quinta-feira, 27 de junho de 2013

A lente da mídia (na reforma política)

Rascunho de texto para o berro.

Não por motivos muito especiais, sem querer entrar muito nessa briga pelas competências privativas de quem quer que seja, e sem estar muito certo disso, tendo a ser favorável à PEC 37. Mas o importante é que a derrubada dessa PEC faz ter certezas que não é só o governo que governa.

Penso primeiro no tamanho das forças corporativistas atuantes aqui, para além do empresariado, com destaque para o Ministério Público e a OAB. Advogam em causa própria (e dos amigos) sob a lente da "causa de todos". E isso é um problema, pois quem defende essa "causa de todos", historicamente entra pra História como aqueles desejosos de permanecer as coisas como estão. Sem voltar pra trás, nem pra frente também.

O segundo ponto provém do tamanho do poder dos grandes veículos de comunicação, os quais (por mais que recebam o grosso da publicidade governamental -- segundo alguns obscuros critérios do mundo do marketing) conseguem mover montanhas e multidões, ao forjar consensos baseados unicamente em interesses (também) corporativistas. Que infeliz e propositadamente quase nunca atentam à verdade dos fatos.

O poder tem várias fontes. E o povo precisa ter condições de perceber isso, sob pena de ser escanteado nesse jogo. Posição, por sinal, que quase sempre ocupou... Daí vem a preocupação de travarmos arduamente a batalha para que a opinião pública (da mídia, dos empresários, dos corruptos) não tenha vitórias sobre o povo na elaboração da nossa Reforma Política.

Por isso desde já defendo o financiamento público exclusivo de campanha, com doações limitadas de pessoas físicas, o voto em lista fechada e o fim das coligações para que tenhamos um ringue um pouco mais democrático, em que a batalha das ideias se dê em condições mais equânimes.

A Reforma Política é o canteiro de obras da construção de nosso campo democrático-popular. Para jogarmos, enfim, em casa. E enquanto isso, ver o jogo pela TV sempre vai ser pior.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fração

"Da velocidade que a perdi, não vi placa nenhuma dizendo estar chegando. Meus almoços e as tardes nas quais preferi fazer outra coisa sequer pesaram, a não ser, talvez, para ela. Aliás, raramente lembro o dia em que ela foi. Às vezes até me foge como. Eu, que vivia doente e era alérgica a quase tudo, não tive coisa melhor a fazer do que assoar o nariz enquanto a observava desaparecer. Meus olhos enchiam-se de lágrimas com qualquer verso, e não chorei. Cigarro era vício, beber já bebia, triste sempre fui. Posso criar razões para meu mau humor, minha cara fechada, minha indolência, o jeito desconfortável de gostar das coisas; é tudo invenção. Mudou-me somente ter começado a atender o telefone, que nunca era pra mim. Até hoje ligam querendo falar com minha mãe. Só respondo que ela não está."

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tríptico da irrupção interna ao adoçar o café


(contado em segundos para ser lido lentamente)


1"

no mais das vezes não ocorre; e além:
também há um pires pra paliar o fenômeno

no café que frequento sempre vejo
um homem adoçando o seu espresso

à revelia de seus atos, submerso no
líquido escuro espera a redenção

ciente de algo que não sabe o vejo
vulnerável em sua posição de homem

seu pensamento alhures mexe
o café com a colherinha metálica

(a ironia é que, do colmo,
é o açúcar o que melhor se vê)

mal percebe que é o seu café
                          e mal o percebe-se nele

2"

é o café, que
                    na soleira da porta
                                               instigado
                                     o sente
é o café, que
                    no limiar do vômito lento de um câncer
                                                                                         exaurido
                                                                                               depaupero
                                                                                   o prova
é o café, que
                     às esquinas do sorvedouro, 
                                                                       sem parecer,
                                                                                              num ato-falho da pulsão, trans
                                                                                                                                                        sborda

o inesperado infalível,
                                         o insolúvel


3"

com este rosto de resignos moldado por entre estas roupas convencionadas fortuitamente aos gestos na costura deste livro mal digerido sobre a mesa mal percebo que sou o meu café e mal o percebo-me nele quando nada de real ou verdadeiramente belo aconteceu ou acontecerá

no mais das vezes há um pires: agradecêmo-lo?

domingo, 18 de setembro de 2011

Drs.

