quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A uma morena


Não tens, amor, idéia
não tens também, meu bem, noção.

Não não tens nem, amor
juízo de valor
do vão de alma,
um estado tão,
do breu clarão
torpor que me tiraste.

Da terceira margem peguei
tua mão pensa a mim paciente
e invertidamente
à caverna platônica voltei,
sensível, porém, que me tornaste.

Ao hóspito main-espaço me guiaste.
Ao tato.
Ao vital tato.

Sensível à vida de homem,
sim,
simples homem
assim que te sente.

Te ouve
entestar criança ao meu peito apegada, corada...

Te pega
o perfume dos cabelos teus, longa colcha macia, o sono sacia...

Te cheira
o inefável sorriso, indelével...

Te morde
os sôfregos olhos sob sobrancelhas furtivas, felinas...

Te vê
como ouves o outro,
redundantemente humana,
como nunca com o outro fui,
que me tanto agrada.

E agora agradeço
a engrandecer-te,
minha sípida frutacor
fonte odora de flor.

2009 / 2011

sábado, 12 de dezembro de 2009

Tiny capers

O Rodolfo não tinha mais que dezessete, e tratava sempre de raspar seu fino bigode pelas manhãs e pentear o cabelo com gel, a fim de levantá-lo como uma falésia no litoral norte. O colégio era feito para as aulas de literatura e os desfiles de belos dentes, calças caras e a devoção pelas garotas loiras, com as blusas arregalando olhos pelos corredores.

Mas o importante era a sexta-feira, quando saía do laboratório de biologia, ao meio dia e quinze, e via-se livre para pensar no que faria dali poucas horas, após puxar suas barras de metal. Era um rapaz asseado, de carregar um frasquinho de perfume junto à escova de dentes e um protetor neutro para lábios ressequidos. Cogitava, em um futuro próximo, adquirir um estojo de maquiagem, tão preocupado era em corrigir as pequenas rugas que jurava surgirem em sua testa. Ficava muito atento aos braços robustos e aos pelos do corpo – ou à dedicação em mantê-los ausentes. Era um bom partido, diriam algumas avós; um colosso de rapaz, para bisavós. Um moço cosmopolita, moderno: o novo homem, afirmariam os publicitários.

Naquela noite de sexta, certamente iria a algum lugar bonito ver gente bonita. Rodolfo adorava ver gente bonita, e sentia-se deprimido só de passar pelo centro da cidade e avistar aquela réplica senegalesa de civilização, fazendo-o suar e ter náuseas com o cheiro das ruas. Em sua noite, só encaixavam-se programas fantásticos, nos quais vestia sua camisa polo de listras vermelhas sobre fundo preto e bebericava uísque diluído em taurina, cafeína e guaraná. Para ser completo, havia de sorrir às garotas loiras, as mesmas favoritas da luz do dia, no entanto mais rosadas as bochechas e curvados os cílios, e soltar o papo de que “as coisas não são mais como costumavam ser”, apontando um cara estranho, no canto, a ameaçar a boa vista. Praticava a conversa mole, sacana e absolutamente desinteressante. No fundo, era um rapaz bastante superficial.

O êxtase de Rodolfo eram as baladas de sábado à noite, quando punha uma fita no pulso e circulava pela riqueza de uma vida que parecia lhe pertencer. Deveriam – pensava ele – é mudar a ordem das coisas, e dar as pulseiras aos senegaleses, podendo assim vê-los de longe e mudar de calçada. Talvez até costurar algo que os identificasse por suas camisas, ou riscá-las de giz.

Era uma vida classe A, uma vida top essa vida de Rodolfo. Por que não poderia ser o mundo todo assim, um camarote?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um trocado pra compensar

Não são tão reconhecidas e legitimadas críticas advindas de meros casos pessoais, ainda mais de adolescentes, mas não posso oferecer nada além de minha experiência e opinião de vestibulando.

Ano de vestibulando não é fácil, diriam já meus professores, os quais também, a esta altura, com as mudanças nas principais provas do país; a reformulação do ENEM e seu posterior furto; o fechamento de escolas pela iminente pandemia da Nova Gripe e os conseguintes atrasos nas programações dos cursos preparatórios, encontram-se senão mais esbaforidos que os próprios alunos. Estes que se prepararam o ano todo para a famosa maratona de vestibulares de agora, enquanto aqueles só terão um pouco descanso por Janeiro. E nessa maratona, muitos vestibulandos precisam viajar para fazer provas em outros estados, isso se nos restringirmos aos que têm condições financeiras de viajar a outras localidades. Ou até mesmo de estudar num curso preparatório, dada a deficiência do ensino público.

No último sábado, às 7h30, a fim de fazer a prova da UFMG no dia seguinte, e já exausto por estar no aeroporto desde às 6h30 da manhã, fui chamado à sala de embarque. O voo, que iria de Ribeirão Preto a Belo Horizonte pela Passaredo, estava com sua prévia de atraso esgotada. Tratou-se, porém, de um engano. Logo que entrei na sala ouvi o chamado para embarque, não sem antes ter reparado na simpática figura do senador Aloisio Merdacante. Qual foi meu espanto: o avião de nosso voo partiria para Brasília, levando todos ali presentes, inclusive o senhor senador, menos aqueles destinados a Minas, obviamente. Ao tirarmos satisfações com a funcionária do aeroporto, descobrimos que o voo só sairia às 10h30.

Pela contestação, eu, minha mãe e minha irmã, que estavam comigo, fomos beneficiados com a honrosa quantia de R$15,00 de consumação na cafeteria do aeroporto. Esperamos, contudo, até às 11h25, hora que o avião, depois de retornar de Brasília, finalmente voltara. Cinco horas de espera. Mas o que é esperar para quem trabalha a semana inteira?

Mais que o suposto escândalo das passagens aéreas, mais que botar a culpa no Governo, na Burocracia, mais que a vergonhosa falta de profissionalismo da Passaredo, mais que a típica moral cristã brasileira, deturpada por si mesma em essência, o que fala mais alto nisso tudo é o imenso desrespeito que somos vítimas a cada dia. A escola ensina que há 500 anos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Querida

Dia bom é dia comprido, com mais de vinte e quatro horas. Dia de asfalto quente, ônibus fervilhando e chofer atrasado. Dia em que dá para correr, ir ao cinema, sonhar meia hora e ver os outros de novo, mas com outra roupa. Dia de duas barbas feitas, de trabalho, prostração, teatro, seresta, esbórnia e grande prêmio de Fórmula 1. Dia de quilômetros; de tomar um porre na hora do almoço e outro depois do jantar. De praia, restinga, meandro e chapada. Dia para não se pensar bem sobre o que acontece. Do firmamento encerrando-se no meio da tarde, feito uma cortina ao remate do espetáculo, em nuvens de filme de catástrofe.

Logo esvaziam as ruas, distraídos os transeuntes atrás de seus guarda-chuvas, e fica escancarado que do mundo ainda não nos pertence nem a metade. Sobram nuvens a condensar quando querem, despejando água à gosto próprio. Longa é a tarde, longa é a chuva.

Mais do que a chuva, porém, são os precedentes. O clima pesado, o vento forte, as nuvens cobrindo os céus há pouco claros. A unção das gotas, transbordando de flores. É uma curta reprodução do que sentimos nesses dias da vida nos quais sabemos que algo grande está para acontecer, tão imenso quanto a tempestade. Olhar para a abóbada nublada das quinze pras quatro, ou para a escuridão avermelhada da noite, como se estivesse sempre prestes a amanhecer. "Como se o céu vendo as penas morresse de pena e chovesse o perdão."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Progressãoes

D
Da
Dad
Dado:
Dados de vidas.
Dados demográficos.
Dados em gráficos.
Dados brancos, e pretos.
Dados pelo verde tapete do triste do croupier – Oh!,
Ingratos dados...

