terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O mundo é um moinho

Há coisas simples que transformam dias apáticos. Pode ser um "muito obrigado", um belo par de pernas passando pela calçada, a música tocando no rádio. A canção tão adorada, ou que pelo menos significa alguma coisa, começando a soar sem aviso em uma estação aleatória. É como reaver algo há tanto perdido, que sequer era lembrada a existência. É a nota encontrada no bolso da calça, o pedaço de pizza calabresa gelado na manhã faminta.

-x-

Não é raro celebrar boas coincidências, ou o destino, para os mais crédulos. "Deus está nas coincidências", como é dito em tantas esquinas. Tudo é fruto de encontros e desencontros casuais.
Mas e o que não aconteceu? O carro que não quebrou, a festa a qual a garota não foi, o vôo que não atrasou? Se o destino une casais no fim dos filmes, deve também cancelar grandes acontecimentos.
Disse Caetano Veloso que muitas composições suas por pouco não foram esquecidas pela fraqueza da memória no dia seguinte. E as que se perderam? As bandas que não deram certo, os Lennons e McCartneys que não foram para frente, que nem se conheceram? A inspiração que estava lá e ninguém pegou?
Os Kafkas que foram destruídos, os pergaminhos incinerados da biblioteca de Alexandria. Quantas Odisséias e Odisseus perdemos para as más coincidências?

E as belas canções que tocaram enquanto não estávamos com o rádio ligado para escutar?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Conto de Natal: O Furto

Véspera de Natal, e ele, aviso de antemão, com a corriqueira mania brasileira de comprar os presentes na véspera. O shopping estava lotado, formigando, cuspindo e escarrando gente. Inclusive as chaminés, com os mais avantajados em massa corporal enlatados, digo, entalados. E ele, bem, ele fora à livraria buscar alguma idéia - repare, nem idéia tinha - do que dar ao seu amigo secreto. Prateleiras vão, prateleiras vêm, Goethe, Shakespeare, Kafka, Moacyr Scliar talvez, mas não, nada disso se adequava à pessoa, então achou melhor sair dos livros de bolso e buscar alguma iluminação, nem que divina. Porém mal esperava ele o que estaria por vir nos próximos trinta e dois minutos e cinquenta e sete segundos de sua vida de estudante aplicado.
A livraria não se livrara também da boa moléstia de estar suportando três pessoas por metro quadrado, e, a pensar bem, até dava para respirar. Paulo Francis, alguma coisa dos marginais de nossas letras, o Nelsão... Não, não, ainda não achara o caminho. E, opacando a visão do empacado, a neblina de sua mente ainda não se dispersara, resolveu pois sapiar a seção ao lado: "Diários de Jack Kerouac", "A vida de Churchil", "Meu marido Dostoiévski", "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico". É, ele olhou para o nome e confirmou, estava nas biografias, interessante seção. Mas volte um pouco, seus olhos brilharam ao ler, num relance, "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico", ele era um indiscutível e cativado fã do diretor e nunca tivera a oportunidade de ler algo mais profundo sobre, e escrito por ele, o grande Sensei do Cinema; apaixonou-se pelo livro.

Olhou, comprenetrado o pegou, tateou-o - a esta altura já tinha se esquecido de amigo secreto, de seu presente, e do Natal por vir. Notou então um estranho amarelado em suas páginas, parecia antigo, viu também a etiqueta da livraria, misteriosamente gasta e com a aparência de ser mais velha, com um sistema antiquado de código de barras. Olhou em suas páginas, costura desmantelando-se, na última página havia alguns números escritos a lápis. E, num súbito, ocorreu-lhe que o livro já estava lido. Um livro lido e amarelado pelo tempo, não se tratava de um livro novo, logo, não deveria estar à venda, foi esse o silogismo inicial.

Nos próximos dois segundos o plano já estaria completamente arquitetado, do furto à fuga. Uma loura - pouco linda, mas muito lida, supõe-se, encostou-se ao seu lado para bisbilhotar alguns títulos, como ele, em teoria, estava fazendo. A mulher começou pela seção da literatura brasileira, e foi caminhando inconscientemente para a direita, onde as biografias situavam-se. Ele, percebendo a quase-intenção da loura de ir à sua seção, rapidamente esgueirou-se por trás, feito cobra, fugaz, deixando as estantes livres. Ela já poderia ver o que quisesse, menos a cena do livro caindo sem querer na embalagem de presente que estava em suas mãos.

