sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Choro no Vaso - III

Ele dormia bem, religiosamente oito horas diárias, a rotina sempre o acompanhou, mantinha relações com sua esposa e amantes frequentemente, saciando assim sua condição de homem. Era presente no lar, muitas lições os filhos aprenderam com ele. Culto, aprendera com um antigo professor a ler e ouvir bons discos, o resto vem com a prática. O lanche descera bem, a fome se acabara. A conta veio junto com o café, pagou, deixou umas moedas à garçonete, que como toda garçonete de café deveria manter lindas, lindas pernas, como era o caso dessa, até se esquecera da vitrine com os doces e da dor, ao vê-las. Num gole, o expresso desceu como lava. Pensou que, com a dor, todos os fogos de artifício da comemoração do ano novo chinês estivessem explodindo em seu sistema digestório. Apanhou o jornal sem firmeza nas juntas e saiu curvado do café. Tosse.

Considerava-se um bom sujeito, tinhas fraquezas e virtudes em igual massa na balança, nunca fizera mal unicamente por maldade. Percebeu que andando a cólica se acentuava, então pôs-se a correr, correu como um louco, como se estivesse fugindo dos males desprendidos por Pandora, e na verdade, tais males sintetizavam sua dor, fugia de sua dor. No escritório, lançou ao ar todos seus papéis, e procurou frenético por um LP em seu armário. Ao achar, encarou-o. "Mingus me entende, Mingus me entende", disse. Com uma mão ocupada segurando o LP e a outra contra o estômago, finalmente o pôs para tocar. Suado como um maratonista, sentou-se à cadeira, apertou mais as mãos em direção ao estômago e fechou os olhos. Lá permaneceu, tenso, até a última faixa se perder no tempo. De nada adiantou, seu disco preferido e que lhe tinha curado, por efeito placebo, está certo, todas as tristezas passadas somente acentuara seu fogo interno. Pensou que estava encarnado, possuído por alguém com intenções malígnas, mas logo repreendeu a transcendência, era cético e esquecera-se. De somente crer na dor, os céticos sofrem mais que tudo. Estava mesmo era ficando louco doido varrido de dor.

6 comentários:

mari disse...

por que ele não vai para o hospital? eu tô começando a passar mal ao ler o sofrimento desse sujeito.
bel, tá cada vez melhor.
ansiosamente esperando o IV, já que você prefere os romanos.
beijocas

Gabriel. disse...

Congratulações a você, caro Igor.
Só me responda uma coisa, o que vem a ser um matatonista?

Mateus disse...

wtf is a ip?
so isso
mando bem bel...
to esperando o proximo

Bin Bean disse...

Sempre tossindo esse cara tem sérios problemas a serem averiguados . . .

aguardo ansioso a continuação ...

akele abrass

Igor disse...

Dente, se trata de um disco de vinil, LP.

Iza disse...

Eu já sabia, lalalalalala.
Eu quero o próximo logoooo!
Beeijos.