sábado, 22 de novembro de 2008

Ode ao ah...!

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus
-Vinicius de Moraes, em
"Poema Dos Olhos Da Amada"





Maravilhoso é ver
Em seu vale o ocaso.

Assim, entre eles, que
De volúpia enrijecidos
E despertados assim,
E arrebitados assim,
E excitados assim,
Sorrindo a dizer:

O quero assim,
Inebriado por mim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dancing on the ceiling

As pessoas falam demais. Estão felizes e apaixonadas o tempo todo e insistem em sair dizendo isso por aí. Não conseguem guardar uma experiência ou um desejo sequer para si mesmas. Acham que bom, de verdade, é o mundo estar em sintonia com todas as bobagens existentes em suas cabeças e que isso sim é maturidade emocional.
Superestimam qualquer sentimento. Mostram fotos e arrumam cabelos, aguardando ansiosamente comentários e conforto, sejam verdadeiros ou falsos, espontâneos ou forçados. Viajam por um fim de semana e já esperam deixar saudades.
Ninguém sabe nem mais beber sozinho. Só é legal se for para gritar e dizer que ama à toa.


E eu aqui falando.

domingo, 16 de novembro de 2008

Arial

Perdi minhas gavetas.
Por onde andam meus papéis
Que a duras penas penei a escrever?
Minhas penas, onde estão? E o tinteiro meu?

Calou-se a caligrafia minha,
Disforme, mas minha.
Tornou-se invariavelmente
A Arial a qual
Deparo-me
Com cada verso mal teclado.

Feito este, que por falta de carbono e celulose
Triste e saudoso confronto-me com o não tateável.

Ah, Word,

Perdi minhas gavetas.
Por onde anda meu papelório?

domingo, 9 de novembro de 2008

Is you is or is you ain't my baby?

Lembro de um episódio de Tom e Jerry em que Tom seduz uma gata tocando contrabaixo e cantando Is You Is or Is You Ain't My Baby?, canção de quando “mais espremidos do que nunca pelos brancos, os negros americanos construíram um céu musical em que pudessem habitar longe dessa terra infernal”. Foi assim desde o lamento daqueles anônimos fundadores da grande música americana, no velho Mississipi. Por que será que os negros foram protagonistas de quase tudo o que se fez de interessante na música popular do último século?

-x-

“O Clinton vai sair da Casa Branca de algemas, vocês vão ver!”.
É um exemplo de como previsões,
sejam sérias ou irônicas, costumam dar mais errado do que certo. Mas não custa tentar.

As eleições americanas parecem ter sido mais indiretas do que o habitual. O mundo elegeu seu presidente antes dos Estados Unidos, aturdido pelos abusos e pela decadência dos últimos oito anos. Após tanta tempestade, virá mesmo a bonança? Ou seria melhor dizer mudança? Com um déficit trilionário e uma recessão à vista, não há mudança que dê conta de tudo.
A América – a terra prometida de oportunidade e glória – continuará sendo a América.

-x-

De qualquer maneira, Barack é febre porque é
cool: é negro, carismático e elegante. Não é o preto que colheu algodão, é o mulato livre, descendente direto da África, viajado, aculturado e diplomado.
Falo do candidato Obama. O presidente eleito sequer sorriu no discurso da vitória e mostrou-se pragmático quanto ao futuro. É ciente de sua inexperiência e do que está por vir. Talvez sejam essas suas maiores virtudes políticas.

Imagine só se ele tocasse um trompete?




*Ambas as citações do texto são de Paulo Francis. Gostaria de saber o que ele acharia disso tudo.

sábado, 8 de novembro de 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Blues para Nambrusca

Antes de mais nada, digo que a camiseta está saindo, peço paciência a todos.
Queríamos fazer algo, tocar na escola para não passar o ano em branco. Desde o começo do ano procurávamos gente pra recrutar, ninguém gostava da nossa música. Até que ficamos sabendo que Bin tocava sax, "um prato cheio", pensei. Mentira, havia parado de ter aulas e não passava de Oh Suzana, mas volte ao sax, homem, esse instrumento é uma maravilha, pra não dizer algo um pouco mais sexual.

Já tinhamos um baixista, Denner, um quase-ex-protestante aspirante a maestro, ele viajaria para a Alemanha no meio do ano, então teríamos de correr. E de praxe, algo para piorar a situação, não tínhamos piano. Ficamos de pegar emprestado um piano elétrico da Aline, mas não deu certo e como sabe você, o tempo foi passando o tempo é louco tempo come o tempo... Tínhamos um terrível medo de um provável bolo por parte do Denner, porém ele nem teve a oportunidade de consumá-lo. Viajou.

No meio do ano pintou uma esperança: comemorar os cinquenta anos de bossa tocando com um pessoalzinho do terceiro, com direito a declamações e todo o resto (descartável), mas passou também, não fizemos contato, ficou por aquilo mesmo, palavras ao ar.