Maravilhou-se com a situação, um epifânico drama de três atos passou por sua cabeça. Por que mãos já teria andado essa autobiografia? Quem escreveu os números na página final? Quem depositou o livro ali, justamente sobre seus semelhantes? Quando? Com qual intenção? Talvez uma benevolente alma teria comprado, lido, e querido compartilhar do conhecimento, tão escasso nos dias atuais, deixando o livro disposto na exata seção da compra para algum interessado felizardo pegar.
Já ouvira a história dos livros deixados em bancos de praça, com um bilhete anexo avisando que no término da leitura deveria ser posto em algum outro banco de praça, para que outra pessoa pudesse ler, e assim por diante, fechando a corrente, embora achasse que era apenas mais uma história que as mães contam pros filhos, ainda mais num país brasileiro, como o nosso.
Pensou que poderia estar numa situação semelhante à dos bancos de praça, não era um cleptomaníaco, muito menos um entusiasta do yomango, era, sim, um romântico sem cura.
Se devolveria depois de furtar e ler? Não saberei dizer que mistérios habitam o encéfalo da humanidade, ordenando as virtudes ou desvirtudes a serem cometidas, como a compaixão ou o egoísmo. Não saberei, portanto, responder a indagação, mas deixe-me terminar a história.
Tudo já estava milimetricamente armado, escorregaria o livro para dentro da embalagem de presentes em suas mãos, depois fecharia a sacola com o mesmo adesivo e pronto, ninguém revistaria uma embalagem de presentes fechada. Só não contava com o número de pessoas, transbordavam no recinto, fora a loura, agora agachada, vistoriando a vida de algum não-sei-quem de uma dentre as várias biografias encontradas na seção. Já ele, ele só estava interessado, não só interessado como profundamente imerso em cálculos sobre como escapulir dali sem ser pego.
Com o suor a visitar-lhe a cueca, observou, com a perícia de um profissional do furto, todos ao seu redor e quem representaria o perigo de ser visto roubando um livro velho, grande crime. Inclusive a loura, mas esta estava agachada, a ler distraída, não veria. Ele pensou também na factível possibilidade de o dono do livro estar pelas bandas, poderia ele ter só deixado seu livro ali e ter ido à seção da frente procurar algum presente de Natal para um filho querido, um parente, ou para a sogra. No mesmo instante o remorso acariciou sua nuca com as unhas, fazendo-o gelar da espinha até a unha encravada que lhe doía. As mãos esfriaram, olhou para a direita, todos distraídos; olhou para a esquerda, tristes madamas esticadas, inclinadas sobre revistas feito uma linha de produção, interessadíssimas todas com a dieta do dia; olhou para baixo, a loura ainda lendo, acocorada.
Fez.
Procurou sair o mais rápido possível, chegou perto dos detectores da porta, hesitou, estava, como se diz por aí… Encontro não mais que um gesto para definir seu estado de alma, as limitações da palavra, são tantas! Só então se lembrou do amigo secreto e voltou à seção dos livros de bolso.
Após uma curta olhadela, achou o presente ideal, um exemplar de "Clarissa", de Veríssimo pai. Um livro deve adequar-se à pessoa presenteada como enzimas e seus substratos, como uma chave à sua respectiva fechadura, como o carimbo adequado a cada papel que os despachantes despacham a não mais ver. Para tanto, não dê livros a quem não conheça, que pode ser o primeiro e último presente.
Passou no caixa, pagou atenciosamente com um raro sorriso no rosto. Só não sabia se era de alegria, medo, euforia, ou todos juntos. Agora já poderia sair, e melhor, com um álibi em mãos. Ao chegar perto dos detectores apertou o passo, se o acusasse ele provavelmente sairia correndo por conta de sua personalidade frouxa, embora quisesse enfrentar a situação de frente.
Nada. Estava livre da livraria. Manteve o passo a fim de não levantar suspeita alguma. E virando uma esquina, em meio ao mar de outros brasileiros atrasadinhos, repentinamente uma mão toca-lhe o ombro:
-Moço, moço.
-Oi? - balbuciou ele, bêbado de hipertensão, com o coração na mão.
-Seu chiclete caiu no chão.
-Poxa! Muito obrigado! Não sei como agradecer!
Ele quis abraçar o gordo com todas as suas forças, mas o gesto não se adequava à circunstância, então bastou-lhe uns tapinhas no ombro.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Poeminha de Fim de Ano

2008 no fim,
Sinto-me prestes a um estopim.

O tempo escorre como o alecrim
Do tempeiro
Do carneiro
2008, é o fim.


