sábado, 6 de dezembro de 2008

Úngula Fatal


Josú foi comprar pão. Nada especial. Dia simples, momento simples: buscar um pão fresquinho, recém assado na padaria. Um, dois, três moreninhos, Geni preferia-os assim, moreninhos e crocantes. Basta. 

Na fila, um pobre senhor à sua frente, nobre, a concretizar com a moça atendente. Atrás uma mulher: em justa calça, curvas de gelar espinhas, tiraram-no dali por alguns instantes. Olhou pras nádegas, mentalmente se despediu. Na sua vez, num súbito, a situação. 

Sua unha.

Não era manicura, nem aspirava tal situação para si, mas a unha fê-la paralisar. A atendente se perdeu na unha de Josú, mais crescida que o normal e que as outras.

A pele de Josú era morena de sol. Não era gordo, não era magro. De aspecto saudável, músculos bem aparentes, as veias de seus braços salientavam, como num gesto de auto-afirmação, a confirmar a importância do fluxo que provinha de seu coração à sua mão, e por consequência, aos seus dedos, longos dedos. Habilidosos dedos. Dir-se-ia que Josú tivesse qualquer profissão que usasse os braços. Bem hidratado, seu couro mantinha uma rusticidade eufemizada, num aspecto de lençol-de-uma-noite-dormida, com pequenos vãos nos dobramentos das articulações. Pêlos medianos nas xuranhas indicavam o fértil solo de sua pele. Adiante, a palma, mais clara que sua cor natural, fortemente marcada por sinuosas linhas, de um tom mais escuro que sua morada, e habituado a suar nas mãos, acanhadas nascentes de água salgada deslizavam a jusante da palma. Maneirista, a mão milimetricamente seguia a proporção dourada. Jamais lhe ocorrera tamanhos atributos plásticos em uma mão. As unhas eram suavemente quadradas nas pontas, que, de forma homogênea, ajudavam, tímidas, a compor a ferramenta mais significativa da humanidade em sua relapsa existência: a mão. A estética humana começava ali. Com a curviliniedade adequada, mediana, suas unhas possuíam um começo branco, que mais lembrava um início de lua, em sutil degradê de cores até as pontas. Certamente lixadas, as unhas compunham com maestria a expressão da mão. 

Cercada de tantos dotes, contudo, um empecilho rompia a harmonia da mão: a unha do polegar direito era demasiada grande perante as outras. Sua forma ovalada remetente a um espelho irrompia o momentâneo ostracismo à que a pessoa era levada enquanto estivesse a admirar a unha. E causava a quem a mirava magnético ímpeto, distanciando o observador da matéria, fechando-o em seu próprio universo, atônito. O estranhamento, mesclado à beleza produzia outra beleza. À profundeza. Um extra à extraordinariedade do que o belo produz. A alma humana se perdia nessa nesga de espaço-tempo, necessitando, pois, de um esforço terreno pra retornar ao seu posto de origem: a consciência.

Terminado o lapso: moça. Pausa. Moça? Pausa. Moça, quanto fica? Ai, perdão, senhor, eu tô um pouco distraída hoje, diz ela, ainda presa à unha pelo olhar. E continua só os pãezinhos? Dois reais, por gentileza. Ele mete a mão no bolso, afastando a unha do campo de sua visão, o que rompia, assim, o liame entre os corpos. Não houve tempo dela se despedir. Voltou pra casa pensando. Algo fazia sentido agora.

Naquela noite, a cada acirrante gesto ao violão, Josú e unha recebiam uma saraivada de palmas, marcando, por muitas vezes, os tristes telecotecos ali embalados. E muitos outros.

2 comentários:

Rafael Bin Bean disse...

Old Josú ! ! !

Isso é nome ? ? ?

Duda VIP! disse...

só pra constar, eu i isso antes de todo mundo. Isso é ser VIP meu caro.. ;) haushuahuhsuha