Tragicômicos, dados dicoatômicos.
Dados são vidas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Três Caravelas

Parte pelo todo. Não, não se trata da metonímia. E pra contar a parte vou ter de resumir o todo. Direi quando pude perceber realmente o poder do pequeno quando este é inserido no contexto do grande, do todo. Foi faz dois anos, numa comunidade do orkut onde havia os mais calorosos debates sobre qualquer assunto que qualquer dos participantes ativos quisesse expor, desde que esperasse réplicas indecorosas de qualquer outro participante que quisesse. Grande comunidade, lá se falava de tudo, mas era engolida pelo indecente desejo de visibilidade de seus participantes (cinéfilos carentes, professores amargurados, universitários babacas, um pleonasmo, amadores frustrados de toda espécie e outros tipos) ou simplesmente pela vontade de meter o bedelho em assuntos alheios, não sabidos, e digo, dar pitaco em tudo era o segundo maior prazer da Sub/Super. Era como abreviávamos seu nome. A regra era: criar um tópico sobre determinado assunto para que os membros replicassem dizendo se o objeto/personalidade em voga era subestimado ou superestimado. Tudo isso era hilariante. O primeiro e grande prazer era presenciar as mais absurdas posições, desde convicções de berço à ideologias de bolso defendidas com verve pelos seus pronunciadores e, claro, esperar as réplicas e tréplicas as quais iam tomando corpo na discussão, que podia ir para o lado pessoal, virar briga de galo, soco de boteco, virar tratados sobre o Direito brasileiro e seus não cumprimentos pela sociedade boba, ou simplesmente ser trocada por outro assunto. Mas tudo com muita classe. Tinha que ter bagagem pra sobreviver na Sub/Super e aos seus membros. Tinha que ter bagagem, ou, no mínimo, um saco roxo.

Aprendi um bocado naquela comunidade do orkut (paradoxo?). Eu gostava mais de a ler do que expor minha singela opiniãozinha classemedista. Doía ser ofendido lá, mas a gente vai ganhando calos e a boca vai amargurando, também. Maravilha de época quando não se tem um horizonte pré-definido na terra. Só no éter.

~//~

Hoje ouvi a Voz do Brasil (sim, aquele programa de rádio que seu cão velho ouvia pouco antes de morrer). Ouvi um comentário sobre como no Brasil há a retração das moedas, metade delas estão fora de circuação, guardadinhas, muito bem guardadinhas nos cofrinhos dos brasileiros, em especial pelas classes pouco mais favorecidas, que preferem moeda-papel, até mesmo pelo fácil manuseio. E no ato, ao ouvir isso, lembrei dum tópico que criei nessa comunidade, sobre cofrinhos, e um dos participantes respondeu algo como "cofrinhos acabam com o propósito da moeda: liquidez". Lembro que sempre tive cofrinhos, sem, no entanto, pensar muito além de seu limite visível, as paredes de meu quarto. Foi uma revelação, derrubou muralhas. Foi a minha América descoberta. Como os cofrinhos de cada casa conseguem, juntos, reter metade das moedas no país. Um mero hábito medievalesco. E foi aí, para mim, que esse conceito de parte expandiu-se ao todo. Sem analogias de merda, como a das pecinhas do quebra-cabeça, nem apologias a hábitos saudáveis que devemos todos ter por um mundo melhor. Digo mais pela beleza da epifania em si, uma poesia. Desde então as guardo como jóias. Num cofre a sete chaves.

domingo, 11 de outubro de 2009

Confissão - parte II

“...Confesso que foi doloroso a mim, nunca quis magoá-la, fazê-la chorar, não conseguiria, desconfio que sou um fraco. E mando, pois, esta correspondência a você, que preciso de uma resposta de imediato. Soube por meio de um amigo, que por sua vez soube com outro amigo. Por uma boa quantia, era um especialista em deixar o caminho livre para calhordas. Calhordas feito eu. Não me sinto o chão em que piso.

No início deste mês ele começou o serviço, foi aos poucos, soube onde pisar, é alto o sujeito, de uns prováveis cinqüenta anos de idade, cabelos grisalhos, um verdadeiro tipão irresistível às mulheres, desses que as desfalece com o olhar, com um único tragar. Começou seguindo-a, atentando ao seu modo de caminhar, anotando suas leituras e lugares. Pouco tempo passado tinha já em mãos uma ficha e perfil psicológico de minha mulher. Restava marcar a data do encontro.

Agora não mais sei se ela me amava, foi doloroso a mim, ao meu ego, para dizer a verdade. Minha parte no contrato era simplesmente continuar com a rotina, patética rotina senão pelo riso da loura, que já se fazia necessário às minhas tardes, para não me enforcar diante da inundação diária de papéis de pessoas de nomes e locais e vidas desconhecidas que eu carimbava. Burocrática vida de merda, estamos no século da burocracia, Humberto.

Sem mais delongas, ela se foi no último dia 3. Estou só desde então, em minha casa instalou-se uma verdadeira desordem, e o álcool, ele só me acentua o amargo da boca. Ela partiu, deixou tudo para trás sem pensar duas vezes. Imagino se todas as mulheres têm em si essa volatilidade, ou se realmente contratei o melhor profissional da praça. O melhor canalha da praça. Ou, em terceira hipótese, deveria estar tão entediada quanto eu, para saltar à primeira aventura extraconjugal, ainda que provocada por mim. Veja você, ela o conheceu em seu consultório, como um paciente comum, e em duas semanas me abandonou como um cachorro velho. Levou uma bolsa de roupas e a escova dental sem deixar nem ao menos um bilhete. Como pude ser tão estúpido? Se a tivesse matado eu não teria sido tão estúpido. E hoje, Humberto, minha loura decidiu, num ímpeto feminino, voltar para os braços do noivo; sem sofrer desejou-me sorte futuramente e também se foi, queria vida séria, disse. Não teria sido tão estúpido. O espelho me esbofeteia quando o vejo, assim que ler dê retorno do postal. Sem chacotas, Humberto, sem chacotas. Estou desesperado.




Estêvão M. F. ”

domingo, 27 de setembro de 2009

Blue sunday

Hoje encontrei uma barata no meu quarto. Estava agonizante, mexendo devagar as pernas, cercada por formigas oportunistas. O inseto parou ao lado da porta do banheiro, justo no lugar onde eu já havia passado pouco antes, prostrado tal qual houvesse simplesmente desistido . Nem sei como não o vi, grande e escuro, mas, graças a Deus, moribundo. Também desconheço a maneira que entrou, como ousou.
Barata é a coisa mais infeliz no mundo. Mais triste que morte na família, que gol contra. A barata não tem razão nem amor à vida. Ela vai para cima de você, do seu Raid e de suas havaianas – seja correndo, seja voando. É valente, luta e esbraveja. É uma estúpida de uma forte; até feminina no gênero, de tão persistente, teimosa e cega.
Agora é primavera: em breve, estarão por aí, alegres a desovar. Li outro dia, inclusive, que as baratinhas recém-nascidas, logo que saem de seus ovos, vão cada uma para um lado. Caso dê algo errado com alguma, as outras têm a sorte de seguir outra direção. A natureza é uma merda de inteligente quase sempre.
Quando me for, elas ainda estarão vivas, aos bilhões. Não posso vencê-las, nem dedicando minha vida a isso. Malditas, ridículas baratas.

domingo, 6 de setembro de 2009

Confissão - Parte I

Boa noite, leitor, estava eu mexendo em algumas tranqueiras do escritório quando me deparei com esta carta, endereçada ao antigo e já falecido morador de minha atual casa, Humberto S. Ramos, grandioso advogado e pintor que não tive o prazer de conhecer. Me espantei com o conteúdo da carta, bastante interessante, o qual irei dividir em dois posts para não prolongá-los muito e para não cansarem da cópia meus dedos. Apreciem:



"São Paulo, 14 de Junho de 1959



Querido amigo Humberto,



fui um doente em minhas ações, perdoe-me por favor.
Não suportava mais.
Não mais me ocorria seu cheiro de quando nos conhecemos, agridoce, de dama da noite, recém regada, sutil, que despertava do amargo os homens, e me lembrava um gosto anil, certa parte do céu, talvez. Ainda me recordo das noites pensando no que diria a ela, uma vez que eu a via todas as manhãs na garagem escura e úmida de nosso apartamento, éramos vizinhos, como sabe você. E apesar dos períodos insones, delirantes a remontar sua imagem, a única expressão de minha face enrubescida, todas as manhãs, era um amarelado 'bom dia', quente ainda do gosto matutino do café. Depois dela, está certo, minha escovação nunca foi a mesma, o que não fazemos pelas belas dentistas, não é?... As manhãs eram feitas ao sabor refrescante do dentifrício e da sensação do fio dental me rasgando a gengiva, renovada de esperanças, entretanto, ao lembrar que iria vê-la nas sombras da garagem. O local dos carros era nossa ambiência em comum, tornou-se o passo inicial para conquistá-la. Certo dia lhe perguntei se já se acostumara com a escuridão. Sorriu com aqueles dentes escancaradamente, harmoniosamente belos. Lembra-se do seu sorriso? Nos casamos no dia 27 de Julho daquele ano, você esteve presente.

Passados seis anos contratei ele. Profissional de mão cheia. Disse que o serviço não tardaria, tentaria fazê-lo o mais rápido possível, indolor a todos. Eu a amava, sim, de peito aberto, nossa vida, porém, tomou-se por um marasmo gradual, até o rebentar. E para tornar pior minha angústia, conheci um fator acelerador do processo. Uma loura. Uma incendiária loura, de intimidar-se por tamanha beleza, tamanha austereza, tamanha leveza com que tratava dos assuntos pragmáticos problemáticos do cotidiano, uma pena a planar pela praça. Por tamanho infinito em seus olhos, profundos lagos azuis. Pelo seu riso, Humberto, emocionava-me seu riso. Eu me via Narciso naqueles olhos loucos. Duas mulheres em uma vida curta, pouco parece, Humberto, mas tomaram minha vida como dois goles lentos de gim..."

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A praieira

Quando ainda morava no centro, subia a pé os poucos quarteirões entre a escola e minha casa para o curto almoço. Havia um boteco perto do prédio, com as prateleiras atrás do balcão lotadas de destilados baratos e algumas poucas cadeiras metálicas espalhadas sobre o chão sujo. A uma hora da tarde de dias comuns, ao lado da mulher gorda que passava roupa em uma tábua logo à porta, homens bebiam cerveja e davam risadas.
Igual a como quando passava de ônibus em frente a uma praça, longe de casa, e avistava uma turma de velhos a arrastar mesas de plástico para sob a sombra das árvores, tomando o mesmo líquido amargo e amarelado, naquela hora do dia na qual só queremos dizer não.
Seria descompromisso ou filosofia esse hábito de sentar e embriagar-se como se fosse sábado?

Em uma quinta-feira qualquer, uma garota de moletom cinza, atordoada por apostilas, engenharias e vontade de tomar sol, saiu pelos portões da escola, indo até o bar da esquina pedir uma cachaça. Era um daqueles momentos nos quais não se deseja guaraná, suco de caju ou bolo de fubá, nem bebidinhas de baixo teor do que seja. Ela, instantes antes sóbria e sã feito uma beata, tomava devassos goles de pinga e ainda saía sem pagar. Diz que sem querer, por não estar muito bem da cabeça.

Razão tinha aquele outro Chico, ao cantar que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

sábado, 15 de agosto de 2009

Rain fall down

No Rio de Janeiro, há algum tempo, um taxista me disse ter visitado o Cristo, por lazer e não a trabalho, apenas uma vez na vida. Seus filhos jamais haviam subido o Corcovado para deslumbrarem-se com a vista e terem uma perspectiva privilegiada sobre o bigode do Redentor.

Mais recentemente, passava pela catedral aqui em Ribeirão Preto, driblando o cocô dos pombos pelo chão, e notei que não lembrava de ter entrado ali em toda minha vida. Nunca fui frequentador assíduo de igrejas, de paróquias ou do pensamento de Deus, nem comparo a matriz desta cidade a um dos maiores cartões-postais do mundo. O intrigante é morar durante anos a poucas quadras e estudar ao lado dela, porém sequer cogitar adentrá-la.

-x-

Tive outro dia o imprevisível prazer de vagar, livre e desocupado, pela cidade sob chuva. Saí da escola, ao início de minhas breves férias, e atravessei as faixas de pedestre sem saber aonde ir. De repente, ao engrossarem os pingos, reparei que não era uma tarde comum e resolvi caminhar até minha casa. O pé-d’água não cessou por um segundo, com as pessoas, dentro de carros ou debaixo de marquises e guarda-chuvas, olhando compadecidas para o pobre rapaz encharcado – o fantasma sobre o qual escreveu Kerouac – dobrando sozinho as esquinas. Esqueço a catedral, as capelas e os bosques; as casas dos belos bairros altos, da água escorrendo veloz pelas calhas e das portas saindo direto para a rua são mais encantadoras. Quem mora nelas, como são os quartos, a cozinha? Há lareira? Para quê? O labirinto formado pelos paralelepípedos, as praças desertas, as lojas, escolas, academias. Tudo é mais vibrante do que a tétrica igreja. Mesmo as vias centrais, quando imersas no preto e branco da garoa, são mais coloridas.

Contemplo parte da cidade sob meus pés como se me pertencesse. Ando pelo passeio estreito, vendo velhas arrancarem ervas daninhas do jardim, ouvindo flautas soarem por trás das janelas, atento às discretas clínicas parecidas com residências, às casas similares a consultórios. Amigos, no meio da tarde na semana, bebendo chopp e conversando em restaurantes. Empregadas tirando o lixo para fora e seguindo ao ponto de ônibus, os seguranças cochilando sob seus guarda-sóis na calçada, a música ecoando do estúdio de dança. Todas as lembranças de coisas que não presenciei surgindo pelos portões daquelas casas de muros altos e canaletas sobrecarregadas e das que mais lembram bangalôs, com suas cercas baixas, como se não houvesse passado o tempo.

Talvez o carioca fosse tão turista quanto eu naqueles locais cheios de tradutores. Só ele deveria mesmo saber dos lugares em que a cidade pulsa, onde é linda quando chove.

sábado, 8 de agosto de 2009

Odeao Ócio

pensar pensar,
acatar Capitular
olhar o Nada
olhar ao nada

Nada ao Nada
despreencher o Vazio, lentamente mente
mentir?
pensar Pensar

mudar Alvoroçar
revo revolucionar a Mente a mente
filosofar com confabular

Com si.
É o ócio, esse bicho
que enlouquece espertecendo.

sábado, 11 de julho de 2009

Um dia na vida

A mais bela canção de John Lennon e Paul McCartney, na minha imparcial opinião, é A Day in the Life, do mítico álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Última faixa do disco, começa tímida, fundida a aplausos e guitarras da música anterior. O piano une-se, logo no início, à batida do violão, e Lennon canta – quase narrando – uma notícia de jornal. Trata-se da morte de Tara Brown, jovem playboy e figura fácil na Swinging London dos anos 60, vítima de um acidente de carro que o matou na hora.

A letra estende-se em banalidades da cabeça do beatle para ser transportada, após um impetuoso vórtice orquestrado, à porção McCartney da parceria. Paul canta, em poucos versos, a autobiográfica rotina de um jovem que perdeu a hora, do pular da cama até o cigarro e devaneio no segundo andar de um ônibus inglês. Ao deixar a palavra "sonho" no ar, a voz de Paul é substituída pela de John, em gritos ou gemidos acompanhados da orquestra. Esta, por fim, desaba, e dá lugar à última estrofe: mais uma peça do noticiário, dessa vez os buracos em uma cidade na Inglaterra, contada por Lennon. A música termina com um mesmo acorde tocado simultaneamente por vários pianos, ecoando até vagarosamente desaparecer.

