terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O mundo é um moinho

Há coisas simples que transformam dias apáticos. Pode ser um "muito obrigado", um belo par de pernas passando pela calçada, a música tocando no rádio. A canção tão adorada, ou que pelo menos significa alguma coisa, começando a soar sem aviso em uma estação aleatória. É como reaver algo há tanto perdido, que sequer era lembrada a existência. É a nota encontrada no bolso da calça, o pedaço de pizza calabresa gelado na manhã faminta.

-x-

Não é raro celebrar boas coincidências, ou o destino, para os mais crédulos. "Deus está nas coincidências", como é dito em tantas esquinas. Tudo é fruto de encontros e desencontros casuais.
Mas e o que não aconteceu? O carro que não quebrou, a festa a qual a garota não foi, o vôo que não atrasou? Se o destino une casais no fim dos filmes, deve também cancelar grandes acontecimentos.
Disse Caetano Veloso que muitas composições suas por pouco não foram esquecidas pela fraqueza da memória no dia seguinte. E as que se perderam? As bandas que não deram certo, os Lennons e McCartneys que não foram para frente, que nem se conheceram? A inspiração que estava lá e ninguém pegou?
Os Kafkas que foram destruídos, os pergaminhos incinerados da biblioteca de Alexandria. Quantas Odisséias e Odisseus perdemos para as más coincidências?

E as belas canções que tocaram enquanto não estávamos com o rádio ligado para escutar?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Conto de Natal: O Furto

Véspera de Natal, e ele, aviso de antemão, com a corriqueira mania brasileira de comprar os presentes na véspera. O shopping estava lotado, formigando, cuspindo e escarrando gente. Inclusive as chaminés, com os mais avantajados em massa corporal enlatados, digo, entalados. E ele, bem, ele fora à livraria buscar alguma idéia - repare, nem idéia tinha - do que dar ao seu amigo secreto. Prateleiras vão, prateleiras vêm, Goethe, Shakespeare, Kafka, Moacyr Scliar talvez, mas não, nada disso se adequava à pessoa, então achou melhor sair dos livros de bolso e buscar alguma iluminação, nem que divina. Porém mal esperava ele o que estaria por vir nos próximos trinta e dois minutos e cinquenta e sete segundos de sua vida de estudante aplicado.
A livraria não se livrara também da boa moléstia de estar suportando três pessoas por metro quadrado, e, a pensar bem, até dava para respirar. Paulo Francis, alguma coisa dos marginais de nossas letras, o Nelsão... Não, não, ainda não achara o caminho. E, opacando a visão do empacado, a neblina de sua mente ainda não se dispersara, resolveu pois sapiar a seção ao lado: "Diários de Jack Kerouac", "A vida de Churchil", "Meu marido Dostoiévski", "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico". É, ele olhou para o nome e confirmou, estava nas biografias, interessante seção. Mas volte um pouco, seus olhos brilharam ao ler, num relance, "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico", ele era um indiscutível e cativado fã do diretor e nunca tivera a oportunidade de ler algo mais profundo sobre, e escrito por ele, o grande Sensei do Cinema; apaixonou-se pelo livro.

Olhou, comprenetrado o pegou, tateou-o - a esta altura já tinha se esquecido de amigo secreto, de seu presente, e do Natal por vir. Notou então um estranho amarelado em suas páginas, parecia antigo, viu também a etiqueta da livraria, misteriosamente gasta e com a aparência de ser mais velha, com um sistema antiquado de código de barras. Olhou em suas páginas, costura desmantelando-se, na última página havia alguns números escritos a lápis. E, num súbito, ocorreu-lhe que o livro já estava lido. Um livro lido e amarelado pelo tempo, não se tratava de um livro novo, logo, não deveria estar à venda, foi esse o silogismo inicial.

Nos próximos dois segundos o plano já estaria completamente arquitetado, do furto à fuga. Uma loura - pouco linda, mas muito lida, supõe-se, encostou-se ao seu lado para bisbilhotar alguns títulos, como ele, em teoria, estava fazendo. A mulher começou pela seção da literatura brasileira, e foi caminhando inconscientemente para a direita, onde as biografias situavam-se. Ele, percebendo a quase-intenção da loura de ir à sua seção, rapidamente esgueirou-se por trás, feito cobra, fugaz, deixando as estantes livres. Ela já poderia ver o que quisesse, menos a cena do livro caindo sem querer na embalagem de presente que estava em suas mãos.

Maravilhou-se com a situação, um epifânico drama de três atos passou por sua cabeça. Por que mãos já teria andado essa autobiografia? Quem escreveu os números na página final? Quem depositou o livro ali, justamente sobre seus semelhantes? Quando? Com qual intenção? Talvez uma benevolente alma teria comprado, lido, e querido compartilhar do conhecimento, tão escasso nos dias atuais, deixando o livro disposto na exata seção da compra para algum interessado felizardo pegar.
Já ouvira a história dos livros deixados em bancos de praça, com um bilhete anexo avisando que no término da leitura deveria ser posto em algum outro banco de praça, para que outra pessoa pudesse ler, e assim por diante, fechando a corrente, embora achasse que era apenas mais uma história que as mães contam pros filhos, ainda mais num país brasileiro, como o nosso.
Pensou que poderia estar numa situação semelhante à dos bancos de praça, não era um cleptomaníaco, muito menos um entusiasta do yomango, era, sim, um romântico sem cura.
Se devolveria depois de furtar e ler? Não saberei dizer que mistérios habitam o encéfalo da humanidade, ordenando as virtudes ou desvirtudes a serem cometidas, como a compaixão ou o egoísmo. Não saberei, portanto, responder a indagação, mas deixe-me terminar a história.
Tudo já estava milimetricamente armado, escorregaria o livro para dentro da embalagem de presentes em suas mãos, depois fecharia a sacola com o mesmo adesivo e pronto, ninguém revistaria uma embalagem de presentes fechada. Só não contava com o número de pessoas, transbordavam no recinto, fora a loura, agora agachada, vistoriando a vida de algum não-sei-quem de uma dentre as várias biografias encontradas na seção. Já ele, ele só estava interessado, não só interessado como profundamente imerso em cálculos sobre como escapulir dali sem ser pego.
Com o suor a visitar-lhe a cueca, observou, com a perícia de um profissional do furto, todos ao seu redor e quem representaria o perigo de ser visto roubando um livro velho, grande crime. Inclusive a loura, mas esta estava agachada, a ler distraída, não veria. Ele pensou também na factível possibilidade de o dono do livro estar pelas bandas, poderia ele ter só deixado seu livro ali e ter ido à seção da frente procurar algum presente de Natal para um filho querido, um parente, ou para a sogra. No mesmo instante o remorso acariciou sua nuca com as unhas, fazendo-o gelar da espinha até a unha encravada que lhe doía. As mãos esfriaram, olhou para a direita, todos distraídos; olhou para a esquerda, tristes madamas esticadas, inclinadas sobre revistas feito uma linha de produção, interessadíssimas todas com a dieta do dia; olhou para baixo, a loura ainda lendo, acocorada.
Fez.
Procurou sair o mais rápido possível, chegou perto dos detectores da porta, hesitou, estava, como se diz por aí… Encontro não mais que um gesto para definir seu estado de alma, as limitações da palavra, são tantas! Só então se lembrou do amigo secreto e voltou à seção dos livros de bolso.
Após uma curta olhadela, achou o presente ideal, um exemplar de "Clarissa", de Veríssimo pai. Um livro deve adequar-se à pessoa presenteada como enzimas e seus substratos, como uma chave à sua respectiva fechadura, como o carimbo adequado a cada papel que os despachantes despacham a não mais ver. Para tanto, não dê livros a quem não conheça, que pode ser o primeiro e último presente.
Passou no caixa, pagou atenciosamente com um raro sorriso no rosto. Só não sabia se era de alegria, medo, euforia, ou todos juntos. Agora já poderia sair, e melhor, com um álibi em mãos. Ao chegar perto dos detectores apertou o passo, se o acusasse ele provavelmente sairia correndo por conta de sua personalidade frouxa, embora quisesse enfrentar a situação de frente.
Nada. Estava livre da livraria. Manteve o passo a fim de não levantar suspeita alguma. E virando uma esquina, em meio ao mar de outros brasileiros atrasadinhos, repentinamente uma mão toca-lhe o ombro:
-Moço, moço.
-Oi? - balbuciou ele, bêbado de hipertensão, com o coração na mão.
-Seu chiclete caiu no chão.
-Poxa! Muito obrigado! Não sei como agradecer!
Ele quis abraçar o gordo com todas as suas forças, mas o gesto não se adequava à circunstância, então bastou-lhe uns tapinhas no ombro.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Poeminha de Fim de Ano

2008 no fim,
Sinto-me prestes a um estopim.

O tempo escorre como o alecrim
Do tempeiro
Do carneiro
2008, é o fim.


(Pois é, eu bem sei que lhes devo uns posts decentes, mas não tenho muita coisa agora.)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Comidas babacas

A grande conquista da globalização e da economia de mercado não é o Empire State, Bora-Bora ou Dubai. Nem as oportunidades ou o espírito empreendedor. São os alimentos.
Não o arroz, o feijão e o caviar Beluga. Falo de toda a variedade de produtos que surgiu com a premissa de que alguém vai gostar dessa porcaria. Toddy frutas vermelhas, Club Social de presunto, fanta uva, cheetos de requeijão. Cerveja com tequila, limão; cerveja sem álcool. Sorvete de Coca-cola. Fora as aberrações de um rodízio de pizzas: strogonoff, cachorro quente e todas as variações regionais possíveis (mineira, paraibana, gaúcha etc).
Anos atrás fui a Cabo Frio, e lá havia um carrinho de churros que vendia a maior gama de sabores que já vi. Desde os básicos doce de leite e chocolate até carne seca e frango com catupiry.
Também ouvi dizer que no Japão existe Pepsi sabor pepino.