Estudar qualquer coisa a fundo é, de forma quase fatal, perceber a impossibilidade de se chegar a uma resposta única e incontestável. Especialmente numa faculdade, onde tanto o conhecimento quanto as divergências tendem ao infinito. Curioso é que exatamente no mundo acadêmico seja encontrada uma quantidade desproporcional de pessoas que imaginam estar no píncaro das certezas. E dentre esses bem-sucedidos escaladores dos Everests da sapiência, grande parte é de leitores de orelhas ou, numa melhor hipótese, fartos conhecedores de um único ponto de vista. Daí ser rotineiro observar, pelos corredores, convicções desfilando para todos os lados, a indicar caminhos e fórmulas indubitáveis, qual religião, feito Cebolinhas a tramar infalíveis furtos dos Sansões da vida.

Sartre dizia que o verdadeiro pensamento pensa contra si mesmo. Pois de pouco vale um intelecto que não consegue pôr-se em xeque, desafiar-se, reduzir-se ao ridículo. Quem tem tantas certezas só pode ser um sagaz imbecil ou um gênio. Sabemos que gênios há poucos, mas velhacos estão transbordando, arcados sobre suas verdades.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pedido em ternura em manhã

E após um infeliz mês sem nenhuma postagem:

Pedido em ternura em manhã

vem, sorri
não olha diretamente
mas sorri soslaio tal de tímida 

procura
pelos cantos procura algo que perdeste
teus sapatos no chão
os brincos pelo tapete
pela parede os insetos
sim, procura

(procura no chão os insetos
na sobrancelha ofendida
na indisfarçada tensão alçada)

entre o toque nédio dos corpos
procura o olhar mais profundo

qual o que em enrubescer-te?

o que ocorrer, pois
ressimbolizo os significados

mas o pedido fixo pelas paredes:
o que nos sufoca:
só não deixa disso:
do sorriso:

o paliar do cessar
da angústia fremente:
a direção de um olhar
e dois cantos de boca

terça-feira, 26 de julho de 2011

Jeremiada quase um panegírico a algum porquê - em prosa


Ao som de qualquer choro.

Ainda com todo o resto, a ela, velha de guerra: à palavra que subsiste. A todas as metáforas infelizes, mas principalmente aos infelizes escrevo. A todos os medrosos. Aos inertes, que em sua matéria terrivelmente deixam-se levar pelo arrependimento de regar sempre vasos vazios. Ao próprio arrependimento... A todas as formas malacabadas. A tudo que é realmente triste. E por isso engraçado... Aos piegas... A todos os virgens, todos, mas principalmente aos que só se masturbam escrevo. A todas as crianças e toda a espontânea pureza que nos brindam. A todos os inocentes culpados, mas a todos os culpados, principalmente. A todas, todas as letras dadas ao esquecimento... A tudo que um dia quiseram nos contar! Aos padres. A todos os padres, mas principalmente aos já conformados com o sacro silêncio escrevo. Às palavras tolhidas que raspam na garganta dos covardes; e assim: a todo o covarde que ao espelho já se acarou... Mas principalmente a todos os simplesmente covardes escrevo. Ao hermetismo. A todo maldito hermetismo escrevo. Não se desejando escancarar, ou simplesmente não se conseguindo. E para além de si: dizente também de muitos outros infinitos. À terra molhada de sangue, urina ou simplesmente chuva. Às entrelinhas da chuva... Aos não compreendidos. Aos que da arte fazem sua vida; ao jogo de luz e sombra do teatro, que não passa da vida; mas principalmente aos que da vida fazem sua arte escrevo. À imoralidade dos que amorais se dizem! Aos imorais! Aos mortos! Aos mortos esquecidos... Mas principalmente aos vivos esquecidos escrevo. Aos velhos ao léu, num apelo ao sagrado a que não seja eu um desses. À toda dicotomia; a todos os maniqueísmos. A todos os pensamentos simples; a todos os pensamentos belos, por sua simplicidade... A todos os insetos! Estes sim, ostentam da mais profunda sinceridade em seus lábaros. A tudo de mais sujo; a tudo de mais sujo que já viveu e que nunca foi vivo, nem morto; a tudo de mais sujo e mais simples escrevo. Às pedras! Professoras de sabietude certa... Às sensações duras: ao arrepio na nuca e à boca seca da verdade; à toda verdade dita; mas principalmente à toda verdade não dita escrevo... À latente subversão dos objetos na sintaxe universal. Assim, ao rostinho escarlate das garotas apaixonadas. Mas principalmente ao rubro de submissão no rosto das mulheres apaixonadas. Ao ansioso suor do sovaco. A todas as domésticas, as bichas e as pretas escrevo. Aos miseráveis de toda ordem! A todas as unhas encravadas. À náusea. A tudo que é oprimido; a tudo que é verdadeiramente oprimido; mas principalmente a todo o grande vazio, na bagagem que lhe foi impingida, que esse termo traz consigo. À nova pintura do quarto, sem acabamentos, no entanto. E aos pregos, que, os martelando, entortam em suas impenetráveis paredes brancas... À insônia, à insônia, à insônia... Ao amargo dum café puro, mas principalmente ao simplesmente amargo escrevo. A essa lua, que sem um cognaque não me diz absolutamente nada. À insônia! À insônia! À insônia! Ao agudo duma dor de berne. À ingenuidade e a bruteza da ignorância. A tudo que é torto e coxo. Às margens antes que ao fundo. À leviandade do que parece importar; à leviandade do que escrevo; à toda leviandade; à mediocridade; e a todos os médios, mas principalmente a todos os baixos escrevo; aos porcos de espírito, compreendo-os todos! Aos sóbrios, que sempre sofrem tanto... À hipocrisia paulistana, mas olhe, principalmente à hipocondria paulistana escrevo! À ironia, que ainda salvará o mundo! A todo cheiro de mijo e merda pelas ruas: seja deste nosso cotidiano; seja do carnaval que acabou de ser. Ao que mata para comer; à insalubridade que nos bate à porta e nos bota medo. Ao riso histérico das donas de casa. À Sé, que é tào linda à meia-noite... À insensatez morta de frio! E aos que, ainda que sem dedos, compram-nos anéis. À toda arte inculta e feia. À anti-estética. A tudo que é anti- e contra-, a tudo que é an- e in-, apo- e ab-, hipo- e sub-, hiper- e supra-, mas principalmente a tudo que é quase- escrevo. À toda absolutização de relativos, porque assim fica mais fácil... E ao adágiário popular, que antes que às margens paradoxalmente chega ao fundo... À toda e qualquer falta lexico-gramatical. A todos os poetas; a todos os poetas menores, formidáveis como nunca, contudo... Mas principalmente aos exegetas da calçada em que se anda escrevo.