Escrevi isso tudo só para falar sobre os obituários, aquele canto esquecido do jornal, em especial a historinha do defunto do dia. Lá repousa o talento de montar pequenos romances, microbiografias sobre anônimos que passaram. Apelidos de infância, namoradas roubadas, as viagens mais importantes de uma vida: é o que se encontra resumido em seis ou sete breves parágrafos. Não é tendência nem debate, não precisa de efeito; não vai sair nas cartas dos leitores no dia seguinte.

Transformar coisas aparentemente insignificantes em algo grandioso é o pulo. A epopeia de um velho e um peixe-espada, o milagre do moribundo cantarolando a Marselhesa, o resfriado do Frank Sinatra, o diabo dos quatro mil buracos em Blackburn, Lancashire. Qualquer pulha bate os olhos na televisão e escreve sobre andar para trás. As nuances dos grandes acontecimentos e os fatos que sequer são manchete separam, no entanto, os textos nascidos para serem sublimes daqueles que se tornam notáveis. E as canções. Simples letra e melodia sobre as notícias, oh boy.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Monólogo sobre a divergência do dissimulacro universal

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,

Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
(Álvaro de Campos)


Menezes, português todo erudito, óculos fundos, calças no umbigo, suéter de balõezinhos bordados, todos amarelos e verdes, pega a mulher pelos braços, joga-a sentada na cama, olhando fixamente para sua dúvida maior.

MENEZES:

(olhando nos olhos)
Deixe-me falar.

Mulher, eu não te entendo.
Juro por Deus que não te entendo.


(abre os braços para cima, num evidente apelo ao divino)
Já houve retórica tão inapalpável?


(enfático) 
Pois me resta lhe perguntar agora, livre e direto, POR QUÊ?


(a perder o fôlego)
Por que não és direta comigo? Se queres comer bacalhau à moda do porto me perguntas se quero comer um bacalhau à moda do porto ao invés de simplesmente tascar uma lasca e comê-lo.
Simplesmente.


(divagando ao ritmo da fala, pausada, nervosamente)
Mulher, a vida não deveria ser mais simples?


(bota as mãos no bolso, vira-se de costas para ela, de frente a um espelho, olhando-a)
Entendo, pois, as ruas inclinadas e pedras no sapato de tua bioquímica, mas juro que não te entendo, mulher.


(gira em torno de si, como um cão atrás do rabo, coçando a iminente careca)
Por que não me respondes, evasiva, o que te pergunto?


(tornando ao olhar fixo)
Ficas com essa cara de gosto ruim, não te entendo, mulher!


(meiguinho, o rechonchudo)
Que te fiz? Magoei? Estou tão certo de meu raciocínio... que chego a duvidar de mim, ponho-me em réu e proponho dizer a verdade, nada além da verdade ao meu eu, que não deixa de ser teu, também.
Mas diz: Por quê?


(já desistente da réplica muda dos finórios olhos que a ele vêm, um império)
Fala, mulher, não sou teu adivinho.

. . .

(e deixa o palco após um profundo e interminável olhar, remanescente da dúvida)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Adendo de quinta-feira da semana da feira, vide o post abaixo

Que Newton que nada, o sono é a única lei que sofro influência hoje. E tal qual um diário de bordo, se eu tivesse um diário de bordo, diria nele que este foi o dia mais singular (pra não mencionar outros termos) do ano, acabando com um banho quente e lembranças do show arrebatador de MPB4 e Toquinho em que estive há pouco. Nem a gravidade impediu-me de flutuar. E o Michael Jackson morreu.

No salão de idéias de Moacir Scliar que fui quarta, perguntaram-no se a tristeza seria necessária para escrever. Scliar respondeu que não seria bem assim, bastaria um ligeiro incômodo para provocar o ímpeto de pôr no papel, pois a tristeza plena 'paralizaria' a pessoa, bloqueando-a, e a alegria plena, quem tem a alegria plena não escreveria. Sinto modestamente discordar de Scliar, apesar de eu sempre ter concordado com esse pensamento, hoje só tive o impulso de escrever algo aqui por conta da alegria plena proporcionada pelos momentum's vividos hoje.
Mas talvez seja o sono.
Ou textos ruins não se apliquem a isso.

domingo, 14 de junho de 2009

Dançando conforme o logaritmo

A questão é que estou logaritmando há umas seis horas e tenho pouco menos que dezessete horas para terminar toda a matéria acumulada da semana. Creio que não conseguirei, e olhe, obstinação nao se encontra em qualquer esquina. Compreensão.


(Adendo ao post de sábado:)
Estão vendo? Não deu tempo. E esta semana próxima não dará também, embora a boa intenção de estudar, vou abrir um hiato em minha carreira de estudante aplicado por conta da Feira do Livro, que tornará a semana intensa. Shows (hoje já teve Paulinho da Viola), palestras e churros na praça. Alguém precisa de mais? Ok, um algodão-doce é nada mau.
Bom feriado aos que o terão.

Ato-Falho

Ditou o professor:
-Di-ton-go
Mas pobre do aluno, capicongo,
No ato saiu um hiato.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Taxonomia

Era um sabiá.
Ouviram.
Pensaram.
Anos atrás se sabia do sabiá.
Hoje se sabe também
do assobiar do pássaro
Que ainda porém
de um sabiá não passará.

[fim]

Adendo
Ao Homem, maniento:

Pois saiba que não,
não fará não de mim
nem não, de ninguém fará sabiá
saber só
só somente assobiar,

E tampouco
(bem pouco, quase nada)
lhe trará a alegria do voar

sem com a mente, e
com os pés, principalmente
desfrutar aqui o de bom
que cá no chão antes há.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Bear Mountain

Em On The Road, logo no início da trama de Kerouac, Sal Paradise chega a Denver, após semanas de ansiedade e desejo quase incontrolável de quebrar sua monótona rotina através das estradas da América. Ao situar-se na frenética vida suada e boêmia que levavam seus camaradas na cidade – entre serviços de manobrista, jams poéticos, álcool e benzedrina –, Sal nota que as modestas 24 horas de cada dia não seriam suficientes para sobreviver àquilo tudo. Assim, no êxtase da noite fervorosa do velho Colorado, Salvatore conclui, delirante e devasso, que não vai mais dormir.
Eis que me encontro num labirinto semelhante ao beatnik. Não estou no Oeste, não tomo carona nem uísque para esquentar a goela permeada pela gélida ventania das highways. Mas me afundo em mols de cadeiras, aulas, provas, módulos, fórmulas, regras, truques, anomalias e exceções, matando uma dúzia de leões amarelos com listras roxas por dia.
Deus, depois de criar o mundo, o homem e os ursos panda, resolveu que todos os seus filhos deveriam começar cedo a fazer algo parecido e, da costela de alguma coisa bem grande e feia, fez o vestibular.

Qualquer dia desses, delirante e exausto, eu também paro de dormir.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A festa de Carlinhos

Muito pra estas coisas não sou, mas
Carlinhos, amiguinho meu
Do Colégio S. Bartolomeu
Fazia anos e me chamou.

Chegando lá encontrei
Entre doces e refrescos
Um anjinho, desconfiei.
Cumprimentou-me cortês,
Hesitei.

E Carlinhos, mão no ombro, brilho no olho:
-Vem, Igor, ser gauche na vida!

