domingo, 31 de agosto de 2008

O banho

Dizem que demoro muito nos banhos. Hei de explicar melhor ao longo do post, acompanhe-me.
Eu, no auge de meus problemas existencialistas, muitas indagações e retóricas pessoais acompanham-me nas subidas e descidas pela estrada afora. Penso na vida, penso muito, queria pensar menos, ser mais estúpido talvez, seria mais satisfeito, por conseguinte, mais feliz. Mas isso é outra discussão. Voltando ao ponto: penso muito, mesmo sem tempo de fazê-lo. Aliás, penso demais, invento problemas, os catalogo e guardo em gavetas de proporções elefânticas para depois resolvê-los e assim, ficar satisfeito com as gavetas organizadas, mesmo sabendo que elas não existem, e poder criar outros mais e mais outros. Contudo, a questão é: por que eu, iludido que sou, os crio - ou melhor - faço uma hipérbole deles, até extrapolarem as sete cabeças? Mas o banho, vamos ao banho. A água é uma grande catalisadora de ídéias, acima de tudo. E o ambiente etéreo, ensopado, embaçado, esnsaboado, x-ado ajuda por demais. Esses problemas - utópicos ou carnais - acho que eles têm medo d'água! Ou do banho! Sim, pois é durante o banho que consigo estrangular o tal bicho de mais que sete cabeças. Agora o porquê, não me pergunte, talvez seja por osmose.

sábado, 30 de agosto de 2008

Denver

A liberdade é a coisa mais bela e ilusória que já inventaram. Todos almejam o dia em que serão livres de alguma coisa: dos pais, da escola, do chefe, dos filhos, e por aí vai. Contudo, muitos quando alcançam essa tão sonhada condição não têm a menor idéia do que fazer com ela.

-x-

Em determinado momento de On the road, Dean está passando um tempo na casa de uma mulher chamada Frankie, mãe recentemente abandonada pelo marido, cujo sonho é comprar um carro. Ela economiza há anos para isso, e Dean a ajuda a escolher o modelo. Depois de tanto esforço e planejamento, enfim vão os dois à loja, e lá está o carro, um calhambeque (lembrando que o ano é 1949). Era aquilo o que ela queria, aquilo de que precisava. Porém, na cara do vendedor, Frankie fica receosa de acabar com suas economias e desiste. Dean sai pela rua revoltado, senta-se na calçada e a xinga enfurecidamente. Diz que assim são os caipiras: quando estão frente a frente com o que desejam, ficam histéricos e amedrontados. Nada os aterroriza tanto quanto o que mais anseiam.

-x-

Um dia, numa terça feira, estava na escola e, desde que chegara, não me sentia bem. Febre, dor de cabeça, essa frescura toda. No entanto, fui embora só no início da última aula. Saí ao ar quente do fim da manhã, véspera de feriado: estava livre. Meu pai, porém, demorou uns vinte minutos para me pegar, e fiquei esperando parado na rua, respirando e expirando o calor. Aí está: eu era livre, mas não tinha muito o que fazer com isso.

domingo, 24 de agosto de 2008

The meaning of the blues

Talvez muitas coisas dêem errado exatamente pelo fato de as pessoas acharem que têm de funcionar para sempre. Os relacionamentos, os laços, a vida: começa-se tudo como se nunca fosse ter um fim. A expectativa só destrói.
Ou quando alguém diz que foi casado por tantos anos e se separou, por isso o casamento não deu certo. Ora, só porque acabou significa que não deu certo?

A coisa que mais durou e ainda dura em minha vida, tirando o amor pela minha pelúcia do Chewbacca, é uma bermuda de basquete que comprei há sete anos e continua excelente para passar os domingos, embora já faça algum tempo que não chega nem aos meus joelhos.

-x-

Continuo com o péssimo hábito de falar das pessoas como se não fizesse parte delas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

The fool on the hill

Há muitos anos, saiu nos jornais a história de um homem que vivia isolado, sozinho numa caverna na Itália. O eremita levava a vida por lá, indiferente ao mundo e às pessoas. Tão alheio que a guerra começou, terminou e ele não se deu conta. Permaneceu afastado e perfeitamente imóvel.
Quem sabe estivesse aborrecido dos outros; talvez percebera que merecia mais atenção de si mesmo. Afinal de contas, estar sozinho é tão importante e fundamental quanto estar acompanhado. Se não é boa companhia para si mesmo, será boa companhia para quem?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Índios