sábado, 2 de julho de 2011

Tipo um romance

(Atrasado para o dia 12)

Foi na dele. Entre os impostores do salão, tinha os dentes mais bonitos. E ainda lhe contaria o que faltava nela. Queria o nome sussurrado em seu ouvido; Marcus James é de arrepiar qualquer cristã se bem soprado, de assalto. Ou provocar riso, de deboche. Não foi, e ele falou meio assim, antevendo reação adversa. "Não sei pra que outra história de amor a essa hora".

Mas ela estava tipo afim.

– Não entendo do que você ri.
– Eu não entendo as suas piadas.

Fitava-o cândida, parecendo esperar alguma coisa. Ele fazia de conta não conseguir, empurrando a culpa feito batata quente.

"Bobagem te cantar agora. Eu, tonto; você, falando grego. Logo você, que ignora Rilke e desconhece como sorri assim, aérea igual a mulher do Francis. Nem quero tentar lhe dizer."
"Tenta dizer nada, chega de falar do esmalte, que tem meu esmalte, diabo?

– Não sei, daí...

"Por que somente agora você vem?"


E passam os meses, corridos, inúteis, embaralhados, arquitetando assunto só para poder continuar amassando o nariz naquele nariz. Afastava os amigos, aceitava o perigo, a loucura.
No domingo, contudo, tentou ser simples, tal qual um ramalhete, finalmente. Fatal.

Aceitaria um poema, um chocolate, uma desculpa. Engoliria a outra. Mas não, rosas não! – ela, farta de arranjos. A flor supre a ausência de ideia.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Bronca

Não me refiro a galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso.
Kerouac, na voz de Sal Paradise, em "On the Road"


Fui lendo sem ver muito.
Com mira de quem não é para resignos:


Psiu!


– Não vá gastar o verso! 
(em voz de obsoletar o diapasão)


É daquelas que vivem 
dos alumbramentos do primeiro 
toque.


Mole não é molenga, é mó legal.
É mole?


E com a metodologia 
dos que engatinham 
me machucou de pensos.


Nuzza!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Esquife

Estava em um táxi numa dessas madrugadas secas, e o motorista maldizia o calor, a poeira, o vento. Afirmava que há trinta anos, quando na minha idade, era tudo diferente. A temperatura no inverno não superava os trinta e cinco graus e talvez até chovesse entre agosto e setembro. Porém agora, em nossos tempos, ninguém mais crê em Deus ou, ao menos, poucos são verdadeiramente devotos. Daí a certeza de o mundo estar desandando – inclusas as condições atmosféricas. Deus detém o poder e nos castiga com estiagem, rinite, tempestades de areia, morte de primogênitos e passageiros bêbados no banco de trás.