(E até o presente instante,
o infante caso elucida minha ida.)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Descarga de consciência ou Leia em 12s


Quarta-feira eu estava cansado, mais cansado que muitos que se dizem no mais elevado grau da canseira. Era um bocado de canseira, uma canseira do Olimpo. O que importa foi eu ter ficado papeando com meu pai mais dois homens numa mesa de bar, daquelas altas, mesmo eu em meu inconcebível, icomensurável cansaço. Não tente abstrair a palavra, ela irá se tornar tão grande que sairá de sua casa ou onde quer que seja, e logicamente não conseguirá vê-la, então proponho que não percamos mais tempo tentando equivaler canseiras ou discorrendo sobre. Retomando o assunto, na pequena mesa conheci S, um rosto solitário cuja profissão não recordo, devia ser um bom homem. S permaneceu atrelado à mesa durante todo o tempo em que estive lá - levantando só para urinar - e não ouvi sequer uma opinião a respeito de algo, ou melhor, uma opinião verdadeiramente legítima, carimbada a cartório formada por S a respeito de algo. Sabe bem que em qualquer mesa de bar os assuntos são dos mais variados, e geralmente obedecem à famosa gradação, começando pelos mais sóbrios e sãos até os inevitáveis temas: filosofia, situação da nação, do mundo, a morte, a vida e os severinos... Em síntese, claro. Está no superego do globo. E o assunto dos assuntos regados a etanol proferidos num bar rende no mínimo uma tese de mestrado, não, duas teses de mestrado, porque a avaliação do que ocorreu na noite anterior é proporcionalmente mais segura conforme o número de pessoas que se lembram. Pude ver em S um certo estado de melancolia e solidão de alma, aplacados no momento pelo próprio momento em si, vi um sujeito solitário que gostava de um bom chopp, não queria desagradar ninguém, então apenas concordava com um ou outro, e, se por ventura emitia alguma tese fora do tom, tratava logo tornar à posição do interlocutor para se redimir perante os companheiros de prosa. Tal caso é mais comum que se pensa. Eu estranhara o fato de meu pai chamá-los de doutor, era doutor pra lá, doutor pra cá, raios, ele não chama ninguém de doutor, e só após conhecer D - que estava esperando um pouco de carne seca do restaurante ao lado, sentado à nossa mesa - percebi a admiração e respeito de meu pai por eles. A lembrança de D sobe-me à cabeça com uma riqueza muito maior de detalhes em comparado com a enfadonhice de S. Fora a personalidade saliente da mesa, como uma coroa cravejada de diamantes, mas quem salta aos olhos é o rubi, profundo e farto. D formou-se em medicina oftalmológica há um bom tempo, formou-se e partiu para os Estados Unidos, relatou-nos casos tristes e engraçados a respeito de sua longa residência e das mazelas que desgraçou na cidade. D fora viver o sonho americano e conseguiu, teve filhos, fez a vida em Nova York por quarenta anos, aposentou-se e voltou a Ribeirão Preto para viver. Nas poucas horas que tivemos contato com D, tomamos lições de oratória (ressaltou as qualidades de um queijo parmesão picado sobre a mesa como ninguém), assuntos biomédicos em geral, e sobre como em Nova York todos os restaurantes têm pelo menos um enfermeiro e todos os hospitais têm pelo menos um juiz de Direito plantonista. D tinha uma presença maravilhosa, sempre que me encontro com alguém de tamanha presença me espanto, talvez por eu ser enfurnado em mim mesmo, cheio de olhos. Contou sobre como o juiz plantonista do hospital interfere na coibição de um suicídio de um paciente que por conta da religião não deixa que lhe injetem sangue de outra pessoa, tratando-se, portanto, de um suicídio 'indireto' e sobre como todos os restaurantes têm uma ferramenta, uma espécie de tesoura-pinça, e como fazem os enfermeiros para retirarem pedaços de comida da faringe de pessoas engasgadas - geralmente velhos, disse D, apontando para si, levantando de sua cadeira a cada história contornada, devia gostar de ilustrar a situação. Meu pai me olhava, marcando um sinal de aprovação com a cabeça. Antes da história dos enfermeiros e juízes e da história de como tratou de um homem que passara mal no mesmo restaurante outro dia, D nos falou de seu amigo diplomata, dando a mim conselhos futuros, provenientes de um comentário feito por meu pai de que eu acabaria enveredando para a política internacional. "Em todo lugar há corrupção, há ambição, no Itamaraty não é diferente, veja só o que fizeram com fulano, meu amigo", disse ele. Fulano estava na condição de escolher o país em que iria exercer o cargo, escolhendo Paris, mandaram-no para a África, disseram que tinha sido por causa de seus sete filhos, pobre fulano.
Falou da juventude sem o costumeiro escapismo saudosista inerente à idade, como é atual o velho, que a sociedade educa o jovem para um mundo de rápidas e constantes mudanças por meio das fotografias da televisão, apontou à tevê: "A televisão é programada para mudar de imagem a cada doze segundos, olhe, olhe!" E apesar de não ver televisão, conheço bem o jovem de hoje, pobre do jovem de hoje. Nunca me encontrei com uma provecta criatura de tamanha vivacidade. Andarei mais por lá para ver se qualquer dia desses encontro D sentado naquele banquinho alto, gesticulando e passando aos seus ouvintes um tantinho de sua sabietude ateniense. Qualquer dia cansado desses, para descansá-lo.

Mais uma coisa, leitor, use mais doze segundos de seu dia para refletir acerca da obra de Dalara Darabi, pintora iraniana de carreira efêmera que ganhou notoriedade internacional por aos dezessete anos ter sido presa, acusada pelo Estado do Irã por um assassinato que nega ter cometido. Dalara será enforcada nesta segunda-feira, aos 23 anos. Fica aqui uma pintura dela.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tune-up

Não é novidade que o tédio domina a indústria fonográfica e, consequentemente, a imprensa musical. No mês passado, por exemplo, a Rolling Stone americana elegeu os melhores álbuns homônimos da história, em mais uma enfadonha lista. São famosos também os rankings de melhores canções, discos, instrumentistas… Tudo um aborrecimento, uma imensa falta de assunto.

Listas sempre causam polêmica e mexem com gosto e orgulho alheios. E não poderia ser diferente, afinal, qual é o método? Meia dúzia de jornalistas e personalidades do rock citando alguns grandes nomes e esquecendo outros gigantes de fora do gênero. Sem pauta suficiente ou propagandas de desodorante para dar volume a revista e nem uma nova salvação da música para estampar na capa da edição? Dá-lhe lista!

Bons anos atrás, durante um carnaval, lembro de a MTV ter feito um Top 500, repetido algumas vezes ao longo do feriado. Provavelmente ninguém queria trabalhar, e um gênio da preguiça sugeriu a ideia. Não sei qual foi o critério (se é que havia um) na ordem dos quinhentos diferentes clipes passados naqueles dias. No entanto, ao menos eles foram honestos.

E honestidade é uma virtude cada vez mais rara por essas bandas. Pouco me importa se Carla Bruni canta bem, se Roberto Justus deveria estar interpretando Sinatra ou se o AC/DC é puro mais do mesmo. Eles acreditam naquilo que fazem e o fazem por isso. Difícil é engolir outra coletânea do Aerosmith, mais uma produção de Timbaland e conjuntos musicais com dez mulheres, sendo que uma canta e nove rebolam.

Sejamos honestos, por favor, e com uma pitada mínima de dignidade.

domingo, 29 de março de 2009

Uma pequena justificação atenuante...

É no sono que acontece, dispo-me de minha natureza taciturna e abro minha boca. E como estou perdido de sono e pormeti a mim mesmo não dormir antes de escrever aqui, lá vai. Primeiro me desculpem por essa mania chata de me desculpar. Tamanha insegurança? Sabe-se lá. Sei, porém, que a Moringa está um tanto abandonada por nós, queira nos desculpar, leitor, é a legítima falta de tempo, falo seguro das palavras, uma desculpa muito conveniente e comodista, não é? (não no nosso caso, pode ter certeza, não lembro mais de quem mora comigo.) Essa insegurança minha se transporta aos mais variados níveis do cotidiano, o que acabou em gerar, digo, incubar, uma ligeira hipocondria no meu ser. Já que estou aqui escrevendo, nessa noite vermelha de sábado para domingo, já que amanhã tenho muito a fazer do que não quero fazer, mas que preciso fazer, já que o sono me perturba... Desculpe, não tive como segurar o bocejo, é inevitável, não se acanhe em bocejar. E já que estou aqui me desculpando, aproveito a deixa para pedir a mais sincera escusa aos meus médicos, sei, falarão que o único prejudicado serei eu, mas tudo bem, a noite está linda. Vocês compreendem, doutores.