(Pois é, eu bem sei que lhes devo uns posts decentes, mas não tenho muita coisa agora.)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Comidas babacas

A grande conquista da globalização e da economia de mercado não é o Empire State, Bora-Bora ou Dubai. Nem as oportunidades ou o espírito empreendedor. São os alimentos.
Não o arroz, o feijão e o caviar Beluga. Falo de toda a variedade de produtos que surgiu com a premissa de que alguém vai gostar dessa porcaria. Toddy frutas vermelhas, Club Social de presunto, fanta uva, cheetos de requeijão. Cerveja com tequila, limão; cerveja sem álcool. Sorvete de Coca-cola. Fora as aberrações de um rodízio de pizzas: strogonoff, cachorro quente e todas as variações regionais possíveis (mineira, paraibana, gaúcha etc).
Anos atrás fui a Cabo Frio, e lá havia um carrinho de churros que vendia a maior gama de sabores que já vi. Desde os básicos doce de leite e chocolate até carne seca e frango com catupiry.
Também ouvi dizer que no Japão existe Pepsi sabor pepino.

Imagino haver um departamento especial nas indústrias alimentícias, onde uma série de empregados dispõe-se frente a uma grande mesa cheia dessas coisas estranhas e as provam.

— E aí, melhorou?
— Ah, com gosto de morango não tá.
— Mas tá com gosto de remédio, pelo menos?
— Sim.
— Então encaminha pro setor de vendas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Oblíqua e dissimulada

Estreou ontem na Globo a minissérie Capitu, baseada na obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Meus receios ao assistir às chamadas e ao ler a respeito se confirmaram já nos primeiros minutos: é uma grande porcaria. A produção segue à risca a tendência teatral de séries anteriores, como Hoje é dia de Maria e A Pedra do Reino. O cenário tosco e nebuloso, as maquiagens carregadas e os personagens caricatos, gritando como se toda fala fosse a mais preciosa pérola carregada de lirismo e beleza.

Bochechas rosadas e bigodinhos pintados à lápis à parte, esse estilo poderia talvez se justicar em se tratando da temática das produções anteriores. No entanto, a série retrata, em suas próprias palavras, "uma obra genial da nossa literatura" dessa maneira patética, enjoativa e pedante. Sem querer ser preciosista, mas não me apetecem essas supostamente "ousadas" e "atrevidas" fusões do novo ao antigo, tal qual a cidade do século XXI com a narrativa de mil oitocentos e tanto. Nem Capitu de tatuagem no braço, ou a trilha sonora com canções pop e, pasmem, Sex Pistols.

O resultado é um programa confuso e aborrecido de se assistir, cheirando à pretensão de ser coisa bonita só para gente inteligente e sem preconceitos estéticos. Machado de Assis não precisa disso para parecer atual e moderno, o que sempre foi e continua a ser.

Faltou apenas colocar o Fernando Anitelli de Bentinho e escrever "entrada para raros" como subtítulo. Aí sim ficaria perfeito.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Úngula Fatal


Josú foi comprar pão. Nada especial. Dia simples, momento simples: buscar um pão fresquinho, recém assado na padaria. Um, dois, três moreninhos, Geni preferia-os assim, moreninhos e crocantes. Basta. 

Na fila, um pobre senhor à sua frente, nobre, a concretizar com a moça atendente. Atrás uma mulher: em justa calça, curvas de gelar espinhas, tiraram-no dali por alguns instantes. Olhou pras nádegas, mentalmente se despediu. Na sua vez, num súbito, a situação. 

Sua unha.

Não era manicura, nem aspirava tal situação para si, mas a unha fê-la paralisar. A atendente se perdeu na unha de Josú, mais crescida que o normal e que as outras.

A pele de Josú era morena de sol. Não era gordo, não era magro. De aspecto saudável, músculos bem aparentes, as veias de seus braços salientavam, como num gesto de auto-afirmação, a confirmar a importância do fluxo que provinha de seu coração à sua mão, e por consequência, aos seus dedos, longos dedos. Habilidosos dedos. Dir-se-ia que Josú tivesse qualquer profissão que usasse os braços. Bem hidratado, seu couro mantinha uma rusticidade eufemizada, num aspecto de lençol-de-uma-noite-dormida, com pequenos vãos nos dobramentos das articulações. Pêlos medianos nas xuranhas indicavam o fértil solo de sua pele. Adiante, a palma, mais clara que sua cor natural, fortemente marcada por sinuosas linhas, de um tom mais escuro que sua morada, e habituado a suar nas mãos, acanhadas nascentes de água salgada deslizavam a jusante da palma. Maneirista, a mão milimetricamente seguia a proporção dourada. Jamais lhe ocorrera tamanhos atributos plásticos em uma mão. As unhas eram suavemente quadradas nas pontas, que, de forma homogênea, ajudavam, tímidas, a compor a ferramenta mais significativa da humanidade em sua relapsa existência: a mão. A estética humana começava ali. Com a curviliniedade adequada, mediana, suas unhas possuíam um começo branco, que mais lembrava um início de lua, em sutil degradê de cores até as pontas. Certamente lixadas, as unhas compunham com maestria a expressão da mão. 