Apesar dos problemas respiratórios, não creio em coisa alguma. Desacredito em energias, sobretudo nas positivas; o universo não conspira e, caso o fizesse, certamente seria contra nossas possibilidades egoístas. O cosmos é um assombro caótico, não o programa da Ana Maria Braga. Todo destino que possa haver é naturalmente adverso, pois somos mortais e, ainda por cima, caímos em qualquer conversa. Enquanto embala seus dados, um onívoro deus dá risadas do louvor e soluça embriagado de éter.

Encolhido em seu lençol de desígnios, Deus é traição. Pessoas são abortadas, moídas, devoradas, e as noites deixam de acontecer. Enquanto se lê o jornal e mastiga o pão num café, criancinhas levam tiros e as estrelas explodem inconscientes em supernovas.

Tenho notícia de um professor cuja filha há pouco faleceu em um acidente de carro. Dia comum, perfeitamente sã; no entanto, perdeu o controle do veículo e foi de encontro a um ônibus. Morreu na hora e, dizem os especialistas, sem dor. O homem, após uma longa semana, voltou normalmente ao trabalho, esclarecendo, convicto, que aquilo havia de acontecer: sua filha fora "levada" para que ele e sua ex-esposa, mãe da garota, voltassem ao Senhor. Estavam arredios da labuta divina, deveras terrenos, extremamente carnais. Deus, num sacro ciúme, arrancou-lhes a jovem a fim de que se aproximassem novamente Dele.

É cruel e insensato atacar com carradas de vazio o parco consolo dos enlutados e discutir a metafísica em velórios. A razão não costuma prover muito conforto. Contudo, os males reais são suficientemente graves para que não nos esforcemos em acrescentar-lhes mil sentidos imaginários. Em buscar a justificativa ao fracasso e o motivo do câncer, um sentido na agitação feroz e sem finalidade que é a vida – e os fenômenos meteorológicos. Nada é para ser. As coisas apenas são, tristes, áridas, ordinárias como elas são.

domingo, 15 de maio de 2011

Fragmento

Ah! Nunca vi tanta felicidade neles. E os médicos falaram que têm demência. Empurraram ele na rampa, e ficou na maior felicidade, assistiu novela lá, na cadeira-de-rodas. E o sorvete, não tinha como montar direito, então eu coloquei castanha, tudo picadinho, sabe? O Eduardo tirava os confetes, pensava que eram comprimidos!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Poema

Não posto aqui há um tempo, por falta de qualquer causa. Daí, saio correndo, tento quase ser atropelado, fito bem os olhares transeuntes, almoço no balcão e pulo uma poça. Peço um quilo de papel almaço e pago com um tango. As moças somem pelos túneis e os sacerdotes anunciam o fim, eu bebo uma e duas garrafas em busca de um sopro desacanhado, procuro no breu a consolação e a rota de fuga das platitudes.

– Ah, não existe coisa mais triste que ter paz


De repente, mudam as nuvens; ao sacar o relógio do bolso, notam-se as mesmas estações, mas alguma coisa morna e ingênua escapou e está delicadamente largada na faixa de pedestres. Nada mais senão tocar uma marcha e impedir que se extingua a graça do que acaba de acontecer. Uma lágrima suada no papel, fotografia, essência cravada na camisa. Um fio de novelo esticado pelo labirinto. Acho que escrevo para não me perder.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Indolência

