domingo, 2 de novembro de 2008

Profundissíssima Analogia Terçafeiriana

Calmaria, somente o comum de acontecer numa semi-nublada tarde de terça-feira. Arrumo o quarto, (eu fora intimado a desenterrar tudo que estava sepultado em meu baú para inutilizá-lo e despachá-lo para nunca mais ser visto dentro dessas paredes, não vou me prolongar averiguando os motivos). Já o haviam levado. Coisas pelo chão, papéis que me remetem anos atrás, papéis. Tranqueiras que por puro sentimentalismo guardo, mesmo tendo a consciência de que nunca as usarei. Bugigangas, resquícios de minha infância, alguns dinossauros de plástico, revistas antigas, uns poucos CD’s autografados, desenhos, trabalhos de quando minha mãe desenhava, ou melhor, estilizava, não sei o que fazer com isso agora. Pior, todos esses objetos do baú trazem impregnados à sua superfície algum valor sentimental, por mais patético que seja, o objeto ou o sentimento. Numa grande metáfora sou um lobo, e este baú fez parte de minha palha interior, minha entranha sem vida, eu já não usava mais nada dali, palha, portando, de um lobo empalhado. Entretanto, neste momento, a olhar tudo que estava trancafiado livre, respirando, tão contemporâneo a mim, sinto o terrível mal-estar do bisturi no umbigo do lobo, agora murcho, despalhado. A palha, muitas vezes é indesejável, repudiada, mas dá o suporte para o lobo permanecer ereto, ela é o fado, é necessária, fatal.
O Indissímulável.
As árvores se mexem, um ruídão ecoa, folhas e pássaros cedem, voam, alguns involuntariamente. Ouço o som, o motor sobre nossas cabeças, não o vejo. Penso em subir no telhado, só penso. Ele retorna, um helicóptero policial. E eu, com meus papéis à mão, somente observo. Procura algo, está nítido devido às nuvens claras no céu que contrastam com o seu metal negro. Sinto como se tudo estivesse ordenado, correto, a despretensiosa calmaria pós-segunda-feira. Não obstante eu numa tentativa de reunir a palha espalhada pelo cômodo, afinal, ninguém gosta de observar suas vísceras, e eles, procurando provavelmente sua palha, palha do ofício, palha de suas vidas, (palha esta que há algum tempo também estivera à procura de sua própria palha, e, muito provavelmente também, a achara). Após voltear interminantes vezes o redor desta verde-amarelada paisagem, estabelecemos contato visual, eu de minha janela, e eles do helicóptero. Por um instante o tempo pára. Espero um sinal de que realmente me vêem. Mas o segundo se tornou outro, na velocidade em que os segundos se tornam outros segundos, e o helicóptero continuou a sua busca. A paz desta terça-feira aos poucos voltará, sei, mas aqui, com meus papéis, entranhas à mostra, ao som da multicolorida tropicália, sinto um seco vazio verde-amarelado. Um lobo desempalhado.

6 comentários:

nina disse...

Igor igor igor ...
complicado, mas muito bom :)
e apesar da imagem assustadora e feia deste blog, espero que vcs tenham muito sucesso, pq vocês são ótimos !!!
beijos irmãozinhos!

nina disse...

Igor igor igor ...
complicado, mas muito bom :)
e apesar da imagem assustadora e feia deste blog, espero que vcs tenham muito sucesso, pq vocês são ótimos !!!
beijos irmãozinhos!

Bin Bean disse...

Belgor . . .
quem nunca foi desempalhado ou se desempalhou que atire a primeira pedra ! ! !

Congrats , me lembrou das arrumações de fim de ano e da vida nova e tudo e tal . . .

akele abrass

mari disse...

Isso me lembrou as palhas pendentes há semanas no meu quarto!
Melhor que esse texto só os jogos de palavrar d'O Teatro Máigico!
Huhuhuhuhuh
Beijocas, fofinho.

mari disse...

jogo de palavras*
Falando n'O Teatro, a música aqui também está ótima =)

Igor disse...

Complementando a Mari, Teatro mágico é uma merda.