domingo, 16 de março de 2008

Ouvidos de taxímetro.

Desculpem pela estiagem de posts, vou compensá-los com esse textículo (trocadilho escroto)(hahah, não resisti, mesmo) que a madrugada permitiu-me tecer.

-Opa, beleza?

-Tudo certo, mermão.
-Amigo, me responde uma coisa, quanto sai daqui até o Leblon?
-Cinqüenta pau, o preço é tabelado.
-Muito caro, vocês taxistas exploram, hein.
-Acha que a vida tá fácil? Ainda mais aqui no Rio - gargalha num tom sarcástico que só eles dominam, taxistas - só tô eu aqui, é pegar ou largar, mermão.
-Tudo bem, não tenho muito tempo mesmo, nem pegar uma prainha eu vou conseguir, coisa rápida, sabe.
-Sei sim - o motor ecoa - Leblon né?
-É.
-...
-Olha, vou pegar aqui por essa avenida pra agilizar. Viagem a negócio?
-Mais ou menos. - Responde ele com ar libertino.
-Sei como é, acabei de voltar de férias. - Cerra as pálpebras e focaliza mais à frente. - Mudança de planos, vou desviar do túnel, vez em quando eles fecham lá por dentro, aí ferrou, compadre, assaltam todo mundo.
-Tá, pode desviar, é você que conhece a cidade. Férias, pra onde foi?
-Pode ficar tranqüilo. Fui pra uma cidadezinha a uns cem quilômetros daqui pescar, paraíso aquilo lá, mermão, paraíso - gotículas de suor debruçavam-se sobre o beiço feito um orvalho matinal.
-Pescar... Nem me lembro da última vez que pesquei. Quanto tempo ficou lá?
-Seis meses.
- Seis meses? Porra, você morou lá então.
-É, quase, fui ver a família também, que vive lá.
-E viveu como?
-Pescando, pai pescador. Eu nem tenho mais impressão digital, de tanto ajudar meu pai com as linhas, quando criança. - Ergue o dedão esfolado para o sujeito ver.
-Cara, cansei disso tudo, esse trânsito que acaba com a gente. Pra mim, essa é a melhor profissão que existe aqui no Rio, mas não tô aguentando. Eu tinha até trocado de carro, e semana passada roubaram meu amarelinho, tô puto, mermão, tu não sabe o quanto eu fiquei fodido com essa história.

-Ah...
-Sabe qual o problema do nosso país? Sabe qual o problema do Brasil? - Em frenesi, balbucia:
-Perguntei pra todos que já sentaram aqui do meu lado, e ninguém, até hoje, deu a resposta certa. E te pergunto.

- ...
-Não? Vou te dar um tempo. - Bate com furor no ombro do cliente, como se já o conhecesse há décadas.
- Concentração de renda?
-Não, não. Também, mas não.
-Cultural, cultura, sei lá, pô!
-Ah-ha, malandro! Perguntei isso pra todo mundo e é justo um veado de um paulista que me responde, esse país tá sem cultura, mermão, a educação, vem de baixo! É só olhar em volta, quanta merda. Tô pensando seriamente, mas muito seriamente mesmo, em largar isso aqui, tirar o sustento da pesca, viver a vida como realmente deve ser vivida, cansei de sofrer. Mas antes eu tenho um assunto pra resolver, só preciso de uns dias pra pensar.
-E teu Carr... ?
-Então, eu sei com quem tá o carro, a coisa é mais cabeluda do que você pensa, Essa maldita PM que pegou, trocou a placa e pôs pra rodar, e não foi só comigo, tem acontecido de uns tempos pra cá. Fico indignado, esses filhas de umas putas bem dadas que nos ferram, eles tinham é que proteger a sociedade, e fazem uma sacanagem dessas - abrindo os braços e largando a direção por uns segundos.
-Se na próxima semana você ver no jornal "Invadiram a delegacia e mataram delegado" você já sabe,
mas antes preciso refletir muito bem.
-E é fácil assim? - Nó na garganta.

-Nem imagina.
Silêncio reina por cinco segundos.
-É, o tempo tá fechando, tava um sol do caramba antes.
-Verão tem dessas coisas. Aí chefia, chegou.
-Pode me deixar nessa esquina mesmo. - Remexe os bolsos a fim de encontrar o dinheiro.
-Tá aqui, camarada, e vê se pensa direito nessa história, boa sorte.
-Opa.