Hoje ando sempre com uma nota separada no bolso. 
Enquanto me houver condições, guardarei uma nota aleatória no bolso.
 Aleatória até por não me dar ao luxo de mensurar o quanto é necessário para uma noite. 
Mas sim, enquanto os ventos me forem favoráveis, para evitar a melancolia advinda de um desafeto com o Ego, andarei com uma nota no bolso. 
Boa vacina. 
Havia era bebido boas. 
Com velhos amigos, novos amigos.
 E foi no metrô. 
Voltando para casa num mais desses dias de cerveja durante as aulas, e lá que foi. 
Voltava falador, explanando os desdobramentos de alguma explicação sobre qualquer coisa. 
E todos ouvindo feito houvesse secular sapiência em minhas palavras.
E contudo o discurso se deu pela metade. 
No metrô nunca se sabe quando se precisa ir. 
E dissipar toda a conversa de pouquíssimo outrora, remoendo na solitária lembrança os até então últimos momentos vividos com a pessoa: companheira de metrô. 
Acontece geralmente é no Paraíso. 
E desço na outra estação, que estava cheia de gente. 
Onze horas não é mais horário de tanta gente. 
Desci do trem e havia mais que tudo isso aí de gente dita. 
Cada um indo pra cada outro lugar. 
Todos terrivelmente juntos em suas distâncias.
E já virando o corredor pude ouvir os versos do violino. 
Pelas escadas rolantes, então! 
Nem se fala... Só se ouve. 
Na escada automática, tomado por uma emoção proporcional à cerveja, tentei puxar do bolso uma moeda de um real. 
Mísera moeda, que jogaria no chão para o músico se virar depois. 
Porque eu me virava. 
E foi que houve. 
Houve que veio uma moeda de vinte e cinco centavos.
 Indigna ao músico, entretanto, comparada ao prazer de ouvir-lhe o violino, quase virginal.
Com rapidez, puxei outra moeda. 
Vinte e cinco centavos novamente. 
E tinha certeza da de um real. 
A impaciência tentou trazer à proa outra moeda, apostando no irremediável momento final, quando já do descer da escada rolante e do começar a andar novamente, rumo ao conforto do que se chama de cama. 
E foi de cinco centavos. 
E só. 
Já via as feições do músico, seu estojo aberto, ao léu do chão sujo. 
Sua boina. 
Sua nobreza em gestos, de emocionar a surdez. 
Dado o fim de uma escada rolante, sempre temos de voltar a andar. 
E a emoção que antes me enternecia, fatigava-me as costas. 
Fatigavam-me as pessoas pela rua, andando. 
E falando, mastigando. 
A miséria escancarada nos filmes piratas, no cheiro de milho verde misturado ao de yakissoba, no rosto das vedetes antigas, com novos batons, novas maquiagens.
 Infelizmente, todas as noites com novos batons ao ponto de ônibus. 
E as tristonhas vozes gradualmentalmente diminuídas.
 Tanto diminuídas de só e somente restar o ensurdecedor som de meus passos, empobrecendo o silêncio da noite – cobertor de alguns sonos à calçada.
 Incontornáveis passos. 
Irredutíveis passos irracionais. 
E os pés, que impassíveis seguiram adiante, juntos das mãos: ao bolso, na vergonha de oferecer somente as três moedas menores.
Na vergonha da indolência.
À música, não lhe eram dignas, pois.
 Desci da escada rolante e – assim simples – continuei andando.
 Um transeunte aos olhos estrangeiros.
E meus olhos úmidos de completa compreensão não me impediram de continuar andando. 
Andando. 
E logo a tristeza desse andar me bolinou, como um vento forte.
Pornograficamente.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Deslize