Imagino haver um departamento especial nas indústrias alimentícias, onde uma série de empregados dispõe-se frente a uma grande mesa cheia dessas coisas estranhas e as provam.

— E aí, melhorou?
— Ah, com gosto de morango não tá.
— Mas tá com gosto de remédio, pelo menos?
— Sim.
— Então encaminha pro setor de vendas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Oblíqua e dissimulada

Estreou ontem na Globo a minissérie Capitu, baseada na obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Meus receios ao assistir às chamadas e ao ler a respeito se confirmaram já nos primeiros minutos: é uma grande porcaria. A produção segue à risca a tendência teatral de séries anteriores, como Hoje é dia de Maria e A Pedra do Reino. O cenário tosco e nebuloso, as maquiagens carregadas e os personagens caricatos, gritando como se toda fala fosse a mais preciosa pérola carregada de lirismo e beleza.

Bochechas rosadas e bigodinhos pintados à lápis à parte, esse estilo poderia talvez se justicar em se tratando da temática das produções anteriores. No entanto, a série retrata, em suas próprias palavras, "uma obra genial da nossa literatura" dessa maneira patética, enjoativa e pedante. Sem querer ser preciosista, mas não me apetecem essas supostamente "ousadas" e "atrevidas" fusões do novo ao antigo, tal qual a cidade do século XXI com a narrativa de mil oitocentos e tanto. Nem Capitu de tatuagem no braço, ou a trilha sonora com canções pop e, pasmem, Sex Pistols.

O resultado é um programa confuso e aborrecido de se assistir, cheirando à pretensão de ser coisa bonita só para gente inteligente e sem preconceitos estéticos. Machado de Assis não precisa disso para parecer atual e moderno, o que sempre foi e continua a ser.

Faltou apenas colocar o Fernando Anitelli de Bentinho e escrever "entrada para raros" como subtítulo. Aí sim ficaria perfeito.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Úngula Fatal


Josú foi comprar pão. Nada especial. Dia simples, momento simples: buscar um pão fresquinho, recém assado na padaria. Um, dois, três moreninhos, Geni preferia-os assim, moreninhos e crocantes. Basta. 

Na fila, um pobre senhor à sua frente, nobre, a concretizar com a moça atendente. Atrás uma mulher: em justa calça, curvas de gelar espinhas, tiraram-no dali por alguns instantes. Olhou pras nádegas, mentalmente se despediu. Na sua vez, num súbito, a situação. 

Sua unha.

Não era manicura, nem aspirava tal situação para si, mas a unha fê-la paralisar. A atendente se perdeu na unha de Josú, mais crescida que o normal e que as outras.

A pele de Josú era morena de sol. Não era gordo, não era magro. De aspecto saudável, músculos bem aparentes, as veias de seus braços salientavam, como num gesto de auto-afirmação, a confirmar a importância do fluxo que provinha de seu coração à sua mão, e por consequência, aos seus dedos, longos dedos. Habilidosos dedos. Dir-se-ia que Josú tivesse qualquer profissão que usasse os braços. Bem hidratado, seu couro mantinha uma rusticidade eufemizada, num aspecto de lençol-de-uma-noite-dormida, com pequenos vãos nos dobramentos das articulações. Pêlos medianos nas xuranhas indicavam o fértil solo de sua pele. Adiante, a palma, mais clara que sua cor natural, fortemente marcada por sinuosas linhas, de um tom mais escuro que sua morada, e habituado a suar nas mãos, acanhadas nascentes de água salgada deslizavam a jusante da palma. Maneirista, a mão milimetricamente seguia a proporção dourada. Jamais lhe ocorrera tamanhos atributos plásticos em uma mão. As unhas eram suavemente quadradas nas pontas, que, de forma homogênea, ajudavam, tímidas, a compor a ferramenta mais significativa da humanidade em sua relapsa existência: a mão. A estética humana começava ali. Com a curviliniedade adequada, mediana, suas unhas possuíam um começo branco, que mais lembrava um início de lua, em sutil degradê de cores até as pontas. Certamente lixadas, as unhas compunham com maestria a expressão da mão. 

Cercada de tantos dotes, contudo, um empecilho rompia a harmonia da mão: a unha do polegar direito era demasiada grande perante as outras. Sua forma ovalada remetente a um espelho irrompia o momentâneo ostracismo à que a pessoa era levada enquanto estivesse a admirar a unha. E causava a quem a mirava magnético ímpeto, distanciando o observador da matéria, fechando-o em seu próprio universo, atônito. O estranhamento, mesclado à beleza produzia outra beleza. À profundeza. Um extra à extraordinariedade do que o belo produz. A alma humana se perdia nessa nesga de espaço-tempo, necessitando, pois, de um esforço terreno pra retornar ao seu posto de origem: a consciência.

Terminado o lapso: moça. Pausa. Moça? Pausa. Moça, quanto fica? Ai, perdão, senhor, eu tô um pouco distraída hoje, diz ela, ainda presa à unha pelo olhar. E continua só os pãezinhos? Dois reais, por gentileza. Ele mete a mão no bolso, afastando a unha do campo de sua visão, o que rompia, assim, o liame entre os corpos. Não houve tempo dela se despedir. Voltou pra casa pensando. Algo fazia sentido agora.

Naquela noite, a cada acirrante gesto ao violão, Josú e unha recebiam uma saraivada de palmas, marcando, por muitas vezes, os tristes telecotecos ali embalados. E muitos outros.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Santa Claus, Go Straight To The Ghetto

Vou avisar de primeira, este post é de um teor altamente romântico idealizador.
É permitido rir da minha cara ao ler.
A imprensa não é muito criativa nos finais de ano, convenhamos. São as compras em alta, fulaninho foi contratado para suprir a quantidade necessária de funcionários na loja de departamentos:
-Agora eu tenho que trabalhar duro, dar o melhor de mim para ser efetivado, tem que ter garra, primeiro emprego não é fácil, ainda mais com essa crise, sabe. Diz ele.
E sobre esses funcionários temporários, há uma espécie deles que eu mais respeito e tenho apreço, ajoelho-me perante esses bons homens, são os aspirantes a Papai Noel, que mantém viva e cintilante a chama do captalismo natalinesco.
Já se foi o tempo em que ele aparecia em nossas casas, limpava-se das cinzas da lareira com nossos panos-de-prato, comia umas rosquinhas feitas pela vovó, se tivesse leite ele beberia, e se tivéssemos sorte, ele nos dexaria uns presentinhos e ia embora para voltar no ano seguinte. Hoje nós é que vamos encontrá-lo, nos shoppings, essas grandes caixas de presentes.

Para ser um Papai Noel é preciso, acima de tudo, ser bom. A paciência, calma, o semblante tranquilo e afins são virtudes secundárias, a criança é muito perceptível a pessoas boas, tenha certeza disso. Não vou divagar a respeito da bondade aqui, então, voltando. Há honra maior que obter logo de cara a plena confiança de um ser que nunca o viu mais gordo? (ho-ho-ho) Ela senta ao seu colo e lhe confessa o que fez de mau durante ano, pois sabe que está em braços acolhedores, e que não farão mal a ela nem a trairão, sem esperar represálias, somente um bocado de carinho e afeto, ou até mesmo algo mais primitivo: um colo. Toda a carga horária e cansaço após o trabalho braçal de levantar pessoinhas durante o dia são compensados ao ver o grato sorriso das mesmas.
Um dia farei isso, quem sabe quando as barbas brancas envolverem o rosto meu e a barriga minha não for a mesma de hoje, que digo, não é lá essas coisas.


Ah, tem o prazer de enganar também, que deve ser uma coisa, mas isso já não cabe aqui.



E uma dica a você, leitor, se você já não suporta mais o Ivan Lins, Simone, "Hiroshima, Nagazaki..." Saiba que há excelentes discos natalinos para se ouvir, coisa de gente grande: Ella Fitzgerald, Wynton Marsalis, Dave Brubeck, James Brown etc têm discos inteiramente dedicados à essa época do ano.

sábado, 22 de novembro de 2008

Ode ao ah...!

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus
-Vinicius de Moraes, em
"Poema Dos Olhos Da Amada"





Maravilhoso é ver
Em seu vale o ocaso.

Assim, entre eles, que
De volúpia enrijecidos
E despertados assim,
E arrebitados assim,
E excitados assim,
Sorrindo a dizer:

O quero assim,
Inebriado por mim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dancing on the ceiling

As pessoas falam demais. Estão felizes e apaixonadas o tempo todo e insistem em sair dizendo isso por aí. Não conseguem guardar uma experiência ou um desejo sequer para si mesmas. Acham que bom, de verdade, é o mundo estar em sintonia com todas as bobagens existentes em suas cabeças e que isso sim é maturidade emocional.
Superestimam qualquer sentimento. Mostram fotos e arrumam cabelos, aguardando ansiosamente comentários e conforto, sejam verdadeiros ou falsos, espontâneos ou forçados. Viajam por um fim de semana e já esperam deixar saudades.
Ninguém sabe nem mais beber sozinho. Só é legal se for para gritar e dizer que ama à toa.


E eu aqui falando.

domingo, 16 de novembro de 2008

Arial

Perdi minhas gavetas.
Por onde andam meus papéis
Que a duras penas penei a escrever?
Minhas penas, onde estão? E o tinteiro meu?

Calou-se a caligrafia minha,
Disforme, mas minha.
Tornou-se invariavelmente
A Arial a qual
Deparo-me
Com cada verso mal teclado.

Feito este, que por falta de carbono e celulose
Triste e saudoso confronto-me com o não tateável.

