domingo, 28 de setembro de 2008

Tudo vira bossa

Temos a estranha e irritante mania de generalizar. Nem me dei ao trabalho de buscar algum exemplo, eu não conseguiria, acabaria generalizando, sabe. De acordo com Jobim: assim como o jazz (inicialmente jass, com a Original Dixieland Jass Band, e com a pronúncia distorcida por tupiniquins ferrenhos, dizem jáis, aliás, assunto este que rende outro post, ou pósti), que para o gringo, mais precisamente o norte-americano, tudo quanto é batuque, suingado é jazz, sem restrições. E, a generalizar os regionalismos internacionais temos o Acid Jazz, o Latin Jazz (!), o Nu-Jazz, Cape Verdean Jazz, o Afro Beat (salve Fela!), o Afro Cuban Jazz, o Brazilian Jazz (!?) e por aí vai. Não contei as mudanças naturais que toda manifestação cultural adquire ao longo do tempo, nem as primeiras variantes que realmente surgiram de sua localidade e de seu rítmo - que por si só compreendem numa maleabilidade enorme - englobando aos miúdos influências de fora, tipo o West Coast, ou Cool Jazz, como quiser você. E no Brasil o buraco não é nem mais embaixo, nem mais pra cima, a bossa nova é uma língua morta, triste verdade. De nada adianta resgatá-la, mascará-la, reestruturá-la (difícil, difícil), mudar o sufixo ou incorporá-la a outros ritmos pré estabelecidos. Já houve, não mais hoje. Embora eu, nostálgico assumido, não tenha perdido (ainda) as esperanças de encontrar um pupilo de Joãozinho por aí. Os antropófagos viraram vegetarianos, o rei está animando cruzeiros e órfãos disso tudo andamos por aqui.

Um adendo: post dedicado à Duda, leitora e amiga.
Outro: o semi-andergráunde que perambula cá por estas ruas é digno de vergonha.
Uma pertinente observação: essa nostalgia exagerada é uma merda².
E uma errata: sobre os antropófagos, esqueci de que Tom Zé ainda está vivo, o único e atemporal antropófago de si mesmo.

One of these mornings

Há raros dias nos quais, por maior que seja a fadiga, evito deitar-me e dormir até onde consigo. Parece que, ao adormecer, as emoções todas vão ser processadas e esvair-se para sempre, como num puxar de válvula, e acordarei vazio, vazio.
Daqui alguns anos eu talvez já tenha me esquecido; queria tirar um retrato para lembrar, seja quando for, de como são meus olhos hoje.

“Se pudesse, guardava tudo numa garrafa e bebia de uma vez.”

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Pride and prejudice

Meu estimado amigo Pedro (vulgo Maranhão), colega de inglês, escreveu há algumas semanas uma redação em um simulado. Uma das propostas a escolher era redigir uma carta a um rapaz chamado Greg, dizendo suas impressões sobre o livro Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), de Jane Austen. Pedro, no ápice das emoções que uma prova num sábado de manhã pode causar, entendeu que deveria dar sua opinião sobre duas garotas – Pride e Prejudice –, e mandá-las ao tal do Greg. E ainda assinou como Jane Austen.
A redação não está corrigida. Deleite-se, leitor.

Dear Greg,

Thank you for writing me. I think I feel more sympathy for Pride. I’m not sure why, but I don’t like Prejudice very much.
Differently from Prejudice, a boring and tired person, Pride is an energetic, funny and beautiful girl. She is very funny and is always telling jokes to make people around laugh. Prejudice doesn’t like jokes, but she is a very hard working woman.
Pride goes out with me to parties, and we are always the last ones to leave, because we keep dancing during all the party.
Furthermore, she invites me to have lunch at her house, and Prejudice never invited me. I think now I know why I prefer more Pride than Prejudice.

Do drop me a line,

Jane Austen

domingo, 21 de setembro de 2008

Cool struttin'

A grande chateação desse mundo é que todos, de repente, viraram poetas, loucos, malditos, vagabundos, boêmios, adestradores de caranguejos, críticos de qualquer coisa, blogueiros, viciados em babaquices, bipolares e artistas. É a idade na qual se tem certeza de que tudo aquilo feito com “liberdade” é bom, bonito e sensível. Quando a vida passa a ser um amontoado de situações supostamente geniais, brindadas sempre com a frase perfeita e a poética ideal, tal como o filme do Cazuza.


- Cazuza, você quer um pedaço de bolo?
- E o que é o bolo senão o brilho dos olhos da musa, a fagulha preciosa e desperdiçada de beleza?
- Ah tá.


Não falta poesia nas coisas. Ela está lá, mas para ser vista só de vez em quando.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

One of these days

Nos velhos tempos, pensava-se que o coração mandava no corpo. Certamente era porque parecia ser o único órgão que, para o conhecimento da época, nunca parava de funcionar.
Sabemos hoje que é o cérebro quem comanda tudo. Ou não. Um professor certa vez me disse que o corpo inteiro está sujeito às vontades de uma única coisa: a merda.