Costumava ser mais difícil fazer arte. Nenhum erro era tolerado, a platéia vaiava mesmo. O músico estudava anos para criar e executar com perfeição; o poeta calculava suas rimas para caberem na métrica. Mas aí inventaram os blogs e as revistinhas de cifras, e qualquer babaca escreve ou toca um sol e lá menor.
Artistas saem de suas bandas e logo fazem um tanto de coisas diferentes em suas respectivas carreiras solo, que são certamente uma das coisas mais nocivas da música. Afinal, pior que uma banda ruim são cinco músicos vindos de uma banda ruim, com sede de fazer mais coisas ruins. É matematicamente crítico: cada um tem três projetos de criar um som meio assim, "bebendo da fonte do psicodélico, desde o choro e demais raízes brasileiras, passando por Miles Davis e com pitadas de indie rock, sem esquecer a influência dos Beatles e do britpop”. Tudo desculpa para continuar no sol e lá menor.
Chega a ser claustrofóbico pensar onde colocam toda essa porcaria. Será que algum dia vão bater à minha porta perguntando se eu tenho um quartinho, um banheiro de empregada que seja, para guardar um pouco do estoque do novo disco do Arctic Monkeys?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ampulheta

Velho? Eu? Que nada, estou na flor da idade!
Todavia, a areia desce sem sequer percebê-la.
E é nos outros que vejo minhas próprias rugas.

Feliz dia da Arte. ui

Right off

O mundo é um lugar triste e desigual por causa das coxinhas. As coxinhas são salgados egoístas, cheios de si, uma querendo ser melhor que a outra. Há diferenças abismais entre uma coxinha de um Frango Assado, por exemplo, para uma de um posto em Formiga. A surpresa ao pedir e morder uma destas é encontrar óleo suficiente para fritar mais dez delas. Um recheio de frango cru, um colorido artificial. O catupiry – o mais traiçoeiro de todos – lembrando shampoo misturado com leite de texugo. A coxinha é, por si só, o ápice do contraste.
O mesmo não ocorre com os espetinhos. É possível encontrar um espetinho razoável em qualquer lugar. Claro que pode estar um pouco duro, mais frio ou mais velho, entretanto são todos consumíveis com uma coca gelada. A vida com o espetinho é mais justa e correta do que a vida com a coxinha.

-x-

Outro dia, em uma parada numa longa viagem, às duas da manhã, num posto em Itaú de Minas, desci naquele frio absurdo e pedi ao atendente um café. Ele, solícito, pegou uma jarra de alumínio e despejou dela o dobro do café que deveria no copo americano (lagoinha, o verdadeiro café de posto), e levou-o ao microondas. Segundos depois, recebi um café requentado pela preguiça de se coar um novo aquela hora da madrugada, e ainda levei uma cara de cu de brinde. Tomei num gole só e voltei correndo para o ônibus, levando o brinde comigo por mais tantas horas de estrada.