"Alô?"
"Oi..." 
Até pouco acima dos joelhos, seu vestido negro refulgia pelo banheiro.
"Ah, você me acordou, aconteceu alguma coisa, por acaso?" 
O banheiro, uma asséptica branqueza de dó a quem o fez. 
Na cabina: "Não. Tá tudo bem aí?" 
"Tá sim, por quê?" 
"Por nada... curiosidade." 
"Então por que me ligou agora? Não sei nem que horas são, Kátia."
Sentada na latrina, escorre as pernas para abri-las. Enrola o cabelo com o dedo."Eu tava numa festa, ainda tô, na verdade, fiquei um pouco tonta e vim pro banheiro, queria conversar com você, queria te ver..." 
"E aí pensou vou ligar pro Hugo, já que ele não deve estar dormindo agora, três e meia da manhã. Tá no banheiro ainda?" Ouvia-se ruídos estridentes de abre-fecha e música e vozes opacas.
Riu um pouco: "Tô. Sentada numa cabine."
"Você passou da conta, né?"
"Tô meio tonta, mas, sinceramente, o que que muda?"
"E então? Fala."
"Ah, eu tô aqui numa festa com a Ca, a Jé e as outras meninas, hoje é aniversário da Raquel, você conhece a Raquel?"
De semi encerrados olhos, no breu do solitário quarto: "Não."
"Ah, mas é claro que conhece, conheceu ela naquela exposição do Tom. Você até comentou o vestido dela."
"E eu lá comento a roupa dos outros? Nunca fiz isso, Kátia!"
"Para mim, pelo menos, comentava. Lembro que me disse, ao pé do ouvido, que com ela vestida daquele jeito a levaria junto comigo para a cama. Na hora, lembro que fiquei bravíssima com você, não falei mais nenhuma palavra durante o resto da noite, mas queria te dizer que no fundo eu gostei. Depois disso, pensei várias vezes em nós três..." Ele, embora nada vendo, olha para o teto. Pensa. "A cada frase sua era um friozinho que me dava aqui. Saudade do seu jeito de canalha discreto."
"E me diz agora, de madrugada. Não dá pra entender. Por quê?"
"Eu já disse, fiquei com saudades, porra. As pessoas falam que você mudou muito desde que saiu daqui. Que está largando tudo. Que tá deixando tudo pra depois, você não era assim."
"Quem te disse isso? Como pode me ligar pra falar isso? Quais são seus critérios Kátia? Você não sabe o que acontece aqui, você não tá aqui, ou tá? Você não sabe do que tá falando. Olha, por favor, não me liga mais, ainda mais de madrugada. Nã..."
"Não desliga!"
Volta a fechar os olhos, em silente resignação. "Não me interrompe."
"Olha como mudou, tá perdendo rápido a paciência. Você não era assim..." E as lágrimas de rímel principiam um doce contraste com a candura do chão. "Eu te ligo pra falar que tô com saudades e você fica aí, na sua posição do alto, me xingando. Tudo mudou muito, se você soubesse como eu queria voltar no tempo e parar lá, mas foi tudo muito rápido, nossa vida mudou tanto. Eu não queria. Eu não queria isso!" Os soluços tomam forma, impedindo-a de continuar.
"Você tá bêbada. Vai pra casa, toma um banho e dorme, que é a melhor coisa que você faz."
"Você não pode fazer isso comigo."
"Fazer o quê?"
"A Ca tá com um cara que eu não conheço. A Jé, com o Renato. Tá todo mundo com alguém, aí me deu vontade de você, não dá pra entender?"
"Pára com isso, Kátia, não tem mais nada a ver. Você sabe que era impossível continuarmos."
"Mas claro! Com ninguém se esforçando pra isso, lógico!"
"Então tá."
E mia: "Espera, não desliga."
"Kátia, por favor, você me liga de madrugada, eu estava dormindo, fica melhor e me liga depois."
"Não! Não faz isso comigo. Não desliga!"
"O quê?"
E o aparelho celular resvala suavemente, entre as lágrimas e o vestido."Não desliga, Hugo!" Escorrega até o começo de suas grossas pernas, por baixo do vestido frio. "Não desliii." Desliza por cima de sua calcinha quente. "Nãããoo-hô, hô, hô." Desliza. "Hai, Hugo, hai, não desliga!"

sábado, 29 de janeiro de 2011

Summer '68

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado


Vinicius de Moraes

Se fosse inventada a pílula contra a ressaca, não haveria culpa nem dor de cabeça. Restaria, no entanto, ânsia suficiente para despejar na sepultura, que tão irreverentemente se assemelha a um vaso, um bocado de cinismo, outrora diluído em gim. Poderíamos enfim degustar o sensabor da noite passada, sem o doce do rum e o amargo particular das línguas entorpecidas. Contudo, os melancólicos desencantos, na falta de um dedo na garganta, permaneceriam em seu íntimo intocado.

Assim, continuaríamos sem nada a dizer antes de bater a porta. Seguiríamos passando as noites petrificados por um perfume ou cismados pelo impulso de uma valsa, criando novas formas de distração, acompanhadas de velhas agonias; insistiríamos em proclamar um tal desapego, despojando-nos, ao menos em frente aos outros, do desejo de não ser sós. Mas somos, e por isso ouvimos jazz, pedimos um dedo d'água e duas pedras de gelo e precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas, ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.

Tememos sair distraídos sem dar duas voltas na chave pois lavramos um incorrigível esquecimento. Entramos em elevadores imaginando encontros extraordinários e ajeitando o cabelo, como se algo no mundo deixasse de acontecer devido a uma franja mal arrumada. Imploramos a nossos escrúpulos para abrandarem os pudores e permitirem-nos encontrar qualquer coisa de flor em meio a impassível multidão; uma pele de sabor levemente salgado, quadris que se movimentem em displicente harmonia, uma voz capaz de silenciar as caixas de som. Em cada brinde, suplicamos por uma recompensa, ainda que migalha, pelos dias nos esquivando de nós mesmos, tentando remediar o indelével sentimento de partida a cada minuto. Voamos rasante sobre o abismo da apatia, olhando desesperados ao redor à procura de olhos que sejam como os nossos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Toda nudez será castigada

A organização WikiLeaks vem constrangendo governos e autoridades ao redor do globo há algum tempo, e 2010 foi definitivamente seu ano. Em julho, divulgou um vídeo de civis, entre eles jornalistas, sendo friamente assassinados por fuzileiros a bordo de um helicóptero americano no Iraque; pouco depois, tornou públicos relatórios de guerra com indícios de tortura e outros abusos cometidos pelos invasores. Nada, no entanto, comparado ao estardalhaço causado no mês passado, quando o site vazou uma imensa quantidade de documentos e notas diplomáticas de inúmeros países, cujo conteúdo abrange de assuntos íntimos à revelações de crimes hediondos praticados sob a chancela de grandes potências.

