sábado, 9 de agosto de 2008

Estudo sobre a ironia: Na Fila

- Seu pai disse que é aqui no distrito que tira.
- Não sei não, hein.
- É, tem que perguntar.
De dentro do carro:
- Seu guarda, sabe se é aqui que tira o título?
- Ah, faz dez anos que não é mais aqui. Agora é ali do lado da prefeitura, sabe? Segue por aqui e vai, vai vai.
- Ok, muito obrigado.
10 minutos
- Nossa, como ele estava informado, hein.
- É, não são só os sapatos dele que são velhos, hahaha.
- Ei, mãe, acho que é por aqui, não é não?
- Não sei, só entrando.
Pegaram a grande fila com os tipos mais que inimagináveis de gente, instintivamente.
- Ih, são várias filas, vá se informar, pergunta praquele guarda ali da porta que a gente fica aqui.
- Por favor, é aqui que tira o título de eleitor?
- É sim, e é o último dia, está sabendo, né?
- Estou. Mas como faz? São várias filas...
- É por bairro.
- Ah, sim, obrigado.
3 minutos
- Gente, é por bairro, não deve ser aqui.
Perguntou ao senhor da frente, o qual o bigode lhe cobria parte do rosto, exacerbado que era:
- Por favor, que bairro é essa fila?
- Eu sou do Vila Madalena.
- Obrigado.
- Por nada, garoto.
- Estamos longe, tem uma recepção ali, parece estar meio abandonada, mas não custa tentar, esperem aqui na fila.
15 minutos
- Ó, ele disse que é subindo logo ali, naquelas escadas.
Subiram os três em fila, a tal da escada, de tão minimamente apertada. Entraram num cômodo claustrofobicamente miúdo onde mulheres que passam pelos quarenta trabalhavam, carimbando buracraticamente vidas alheias. Escreviam, Comiam, rasgavam, fumavam, gritavam, esbaforavam, gargalhavam, grunhiam, relinchavam. Fila.
10 minutos
- Mata santa tereza é aqui?
- Não.
- Onde é?
- Descendo.
- Ok, muito obrigado.
- Vaca.
- É mesmo.
Desceram, repetindo o processo.
- Vamos parar nessa fila, se for ela, estaremos no lucro. Vou perguntar na recepção de novo, quem sabe aquele mal amado já não esteja mais lá.
9 minutos
- O homem é fanho, me explicou tudo certo, só que não entendi nada de nada. Como podem colocar um maldito de um fanho na recepção? Me diz!
- Não tenho certeza, mas acho que é aqui mesmo. Olha a sorte... Mais pra frente tem um cartaz com os bairros dessa fila, vou dar uma olhada. Cuida da sua vó.
2 minutos
- É sim!
- Ah, mas essa fila está muito grande, e parece que são duas... Ou ela dá a volta, não dá pra ver direito.
- Vamos ficar, você precisa tirar o título. Hoje.
5 minutos
- Gente, não posso mais ficar, tenho que comprar o presente do João hoje ainda, dixa que eu vou de ônibus.
- Não, mãe, eu te levo.
- Não precisa, fica com ele aqui, não tem problema.
- É, vó, essa fila pode ser rápida.
E foi-se ela, mesmo com a dupla insistência.
14 minutos
- Olha essas moças da frente, são grandes né.
- Mãe, você e sua mania de reparar nos outros... São enormes mesmo.
Uma alta, magra, rosto pontudo e quadrado, nariz chato e fino na ponta, pescoço desproporcional ao corpo, outra gorda, maior ainda em estatura, sem pescoço, dentes equinos, rosto arredondado e cabeça ligeiramente grande. Ambas de porte desajeitado, cabelos crespos e pele de sol. Vestiam-se como se tivessem 8 anos.
11 minutos
- Andamos um pouco, vai demorar.
A fila consistia em pessoas igualmente distribuídas em diferenças, assemelhavam-se numa única coisa: queriam ter as vidas carimbadas.
30 minutos
- Vocês são grandes, hein!
- É, hehahahê!, desabrocharam num riso ingenuamente puro.
- Nossa, tô com uma dor do cão, não tô aguentando esses saltos, e parece que vai demorar...
- É, hihihahê, deve de demorar..
- E eu tô com dor nas costas, fazer o que.
15 minutos
Um choro de bebê ecoou ao lado e logo inundou o ambiente de forma nauseante.
- Ah, não, não aguento esse choro, como eu queria ter um taco de beisebol agora. Imagine só?
- Pára, filho.
O choro persistiu.
- Ali ó, finalmente o cara deu um lugar para a mãe sentar com o filho, quem sabe ele acalma.
- Essas duas filas são pra que? - Perguntou a uma das grandes, que já estavam na segunda fila.
- Depois que faz o título tem que esperar ficar pronto.
- Tem de esperar mesmo? Eles não enviam?
- Acho que sim. Tem que esperar...
- Ai...
17 minutos
A porta se abriu e a mulher, que chamava pelos nomes dos que aguardavam na segunda fila, grita:
- Antônio, Antônio, Antônio!
O Antônio ressoava pelas mentes como paredes que se fecham gradativamente.
Uma outra moça com aparência de alguém um pouco maior que um anão, jovem, que aguardara nas cadeiras pela sua vez, apareceu desnorteada:
- Sou eu a próxima?
- Acho que não, ela chamou por Antônio... Bem, quer dizer, a não ser que você seja o Antônio.
Riso sem graça, exclamou que não e voltou aos bancos.
Antônio entrou. Alto, magro, desajeitado,
com um terno desleixado e suor escorrendo no rosto de brasileiro.
- MãeE, olha a merda que você fala pra moça!, exclamou baixinho.
- Ué, vai saber, ela podia mesmo ser o Antônio.
19 minutos
Já de cócoras, diz a mãe:
- Não aguento, somos os próximos faz vinte minutos...
A porta se abriu.
- Pode entrar?
- Não.
A porta fechou-se
.
- Mas que vadia, essa mulher.
- Vaca velha sem qualidade, como dizia meu pai, meu paizinho.
1 minuto
A porta se abriu, a mesma mulher disse com um sinceríssimo sorriso amarelo:
- Podem entrar, queridos.
- Obrigado, com licença.
O corredor já não era tão apertado, mas o cômodo parecia que comportava todas aquelas mesmas mulheres dos papéis. Falaram com uma delas.
- Oi, tudo bom? Título né. É só colocar os dados aqui, e me passar outros dados. Bairro?
- Ar, quanta demora né?. Mata Santa Tereza.
- Ih, minha filha, imagina eu então.
3 bu-ro-crá-ti-cos minutos
- Olha, é só aguardar. Pode ser aqui mesmo, o dele é rápido.
O lugar tinha uma certa hospitalidade, mesmo que irônica, mulheres eficientes, mal cuidadas e amadas trabalhavam ali, divertiam-se ali, viviam ali. A janela era grande, porém a vista da relva cinza e enfumaçada por automóveis que descontinuamente passavam por lá não era muito agradável aos olhos. O ar condicionado, enorme, berrava deliberadamente filtrando o ar do cômodo sem ar devido à fumaça dos cigarros que as pobres, pobres e com os pulmões defumados, mulheres expiravam.
Uma monotonia, ainda que hospitaleira, como disse eu outrora, pairava. Mas elas, grandes mulheres, continuavam a exercer a função que lhes foi impingida, função de carimbar vidas.
6 minutos
- Tudo pronto, muito obrigado.
- Obrigado eu, tchau.
- Tchau.
- Pessoa educada é outra coisa.
- Verdade.

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