grandes acontecimentos.
Disse Caetano Veloso que muitas composições suas por pouco não foram esquecidas pela fraqueza da memória no dia seguinte. E as que se perderam? As bandas que não deram certo, os Lennons e McCartneys que não foram para frente, que nem se conheceram? A inspiração que estava lá e ninguém pegou?
Os Kafkas que foram destruídos, os pergaminhos incinerados da biblioteca de Alexandria. Quantas Odisséias e Odisseus perdemos para as más coincidências?

E todas as boas canções que tocaram enquanto não estávamos com o rádio ligado para escutar?

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

Conto de Natal: O Furto

Véspera de Natal, e ele, aviso de antemão, com a corriqueira mania brasileira de comprar os presentes na véspera. O shopping estava lotado, formigando, cuspindo e escarrando gente. Inclusive as chaminés, com os mais avantajados em massa corporal enlatados, digo, entalados. E ele, bem, ele fora à livraria buscar alguma idéia - repare, nem idéia tinha - do que dar ao seu amigo secreto. Prateleiras vão, prateleiras vêm, Goethe, Shakespeare, Kafka, Moacyr Scliar talvez, mas não, nada disso se adequava à pessoa, então achou melhor sair dos livros de bolso e buscar alguma iluminação, nem que divina. Porém ele mal esperava o que estaria por vir nos próximos trinta e dois minutos e cinquenta e sete segundos de sua vida de estudante aplicado.
A livraria também não se livrara da boa moléstia de estar suportando três pessoas por metro quadrado, e, a pensar bem, até dava pra respirar. Paulo Francis, alguma coisa dos marginais de nossas letras, o Nelsão... Não, não, ainda não achara o caminho. E, como a neblina de sua mente ainda não se dispersara, resolveu sapiar a seção ao lado: "Diários de Jack Kerouac", "A vida de Churchil", "Meu marido Dostoiévski" "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico". É, ele olhou para o nome e confirmou, estava nas biografias, interessante seção. Mas volte um pouco, seus olhos brilharam ao ler, num relance, "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico", ele era um indiscutível e cativado fã do diretor, e nunca tivera a oportunidade de ler algo mais profundo sobre, e escrito por ele, o grande Sensei do Cinema; apaixonou-se pelo livro.
Olhou comprenetrado, pegou o livro - a esta altura já tinha se esquecido de amigo secreto, de seu presente, e do Natal - notou um estranho amarelado em suas páginas, parecia antigo, viu também a etiqueta da livraria, misteriosamente gasta e com a aparência de ser mais velha, com um sistema antiquado de código de barras. Ele olhou em suas páginas, a costura estava desmantelando-se, na última página havia alguns números escritos a lápis. E, num súbito, ocorreu-lhe que o livro já estava lido, um livro lido e amarelado pelo tempo, não se tratava de um livro novo, logo, não deveria estar à venda, foi esse o silogismo inicial.
Nos próximos dois segundos o plano já estaria completamente arquitetado, do furto à fuga. Uma loura - pouco linda, mas muito lida, supõe-se - encostou-se ao seu lado a fim de bisbilhotar alguns títulos, como ele, em teoria, estava fazendo. Ela começou pela seção da literatura brasileira, e foi caminhando inconscientemente para a direita, onde as biografias situavam-se. Ele, percebendo a intenção da loura de ir à sua seção, rapidamente esgueirou-se por detrás, deixando as estantes livres. Ela já poderia ver o que quisesse, menos a cena do livro caindo sem querer na embalagem de presente que estava em suas mãos.
Ele maravilhou-se com com a situação, um epifânico drama de três atos passou por sua cabeça. Por que mãos já teria andado essa autobiografia? Quem escreveu os números na página final? Quem depositou o livro ali, justamente sobre seus semelhantes? Quando? Com qual intenção? Talvez uma benevolente alma teria comprado, lido, e querido compartilhar do conhecimento, tão escasso nos dias atuais, deixando o livro disposto na exata seção da compra para algum interessado felizardo pegar.