Ah, Word,

Perdi minhas gavetas.
Por onde anda meu papelório?

domingo, 9 de novembro de 2008

Is you is or is you ain't my baby?

Lembro de um episódio de Tom e Jerry em que Tom seduz uma gata tocando contrabaixo e cantando Is You Is or Is You Ain't My Baby?, canção de quando “mais espremidos do que nunca pelos brancos, os negros americanos construíram um céu musical em que pudessem habitar longe dessa terra infernal”. Foi assim desde o lamento daqueles anônimos fundadores da grande música americana, no velho Mississipi. Por que será que os negros foram protagonistas de quase tudo o que se fez de interessante na música popular do último século?

-x-

“O Clinton vai sair da Casa Branca de algemas, vocês vão ver!”.
É um exemplo de como previsões,
sejam sérias ou irônicas, costumam dar mais errado do que certo. Mas não custa tentar.

As eleições americanas parecem ter sido mais indiretas do que o habitual. O mundo elegeu seu presidente antes dos Estados Unidos, aturdido pelos abusos e pela decadência dos últimos oito anos. Após tanta tempestade, virá mesmo a bonança? Ou seria melhor dizer mudança? Com um déficit trilionário e uma recessão à vista, não há mudança que dê conta de tudo.
A América – a terra prometida de oportunidade e glória – continuará sendo a América.

-x-

De qualquer maneira, Barack é febre porque é
cool: é negro, carismático e elegante. Não é o preto que colheu algodão, é o mulato livre, descendente direto da África, viajado, aculturado e diplomado.
Falo do candidato Obama. O presidente eleito sequer sorriu no discurso da vitória e mostrou-se pragmático quanto ao futuro. É ciente de sua inexperiência e do que está por vir. Talvez sejam essas suas maiores virtudes políticas.

Imagine só se ele tocasse um trompete?




*Ambas as citações do texto são de Paulo Francis. Gostaria de saber o que ele acharia disso tudo.

sábado, 8 de novembro de 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Blues para Nambrusca

Antes de mais nada, digo que a camiseta está saindo, peço paciência a todos.
Queríamos fazer algo, tocar na escola para não passar o ano em branco. Desde o começo do ano procurávamos gente pra recrutar, ninguém gostava da nossa música. Até que ficamos sabendo que Bin tocava sax, "um prato cheio", pensei. Mentira, havia parado de ter aulas e não passava de Oh Suzana, mas volte ao sax, homem, esse instrumento é uma maravilha, pra não dizer algo um pouco mais sexual.

Já tinhamos um baixista, Denner, um quase-ex-protestante aspirante a maestro, ele viajaria para a Alemanha no meio do ano, então teríamos de correr. E de praxe, algo para piorar a situação, não tínhamos piano. Ficamos de pegar emprestado um piano elétrico da Aline, mas não deu certo e como sabe você, o tempo foi passando o tempo é louco tempo come o tempo... Tínhamos um terrível medo de um provável bolo por parte do Denner, porém ele nem teve a oportunidade de consumá-lo. Viajou.

No meio do ano pintou uma esperança: comemorar os cinquenta anos de bossa tocando com um pessoalzinho do terceiro, com direito a declamações e todo o resto (descartável), mas passou também, não fizemos contato, ficou por aquilo mesmo, palavras ao ar.

Em meados de agosto ficamos com mais uma esperança falha, tocar no Fecoc, fazer algo mais conehcido e gravar um blues choramingão com poucas frases. Festivalzinho de música de escola, onde geralmente só gente ruim toca - afirmação esta que se comprovará nas próximas linhas. Já estávamos com Bozo, Gulherme Donaire para os mais íntimos, no contrabaixo e sem problemas, um trio era mais do que suficiente. No entanto, para tocarmos lá, teríamos de alcançar alguns desafios, dentre eles ter dois alunos da escola na banda, todos nós estávamos, supimpa, tínhamos também que gravar uma demo da música com a letra anexa, precisava de letra, e, em consequência, alguém pra cantar. Sobrou pro Tomas mesmo, Bozo não cantaria de meneira alguma. O desafio. A idéia inicial era de um blues fácil com um solo, umas breves e miúdas palavras lamentando-se de algo, e depois outro longo solo, sem nos preocuparmos com alguém que cantasse. Então rascunhei uma letra num gabarito de recuperação que tinha achado no chão, mais tarde essa letra seria inserida no blues e tudo certo.

Você está querendo puxar meu tapete, baby.
Você está querendo esfacelar-me, baby.
Honey, fazer-te-ia tudo tudo tudo!
Mas agora, chupa essa picanha!
Vou te jogar da escada, baby.
E, se por infortúnio do destino,
Você sobreviver, serás defenestrada...
Por isso: chupa essa picanha!

(Usei segunda e primeira pessoa propositalmente, antes que os chatos retrógrados possam vir reclamar). Bozo deu a dica de o Tomas gravar a demo só na voz e violão, iria sair mais claro, melhor para os jurados. E eis que numa bela tarde em Belo Horizonte Tomas gravou a única versão do blues, fazendo as modificações necessárias na letra, sem mudar a idéia. Ele nem chegou a colocar a última frase, chupa essa picanha, por medo de alguma censura. Foi nossa única gravação. Para entregar à comissão censo-julgadora, a banda e música tinham que ter seus respectivos nomes, então improvisamos Filhos da África e seu Blues para Nambrusca. Resultado: fomos vetados, a letra provavelmente não passou e a música tinha muitos solos, ridículo, isso. Fomos assistir à final, bandas ruins, letras ruins, riff's toscos feitos por gente que não sabia tocar, tampouco sentir a música, bateristas pareciam macacos, um horror (ui). Mas ah! Ano que vem, eles que nos aguardem!

Filhos da África vieram para ficar, e eles não tocam reggae!

Blues para Nambrusca, a demo original se encontra neste post e ao lado para quem quiser ouvir.



domingo, 2 de novembro de 2008

Profundissíssima Analogia Terçafeiriana

Calmaria, somente o comum de acontecer numa semi-nublada tarde de terça-feira. Arrumo o quarto, (eu fora intimado a desenterrar tudo que estava sepultado em meu baú para inutilizá-lo e despachá-lo para nunca mais ser visto dentro dessas paredes, não vou me prolongar averiguando os motivos). Já o haviam levado. Coisas pelo chão, papéis que me remetem anos atrás, papéis. Tranqueiras que por puro sentimentalismo guardo, mesmo tendo a consciência de que nunca as usarei. Bugigangas, resquícios de minha infância, alguns dinossauros de plástico, revistas antigas, uns poucos CD’s autografados, desenhos, trabalhos de quando minha mãe desenhava, ou melhor, estilizava, não sei o que fazer com isso agora. Pior, todos esses objetos do baú trazem impregnados à sua superfície algum valor sentimental, por mais patético que seja, o objeto ou o sentimento. Numa grande metáfora sou um lobo, e este baú fez parte de minha palha interior, minha entranha sem vida, eu já não usava mais nada dali, palha, portando, de um lobo empalhado. Entretanto, neste momento, a olhar tudo que estava trancafiado livre, respirando, tão contemporâneo a mim, sinto o terrível mal-estar do bisturi no umbigo do lobo, agora murcho, despalhado. A palha, muitas vezes é indesejável, repudiada, mas dá o suporte para o lobo permanecer ereto, ela é o fado, é necessária, fatal.
O Indissímulável.
As árvores se mexem, um ruídão ecoa, folhas e pássaros cedem, voam, alguns involuntariamente. Ouço o som, o motor sobre nossas cabeças, não o vejo. Penso em subir no telhado, só penso. Ele retorna, um helicóptero policial. E eu, com meus papéis à mão, somente observo. Procura algo, está nítido devido às nuvens claras no céu que contrastam com o seu metal negro. Sinto como se tudo estivesse ordenado, correto, a despretensiosa calmaria pós-segunda-feira. Não obstante eu numa tentativa de reunir a palha espalhada pelo cômodo, afinal, ninguém gosta de observar suas vísceras, e eles, procurando provavelmente sua palha, palha do ofício, palha de suas vidas, (palha esta que há algum tempo também estivera à procura de sua própria palha, e, muito provavelmente também, a achara). Após voltear interminantes vezes o redor desta verde-amarelada paisagem, estabelecemos contato visual, eu de minha janela, e eles do helicóptero. Por um instante o tempo pára. Espero um sinal de que realmente me vêem. Mas o segundo se tornou outro, na velocidade em que os segundos se tornam outros segundos, e o helicóptero continuou a sua busca. A paz desta terça-feira aos poucos voltará, sei, mas aqui, com meus papéis, entranhas à mostra, ao som da multicolorida tropicália, sinto um seco vazio verde-amarelado. Um lobo desempalhado.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

When lights are low

Eu costumava ter um hábito pouco saudável de cleptomania quando alcoolizado. Lembro de que um dia num pub, enquanto esperava na fila do banheiro, vi uma porta entreaberta, levando para uma estreita sala. Lá dentro, uma pia com luvas de borracha em cima, alguns armários e um freezer. Estiquei-me sorrateiramente e abri o freezer. Só havia sacos de gelo, então peguei as luvas de borracha e pus no bolso. Sim, luvas de borracha.

Outra vez estava em uma boate e, num canto escuro, havia um casal encostado contra uma espécie de bancada, com sua mesa e bebidas à frente. Sobre a bancada repousava um maço de cigarros. Em um momento de distração do casal, dei mais uma esticada sorrateira com o braço, peguei o maço e coloquei no bolso. E eu não fumo.