sábado, 9 de agosto de 2008

Estudo sobre a ironia: Na Fila

- Seu pai disse que é aqui no distrito que tira.
- Não sei não, hein.
- É, tem que perguntar.
De dentro do carro:
- Seu guarda, sabe se é aqui que tira o título?
- Ah, faz dez anos que não é mais aqui. Agora é ali do lado da prefeitura, sabe? Segue por aqui e vai, vai vai.
- Ok, muito obrigado.
10 minutos
- Nossa, como ele estava informado, hein.
- É, não são só os sapatos dele que são velhos, hahaha.
- Ei, mãe, acho que é por aqui, não é não?
- Não sei, só entrando.
Pegaram a grande fila com os tipos mais que inimagináveis de gente, instintivamente.
- Ih, são várias filas, vá se informar, pergunta praquele guarda ali da porta que a gente fica aqui.
- Por favor, é aqui que tira o título de eleitor?
- É sim, e é o último dia, está sabendo, né?
- Estou. Mas como faz? São várias filas...
- É por bairro.
- Ah, sim, obrigado.
3 minutos
- Gente, é por bairro, não deve ser aqui.
Perguntou ao senhor da frente, o qual o bigode lhe cobria parte do rosto, exacerbado que era:
- Por favor, que bairro é essa fila?
- Eu sou do Vila Madalena.
- Obrigado.
- Por nada, garoto.
- Estamos longe, tem uma recepção ali, parece estar meio abandonada, mas não custa tentar, esperem aqui na fila.
15 minutos
- Ó, ele disse que é subindo logo ali, naquelas escadas.
Subiram os três em fila, a tal da escada, de tão minimamente apertada. Entraram num cômodo claustrofobicamente miúdo onde mulheres que passam pelos quarenta trabalhavam, carimbando buracraticamente vidas alheias. Escreviam, Comiam, rasgavam, fumavam, gritavam, esbaforavam, gargalhavam, grunhiam, relinchavam. Fila.
10 minutos
- Mata santa tereza é aqui?
- Não.
- Onde é?
- Descendo.
- Ok, muito obrigado.
- Vaca.
- É mesmo.
Desceram, repetindo o processo.
- Vamos parar nessa fila, se for ela, estaremos no lucro. Vou perguntar na recepção de novo, quem sabe aquele mal amado já não esteja mais lá.
9 minutos
- O homem é fanho, me explicou tudo certo, só que não entendi nada de nada. Como podem colocar um maldito de um fanho na recepção? Me diz!
- Não tenho certeza, mas acho que é aqui mesmo. Olha a sorte... Mais pra frente tem um cartaz com os bairros dessa fila, vou dar uma olhada. Cuida da sua vó.
2 minutos
- É sim!
- Ah, mas essa fila está muito grande, e parece que são duas... Ou ela dá a volta, não dá pra ver direito.
- Vamos ficar, você precisa tirar o título. Hoje.
5 minutos
- Gente, não posso mais ficar, tenho que comprar o presente do João hoje ainda, dixa que eu vou de ônibus.
- Não, mãe, eu te levo.
- Não precisa, fica com ele aqui, não tem problema.
- É, vó, essa fila pode ser rápida.
E foi-se ela, mesmo com a dupla insistência.
14 minutos
- Olha essas moças da frente, são grandes né.
- Mãe, você e sua mania de reparar nos outros... São enormes mesmo.
Uma alta, magra, rosto pontudo e quadrado, nariz chato e fino na ponta, pescoço desproporcional ao corpo, outra gorda, maior ainda em estatura, sem pescoço, dentes equinos, rosto arredondado e cabeça ligeiramente grande. Ambas de porte desajeitado, cabelos crespos e pele de sol. Vestiam-se como se tivessem 8 anos.
11 minutos
- Andamos um pouco, vai demorar.
A fila consistia em pessoas igualmente distribuídas em diferenças, assemelhavam-se numa única coisa: queriam ter as vidas carimbadas.
30 minutos
- Vocês são grandes, hein!
- É, hehahahê!, desabrocharam num riso ingenuamente puro.
- Nossa, tô com uma dor do cão, não tô aguentando esses saltos, e parece que vai demorar...
- É, hihihahê, deve de demorar..
- E eu tô com dor nas costas, fazer o que.
15 minutos
Um choro de bebê ecoou ao lado e logo inundou o ambiente de forma nauseante.
- Ah, não, não aguento esse choro, como eu queria ter um taco de beisebol agora. Imagine só?
- Pára, filho.
O choro persistiu.
- Ali ó, finalmente o cara deu um lugar para a mãe sentar com o filho, quem sabe ele acalma.
- Essas duas filas são pra que? - Perguntou a uma das grandes, que já estavam na segunda fila.
- Depois que faz o título tem que esperar ficar pronto.
- Tem de esperar mesmo? Eles não enviam?
- Acho que sim. Tem que esperar...
- Ai...
17 minutos
A porta se abriu e a mulher, que chamava pelos nomes dos que aguardavam na segunda fila, grita:
- Antônio, Antônio, Antônio!
O Antônio ressoava pelas mentes como paredes que se fecham gradativamente.
Uma outra moça com aparência de alguém um pouco maior que um anão, jovem, que aguardara nas cadeiras pela sua vez, apareceu desnorteada:
- Sou eu a próxima?
- Acho que não, ela chamou por Antônio... Bem, quer dizer, a não ser que você seja o Antônio.
Riso sem graça, exclamou que não e voltou aos bancos.
Antônio entrou. Alto, magro, desajeitado,
com um terno desleixado e suor escorrendo no rosto de brasileiro.
- MãeE, olha a merda que você fala pra moça!, exclamou baixinho.
- Ué, vai saber, ela podia mesmo ser o Antônio.
19 minutos
Já de cócoras, diz a mãe:
- Não aguento, somos os próximos faz vinte minutos...
A porta se abriu.
- Pode entrar?
- Não.
A porta fechou-se
.
- Mas que vadia, essa mulher.
- Vaca velha sem qualidade, como dizia meu pai, meu paizinho.
1 minuto
A porta se abriu, a mesma mulher disse com um sinceríssimo sorriso amarelo:
- Podem entrar, queridos.
- Obrigado, com licença.
O corredor já não era tão apertado, mas o cômodo parecia que comportava todas aquelas mesmas mulheres dos papéis. Falaram com uma delas.
- Oi, tudo bom? Título né. É só colocar os dados aqui, e me passar outros dados. Bairro?
- Ar, quanta demora né?. Mata Santa Tereza.
- Ih, minha filha, imagina eu então.
3 bu-ro-crá-ti-cos minutos
- Olha, é só aguardar. Pode ser aqui mesmo, o dele é rápido.
O lugar tinha uma certa hospitalidade, mesmo que irônica, mulheres eficientes, mal cuidadas e amadas trabalhavam ali, divertiam-se ali, viviam ali. A janela era grande, porém a vista da relva cinza e enfumaçada por automóveis que descontinuamente passavam por lá não era muito agradável aos olhos. O ar condicionado, enorme, berrava deliberadamente filtrando o ar do cômodo sem ar devido à fumaça dos cigarros que as pobres, pobres e com os pulmões defumados, mulheres expiravam.
Uma monotonia, ainda que hospitaleira, como disse eu outrora, pairava. Mas elas, grandes mulheres, continuavam a exercer a função que lhes foi impingida, função de carimbar vidas.
6 minutos
- Tudo pronto, muito obrigado.
- Obrigado eu, tchau.
- Tchau.
- Pessoa educada é outra coisa.
- Verdade.