sábado, 25 de outubro de 2008

O Choro no Vaso - IV

Seu passado não lhe comprometia em nenhum aspecto, tinha a ficha limpa, não fizera nada de interessante durante a vida, aprendera a ser doente. Tossiu, e num gesto gerado pela crise não soube onde colocar as mãos, tropeçou em si mesmo, caiu no chão e, grunhindo, rolou por seu escritório como um verme expelido rola na agonia do novo. Tosse... dor... suor... latidos, membros descontrolados, entrelaçados batidos, ghinchos de dor, as unhas quebradas, as mangas rasgadas, suor, tosse saliva, fonemas gemidos, braços indecifráveis, olhos tortos voltados a si, barrigas ao chão, uivo de rojão. Amnésia repentina.

Ele trabalhava sozinho, podia fazer o que bem entendesse no local de trabalho, fato que facilitou a grande quantidade de pernas abertas cima de sua mesa. Sua mulher tivera conehcimento de algumas, porém não se importava, casara-se com um conveniente por pura conveniência. E de empregados somente a diarista, que não estava presente durante o surto. Imóvel há tempos, e ainda apoiado no chão olhou ao seu redor, uma completa desordem, papéis amassados decretavam alforria pelo cômodo. Num instante de lucidez mirou o pulso, “seis e meia”, em uma quinta-feira comum já estaria em casa. Pegou o jornal, que começara a esfacelar-se num canto, perto da poltrona, que parecia molhada com algum líquido desconhecido, deveria ter derrubado algo, não se lembrava. Agrupou suas tralhas e desceu cambaleando ao estacionamento onde o carro se encontrava. Sentou-se, tossiu, arremessou suas coisas ao banco de passageiros. Tosse, deu partida, cólica, suor. Tosse.
Mais nada.

Tivera uma infância bela, sem grandes traumas, trepava em árvores com amigos, e juntos faziam travessuras, matavam aulas e apanhavam depois. Com a doença tudo mudou. Época de aleluias, de reprodução das aleluias, aqueles cupins alados que rodeavam todas as lâmpadas da cidade, confusos com a luz, davam um ar singular à quinta-feira. Chegou em casa, as crianças brincavam no chão da sala, a mulher preparava o jantar, beijou-os, tossiu um pouco. A mulher estranhou o fato de ele ter chegado tarde, suado e diferente dos outros dias, se estivesse com outra, traria um sorriso patético no rosto. Ele não era um bom mentiroso, ela o amava. Foi ao banheiro ver sua aparência, que era das piores num momento como aquele. Com uma mão sobre o estômago e o jornal sob o braço direito, roçou a mão direita na barba, “que merda”, suspirou. Viu no espelho o reflexo do vaso, tão branco, tão limpo, tão puro. Sem entender muito bem a situação, começou a tremer, virou-se faroesticamente, encarou o vaso. Com as mãos trêmulas e incertas, curvo e ainda com o jornal sob o braço, arrancou o cinto, e depois cada botão de sua calça num estranho ritual. Com o olhar em desfoque e resplandecido, sentou-se no vaso calmamente, ninguém lhe tiraria aquele prazer de sentar-se ao vaso, estava em êxtase, orgasmando. Abriu o jornal, franziu as sobrancelhas, pensou na mulher, nas amantes, em seus filhos, em seu passado, em sua tosse.
E chorou. Chorou como nunca havia feito antes, chorou como nunca chorara no colo de sua mãe, e feito um bebê, soluçou e acabou-se num profundíssimo e angustiado choro. O jornal, derretido por lágrimas, esvaiu-se junto com a cólica, enquanto o choro permaneceu, cada vez mais, com a paz.

6 comentários:

Iza disse...

E acabou?
Tipo.. acabou?

Tomas disse...

É o fim
a história acabou feito gim

Vicente. disse...

Cara , Tá de parabéns.


você escreve muito...


curti bastante...

bom vocabulario , uso constante de recursos gramatico-textuais , uso de metáforas , ironia e figuras de linguagem geral. Em síntese , um belo e crítico texto...


Realmente gostei , Está de parabens...


Forte Abrasso a vocês meus caros amigos...


Vicente.

Bin Bean disse...

Com grandes lágrimas chorosas encerra-se o choro no vazo.

Parabens, bel,
mto bom e estiloso

akele abrass

Mateus disse...

"trepava em árvores com amigos, e juntos faziam travessuras," ¬¬...

Mando bem...
ele morreu?
sduhuisadh
abraçoss
parabens bell
fico muito bomm

mari disse...

AH! FOI SURPREENDENTE. ACHEI QUE ELE MORRERIA, MAS ELE APENAS CHOROU. CRIATIVO.
CONTINUE ASSIM, BELZITCHO =)