Nesse mesmo lugar, mas em uma noite anterior, tocava um DJ virado para a pista, que ficava ao seu nível, e por detrás podia-se passar livremente. Ele tocava vinis, e às suas costas havia duas caixas de metal lotadas de discos. Novamente sorrateiro, puxei um LP sem nem saber de quem era e escondi debaixo da camiseta. Passados alguns segundos – ou minutos, não tenho certeza -, puxei outro e fiz o mesmo. Saí de lá com dois discos ocultados sob minha camiseta e um xale que pegara emprestado no fim da noite (sem eufemismo, foi emprestado mesmo). Por causa do frio, não pelos meus improvisos criminosos. E os discos eram muito ruins.

Após um período determinado a não reincidir esses vergonhosos delitos (“Você ainda vai apanhar”, avisam), tive uma leve recaída. Estava no fim de um show, e horas depois de “encontrar” uma bela caixa de cigarros quase vazia, feita de metal, fui ao local onde tocava o DJ que fechou o evento. Sobre sua pick-up estavam objetos que, segundo ele, as pessoas lhe jogavam. Um boneco do Chaves, outro do Super 15 (lembram?), entre demais coisas. Sem nem pensar, enfiei o Super 15 no bolso e saí andando.

Juro que nunca mais repito esse tipo de bobagem, mas era o Super 15!

sábado, 25 de outubro de 2008

O Choro no Vaso - IV

Seu passado não lhe comprometia em nenhum aspecto, tinha a ficha limpa, não fizera nada de interessante durante a vida, aprendera a ser doente. Tossiu, e num gesto gerado pela crise não soube onde colocar as mãos, tropeçou em si mesmo, caiu no chão e, grunhindo, rolou por seu escritório como um verme expelido rola na agonia do novo. Tosse... dor... suor... latidos, membros descontrolados, entrelaçados batidos, ghinchos de dor, as unhas quebradas, as mangas rasgadas, suor, tosse saliva, fonemas gemidos, braços indecifráveis, olhos tortos voltados a si, barrigas ao chão, uivo de rojão. Amnésia repentina.

Ele trabalhava sozinho, podia fazer o que bem entendesse no local de trabalho, fato que facilitou a grande quantidade de pernas abertas cima de sua mesa. Sua mulher tivera conehcimento de algumas, porém não se importava, casara-se com um conveniente por pura conveniência. E de empregados somente a diarista, que não estava presente durante o surto. Imóvel há tempos, e ainda apoiado no chão olhou ao seu redor, uma completa desordem, papéis amassados decretavam alforria pelo cômodo. Num instante de lucidez mirou o pulso, “seis e meia”, em uma quinta-feira comum já estaria em casa. Pegou o jornal, que começara a esfacelar-se num canto, perto da poltrona, que parecia molhada com algum líquido desconhecido, deveria ter derrubado algo, não se lembrava. Agrupou suas tralhas e desceu cambaleando ao estacionamento onde o carro se encontrava. Sentou-se, tossiu, arremessou suas coisas ao banco de passageiros. Tosse, deu partida, cólica, suor. Tosse.
Mais nada.

Tivera uma infância bela, sem grandes traumas, trepava em árvores com amigos, e juntos faziam travessuras, matavam aulas e apanhavam depois. Com a doença tudo mudou. Época de aleluias, de reprodução das aleluias, aqueles cupins alados que rodeavam todas as lâmpadas da cidade, confusos com a luz, davam um ar singular à quinta-feira. Chegou em casa, as crianças brincavam no chão da sala, a mulher preparava o jantar, beijou-os, tossiu um pouco. A mulher estranhou o fato de ele ter chegado tarde, suado e diferente dos outros dias, se estivesse com outra, traria um sorriso patético no rosto. Ele não era um bom mentiroso, ela o amava. Foi ao banheiro ver sua aparência, que era das piores num momento como aquele. Com uma mão sobre o estômago e o jornal sob o braço direito, roçou a mão direita na barba, “que merda”, suspirou. Viu no espelho o reflexo do vaso, tão branco, tão limpo, tão puro. Sem entender muito bem a situação, começou a tremer, virou-se faroesticamente, encarou o vaso. Com as mãos trêmulas e incertas, curvo e ainda com o jornal sob o braço, arrancou o cinto, e depois cada botão de sua calça num estranho ritual. Com o olhar em desfoque e resplandecido, sentou-se no vaso calmamente, ninguém lhe tiraria aquele prazer de sentar-se ao vaso, estava em êxtase, orgasmando. Abriu o jornal, franziu as sobrancelhas, pensou na mulher, nas amantes, em seus filhos, em seu passado, em sua tosse.
E chorou. Chorou como nunca havia feito antes, chorou como nunca chorara no colo de sua mãe, e feito um bebê, soluçou e acabou-se num profundíssimo e angustiado choro. O jornal, derretido por lágrimas, esvaiu-se junto com a cólica, enquanto o choro permaneceu, cada vez mais, com a paz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Cool blues

Quando eu era menor, comia pipoca doce, daqueles saquinhos rosa. E a coisa mais interessante das pipocas doces era que, a cada cinco que eu comia, quatro eram murchas e com gosto de isopor. Dessas, só uma era mesmo doce e crocante. Para achar esta, precisava comer as outras quatro ruins.

A vida é mesmo um grande saco de pipoca doce.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Choro no Vaso - III

Ele dormia bem, religiosamente oito horas diárias, a rotina sempre o acompanhou, mantinha relações com sua esposa e amantes frequentemente, saciando assim sua condição de homem. Era presente no lar, muitas lições os filhos aprenderam com ele. Culto, aprendera com um antigo professor a ler e ouvir bons discos, o resto vem com a prática. O lanche descera bem, a fome se acabara. A conta veio junto com o café, pagou, deixou umas moedas à garçonete, que como toda garçonete de café deveria manter lindas, lindas pernas, como era o caso dessa, até se esquecera da vitrine com os doces e da dor, ao vê-las. Num gole, o expresso desceu como lava. Pensou que, com a dor, todos os fogos de artifício da comemoração do ano novo chinês estivessem explodindo em seu sistema digestório. Apanhou o jornal sem firmeza nas juntas e saiu curvado do café. Tosse.

Considerava-se um bom sujeito, tinhas fraquezas e virtudes em igual massa na balança, nunca fizera mal unicamente por maldade. Percebeu que andando a cólica se acentuava, então pôs-se a correr, correu como um louco, como se estivesse fugindo dos males desprendidos por Pandora, e na verdade, tais males sintetizavam sua dor, fugia de sua dor. No escritório, lançou ao ar todos seus papéis, e procurou frenético por um LP em seu armário. Ao achar, encarou-o. "Mingus me entende, Mingus me entende", disse. Com uma mão ocupada segurando o LP e a outra contra o estômago, finalmente o pôs para tocar. Suado como um maratonista, sentou-se à cadeira, apertou mais as mãos em direção ao estômago e fechou os olhos. Lá permaneceu, tenso, até a última faixa se perder no tempo. De nada adiantou, seu disco preferido e que lhe tinha curado, por efeito placebo, está certo, todas as tristezas passadas somente acentuara seu fogo interno. Pensou que estava encarnado, possuído por alguém com intenções malígnas, mas logo repreendeu a transcendência, era cético e esquecera-se. De somente crer na dor, os céticos sofrem mais que tudo. Estava mesmo era ficando louco doido varrido de dor.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Choro no Vaso - II

Dada a hora do almoço, saíra à rua em busca de algo que não lhe fizesse mal, não comeria no mesmo lugar de ontem. Dor, muita dor, como estava a pé, não aguentou, acabou-se de cócoras em frente à seção de jornais de uma banca para não ser mal visto. Permaneceu lá durante uns dois minutos. Tossiu, a dor agravou-se, gemeu discretamente. Abriu o primeiro que encontrou, leu algumas palavras aleatórias, achou-se nos óbitos, susto, não passava de um homônimo. Viu uma gota de seu suor misturar-se às letras da imprensa, a dor tornara-se, enfim, suportável. Levantou, resolveu pagar o jornal que compartilhara com ele a penosa sensação.

Já com o jornal em mãos, olhou para trás e viu um café, um romanticíssimo e simpático café, nunca prestara atenção no estabelecimento antes daquela intragável situação. São nesses momentos, estranhos, que nos surpreendemos, por não esperar mais nada. Entrou no café: bolos, bombas das mais variadas espécies, doces tradicionais, pudins, quindins, a perdição encontrava-se atrás do vidro. Todavia, a dor o acompanhara, resolveu sentar-se, sapiou o cardápio do dia escrito em gis branco numa lousa. Preferiu o lanche simples acompanhado de expresso. Olhava de olhar baixo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Choro no Vaso - I

Digo que escrevi este texto na tarde de sábado e dei a finalização na noite de domingo desta semana, ficou um pouco grande para postá-lo inteiro, para tanto, tive a idéia de publicá-lo folhetinescamente. Espero que gostem.

Era uma quinta-feira. Uma quinta dentre todas as outras quintas-feiras vividas, pacatas, doentes. Tinha tosse. E esta quinta-feira não poderia ser de outro modo, acordara com dores nas articulações, as quais pioravam conforme as quintas-feiras. Tomou o café, café forte, como ele. Sentia-se um bravo, vencera na vida, casara-se e tivera filhos e amantes. Não amava sua mulher nem suas amantes, apenas gostava dos filhos. Possuía um corpo aparentemente saudável, não tolerava médicos, já lhe bastaram os da infância, acusavam-no de que viveria pouco, pouco, pouco. E ali estava, vivo, aprumando-se para o trabalho, este que por conveniência arrumara com um amigo, de favor. Era um conveniente, conveniente e conformado.