Tereza, dermatologista, não sei se seu nome é grafado com s ou z, mas oh, pouco importa agora. Quero lhe dizer que não estou levando o tratamento a sério, mal tenho tempo para realizar minhas necessidades básicas (absorção, excreção, evacuação...). Eu não estou administrando o Dermotivim Espuma como o indicado, só consigo lavar meu rosto quando saio de casa e quando chego, ou seja, antes de amanhecer e um tanto após o anoitecer, para estudar depois. Peço perdão por às 13 horas, não passar o filtro solar Epsol 30 Water gel, após não ter lavado meu rosto com o Dermotivim Espuma, também.

À noite o problema persiste, quando me contemplo no lar, depois de alguns segundos de nostalgia antecipada olhando para o teto, só me lembro de lavar o rosto com a espuma - ressalto, agradabilíssima espuma!- na hora da escovação noturna, após não ter estado com o Isotrexin gel prescrito para estar no rosto por duas horas exatas durante quinze noites, depois quatro horas por noite até a próxima consulta. Desculpe Teresa... Sempre me embanano na hora da escovação, por minha sobremaneira lerdeza. Demoro um bocado mais que noiva no dia do sim: é preciso escovar com o Sensodyne branqueador indicado pela multiladora, han, quer dizer, doutora Fátima, repetir o processo de escovação com o aparelho de contenção do ortodontista Rogério (que eu deveria usar a toda hora, tirar apenas para comer, ah, olhe bem para a minha cara, Rogério, só durmo com ele e está bom demais, qualquer abertura entre meus dentes será um charminho a mais!) Usar um enxaguante bucal, se necessário, fora os inconcebíveis Dermotivim Espuma e Isotrexin da dona Tereza.

É claro que muitas vezes acabo me esquecendo dos pormenores, você também se esqueceria, leitor. Ainda no pré-sono, dadas as minhas moléstias gástricas azia, refluxo e um translúcido início de gastrite, que deixa a vista opaca de dor, tomo um Gelmax, ou um Gastrosil, de espinehira-santa, antes de dormir. Mas não sem antes ter lembrado de aplicar o Budecort Aqua, prescrito pelo otorrinolaringologista, doutor Tácito, uma suspensão em spray nasal para os que padecem da tão temida cá por estas terras quase-semi-áridas durante o inverno, RINITE ALÉRGICA. Também parei com o antialérgico Zyxem que prescreveu, doutor Tácito, não foi descaso de minha parte, apenas esqueci a contagem dos dias e horários...

Se jovem, na flor da idade já estou assim, imagine daqui a uns bons 30 anos, suponho que terei de andar com uma bolsa de remédios acoplada a outra de primeiros-socorros, soro na veia, o braço picado cicatrizado, sem mencionar as ancas doloridas por injeções de morfina e insulina diárias. Prefiro gastar minha preciosa renda mensal deitado confortavelmente num divã a lamentar de tudo e de todos e de como a vida passou num piscar de olhos, e como no meu tempo era melhor, e essa juventude transviada, éramos todos mais recatados no meu tempo. Pelo menos seria mais prazeroso, convenhamos, leitor sem humor.

Sim, é um hipocondríaco de primeira! Um loucão! Deve tomar alguns frontais também, além de todas aquelas drogas que terminam em -ina, você deve estar pensando... Não, apenas usei o ignorântico espaço democrático da intenet para me redimir perante os médicos, exelentes médicos, e dizer que não sigo corretamente seus tratamentos, dada a famigerada falta de tempo (lê-se disfemisticamente, saco)... Ah! Uma coisa, só os xampus, Tereza, estou usando como falou, intercalar cada dia um, o Keirium gel e o Caspel, sem condicionador, e sabe que está dando resultado? Quer dizer, deve estar dando, um dia pode ser que dê. Enfim, o galo canta, vou dormir antes que o dia cresça e meu nível de melatonina desça. Nossos dias podiam ter 48 horas, não?

sábado, 21 de março de 2009

Ticking away

"And then one day you find, ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun.”


Há dias em que demoro a pegar no sono. Enquanto tento adormecer, pensamentos inusitados surgem na mente. Às vezes tento organizar fatos, mergulhando neles e procurando, através de lembranças, alguma pista de quando se deram.
Percebi que uma série desses acontecimentos marcantes, de anos atrás, ocorreram em períodos de tempo muito pequenos. Aquilo que à época chamaria de anos eram, na verdade, meses ou semanas. Referências – seja algum lugar onde morei, alguma viagem que fiz ou uma final de Copa do Mundo – revelam-se períodos curtos para tantas recordações. O que ocorre hoje aparenta ser breve e distante.
Quando era pequeno, me disseram que os anos passavam mais rapidamente conforme envelhecíamos. E é verdade. Não sei se os dias eram lentos, se os meses arrastavam-se. Os anos, porém, eram intermináveis.
Os especialistas devem saber a razão; eu tento esboçar o porquê. Aos dez anos, por exemplo, um ano representa 10% do que se viveu até então. Com vinte anos, 5%. Aos cinquenta, apenas 2%. O que são 2%? Pouco, quase nada. Um ano valia mais no início, apesar do tempo continuar sendo o mesmo. Aquele mesmo pai que jamais encontramos.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Um Pontinho

Que é que é?
Um pontinho preto
Meio manco meio mané?
Inteiro vermelho laranja amarelo verde azul indigo lilás, ora, tanto faz! - diz o velho, sorrindo branco.
Que
de pontual acaso
de um pontinho
eu não passo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

I Know There's An Answer

Desculpe, leitor, se não o agradei com o último post. Ele ficou, ao meu ver, bastante humorado e lúdico, não sendo logicamente de bom grado apagá-lo a esta altura. Gostei muito dos comentários, serei um pouco mais seletivo na escolha do texto ao blog, companheiro do anonimato. Bem ou mal, através dos comentários sabemos que outras pessoas nos leem. Creio que o verdadeiro chulo é o que andamos cativando (desde sempre?), nós brasileiros. O post irá ilustrar minha ideia, feito na madrugada de sábado, acompanhe.


Fui a um aniversário infantil. O ambiente embalado pelo Dj contratado, o qual tocava algumas músicas dance, nada em especial. Ao fundo avós, tios, tias, amigos e agregados, todos falando alto e gesticulando devido ao som, que não poupava os ouvidos ali presentes. Mesas vazias à frente, pista de dança vazia.

O nosso amigo Dj, encarando a pista muito vazia para um início de festa, e querendo fazer jus ao seu cachê, mudou de repertório: funk. Instantes após as primeiras batidas a pista se encheu de crianças de doze anos de idade a dançar o ritmo, e não se cabiam em si mesmas de contentamento. Algumas meninas se atreveram mais, desceram até o chão, chão, chão, despudoradas no olhar e nas mãos.

Entretanto posso dizer que a pista realmente ferveu quando começou, tão amado entre os baixinhos, o sucesso Créu, seguido de suas trocentas versões, inclusive uma paródia de Ilariê. As crianças, sim, ainda crianças, se atiçavam conforme as velocidades graduais da dança. Durante a última, os meninos formaram um círculo, deitados no chão, fingindo copular com o mesmo, achando a situação toda muito natural e divertida. Estavam se descobrindo, apenas.

Os adultos e os não tanto que viram, ou permaneceram indiferentes, ou se espantaram de ver como as crianças brincavam, também permanecendo, porém, indferentes de uma certa forma. Que fariam, afinal? O desespero nos trouxe o riso.