Em meados de agosto ficamos com mais uma esperança falha, tocar no Fecoc, fazer algo mais conehcido e gravar um blues choramingão com poucas frases. Festivalzinho de música de escola, onde geralmente só gente ruim toca - afirmação esta que se comprovará nas próximas linhas. Já estávamos com Bozo, Gulherme Donaire para os mais íntimos, no contrabaixo e sem problemas, um trio era mais do que suficiente. No entanto, para tocarmos lá, teríamos de alcançar alguns desafios, dentre eles ter dois alunos da escola na banda, todos nós estávamos, supimpa, tínhamos também que gravar uma demo da música com a letra anexa, precisava de letra, e, em consequência, alguém pra cantar. Sobrou pro Tomas mesmo, Bozo não cantaria de meneira alguma. O desafio. A idéia inicial era de um blues fácil com um solo, umas breves e miúdas palavras lamentando-se de algo, e depois outro longo solo, sem nos preocuparmos com alguém que cantasse. Então rascunhei uma letra num gabarito de recuperação que tinha achado no chão, mais tarde essa letra seria inserida no blues e tudo certo.

Você está querendo puxar meu tapete, baby.
Você está querendo esfacelar-me, baby.
Honey, fazer-te-ia tudo tudo tudo!
Mas agora, chupa essa picanha!
Vou te jogar da escada, baby.
E, se por infortúnio do destino,
Você sobreviver, serás defenestrada...
Por isso: chupa essa picanha!

(Usei segunda e primeira pessoa propositalmente, antes que os chatos retrógrados possam vir reclamar). Bozo deu a dica de o Tomas gravar a demo só na voz e violão, iria sair mais claro, melhor para os jurados. E eis que numa bela tarde em Belo Horizonte Tomas gravou a única versão do blues, fazendo as modificações necessárias na letra, sem mudar a idéia. Ele nem chegou a colocar a última frase, chupa essa picanha, por medo de alguma censura. Foi nossa única gravação. Para entregar à comissão censo-julgadora, a banda e música tinham que ter seus respectivos nomes, então improvisamos Filhos da África e seu Blues para Nambrusca. Resultado: fomos vetados, a letra provavelmente não passou e a música tinha muitos solos, ridículo, isso. Fomos assistir à final, bandas ruins, letras ruins, riff's toscos feitos por gente que não sabia tocar, tampouco sentir a música, bateristas pareciam macacos, um horror (ui). Mas ah! Ano que vem, eles que nos aguardem!

Filhos da África vieram para ficar, e eles não tocam reggae!

Blues para Nambrusca, a demo original se encontra neste post e ao lado para quem quiser ouvir.



domingo, 2 de novembro de 2008

Profundissíssima Analogia Terçafeiriana

Calmaria, somente o comum de acontecer numa semi-nublada tarde de terça-feira. Arrumo o quarto, (eu fora intimado a desenterrar tudo que estava sepultado em meu baú para inutilizá-lo e despachá-lo para nunca mais ser visto dentro dessas paredes, não vou me prolongar averiguando os motivos). Já o haviam levado. Coisas pelo chão, papéis que me remetem anos atrás, papéis. Tranqueiras que por puro sentimentalismo guardo, mesmo tendo a consciência de que nunca as usarei. Bugigangas, resquícios de minha infância, alguns dinossauros de plástico, revistas antigas, uns poucos CD’s autografados, desenhos, trabalhos de quando minha mãe desenhava, ou melhor, estilizava, não sei o que fazer com isso agora. Pior, todos esses objetos do baú trazem impregnados à sua superfície algum valor sentimental, por mais patético que seja, o objeto ou o sentimento. Numa grande metáfora sou um lobo, e este baú fez parte de minha palha interior, minha entranha sem vida, eu já não usava mais nada dali, palha, portando, de um lobo empalhado. Entretanto, neste momento, a olhar tudo que estava trancafiado livre, respirando, tão contemporâneo a mim, sinto o terrível mal-estar do bisturi no umbigo do lobo, agora murcho, despalhado. A palha, muitas vezes é indesejável, repudiada, mas dá o suporte para o lobo permanecer ereto, ela é o fado, é necessária, fatal.
O Indissímulável.
As árvores se mexem, um ruídão ecoa, folhas e pássaros cedem, voam, alguns involuntariamente. Ouço o som, o motor sobre nossas cabeças, não o vejo. Penso em subir no telhado, só penso. Ele retorna, um helicóptero policial. E eu, com meus papéis à mão, somente observo. Procura algo, está nítido devido às nuvens claras no céu que contrastam com o seu metal negro. Sinto como se tudo estivesse ordenado, correto, a despretensiosa calmaria pós-segunda-feira. Não obstante eu numa tentativa de reunir a palha espalhada pelo cômodo, afinal, ninguém gosta de observar suas vísceras, e eles, procurando provavelmente sua palha, palha do ofício, palha de suas vidas, (palha esta que há algum tempo também estivera à procura de sua própria palha, e, muito provavelmente também, a achara). Após voltear interminantes vezes o redor desta verde-amarelada paisagem, estabelecemos contato visual, eu de minha janela, e eles do helicóptero. Por um instante o tempo pára. Espero um sinal de que realmente me vêem. Mas o segundo se tornou outro, na velocidade em que os segundos se tornam outros segundos, e o helicóptero continuou a sua busca. A paz desta terça-feira aos poucos voltará, sei, mas aqui, com meus papéis, entranhas à mostra, ao som da multicolorida tropicália, sinto um seco vazio verde-amarelado. Um lobo desempalhado.