Quinta-feira, acordara com dores nas articulações e uma cólica icomensurável, digna de nota. Achou que sua cama se transformaria em seu leito de morte, mas não relatou à sua mulher, por medo talvez, não gostava de transparecer suas emoções. Gemeu. Levantou-se. Angustiado, tomou o café - forte como tinha de ser. Ordenou suas quinquilharias diárias, foi ao quarto dos filhos, beijou-os e saiu. A cólica piorara, caminhou até o automóvel, sentou-se, deu partida, gemeu. Bateu três vezes com a cabeça no volante segurando com força a barriga, repercutiram três sons de buzina, tossiu três vezes. No escritório nada de novo, papéis, papéis, papéis, era o que faria até morrer. "Até hoje", pensou.

Continua.

domingo, 28 de setembro de 2008

Tudo vira bossa

Temos a estranha e irritante mania de generalizar. Nem me dei ao trabalho de buscar algum exemplo, eu não conseguiria, acabaria generalizando, sabe. De acordo com Jobim: assim como o jazz (inicialmente jass, com a Original Dixieland Jass Band, e com a pronúncia distorcida por tupiniquins ferrenhos, dizem jáis, aliás, assunto este que rende outro post, ou pósti), que para o gringo, mais precisamente o norte-americano, tudo quanto é batuque, suingado é jazz, sem restrições. E, a generalizar os regionalismos internacionais temos o Acid Jazz, o Latin Jazz (!), o Nu-Jazz, Cape Verdean Jazz, o Afro Beat (salve Fela!), o Afro Cuban Jazz, o Brazilian Jazz (!?) e por aí vai. Não contei as mudanças naturais que toda manifestação cultural adquire ao longo do tempo, nem as primeiras variantes que realmente surgiram de sua localidade e de seu rítmo - que por si só compreendem numa maleabilidade enorme - englobando aos miúdos influências de fora, tipo o West Coast, ou Cool Jazz, como quiser você. E no Brasil o buraco não é nem mais embaixo, nem mais pra cima, a bossa nova é uma língua morta, triste verdade. De nada adianta resgatá-la, mascará-la, reestruturá-la (difícil, difícil), mudar o sufixo ou incorporá-la a outros ritmos pré estabelecidos. Já houve, não mais hoje. Embora eu, nostálgico assumido, não tenha perdido (ainda) as esperanças de encontrar um pupilo de Joãozinho por aí. Os antropófagos viraram vegetarianos, o rei está animando cruzeiros e órfãos disso tudo andamos por aqui.

Um adendo: post dedicado à Duda, leitora e amiga.
Outro: o semi-andergráunde que perambula cá por estas ruas é digno de vergonha.
Uma pertinente observação: essa nostalgia exagerada é uma merda².
E uma errata: sobre os antropófagos, esqueci de que Tom Zé ainda está vivo, o único e atemporal antropófago de si mesmo.

One of these mornings

Há raros dias nos quais, por maior que seja a fadiga, evito deitar-me e dormir até onde consigo. Parece que, ao adormecer, as emoções todas vão ser processadas e esvair-se para sempre, como num puxar de válvula, e acordarei vazio, vazio.
Daqui alguns anos eu talvez já tenha me esquecido; queria tirar um retrato para lembrar, seja quando for, de como são meus olhos hoje.

“Se pudesse, guardava tudo numa garrafa e bebia de uma vez.”

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Pride and prejudice

Meu estimado amigo Pedro (vulgo Maranhão), colega de inglês, escreveu há algumas semanas uma redação em um simulado. Uma das propostas a escolher era redigir uma carta a um rapaz chamado Greg, dizendo suas impressões sobre o livro Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), de Jane Austen. Pedro, no ápice das emoções que uma prova num sábado de manhã pode causar, entendeu que deveria dar sua opinião sobre duas garotas – Pride e Prejudice –, e mandá-las ao tal do Greg. E ainda assinou como Jane Austen.
A redação não está corrigida. Deleite-se, leitor.

Dear Greg,

Thank you for writing me. I think I feel more sympathy for Pride. I’m not sure why, but I don’t like Prejudice very much.
Differently from Prejudice, a boring and tired person, Pride is an energetic, funny and beautiful girl. She is very funny and is always telling jokes to make people around laugh. Prejudice doesn’t like jokes, but she is a very hard working woman.
Pride goes out with me to parties, and we are always the last ones to leave, because we keep dancing during all the party.
Furthermore, she invites me to have lunch at her house, and Prejudice never invited me. I think now I know why I prefer more Pride than Prejudice.

Do drop me a line,

Jane Austen

domingo, 21 de setembro de 2008

Cool struttin'

A grande chateação desse mundo é que todos, de repente, viraram poetas, loucos, malditos, vagabundos, boêmios, adestradores de caranguejos, críticos de qualquer coisa, blogueiros, viciados em babaquices, bipolares e artistas. É a idade na qual se tem certeza de que tudo aquilo feito com “liberdade” é bom, bonito e sensível. Quando a vida passa a ser um amontoado de situações supostamente geniais, brindadas sempre com a frase perfeita e a poética ideal, tal como o filme do Cazuza.


- Cazuza, você quer um pedaço de bolo?
- E o que é o bolo senão o brilho dos olhos da musa, a fagulha preciosa e desperdiçada de beleza?
- Ah tá.


Não falta poesia nas coisas. Ela está lá, mas para ser vista só de vez em quando.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

One of these days

Nos velhos tempos, pensava-se que o coração mandava no corpo. Certamente era porque parecia ser o único órgão que, para o conhecimento da época, nunca parava de funcionar.
Sabemos hoje que é o cérebro quem comanda tudo. Ou não. Um professor certa vez me disse que o corpo inteiro está sujeito às vontades de uma única coisa: a merda.

-x-

Sábado passado estava com meu irmão e uns amigos em um show, num teatro em Belo Horizonte. Eram duas bandas e, no intervalo entre as apresentações, fomos para fora tomar alguma coisa. Eu estava com fome, como de costume, e fui até o pipoqueiro logo à frente do teatro comprar um saquinho de pipocas. Poucos minutos depois, já havíamos dilacerado o pobre saquinho, e Sávio (um dos rapazes que lá estava) foi comprar mais um. Após alguns instantes, o pipoqueiro estava descendo a rua, correndo como quem foge da polícia, sumindo na escuridão. Sávio, num misto de surpresa e riso, disse que o vendedor falou para ele mesmo servir-se, pegar seu troco na gaveta do carrinho e fechá-lo, pois precisava “falar com o fornecedor”. Passou a mão em alguns saquinhos vazios e saiu em disparada.
A única conclusão a qual conseguimos chegar, com o perdão do termo: o cara foi cagar.

Era sábado à noite, um show com boa platéia, o humilde trabalhador estava suando para ganhar seu dinheiro. Entretanto, sem sequer levar em consideração se tinha aluguel para pagar, se tinha mulher e filhos para pôr comida na boca, sem mesmo pensar na parcela do carro que comprou em sessenta vezes, ele largou afoito seu ganha-pão nas mãos de desconhecidos e foi cagar.

Certo estava o professor: a merda definitivamente manda em todos nós.



*Este humilde post é dedicado a Richard Wright, fundador e tecladista do Pink Floyd, falecido na última segunda. Uma das bandas que se apresentou no show citado foi um cover de Pink Floyd, e há quem diga ser uma grande coincidência. Eu acho uma lástima.
Shine on you, Rick.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Saguis refugiados no quintal

Vou contar meu drama, não que seja uma drama propriamente dito, para mim é um drama, um super drama, um dramalhão, uma moléstia. Moro num condomínio de chácaras, até aí tudo bem, qualquer um pode morar numa chácara, criar galinhas, porcos, gansos, tucanos, macacos, abrir poços artesianos ilegais, achar petróleo ou até ter cães. No entanto, o problema reside ao lado. Não ao lado de minha chácara, nem ao lado da chácara vizinha. Mais ao lado. Ao lado do condomínio existe uma estação de tratamento de lixo. Sim, também não há problemas, contanto que o lixo não sintetize aquele fétido azedume ao qual já estamos acostumados a sentir passando por perto de bueiros alarmados pelas enchentes, tudo bem, até aí tudo bem. E o problema tampouco se encontra nos urubus, pobres carniceiros, e que é absolutamente normal vê-los rodeando corpos putrefatos que de quando em vez aparecem, ou mesmo o lixo, que seja, até aí, cacete, até aí tudo bem! O problema está nas árvores.
-Arvores?
É, não nas árvores, mas nos ENERGÚMENOS que resolveram cortá-las e queimá-las não sei porquê. Aconteceu há cinco meses, e ainda hoje convivo com um incêndio - que se diz controlado - e que dura cinco carbonizados meses. E nós, aqui do outro lado do muro - morremos em doses homeopáticas inspirando esse ar, que causa tosse à mais saudável e disposta criança - já saímos de cima do muro há tempos. Os moradores já realizaram um abaixo assinado (é sempre a primeira alternativa, nunca aprendem, esses tolos), tiraram fotografias, chamaram a polícia que olhou e só olhou, bombeiros dizem já estar controlado. Nada. Detalhe para a umidade do ar abaixo dos 10%, estado de emergência, este insuportável calor já relatado por Tomas no post abaixo, e essas brasas que não cessam. O próximo passo será a imprensa. Imparcialidades à parte (trocadilhos, trocadilhos, não vivo sem eles) me diga, de que adianta um Wilson Toni aqui na pista, em forma de passarela?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A panela do diabo

Está quente, muito quente. O ar não é próprio para respirar e é impossível percorrer um quarteirão sem acabar suado. O calor é tamanho que o demônio deve estar pelos arredores. Faz sentido, não? Por isso proponho uma atividade para tornar essa temperatura absurda no mínimo suportável: a caça ao capeta. Seria uma gincana na qual grupos previamente organizados sairiam pela cidade à procura do coisa-ruim. O grupo que o encontrasse primeiro ganharia um aparelho de ar condicionado por membro. Como Satanás é uma criatura de mil truques, certamente deixaria pistas pela cidade, para ao menos se divertir às custas de seus caçadores arfantes.
O diabo está em Ribeirão Preto, esta imensa panela de pressão à chama de um fogão Brastemp, cozinhando-nos – os feijões-habitantes – para o almoço. Vamos encontrá-lo! À caça!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dar valor às coisas pequenas da vida

