quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Conto de Natal: O Furto

Véspera de Natal, e ele, aviso de antemão, com a corriqueira mania brasileira de comprar os presentes na véspera. O shopping estava lotado, formigando, cuspindo e escarrando gente. Inclusive as chaminés, com os mais avantajados em massa corporal enlatados, digo, entalados. E ele, bem, ele fora à livraria buscar alguma idéia - repare, nem idéia tinha - do que dar ao seu amigo secreto. Prateleiras vão, prateleiras vêm, Goethe, Shakespeare, Kafka, Moacyr Scliar talvez, mas não, nada disso se adequava à pessoa, então achou melhor sair dos livros de bolso e buscar alguma iluminação, nem que divina. Porém mal esperava ele o que estaria por vir nos próximos trinta e dois minutos e cinquenta e sete segundos de sua vida de estudante aplicado.
A livraria não se livrara também da boa moléstia de estar suportando três pessoas por metro quadrado, e, a pensar bem, até dava para respirar. Paulo Francis, alguma coisa dos marginais de nossas letras, o Nelsão... Não, não, ainda não achara o caminho. E, opacando a visão do empacado, a neblina de sua mente ainda não se dispersara, resolveu pois sapiar a seção ao lado: "Diários de Jack Kerouac", "A vida de Churchil", "Meu marido Dostoiévski", "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico". É, ele olhou para o nome e confirmou, estava nas biografias, interessante seção. Mas volte um pouco, seus olhos brilharam ao ler, num relance, "Akira Kurosawa, Relato Autobiográfico", ele era um indiscutível e cativado fã do diretor e nunca tivera a oportunidade de ler algo mais profundo sobre, e escrito por ele, o grande Sensei do Cinema; apaixonou-se pelo livro.

Olhou, comprenetrado o pegou, tateou-o - a esta altura já tinha se esquecido de amigo secreto, de seu presente, e do Natal por vir. Notou então um estranho amarelado em suas páginas, parecia antigo, viu também a etiqueta da livraria, misteriosamente gasta e com a aparência de ser mais velha, com um sistema antiquado de código de barras. Olhou em suas páginas, costura desmantelando-se, na última página havia alguns números escritos a lápis. E, num súbito, ocorreu-lhe que o livro já estava lido. Um livro lido e amarelado pelo tempo, não se tratava de um livro novo, logo, não deveria estar à venda, foi esse o silogismo inicial.

Nos próximos dois segundos o plano já estaria completamente arquitetado, do furto à fuga. Uma loura - pouco linda, mas muito lida, supõe-se, encostou-se ao seu lado para bisbilhotar alguns títulos, como ele, em teoria, estava fazendo. A mulher começou pela seção da literatura brasileira, e foi caminhando inconscientemente para a direita, onde as biografias situavam-se. Ele, percebendo a quase-intenção da loura de ir à sua seção, rapidamente esgueirou-se por trás, feito cobra, fugaz, deixando as estantes livres. Ela já poderia ver o que quisesse, menos a cena do livro caindo sem querer na embalagem de presente que estava em suas mãos.

Maravilhou-se com a situação, um epifânico drama de três atos passou por sua cabeça. Por que mãos já teria andado essa autobiografia? Quem escreveu os números na página final? Quem depositou o livro ali, justamente sobre seus semelhantes? Quando? Com qual intenção? Talvez uma benevolente alma teria comprado, lido, e querido compartilhar do conhecimento, tão escasso nos dias atuais, deixando o livro disposto na exata seção da compra para algum interessado felizardo pegar.
Já ouvira a história dos livros deixados em bancos de praça, com um bilhete anexo avisando que no término da leitura deveria ser posto em algum outro banco de praça, para que outra pessoa pudesse ler, e assim por diante, fechando a corrente, embora achasse que era apenas mais uma história que as mães contam pros filhos, ainda mais num país brasileiro, como o nosso.
Pensou que poderia estar numa situação semelhante à dos bancos de praça, não era um cleptomaníaco, muito menos um entusiasta do yomango, era, sim, um romântico sem cura.
Se devolveria depois de furtar e ler? Não saberei dizer que mistérios habitam o encéfalo da humanidade, ordenando as virtudes ou desvirtudes a serem cometidas, como a compaixão ou o egoísmo. Não saberei, portanto, responder a indagação, mas deixe-me terminar a história.
Tudo já estava milimetricamente armado, escorregaria o livro para dentro da embalagem de presentes em suas mãos, depois fecharia a sacola com o mesmo adesivo e pronto, ninguém revistaria uma embalagem de presentes fechada. Só não contava com o número de pessoas, transbordavam no recinto, fora a loura, agora agachada, vistoriando a vida de algum não-sei-quem de uma dentre as várias biografias encontradas na seção. Já ele, ele só estava interessado, não só interessado como profundamente imerso em cálculos sobre como escapulir dali sem ser pego.
Com o suor a visitar-lhe a cueca, observou, com a perícia de um profissional do furto, todos ao seu redor e quem representaria o perigo de ser visto roubando um livro velho, grande crime. Inclusive a loura, mas esta estava agachada, a ler distraída, não veria. Ele pensou também na factível possibilidade de o dono do livro estar pelas bandas, poderia ele ter só deixado seu livro ali e ter ido à seção da frente procurar algum presente de Natal para um filho querido, um parente, ou para a sogra. No mesmo instante o remorso acariciou sua nuca com as unhas, fazendo-o gelar da espinha até a unha encravada que lhe doía. As mãos esfriaram, olhou para a direita, todos distraídos; olhou para a esquerda, tristes madamas esticadas, inclinadas sobre revistas feito uma linha de produção, interessadíssimas todas com a dieta do dia; olhou para baixo, a loura ainda lendo, acocorada.
Fez.
Procurou sair o mais rápido possível, chegou perto dos detectores da porta, hesitou, estava, como se diz por aí… Encontro não mais que um gesto para definir seu estado de alma, as limitações da palavra, são tantas! Só então se lembrou do amigo secreto e voltou à seção dos livros de bolso.
Após uma curta olhadela, achou o presente ideal, um exemplar de "Clarissa", de Veríssimo pai. Um livro deve adequar-se à pessoa presenteada como enzimas e seus substratos, como uma chave à sua respectiva fechadura, como o carimbo adequado a cada papel que os despachantes despacham a não mais ver. Para tanto, não dê livros a quem não conheça, que pode ser o primeiro e último presente.
Passou no caixa, pagou atenciosamente com um raro sorriso no rosto. Só não sabia se era de alegria, medo, euforia, ou todos juntos. Agora já poderia sair, e melhor, com um álibi em mãos. Ao chegar perto dos detectores apertou o passo, se o acusasse ele provavelmente sairia correndo por conta de sua personalidade frouxa, embora quisesse enfrentar a situação de frente.
Nada. Estava livre da livraria. Manteve o passo a fim de não levantar suspeita alguma. E virando uma esquina, em meio ao mar de outros brasileiros atrasadinhos, repentinamente uma mão toca-lhe o ombro:
-Moço, moço.
-Oi? - balbuciou ele, bêbado de hipertensão, com o coração na mão.
-Seu chiclete caiu no chão.
-Poxa! Muito obrigado! Não sei como agradecer!
Ele quis abraçar o gordo com todas as suas forças, mas o gesto não se adequava à circunstância, então bastou-lhe uns tapinhas no ombro.

2 comentários:

Rafael Bin Bean disse...

Que loucura !

Pilantra

Ingrid disse...

HUAHUAHUAUH eita.