Ele já ouvira a história dos livros deixados em bancos de praça, com um bilhete anexo avisando que no término da leitura deveria ser posto em algum outro banco de praça, para que outra pessoa pudesse ler e assim por diante, fechando a corrente, embora achasse que era apenas mais uma história que as mães contam pros filhos, ainda mais num país brasileiro, como o nosso.
Ele pensou que poderia estar numa situação semelhante à dos bancos de praça, não era um cleptomaníaco, muito menos um entusiasta do yomango, era, sim, um romântico sem cura.
Se devolveria depois de furtar e ler? Não saberei dizer que mistérios habitam o encéfalo da humanidade, ordenando as virtudes ou desvirtudes a serem cometidas, como a compaixão ou o egoísmo. Não saberei, portanto, responder a esta indagação, mas deixe-me terminar a história.
Tudo já estava milimetricamente armado, escorregaria o livro para dentro da embalagem de presentes em suas mãos, depois fecharia a sacola com o mesmo adesivo e pronto, ninguém revistaria uma embalagem de presentes fechada. Só não contava com o número de pessoas, transbordavam no recinto, fora a loura, agora agachada, vistoriando a vida de algum não-sei-quem de uma dentre as várias biografias encontradas ali. Já ele, ele só estava interessado, não só interessado como profundamente imerso em cálculos sobre como escapulir dali sem ser pego.
Com o suor a visitar-lhe a cueca, observou com a perícia de um profissional do furto todos ao seu redor e quem representaria o perigo de ser visto roubando um livro velho, grande crime. Inclusive a loura, mas esta estava agachada, a ler distraída, não veria. Ele pensou também na factível possibilidade de o dono do livro estar pelas bandas, poderia ele ter só deixado seu livro ali e ter ido na seção da frente procurar algum presente de Natal para um filho querido, um parente, ou para a sogra (não tão querida). No mesmo instante o remorso acariciou sua nuca com as unhas, fazendo-o gelar a espinha até a unha encravada que lhe doía. As mãos esfriaram, olhou para a direita, todos distraídos, olhou para a esquerda, madamas esticadas preocupadas em como emagrecer usando a dieta do dia, olhou para baixo, a loura ainda lendo, acocorada.
Fez.
Procurou sair o mais rápido possível, chegou perto dos detectores da porta, hesitou, estava, como se diz por aí, encontro não mais que um gesto para definir seu estado de alma, as limitações da palavra, são tantas! Só então se lembrou do amigo secreto e voltou à seção dos livros de bolso. Após uma rápida olhadela achou o presente ideal, um exemplar de "Clarissa", do Veríssimo pai. Um livro deve adequar-se à pessoa presenteada como enzimas e seus substratos, ou seja, como uma chave à sua respectiva fechadura. Para tanto, não dê livros a quem não conheça, esse pode ser um primeiro e último presente. Passou no caixa, pagou atenciosamente com um raro sorriso no rosto. Só não sabia se era de alegria, medo, euforia, ou todos juntos. Agora já poderia sair, e melhor, com um álibi em mãos. Ao chegar perto dos detectores apertou o passo, se o acusasse, provavelmente ele sairia correndo devido a sua personalidade frouxa, embora quisesse enfrentar a situação de frente.
Nada.
Estava fora da livraria, livre, manteve o passo a fim de não levantar suspeita alguma. E virando uma esquina, em meio ao mar de outros brasileiros atrasadinhos, repentinamente uma mão toca-lhe o ombro:

-Moço, moço.
-Oi? - balbuciou ele, bêbado de hipertensão, com o coração na mão.
-Seu chiclete caiu no chão.
-Poxa! Muito obrigado, não sei como agradecer!
Ele quis abraçar o gordo com todas as suas forças, mas o gesto não se adequava à ocasião, então bastou-lhe uns tapinhas no ombro.

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Poeminha de Fim de Ano

2008 no fim,
Sinto-me prestes a um estopim.

O tempo escorre como o alecrim
Do tempeiro
Do carneiro
2008, é o fim.


(Pois é, eu bem sei que lhes devo uns posts decentes, mas não tenho muita coisa agora.)