Que horror isso, não direi que discordo, mas também não concordo. Ok, dizem que é importante e tal, para sermos felizes e tal e tal, aquela coisa hedonista, carpe diem, e tal e tal. Puta papo chato e pobre. Cotidianismo, essa é a verdade, as pessoas poderiam manter uma postura mais natural, sem romantizar, e realmente relevar as coisas pequenas, intrínsecas ao ser vivo, que a vida nos proporcionou. Não falo de comer moranguinhos presos aos dedos. Não tão lúdico, por favor. Temos de sentir a água gelada descendo goela'baixo, num seco dia de sol como os daqui, em Ribeirão. E do mesmo modo, com a mesma intensidade, sentir a mesma água que outrora estava no corpo, sair do mesmo. Sem tabus, leitor, já pensou sobre a importância de excretar? Olhe que maravilha. Eis o cotidiano, atitudes às quais estaremos sempre presos, valorizar cada mordida, suada, corrida, peidada, sexada. De resto, são fatos incertos ou plenas ilusões. E, se a idéia não lhe agrada, desculpe-me, tive de usar o blog para excretá-la.

E você:
-E o amor? Seu insensível!
-É bonitinho, está certo, mas acaba
em excremento.

domingo, 31 de agosto de 2008

O banho

Dizem que demoro muito nos banhos. Hei de explicar melhor ao longo do post, acompanhe-me.
Eu, no auge de meus problemas existencialistas, muitas indagações e retóricas pessoais acompanham-me nas subidas e descidas pela estrada afora. Penso na vida, penso muito, queria pensar menos, ser mais estúpido talvez, seria mais satisfeito, por conseguinte, mais feliz. Mas isso é outra discussão. Voltando ao ponto: penso muito, mesmo sem tempo de fazê-lo. Aliás, penso demais, invento problemas, os catalogo e guardo em gavetas de proporções elefânticas para depois resolvê-los e assim, ficar satisfeito com as gavetas organizadas, mesmo sabendo que elas não existem, e poder criar outros mais e mais outros. Contudo, a questão é: por que eu, iludido que sou, os crio - ou melhor - faço uma hipérbole deles, até extrapolarem as sete cabeças? Mas o banho, vamos ao banho. A água é uma grande catalisadora de ídéias, acima de tudo. E o ambiente etéreo, ensopado, embaçado, esnsaboado, x-ado ajuda por demais. Esses problemas - utópicos ou carnais - acho que eles têm medo d'água! Ou do banho! Sim, pois é durante o banho que consigo estrangular o tal bicho de mais que sete cabeças. Agora o porquê, não me pergunte, talvez seja por osmose.

sábado, 30 de agosto de 2008

Denver

A liberdade é a coisa mais bela e ilusória que já inventaram. Todos almejam o dia em que serão livres de alguma coisa: dos pais, da escola, do chefe, dos filhos, e por aí vai. Contudo, muitos quando alcançam essa tão sonhada condição não têm a menor idéia do que fazer com ela.

-x-

Em determinado momento de On the road, Dean está passando um tempo na casa de uma mulher chamada Frankie, mãe recentemente abandonada pelo marido, cujo sonho é comprar um carro. Ela economiza há anos para isso, e Dean a ajuda a escolher o modelo. Depois de tanto esforço e planejamento, enfim vão os dois à loja, e lá está o carro, um calhambeque (lembrando que o ano é 1949). Era aquilo o que ela queria, aquilo de que precisava. Porém, na cara do vendedor, Frankie fica receosa de acabar com suas economias e desiste. Dean sai pela rua revoltado, senta-se na calçada e a xinga enfurecidamente. Diz que assim são os caipiras: quando estão frente a frente com o que desejam, ficam histéricos e amedrontados. Nada os aterroriza tanto quanto o que mais anseiam.

-x-

Um dia, numa terça feira, estava na escola e, desde que chegara, não me sentia bem. Febre, dor de cabeça, essa frescura toda. No entanto, fui embora só no início da última aula. Saí ao ar quente do fim da manhã, véspera de feriado: estava livre. Meu pai, porém, demorou uns vinte minutos para me pegar, e fiquei esperando parado na rua, respirando e expirando o calor. Aí está: eu era livre, mas não tinha muito o que fazer com isso.

domingo, 24 de agosto de 2008

The meaning of the blues

Talvez muitas coisas dêem errado exatamente pelo fato de as pessoas acharem que têm de funcionar para sempre. Os relacionamentos, os laços, a vida: começa-se tudo como se nunca fosse ter um fim. A expectativa só destrói.
Ou quando alguém diz que foi casado por tantos anos e se separou, por isso o casamento não deu certo. Ora, só porque acabou significa que não deu certo?

A coisa que mais durou e ainda dura em minha vida, tirando o amor pela minha pelúcia do Chewbacca, é uma bermuda de basquete que comprei há sete anos e continua excelente para passar os domingos, embora já faça algum tempo que não chega nem aos meus joelhos.

-x-

Continuo com o péssimo hábito de falar das pessoas como se não fizesse parte delas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

The fool on the hill

Há muitos anos, saiu nos jornais a história de um homem que vivia isolado, sozinho numa caverna na Itália. O eremita levava a vida por lá, indiferente ao mundo e às pessoas. Tão alheio que a guerra começou, terminou e ele não se deu conta. Permaneceu afastado e perfeitamente imóvel.
Quem sabe estivesse aborrecido dos outros; talvez percebera que merecia mais atenção de si mesmo. Afinal de contas, estar sozinho é tão importante e fundamental quanto estar acompanhado. Se não é boa companhia para si mesmo, será boa companhia para quem?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Índios

Costumava ser mais difícil fazer arte. Nenhum erro era tolerado, a platéia vaiava mesmo. O músico estudava anos para criar e executar com perfeição; o poeta calculava suas rimas para caberem na métrica. Mas aí inventaram os blogs e as revistinhas de cifras, e qualquer babaca escreve ou toca um sol e lá menor.
Artistas saem de suas bandas e logo fazem um tanto de coisas diferentes em suas respectivas carreiras solo, que são certamente uma das coisas mais nocivas da música. Afinal, pior que uma banda ruim são cinco músicos vindos de uma banda ruim, com sede de fazer mais coisas ruins. É matematicamente crítico: cada um tem três projetos de criar um som meio assim, "bebendo da fonte do psicodélico, desde o choro e demais raízes brasileiras, passando por Miles Davis e com pitadas de indie rock, sem esquecer a influência dos Beatles e do britpop”. Tudo desculpa para continuar no sol e lá menor.
Chega a ser claustrofóbico pensar onde colocam toda essa porcaria. Será que algum dia vão bater à minha porta perguntando se eu tenho um quartinho, um banheiro de empregada que seja, para guardar um pouco do estoque do novo disco do Arctic Monkeys?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ampulheta

Velho? Eu? Que nada, estou na flor da idade!
Todavia, a areia desce sem sequer percebê-la.
E é nos outros que vejo minhas próprias rugas.

Feliz dia da Arte. ui

Right off

O mundo é um lugar triste e desigual por causa das coxinhas. As coxinhas são salgados egoístas, cheios de si, uma querendo ser melhor que a outra. Há diferenças abismais entre uma coxinha de um Frango Assado, por exemplo, para uma de um posto em Formiga. A surpresa ao pedir e morder uma destas é encontrar óleo suficiente para fritar mais dez delas. Um recheio de frango cru, um colorido artificial. O catupiry – o mais traiçoeiro de todos – lembrando shampoo misturado com leite de texugo. A coxinha é, por si só, o ápice do contraste.
O mesmo não ocorre com os espetinhos. É possível encontrar um espetinho razoável em qualquer lugar. Claro que pode estar um pouco duro, mais frio ou mais velho, entretanto são todos consumíveis com uma coca gelada. A vida com o espetinho é mais justa e correta do que a vida com a coxinha.

-x-

Outro dia, em uma parada numa longa viagem, às duas da manhã, num posto em Itaú de Minas, desci naquele frio absurdo e pedi ao atendente um café. Ele, solícito, pegou uma jarra de alumínio e despejou dela o dobro do café que deveria no copo americano (lagoinha, o verdadeiro café de posto), e levou-o ao microondas. Segundos depois, recebi um café requentado pela preguiça de se coar um novo aquela hora da madrugada, e ainda levei uma cara de cu de brinde. Tomei num gole só e voltei correndo para o ônibus, levando o brinde comigo por mais tantas horas de estrada.