-x-

Sábado passado estava com meu irmão e uns amigos em um show, num teatro em Belo Horizonte. Eram duas bandas e, no intervalo entre as apresentações, fomos para fora tomar alguma coisa. Eu estava com fome, como de costume, e fui até o pipoqueiro logo à frente do teatro comprar um saquinho de pipocas. Poucos minutos depois, já havíamos dilacerado o pobre saquinho, e Sávio (um dos rapazes que lá estava) foi comprar mais um. Após alguns instantes, o pipoqueiro estava descendo a rua, correndo como quem foge da polícia, sumindo na escuridão. Sávio, num misto de surpresa e riso, disse que o vendedor falou para ele mesmo servir-se, pegar seu troco na gaveta do carrinho e fechá-lo, pois precisava “falar com o fornecedor”. Passou a mão em alguns saquinhos vazios e saiu em disparada.
A única conclusão a qual conseguimos chegar, com o perdão do termo: o cara foi cagar.

Era sábado à noite, um show com boa platéia, o humilde trabalhador estava suando para ganhar seu dinheiro. Entretanto, sem sequer levar em consideração se tinha aluguel para pagar, se tinha mulher e filhos para pôr comida na boca, sem mesmo pensar na parcela do carro que comprou em sessenta vezes, ele largou afoito seu ganha-pão nas mãos de desconhecidos e foi cagar.

Certo estava o professor: a merda definitivamente manda em todos nós.



*Este humilde post é dedicado a Richard Wright, fundador e tecladista do Pink Floyd, falecido na última segunda. Uma das bandas que se apresentou no show citado foi um cover de Pink Floyd, e há quem diga ser uma grande coincidência. Eu acho uma lástima.
Shine on you, Rick.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Saguis refugiados no quintal

Vou contar meu drama, não que seja uma drama propriamente dito, para mim é um drama, um super drama, um dramalhão, uma moléstia. Moro num condomínio de chácaras, até aí tudo bem, qualquer um pode morar numa chácara, criar galinhas, porcos, gansos, tucanos, macacos, abrir poços artesianos ilegais, achar petróleo ou até ter cães. No entanto, o problema reside ao lado. Não ao lado de minha chácara, nem ao lado da chácara vizinha. Mais ao lado. Ao lado do condomínio existe uma estação de tratamento de lixo. Sim, também não há problemas, contanto que o lixo não sintetize aquele fétido azedume ao qual já estamos acostumados a sentir passando por perto de bueiros alarmados pelas enchentes, tudo bem, até aí tudo bem. E o problema tampouco se encontra nos urubus, pobres carniceiros, e que é absolutamente normal vê-los rodeando corpos putrefatos que de quando em vez aparecem, ou mesmo o lixo, que seja, até aí, cacete, até aí tudo bem! O problema está nas árvores.
-Arvores?
É, não nas árvores, mas nos ENERGÚMENOS que resolveram cortá-las e queimá-las não sei porquê. Aconteceu há cinco meses, e ainda hoje convivo com um incêndio - que se diz controlado - e que dura cinco carbonizados meses. E nós, aqui do outro lado do muro - morremos em doses homeopáticas inspirando esse ar, que causa tosse à mais saudável e disposta criança - já saímos de cima do muro há tempos. Os moradores já realizaram um abaixo assinado (é sempre a primeira alternativa, nunca aprendem, esses tolos), tiraram fotografias, chamaram a polícia que olhou e só olhou, bombeiros dizem já estar controlado. Nada. Detalhe para a umidade do ar abaixo dos 10%, estado de emergência, este insuportável calor já relatado por Tomas no post abaixo, e essas brasas que não cessam. O próximo passo será a imprensa. Imparcialidades à parte (trocadilhos, trocadilhos, não vivo sem eles) me diga, de que adianta um Wilson Toni aqui na pista, em forma de passarela?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A panela do diabo

Está quente, muito quente. O ar não é próprio para respirar e é impossível percorrer um quarteirão sem acabar suado. O calor é tamanho que o demônio deve estar pelos arredores. Faz sentido, não? Por isso proponho uma atividade para tornar essa temperatura absurda no mínimo suportável: a caça ao capeta. Seria uma gincana na qual grupos previamente organizados sairiam pela cidade à procura do coisa-ruim. O grupo que o encontrasse primeiro ganharia um aparelho de ar condicionado por membro. Como Satanás é uma criatura de mil truques, certamente deixaria pistas pela cidade, para ao menos se divertir às custas de seus caçadores arfantes.
O diabo está em Ribeirão Preto, esta imensa panela de pressão à chama de um fogão Brastemp, cozinhando-nos – os feijões-habitantes – para o almoço. Vamos encontrá-lo! À caça!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dar valor às coisas pequenas da vida

Que horror isso, não direi que discordo, mas também não concordo. Ok, dizem que é importante e tal, para sermos felizes e tal e tal, aquela coisa hedonista, carpe diem, e tal e tal. Puta papo chato e pobre. Cotidianismo, essa é a verdade, as pessoas poderiam manter uma postura mais natural, sem romantizar, e realmente relevar as coisas pequenas, intrínsecas ao ser vivo, que a vida nos proporcionou. Não falo de comer moranguinhos presos aos dedos. Não tão lúdico, por favor. Temos de sentir a água gelada descendo goela'baixo, num seco dia de sol como os daqui, em Ribeirão. E do mesmo modo, com a mesma intensidade, sentir a mesma água que outrora estava no corpo, sair do mesmo. Sem tabus, leitor, já pensou sobre a importância de excretar? Olhe que maravilha. Eis o cotidiano, atitudes às quais estaremos sempre presos, valorizar cada mordida, suada, corrida, peidada, sexada. De resto, são fatos incertos ou plenas ilusões. E, se a idéia não lhe agrada, desculpe-me, tive de usar o blog para excretá-la.

E você:
-E o amor? Seu insensível!
-É bonitinho, está certo, mas acaba
em excremento.