Cercada de tantos dotes, contudo, um empecilho rompia a harmonia da mão: a unha do polegar direito era demasiada grande perante as outras. Sua forma ovalada remetente a um espelho irrompia o momentâneo ostracismo à que a pessoa era levada enquanto estivesse a admirar a unha. E causava a quem a mirava magnético ímpeto, distanciando o observador da matéria, fechando-o em seu próprio universo, atônito. O estranhamento, mesclado à beleza produzia outra beleza. À profundeza. Um extra à extraordinariedade do que o belo produz. A alma humana se perdia nessa nesga de espaço-tempo, necessitando, pois, de um esforço terreno pra retornar ao seu posto de origem: a consciência.

Terminado o lapso: moça. Pausa. Moça? Pausa. Moça, quanto fica? Ai, perdão, senhor, eu tô um pouco distraída hoje, diz ela, ainda presa à unha pelo olhar. E continua só os pãezinhos? Dois reais, por gentileza. Ele mete a mão no bolso, afastando a unha do campo de sua visão, o que rompia, assim, o liame entre os corpos. Não houve tempo dela se despedir. Voltou pra casa pensando. Algo fazia sentido agora.

Naquela noite, a cada acirrante gesto ao violão, Josú e unha recebiam uma saraivada de palmas, marcando, por muitas vezes, os tristes telecotecos ali embalados. E muitos outros.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Santa Claus, Go Straight To The Ghetto

Vou avisar de primeira, este post é de um teor altamente romântico idealizador.
É permitido rir da minha cara ao ler.
A imprensa não é muito criativa nos finais de ano, convenhamos. São as compras em alta, fulaninho foi contratado para suprir a quantidade necessária de funcionários na loja de departamentos:
-Agora eu tenho que trabalhar duro, dar o melhor de mim para ser efetivado, tem que ter garra, primeiro emprego não é fácil, ainda mais com essa crise, sabe. Diz ele.
E sobre esses funcionários temporários, há uma espécie deles que eu mais respeito e tenho apreço, ajoelho-me perante esses bons homens, são os aspirantes a Papai Noel, que mantém viva e cintilante a chama do captalismo natalinesco.
Já se foi o tempo em que ele aparecia em nossas casas, limpava-se das cinzas da lareira com nossos panos-de-prato, comia umas rosquinhas feitas pela vovó, se tivesse leite ele beberia, e se tivéssemos sorte, ele nos dexaria uns presentinhos e ia embora para voltar no ano seguinte. Hoje nós é que vamos encontrá-lo, nos shoppings, essas grandes caixas de presentes.

Para ser um Papai Noel é preciso, acima de tudo, ser bom. A paciência, calma, o semblante tranquilo e afins são virtudes secundárias, a criança é muito perceptível a pessoas boas, tenha certeza disso. Não vou divagar a respeito da bondade aqui, então, voltando. Há honra maior que obter logo de cara a plena confiança de um ser que nunca o viu mais gordo? (ho-ho-ho) Ela senta ao seu colo e lhe confessa o que fez de mau durante ano, pois sabe que está em braços acolhedores, e que não farão mal a ela nem a trairão, sem esperar represálias, somente um bocado de carinho e afeto, ou até mesmo algo mais primitivo: um colo. Toda a carga horária e cansaço após o trabalho braçal de levantar pessoinhas durante o dia são compensados ao ver o grato sorriso das mesmas.
Um dia farei isso, quem sabe quando as barbas brancas envolverem o rosto meu e a barriga minha não for a mesma de hoje, que digo, não é lá essas coisas.


Ah, tem o prazer de enganar também, que deve ser uma coisa, mas isso já não cabe aqui.



E uma dica a você, leitor, se você já não suporta mais o Ivan Lins, Simone, "Hiroshima, Nagazaki..." Saiba que há excelentes discos natalinos para se ouvir, coisa de gente grande: Ella Fitzgerald, Wynton Marsalis, Dave Brubeck, James Brown etc têm discos inteiramente dedicados à essa época do ano.