sábado, 9 de agosto de 2008

Estudo sobre a ironia: Na Fila

- Seu pai disse que é aqui no distrito que tira.
- Não sei não, hein.
- É, tem que perguntar.
De dentro do carro:
- Seu guarda, sabe se é aqui que tira o título?
- Ah, faz dez anos que não é mais aqui. Agora é ali do lado da prefeitura, sabe? Segue por aqui e vai, vai vai.
- Ok, muito obrigado.
10 minutos
- Nossa, como ele estava informado, hein.
- É, não são só os sapatos dele que são velhos, hahaha.
- Ei, mãe, acho que é por aqui, não é não?
- Não sei, só entrando.
Pegaram a grande fila com os tipos mais que inimagináveis de gente, instintivamente.
- Ih, são várias filas, vá se informar, pergunta praquele guarda ali da porta que a gente fica aqui.
- Por favor, é aqui que tira o título de eleitor?
- É sim, e é o último dia, está sabendo, né?
- Estou. Mas como faz? São várias filas...
- É por bairro.
- Ah, sim, obrigado.
3 minutos
- Gente, é por bairro, não deve ser aqui.
Perguntou ao senhor da frente, o qual o bigode lhe cobria parte do rosto, exacerbado que era:
- Por favor, que bairro é essa fila?
- Eu sou do Vila Madalena.
- Obrigado.
- Por nada, garoto.
- Estamos longe, tem uma recepção ali, parece estar meio abandonada, mas não custa tentar, esperem aqui na fila.
15 minutos
- Ó, ele disse que é subindo logo ali, naquelas escadas.
Subiram os três em fila, a tal da escada, de tão minimamente apertada. Entraram num cômodo claustrofobicamente miúdo onde mulheres que passam pelos quarenta trabalhavam, carimbando buracraticamente vidas alheias. Escreviam, Comiam, rasgavam, fumavam, gritavam, esbaforavam, gargalhavam, grunhiam, relinchavam. Fila.
10 minutos
- Mata santa tereza é aqui?
- Não.
- Onde é?
- Descendo.
- Ok, muito obrigado.
- Vaca.
- É mesmo.
Desceram, repetindo o processo.
- Vamos parar nessa fila, se for ela, estaremos no lucro. Vou perguntar na recepção de novo, quem sabe aquele mal amado já não esteja mais lá.
9 minutos
- O homem é fanho, me explicou tudo certo, só que não entendi nada de nada. Como podem colocar um maldito de um fanho na recepção? Me diz!
- Não tenho certeza, mas acho que é aqui mesmo. Olha a sorte... Mais pra frente tem um cartaz com os bairros dessa fila, vou dar uma olhada. Cuida da sua vó.
2 minutos
- É sim!
- Ah, mas essa fila está muito grande, e parece que são duas... Ou ela dá a volta, não dá pra ver direito.
- Vamos ficar, você precisa tirar o título. Hoje.
5 minutos
- Gente, não posso mais ficar, tenho que comprar o presente do João hoje ainda, dixa que eu vou de ônibus.
- Não, mãe, eu te levo.
- Não precisa, fica com ele aqui, não tem problema.
- É, vó, essa fila pode ser rápida.
E foi-se ela, mesmo com a dupla insistência.
14 minutos
- Olha essas moças da frente, são grandes né.
- Mãe, você e sua mania de reparar nos outros... São enormes mesmo.
Uma alta, magra, rosto pontudo e quadrado, nariz chato e fino na ponta, pescoço desproporcional ao corpo, outra gorda, maior ainda em estatura, sem pescoço, dentes equinos, rosto arredondado e cabeça ligeiramente grande. Ambas de porte desajeitado, cabelos crespos e pele de sol. Vestiam-se como se tivessem 8 anos.
11 minutos
- Andamos um pouco, vai demorar.
A fila consistia em pessoas igualmente distribuídas em diferenças, assemelhavam-se numa única coisa: queriam ter as vidas carimbadas.
30 minutos
- Vocês são grandes, hein!
- É, hehahahê!, desabrocharam num riso ingenuamente puro.
- Nossa, tô com uma dor do cão, não tô aguentando esses saltos, e parece que vai demorar...
- É, hihihahê, deve de demorar..
- E eu tô com dor nas costas, fazer o que.
15 minutos
Um choro de bebê ecoou ao lado e logo inundou o ambiente de forma nauseante.
- Ah, não, não aguento esse choro, como eu queria ter um taco de beisebol agora. Imagine só?
- Pára, filho.
O choro persistiu.
- Ali ó, finalmente o cara deu um lugar para a mãe sentar com o filho, quem sabe ele acalma.
- Essas duas filas são pra que? - Perguntou a uma das grandes, que já estavam na segunda fila.
- Depois que faz o título tem que esperar ficar pronto.
- Tem de esperar mesmo? Eles não enviam?
- Acho que sim. Tem que esperar...
- Ai...
17 minutos
A porta se abriu e a mulher, que chamava pelos nomes dos que aguardavam na segunda fila, grita:
- Antônio, Antônio, Antônio!
O Antônio ressoava pelas mentes como paredes que se fecham gradativamente.
Uma outra moça com aparência de alguém um pouco maior que um anão, jovem, que aguardara nas cadeiras pela sua vez, apareceu desnorteada:
- Sou eu a próxima?
- Acho que não, ela chamou por Antônio... Bem, quer dizer, a não ser que você seja o Antônio.
Riso sem graça, exclamou que não e voltou aos bancos.
Antônio entrou. Alto, magro, desajeitado,
com um terno desleixado e suor escorrendo no rosto de brasileiro.
- MãeE, olha a merda que você fala pra moça!, exclamou baixinho.
- Ué, vai saber, ela podia mesmo ser o Antônio.
19 minutos
Já de cócoras, diz a mãe:
- Não aguento, somos os próximos faz vinte minutos...
A porta se abriu.
- Pode entrar?
- Não.
A porta fechou-se
.
- Mas que vadia, essa mulher.
- Vaca velha sem qualidade, como dizia meu pai, meu paizinho.
1 minuto
A porta se abriu, a mesma mulher disse com um sinceríssimo sorriso amarelo:
- Podem entrar, queridos.
- Obrigado, com licença.
O corredor já não era tão apertado, mas o cômodo parecia que comportava todas aquelas mesmas mulheres dos papéis. Falaram com uma delas.
- Oi, tudo bom? Título né. É só colocar os dados aqui, e me passar outros dados. Bairro?
- Ar, quanta demora né?. Mata Santa Tereza.
- Ih, minha filha, imagina eu então.
3 bu-ro-crá-ti-cos minutos
- Olha, é só aguardar. Pode ser aqui mesmo, o dele é rápido.
O lugar tinha uma certa hospitalidade, mesmo que irônica, mulheres eficientes, mal cuidadas e amadas trabalhavam ali, divertiam-se ali, viviam ali. A janela era grande, porém a vista da relva cinza e enfumaçada por automóveis que descontinuamente passavam por lá não era muito agradável aos olhos. O ar condicionado, enorme, berrava deliberadamente filtrando o ar do cômodo sem ar devido à fumaça dos cigarros que as pobres, pobres e com os pulmões defumados, mulheres expiravam.
Uma monotonia, ainda que hospitaleira, como disse eu outrora, pairava. Mas elas, grandes mulheres, continuavam a exercer a função que lhes foi impingida, função de carimbar vidas.
6 minutos
- Tudo pronto, muito obrigado.
- Obrigado eu, tchau.
- Tchau.
- Pessoa educada é outra coisa.
- Verdade.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Dancing in the dark

Mês de maio, domingo, Belo Horizonte, final do Paulista: Palmeiras e Ponte Preta. Churrasco e alegria com a iminência do fim do jejum de títulos. Sai o primeiro gol, sai o segundo, o terceiro. Sai o quarto. Tomás, o imbecil, no auge de sua felicidade, enfia o pé com força numa cadeira de plástico. Como se nada tivesse acontecido, continua com seus gritos e aquela bobagem toda que torcedores fazem. Passados mais alguns segundos, enquanto assiste ao replay, Tomás sente algo e olha para baixo: seu dedão do pé esquerdo está coberto de sangue.
Resultado: perdeu a unha.

Mês de junho, sábado, Cláudio (a cidade carinho), esquenta para a festa junina da cidade. Casa bonita, gente idem, Tomás resolve usar o celular. Percebendo que a bateria acabou, decide retirar o chip e usá-lo para ligar em algum outro celular solidário. Tomás, à beira de uma piscina cercada por uma estreita faixa de pequenas pedras, tira a bateria e, sem muita consciência de si, força o chip para que o miserável saia. O compartimento da memória externa do celular – um cartão minúsculo e escuro - está solto, e ela voa para o meio das pedrinhas. Mesmo após buscas, orientado inclusive por uma garotinha de uns cinco anos, nada de encontrar a bendita.
Resultado: perdeu a memória (do celular!).

Mês de julho, sábado, Casa Branca, próximo a Belo Horizonte, aniversário de um conhecido. Tomás está isolado, sobre a relva, falando ao celular (já com uma nova memória). Ao terminar, dirige-se de volta ao meio das pessoas. Entre ele e elas, há uma pequena varanda, com um “degrau” de umas três vezes o tamanho que um degrau deveria ter. Tomás, ao invés de contornar a varanda e chegar calmamente ao local, tenta subir o degrau. Sem apoio, escorrega e bate a perna com força no degrau.
Resultado: uma lasca da perna arrancada. Sangue, dor e uma possível cicatriz.

Oh, Tomás, seu estúpido.

domingo, 27 de julho de 2008

O contratado

É comum encontrar garotas que contratam famosos para fazer as honras em suas festas de debutante. Ou formaturas que se orgulham de ter chamado determinado global para fazer a recepção. No primeiro caso, a garota dança e tem sua noite de princesa com nada menos que seu próprio príncipe. No segundo, todos nós tiramos fotos com alguém que nunca encontramos e nunca mais vamos encontrar. E pagamos por elas depois.
É mesmo importante para a garota pagar para um cara atuar pra ela? Pode ser a maior maravilha para ela, e talvez para suas amigas, mas o que isso significa para ele? Não é triste depositar tanto em alguém que pouco se importa com você, mas com o cheque assinado após o serviço?
Então de que vale a prostituta? Depositar prazer naquilo que também apenas se importa com o dividendo? O ator é a prostituta e a garota o cliente? Vale a pena?
É muita retórica. Bom domingo.

sábado, 12 de julho de 2008

Pois leia se quiser.