Durante o Parabéns a Você a cerimônia ocorreu nos conformes de uma festinha infantil, Com Quem Será, bolo e docinhos ao fim. Tudo muito lúdico. E agora, eu com a lembrancinha nas mãos, e a aniversariante em sua casa, provavelmente abrindo seus presentes de mulher - já não se ganha mais brinquedos aos doze - só me ocorre um pensamento: preciso rever meus conceitos.

terça-feira, 3 de março de 2009

ARDOLESCÊNCIA

te como

redonda prismática trigonometricamente como
redundantemente te como
como com amor,
com sorriso
como com bossa

como na fossa
como na escada
como lá atrás
como quem faz
que não quer ver

como como leão
na savana louco
doido de paixão
o rei do coito jus faz
à hegemonia do comer

te como

métrica linfática roboticamente como
cotidianamente te como
como café de manhã
como abelha na flor
como fedelho
come no chuveiro

te como

utópica retórica metaforicamente como
adolescentemente te como

romântica semântica antagonicamente como
etimologicamente te como
tal qual tu, feito eu
como nossos pais
comeram
um dia
te como

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Entre vidros

Pensei em uma narrativa em terceira pessoa para descrever o que está se passando aqui, mas creio que ficaria um tanto quanto limitado. Depois pensei numa narração em primeira pessoa (não como agora), com o personagem principal descrevendo sua moléstia de pré-morte. E, bem, depois lembrei-me de que o meu personagem vive num aquário, e tentar transmitir sua posição, mesmo que irracionalmente, seria um bocado impossível, visto que, logicamente, não sei dialogar com peixes. E, analisando muito bem a situação pela qual atravessamos nós dois, em meu quarto, decidi escrever eu, eu por eu.

Confesso que nestas linhas há um tom de remorso, por minha absoluta e humana comodidade em não ter limpado seu aquário. Nós que pensamos, esquecemo-nos de certas responsabilidades, a cargo de outras maiores (aparentemente), como comer, ou dar de comida ao subordinado próximo. Talvez esteja sofrendo, ou talvez não, sabe-se lá o que há naquela cabecinha minúscula e esbranquiçada do não viver.

O que sei é que, ao entrar no quarto, ver o peixinho imóvel, com a cabeça colada nas pedrinhas do aquário, trouxe-me um sentimento de profunda calma. Pareceu-me que gostei de ter livrado-me do fardo agonioso de tratar sem esperar melhoras do animal. E somente então após observar com minuciosidade percebi o resquício de vida que ainda lhe resta. Está ofegante, abdômen inchado, órgãos aparentes através da fina pele, escamas eriçadas, sem vida à vista. Uma cena horrível até aos sádicos.

E não pensem no meu sadismo em deixar o betta agonizar até morrer sem sequer tentar reanimá-lo. Tentei. Pesquisei na internet, fui a um profissional: hidropsia. Troquei a água, como os conformes, dei o medicamento antibiótico e a ração nutritiva. Percebi uma significativa melhora nos primeiros dias, porém o pobrezinho só arredondou-se mais.

E, a escrever aqui, penso em desligar seus aparelhos, dar a ele um fim como o que eu, em sanidade perfeita, pediria para mim. Mas não consigo, não consigo!
Fraqueza de minha parte? Maldade? Uma torrente de antagonismos paira por entre estas paredes. Festejei meu carnaval (como os mal-humorados festejam, está certo), e agora que voltei ao quarto e lembrei da agonia do bichinho preso no aquário, penso em matá-lo? Mas que egoísmo preguiçoso de minha parte, não? Mereço um tapa na cara.

Sinceramente, se sobreviver até manhã - a irônica quarta de cinzas - levá-lo-ei ao veterinário, o qual saberá o que não fazer, pelo menos. Somos dois animais aqui, e o único antagonismo nesta cena é que um cometeu mais erros que outro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Last dance

Muitas pessoas afirmam não viver sem música, devendo à harmonia das notas musicais parte do significado e graça de suas vidas. Incluo-me nesse grupo e, apesar de músico relapso, sou ávido farejador de ritmos e melodias. Da mesma maneira que outros fanáticos, não me contento em ouvir uma boa canção, mas em buscar a razão, o contexto, o que veio antes e depois. Música é mais do que ruído; é uma máquina do tempo, de cores e de sentimentos. “Nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar. Música é perfume”, nas palavras de Maria Bethânia.

Pois então.

Faleceu no mês passado Walter Engracia de Oliveira, um senhor de 85 anos, em decorrência de complicações causadas por uma pneumonia. Era engenheiro, nascido em Ribeirão Preto. Foi professor da USP e prefeito da cidade de Atibaia, no interior do estado. Nos anos 40, fez um estágio com urbanistas na França, cultivando grande admiração pelo país.

Até aí morreu o Neves – ou o Walter, como preferir. Entretanto, um espantoso momento da vida desse homem aconteceu próximo a seu fim, com a cólera devastadora do Alzheimer estabelecida e suas memórias cruelmente dissipadas pela doença. O enfermo não conseguia sequer manter diálogos com outras pessoas; contudo, em um dia singular, cantarolou inteiras a Marselhesa e La Vie en Rose – respectivamente o hino da França e um clássico do cancioneiro do país, uma das mais ternas melodias já criadas.

Médicos e familiares ficaram pasmos com o surpreendente ocorrido. Não restou à música ser apenas uma derradeira e resistente lembrança na vida de Walter; coube a ela também o papel de um último e melódico suspiro.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Porquê

Oh tortura de mundo...
Oh vida insana, cheia da demagogia bacana. À banana
[todos nós!

Oh mundo cruel, que pra viver não basta um só bacharel
Tem também de ter a perspicácia da falácia!

E nesta tonta tortura tola e torta é que contentamo-nos
Em permanecer perversamente
tortos,
tolos
e tontos.
Como as baratas à espera da vassoura.

Pois neste mundo, só vai pra frente, meu caro, quem mente.
E por isso rimo, choro no canto, canto meu choro.
Porque rimar é brincar de os problemas da vida
amenizar.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Groovin' high

Viver no alto e em meio a milhares de outros estranhos é curioso como poucas coisas. A vida alheia acontece em quadros incompletos, nos quais é preciso tanto ver e ouvir quanto imaginar o que se passa pelas janelas.

Tenho uma vizinha no edifício ao lado, que toca violão e trava longas conversas ao telefone às duas da madrugada. E uma tartaruga grande sobre a cama coberta pelo edredom rosa.
Outro vizinho, o qual vejo diariamente da janela do meu quarto, é todo bombadinho e parece não ter muitas camisas. Ao menos é raro vê-lo usando-as. Também fala ao telefone, mais cedo e alto. Isso quando não brinca com uma criança, que pula na cama e ri. Ou se não está enrolando alguma coisa estranha com os dedos.
Na sala de estar, o pai passa as noites à meia-luz. Não é possível ver bem o que faz, parece ficar até tarde tomando uísque e conversando sobre política e Hemingway com alguém; é uma daquelas salas com uma iluminação em que sempre se pode tomar um uísque e falar sobre os fatos como se estivesse acima deles. Mas, provavelmente, o velho fica apenas com a mulher, assistindo à novela.

No mesmo prédio, um casal juvenil às vezes se esquece de fechar as cortinas quando estas deveriam estar cerradas.

Do terraço, vejo uma jovem que demora muito a se vestir e caminha ocasionalmente na esteira. Seus pais bebem vinho – muito vinho.
A poucos andares, um homem tem o desagradável hábito de trocar nu a fralda do filho. Sob ele, um rapaz fuma sozinho na sacada.

Não queria ouvir o bombadinho gritando ao telefone com seus brothers, e sim saber o que a garota toca ao violão. Talvez se eu arremessasse uma pedra, com um bilhete colado, pedindo para tocar mais alto do que a chuva fina.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Nem um pinguinho de nada

Ele me batia.
Aí, com raiva, não, com ódio, fui lá e fiz, sem dó.