A reação foi célere: incriminações surreais suscitadas contra o editor da página, o australiano Julian Assange, diretamente do clímax da democracia mundial: a Suécia. Quando de sua estada no país como palestrante, Julian, de mordaz olhar de lince, teria feito sexo sem proteção com duas mulheres uma delas de origem cubana, anticastrista resoluta, porém de pernas pouco convictas. Posteriormente, o depoimento de acusação da lasciva Anna Ardin, a vítima, sofreu alterações, devido, especula-se, a exigências além-mar. Suas relações, dessa vez profissionais, revelam-se um bocado desimpedidas. Após alguns dias de perseguição, Assange entregou-se à Scotland Yard, sendo mantido preso em Londres até conseguir liberdade condicional mediante pagamento de módicas duzentas mil libras esterlinas de fiança. Com tal ninharia, poderia talvez adquirir uma modesta fábrica de preservativos, mesmo em Cuba, se assim desejasse.

Longe da Europa, o responsável inicial por essa embaraçosa enxurrada, o soldado americano Bradley Manning, está isolado numa penitenciária no estado da Virgínia. Bradley deu um golpe no sistema de segurança dos Estados Unidos e provocou uma crise diplomática sem precedentes munido apenas de sua inconsequência e um disco de Lady Gaga. É curioso constatar que a nação líder da desenvolta campanha internacional em defesa (legítima, diga-se de passagem) de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento na teocrática república iraniana, possua representantes como o político Mike Huckabee e o ex-embaixador na ONU John Bolton, ferozes incitadores da pena capital ao jovem militar que copiou os controversos e sigilosos dados de um computador do Exército enquanto cantarolava as aberrações gagaístas. A liberdade de expressão e o zelo pelos direitos humanos assumem diferentes valores a depender de quem é favorecido ou prejudicado; fossem chineses, Manning e Assange estariam em voga na Suécia por outra razão, provavelmente no páreo por um Nobel da Paz.

Sorte de Glorinha, Letícia, Dagmar, Salete, Geni e tantas outras pecaminosas personagens rodrigueanas por vivevem ao sul do Equador, nas proximidades dos trópicos do Méier e de Copacabana, em vez da gélida Escandinávia. Caso contrário, teriam de fugir não somente de seus pais e maridos irados, mas também da CIA e da Interpol, evitando arcar com os milhares de pounds de seus voluptuosos delitos. Adultério, incesto, defloramento, lesbianismo e congêneres devem, afinal, custar uma fábula pelas bandas do mar Báltico, ainda por cima se cometidos sem camisinha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

As músicas do Blog: Moginga's Groove #5

Pois é, nas férias temos um pouco mais de tempo para escrever para a Moringa. Eu disse um pouco, porque este fim de ano andei correndo mais que os maratonistas da São Silvestre. Vamos ao assunto. O blog desde sempre teve música, mas nunca nenhuma explicação sobre o porquê destas ou nunca nada muito relacionado. Logo que criamos o blog decidimos botar umas músicas para o leitor ouvir, não me lembro de quem partiu a idéia, mas me lembro de que foi consensual que tinha de ser algo nãomuito invasivo. Já bastava a pessoa estar lendo nossas besteiras, as quais justamente por acharmos besteiras, postergamos nossos textos a cada post, inflados de um preciosismo barato que a autocrítica construiu em cada um. Escrever é um parto, e, numa antinaturalidade impressionante, essa "vagina", que era para estar se alargando, comprime-se a cada parto/texto. (Sou o rei da analogia infeliz. Desculpe.)