Caro leitor, desculpe-me pelo subjetivismo do post, não é essa a intenção do blog. Na verdade é sim, afinal postamos aqui o que bem entendermos. Pois leia se quiser. O recado está dado, se quiser pode parar por aqui, não me vou esbravejar.
Sempre fui um sofredor. Vou sofrer até o dia de minha morte e me contento com isso, creio que o destino do homem é sofrer, seja por uma causa, amor, paixão, algum impulso incontrolavelmente infantil e imaturo, arrependimento, ou sei lá o que. Sou feliz, contanto que eu sofra. Não quero transformar esse post num masoquista muro das lamentações, muito menos num melancólico diário de auto-ajuda. Vamos ao ponto: estive arrumando a casa por esses dias e encontrei um gravador de meu pai, ele nunca usou, não sei se foi porque o gravador sempre esteve em nossas mãos ou porque não o quis... Engraçado, não foi um dia sofrível, mas eu falei algo ao gravador. E ele me ouviu, muito bem. Guardou todas as aporrinhações só para ele, ou para mim, à escolha do leitor. Foi uma grande revelação. Adoro revelações, assim como escrever às madrugadas, areja a mente. Vou falar mais ao gravador, alguns pensamentos, teorias cretinas, idéias geniais e pretenciosas, e sobre o sofimento também. É bom falar a troco do silêncio, do silêncio consigo mesmo. Da paz consigo mesmo;

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Jazz de Veríssimo

Fui ao SESC ontem à noite, prestigiar Luís Fernando Veríssimo e seu sexteto de cinco músicos, Jazz6. Divulgavam o último cd, “Four”. Eu estava down, realmente para baixo, tivera um dia intensamente cansativo, e nada me faria tão melhor quanto aquele breve momento. Estava com dor nas costas, nos olhos, nas juntas, aqui e acolá, contudo ao ver aquele cara de setenta e poucos anos afagando os ouvidos dos ali presentes com seu jazz (alguns pronunciam ‘jás’. Caro leitor, não me pergunte o porquê, isto é assunto para outro post.) ensaiado e com tanta jovialidade! Ao lado de seus companheiros, profissionalíssimos, diga-se de passagem. Sentia o lamento de cada bemol exclamado. Ah! Foi revigorante, sem mais dores, nem sono. No fim estavam a vender CDs (eu até compraria, se tivesse algum dinheiro nos bolsos). Destaque especial para “Se eu quiser falar com deus”, de Gil, e para o sotaque genuinamente gaúcho do baixista, haha. Uma dica, estimado leitor, ouça jazz. É melhor que Lexotan, é melhor que Red Bull.

sábado, 5 de abril de 2008

If I were a bell

Não ando com muito assunto para escrever. Aliás, tenho sim, mas sempre que aparecem, estou longe demais para colocá-los aqui.
Por isso, depois de muita reflexão, vi que não sou o único enganador. Todos somos uma farsa, ninguém tem muito o que dizer mesmo. Durante a maior parte do tempo, falamos bobagens sobre as quais não nos interessamos, desde os temas mais dispensáveis com o taxista e a vizinha velha no elevador até as colunas tapa-buraco no jornal. É tudo uma grande e infindável farsa.
Como foi dito naquele filme, sabemos ter encontrado alguém especial quando conseguimos ficar em silêncio por pelo menos alguns minutos ao seu lado sem nos sentirmos desconfortáveis.
Assim que deveria ser.

domingo, 16 de março de 2008

Ouvidos de taxímetro.

Desculpem pela estiagem de posts, vou compensá-los com esse textículo (trocadilho escroto)(hahah, não resisti, mesmo) que a madrugada permitiu-me tecer.

-Opa, beleza?

-Tudo certo, mermão.
-Amigo, me responde uma coisa, quanto sai daqui até o Leblon?
-Cinqüenta pau, o preço é tabelado.
-Muito caro, vocês taxistas exploram, hein.
-Acha que a vida tá fácil? Ainda mais aqui no Rio - gargalha num tom sarcástico que só eles dominam, taxistas - só tô eu aqui, é pegar ou largar, mermão.
-Tudo bem, não tenho muito tempo mesmo, nem pegar uma prainha eu vou conseguir, coisa rápida, sabe.
-Sei sim - o motor ecoa - Leblon né?
-É.
-...
-Olha, vou pegar aqui por essa avenida pra agilizar. Viagem a negócio?
-Mais ou menos. - Responde ele com ar libertino.
-Sei como é, acabei de voltar de férias. - Cerra as pálpebras e focaliza mais à frente. - Mudança de planos, vou desviar do túnel, vez em quando eles fecham lá por dentro, aí ferrou, compadre, assaltam todo mundo.
-Tá, pode desviar, é você que conhece a cidade. Férias, pra onde foi?
-Pode ficar tranqüilo. Fui pra uma cidadezinha a uns cem quilômetros daqui pescar, paraíso aquilo lá, mermão, paraíso - gotículas de suor debruçavam-se sobre o beiço feito um orvalho matinal.
-Pescar... Nem me lembro da última vez que pesquei. Quanto tempo ficou lá?
-Seis meses.
- Seis meses? Porra, você morou lá então.
-É, quase, fui ver a família também, que vive lá.
-E viveu como?
-Pescando, pai pescador. Eu nem tenho mais impressão digital, de tanto ajudar meu pai com as linhas, quando criança. - Ergue o dedão esfolado para o sujeito ver.
-Cara, cansei disso tudo, esse trânsito que acaba com a gente. Pra mim, essa é a melhor profissão que existe aqui no Rio, mas não tô aguentando. Eu tinha até trocado de carro, e semana passada roubaram meu amarelinho, tô puto, mermão, tu não sabe o quanto eu fiquei fodido com essa história.

-Ah...
-Sabe qual o problema do nosso país? Sabe qual o problema do Brasil? - Em frenesi, balbucia:
-Perguntei pra todos que já sentaram aqui do meu lado, e ninguém, até hoje, deu a resposta certa. E te pergunto.

- ...
-Não? Vou te dar um tempo. - Bate com furor no ombro do cliente, como se já o conhecesse há décadas.
- Concentração de renda?
-Não, não. Também, mas não.
-Cultural, cultura, sei lá, pô!
-Ah-ha, malandro! Perguntei isso pra todo mundo e é justo um veado de um paulista que me responde, esse país tá sem cultura, mermão, a educação, vem de baixo! É só olhar em volta, quanta merda. Tô pensando seriamente, mas muito seriamente mesmo, em largar isso aqui, tirar o sustento da pesca, viver a vida como realmente deve ser vivida, cansei de sofrer. Mas antes eu tenho um assunto pra resolver, só preciso de uns dias pra pensar.
-E teu Carr... ?
-Então, eu sei com quem tá o carro, a coisa é mais cabeluda do que você pensa, Essa maldita PM que pegou, trocou a placa e pôs pra rodar, e não foi só comigo, tem acontecido de uns tempos pra cá. Fico indignado, esses filhas de umas putas bem dadas que nos ferram, eles tinham é que proteger a sociedade, e fazem uma sacanagem dessas - abrindo os braços e largando a direção por uns segundos.
-Se na próxima semana você ver no jornal "Invadiram a delegacia e mataram delegado" você já sabe,
mas antes preciso refletir muito bem.
-E é fácil assim? - Nó na garganta.

-Nem imagina.
Silêncio reina por cinco segundos.
-É, o tempo tá fechando, tava um sol do caramba antes.
-Verão tem dessas coisas. Aí chefia, chegou.
-Pode me deixar nessa esquina mesmo. - Remexe os bolsos a fim de encontrar o dinheiro.
-Tá aqui, camarada, e vê se pensa direito nessa história, boa sorte.
-Opa.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Retorno da Tartaruga


Jussara.

Já vou explicar o título. Hoje, dezesseis do dois, a fugaz fugitiva do aquário de acrílico [preferimos fazer um de acrílico, pois assim ficaria mais resistente, (o de vidro fora estraçalhado pela cabeça de meu pai, que ficou vivo)] quebrado faz um tempinho já, foi finalmente achada. Ok, ficou bem confuso, hei de explicar de forma mais simples: achamos a fugitiva de Alcatraz, nossa tartaruga, um cágado, fugira quando o aquário de acrílico quebrou - uma bundada de meu pai que jogava pebolim perto dali. Ela estava conosco há 11 anos já. Vivem muito, as danadinhas. Ficamos de fazer um mutirão para procurá-la no terreno aqui, que é bem grande, fato que dificultava ainda mais a situação, mas sabe como é, fomos deixando pro dia seguinte. O tempo passou, já sabíamos que ela não estava mais dentro no nosso terreno. Minha mãe, inconformada com o desaparecimento, avisou todos os funcionários do condomínio, que só não deixaram para o dia seguinte porque havia dinheiro envolvido, hehe.
O porteiro disse que um jardineiro de outra casa pegou a fugitiva e levou embora, outro disse que uma moça de de uma casa do outro lado do condomínio havia achado um ser parecido perambulando por lá. O tempo passou novamente e, eis que hoje, acordo com a notícia. A caseira de uma chácara da rua de cima achou uma tartaruga andando por lá. Tive de ir lá pegá-la pessoalmente, eu não acreditava, já dizia o veterinário elas andam de três a quatro quilômetros por noite. Incrível! Depois de quase dois meses, nós achamos o cágado-perdido (que palavra, dá até nome de filme). Toda suja, peguei a Jussara, levei pra casa, improvisei um aquário num porta bebidas e coloquei-a no estranho recipiente.
Agora eu penso, nós já estávamos acostumados com ela lá, 11 anos querendo sair, conhecer, desbravar. Pobre tartaruga, olhávamos pra ela com indiferença, ela só comia, dormia e defecava. Agora eu sei, que com esse acontecimento, podem ter certeza que daqui pra frente as coisas mudarão na vida de Jussara.
Minha irmã vai passear com ela todo dia.