Depois ainda descobri que maltratava a menina. Pobre menina, tão estudiosa, tão quieta. Não falava nada na hora da janta, só olhava pro prato, que parecia ser o único que entendia. Então fui lá e fiz, aquele vagabundo mereceu. Num domingo besta desses, tava ele no sofá vendo o jogo e pediu pra levar uma cerveja pra ele. Levei a quente de propósito, ele percebeu, e me bateu. Bateu muito, tacou a latinha na minha cara, depois já veio dando em mim. Só parou quando o Corinthians fez o gol. Maldito, e a menina, não podia também maltratar dela, daquele jeito, ah, se eu soubesse disso antes... Eu fui deixando, roxa por fora e por dentro de ódio, fiquei quieta, na minha, se reclamasse apanhava mais, igual cachorro. Depois mandou eu chupar ele, na cara de pau, não acreditei, eu tava era com nojo daquele desgraçado! Mas ele pediu, ele pediu, então fui lá e fiz, mordi o bicho até arrancar fora, pra parar de bater em mulher e maltratar menina daquele jeito. Sabe que até gostei do gosto do sangue? É, achei bom, um vermelho bonito sai de dentro de gente feia. O vagabundo, depois de gritar feito louco, olhou pra baixo e desmaiou, tão corajoso era, né, tão valente, vagabundo, desmaiou de saber que não vai mais poder maltratar menina. Foi aí que liguei pra polícia, por mim eu enfiava uma faca nele, devagarinho que dói mais, mas sabe como é pobre, se fode de todo lado. Fui esperta de ter ligado. Agora ele tá enrolado bem mais que eu, e vai é viver pra sofrer, e quando sair da cana, manso é que não vai tá. Eu e a menina vamos embora pra São Paulo. Fácil também é que não vai ser. Minha cumadre mora lá e assim que acabar tudo isso ela vai me dar um arrego, só por uns tempos, até a gente se acertar. Vagabundo, não quero nunca mais ver a cara dele. Remorso? Nem um pinguinho de nada.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Melô da Isotretinoína

Terminei meu tratamento com o capeta dos remédios e pra não deixar a semana em branco, aí vai o melô que fiz num comentário no Neurotropina:

Ina iina, não, não é a cocaína!

Ina iina, muito menos cafeína!
Ina iina, já foi seu tempo, anfetamina!
Ina iina, é menos mal que heroína!
Ina iina, cum'bucado de adrenalina
Essas rima são minha sina!
Ina iina, as espinha aglutina!
Ina iina, mas cuidado que alucina...
Ina iina, o cérebro não raciocina!
Ina iina, siga certo a rotina,
Que sem disciplina, cê se arruína!

E, você, leitor recém-chegado, o blog não é tão ruim, experimente os outros posts.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Estudo sobre a ironia: O Destino ou A Força da Banalidade

– Quem fala?
– Eu, né!
– Eu quem? – Você não sabe mais quem sou, amor?
– Isso lá é hora de ligar?
– Que falta de consideração. Não sei por que não desliguei na sua cara agora.
Ela deitada na cama rosa, com os pezinhos na parede, sujando-a. A camisola cede, as pernas todas para fora. O cabelo longo escorrido lembra uma cachoeira, linda como nunca. Não consegue dormir.
– Não consigo dormir!
– Ah, amor, desculpe, cabeça nas nuvens, sabe como é. O Jarbas disse que não vai aceitar o acordo, acabou, amor, tudo acabado. Me chamou pra tomar um café no Stack`s, bar mais caro da cidade. O que vai querer? Esses pãezinhos-de-mel são deliciosos. Vou ficar neles e mais um expresso. Sugiro a você este aqui, que é uma das maravilhas do paladar, você vai ver. Disse o desgraçado, com o charuto na boca, apontando pro cardápio na maior calma do mundo, frieza de advogado mesmo, e aquele jeito de falar que parece que tá ruminando, o gordo.
– Fica preocupado não, essas coisas se resolvem, assim, num pisco.
– É... acabou. Mas então diga, por que ligou?
– Já disse, insensível, não consigo dormir, tive um sonho estranho.
– Ah, ha! Eu aqui de cabelo em pé por causa do puto do Jarbas e você me vem com essas preocupações gratuitas. Faz o seguinte: toma um banho quente, pensando em mim, daquele jeito, depois pega uma toalha fofinha, se enxuga, coloca a camisola que eu gosto, e depois dorme abraçadinha com o ursinho que te dei.
– Não, acabei de sair do banho, só quero falar com você. O ursinho tá aqui.
Diz ela, entre risadinhas. E o ursinho entre suas pernas, acariciando-a, mas nada de mal faz ele.
– Quer saber o sonho?
– Poxa, amor, to morrendo de sono, ainda tenho que tomar banho, não durmo sem um banho, você sabe, e esse chuveiro quebrou, justo agora. Não vai ficar tristinha?
Manhosa:
– Vou! Eu sonhei que tava dormindo e você apareceu da minha janela, mas veio co...
– Então eu vou colocar no viva-voz e consertar o chuveiro enquanto isso...
– Nossa, você me interrompe, tive um sonho estranho, você estava... Eu me preocupo com você, porra! Não entende?
– Caramba, tá no viva voz já, pode falar da sua vida que eu estou ouvindo, mas calma, foi um sonho, só um sonho. Não tem motivo pra se preocupar, a não ser que o Jarbas mande alguém aqui pra acabar comigo de vez...
– Não fala besteira! Ai, amor, acabei de lembrar, hoje lembrei de você. Um amigo no trabalho tava comendo aqueles amendoins que você gosta, não sei o nome.
– Peraí, vou pegar um banquinho. Vou deixar o celular em cima da pia.
– ...
– Pronto, e ainda coloquei música. Marvin Gaye.
– Ui, sexy. Tô ouvindo.
Seus pezinhos escorregam pela parede, até se encontrarem e entrarem na mais perfeita e ocasional comunhão. Está mais calma, seus olhos se fecham, seus lábios se abrem:
– Então, amor, vou contar. Eu estava dormindo, quando você me acordou, e tinha entrado pela janela, acho que voando, não lembro ao certo. Você tava entrando quando tropeçou e bateu com a cabeça no chão. Depois disso você levantou, com a cabeça sangrando, me olhou meio inerte, deu um sorriso e saiu voando pela janela de onde tinha entrado.
– Que coisa mais sem pé nem cabeça.
– É, rende um Dalí.
– Ou um Magritte. Han, entendeu, entendeu? Vai, foi engraçado…
– Mas eu fiquei preocupada, resolvi te ligar pra ver se estava tudo bem.
– Benzinho, minha querida, meu pernilzinho, eu já disse, é só um sonho, um sonho bobo, sem direção.
– ...
– Eu também, sabe, a gente tem que ser mais pé-no-chão, a vida não é fácil. Não dá tempo de ficar imaginando coi... - Sss Ssstáck!
Som de côco a ser tomado. Silêncio.
– Amor? Que barulho foi esse?
Ela senta na cama. Pezinhos no chão gelado. Aquela sensação gelada.
– Amor, porra!
– Aarr. Não consigo me mexer, o chão do boxe tava um pouco molhado, o banquinho escorregou... Ai!, caramba, tá doendo, minha barriga, dor de gastrite, minha cabeça. É sangue no chão. Tá turvo. Tô com medo.
Finda num chorinho de criança irresponsável.
– Não fecha o olho por nada desse mundo amor meu deus tá me ouvindo vou ficar aqui com você vou falar com você calma vou chamar a ambulância tá tudo bem vai ficar tudo bem só não fecha o olho tá bem? vou continuar conversando com você te amo amor. Amor, não fecha o olho. Não fecha.
Cortina aberta, o vento entra agudo no apartamento. E, gelada, pega o fixo e disca. Como é sexy, sua postura, seu perímetro. Até ao telefone não perde o appeal. Até desesperada é sexy, a maldita.