E o consenso prosseguiu sobre o estilo de música. Era algo que estávamos descobrindo à época. A mim, pelo menos, completamente novo: o Jazz. Começou com Tomás me apresentando Miles Davis. Era a época em que o blog Jazzman ainda disponibilizava discos para download. Isso fez um estrago e tanto aos meus domingos: encheram-se, a partir daí, de música. Hoje posso dizer que meu maior hobby é acumular músicas no computador e organizá-las obsessivamente, colocando a capa dos discos, o ano, e outras informações a mais, feito um louco. Hoje acumulo pouco menos de 130 gigabytes de música. Grosso modo, primeiro veio o Rock e suas variáveis negras Blues e Funk, depois Jazz, e, no ano seguinte, o Samba me tomou. Não me considero eclético. Tenho o que me atrai de alguma forma, não é muita coisa. E, se acaso eu lhe disser que não estou fazendo nada, tenha certeza de que estarei arrumando minhas músicas.

Se fosse há 20 anos, eu não teria acesso a 95% da informação que consumo. Então, todas as manhãs agradeço ao que quer se seja de sagrado por eu estar no olho do furacão: em época de internet. De tanta liberdade, creio que o homem ainda não sabe o que fazer. Mas isso já é assunto para outro post.

E, assim, desde o primeiro Moringa's Groove, optamos por clássicos. Nada que seja muito inovador, tampouco invasivo, que atrapalhe a leitura. Na primeira lista constavam "So What", da magna obra de Miles Davis, Kind of Blue; "Take Five", de Dave Brubeck; "Tequilla", de Wes Montgomery; "Wave", do nosso Tom e "If I Were a Bell", também de Miles Davis.
Desse jeito fica fácil...

E fomos mantendo tradicionalmente o Jazz, com algumas variações na Bossa Nova e no Fusion, que não deixam de ser Jazz. Fomos criando algo meio padronizado desde as últimas listas de músicas. Nesta, que irei apresentar agora um pouco mais detalhadamente, Tomás escolheu 5 e eu outras 5.

Segue a lista:

Desde a primeira lista de músicas para o blog, sempre teremos aqui Miles Davis. Desta vez com a música It Could Happen To You, do elegante Relaxin' with the Miles Davis Quintet, de 1956.









Meu Amigo Radamés, de Tom Jobim, do último álbum de Tom Antônio Brasileiro, de 1994. Certamente uma homenagem ao amigo, grande maestro e arranjador, Radamés Gnattali.










Mais recente versão de Eleanor Rigby, do grande guitarrista John Pizzarelli. É de um álbum totalmente dedicado ao quarteto de Liverpool. Meets the Beatles, de 1998. Sempre colocamos versões jazzísticas de Beatles feito essa.










Three to Get Ready, de um clássico dos clássicos: Time Out, do genial pianista Dave Brubeck. O álbum é de 1959.











Composta pelo fantástico guitarrista Pat Metheny, Question and Answer, do álbum Like Minds, do vibrafonista Gary Burton, ganhador do Grammy de 1999 para Melhor Performance instrumental individual ou em grupo. Não é para menos, visto que Burton se reúne com Chick Corea, Pat Metheny, Roy Haynes e Dave Holland. São músicos de primeiríssima. Não tinha como dar errado.








Agora um tema um pouquinho mais antigo, Moonglow, composta em
1934, aqui interpretada pelo cânone do clarinete Benny Goodman. Peguei a gravação de uma coletânea do artista de 2002, chamada Let's Dance.









Outro tema também antigo, famoso na voz de Billie Holiday, Deed I Do, aqui na voz de Katharine Whalen, em seu álbum Jazz Squad, de 1999. Afinal, temos também que prezar pelo contemporâneo (ok, nem tão contemporâneo assim). A moça é mais conhecida por emprestar seu swing à irreverente banda Squirrel Nut Zippers.









E por falar em contemporâneo, apresento-lhes um pedacinho da
vanguarda do jazz atualmente. Está aí uma das coisas que mais gosto de ouvir. Fundado pelo baterista David King, com performances assustadoras, o power trio The Bad Plus costuma pegar temas do Rock, entre outros, para improvisar em cima. A música da vez é uma versão de Flim, do DJ Aphex Twin. Está no álbum These are the vistas, de 2003.








Voltando à música um pouco mais comportada, colocamos Reunion Blues, do álbum homônimo do guitarrista Oscar Peterson, de 1971. Confirmam presença no álbum o grande vibrafonista Milt Jackson, o baixista Ray Brown e o baterista Louis Hayes.









E, para terminar, do fantástico álbum Águia Não Come Mosca, de 1977, a faixa Despertar, do maior trio de Fusion do Brasil: Azymuth. Esbanjando uma sonoridade única, constantemente sampleados por DJ's, são muito valorizados no exterior. Auto-intitulam sua música de "samba doido". Fica aí para quem quiser.







É isso.