sábado, 31 de janeiro de 2009

Nem um pinguinho de nada

Ele me batia.
Aí, com raiva, não, com ódio, fui lá e fiz, sem dó.

Depois ainda descobri que maltratava a menina. Pobre menina, tão estudiosa, tão quieta. Não falava nada na hora da janta, só olhava pro prato, que parecia ser o único que entendia. Então fui lá e fiz, aquele vagabundo mereceu. Num domingo besta desses, tava ele no sofá vendo o jogo e pediu pra levar uma cerveja pra ele. Levei a quente de propósito, ele percebeu, e me bateu. Bateu muito, tacou a latinha na minha cara, depois já veio dando em mim. Só parou quando o Corinthians fez o gol. Maldito, e a menina, não podia também maltratar dela, daquele jeito, ah, se eu soubesse disso antes... Eu fui deixando, roxa por fora e por dentro de ódio, fiquei quieta, na minha, se reclamasse apanhava mais, igual cachorro. Depois mandou eu chupar ele, na cara de pau, não acreditei, eu tava era com nojo daquele desgraçado! Mas ele pediu, ele pediu, então fui lá e fiz, mordi o bicho até arrancar fora, pra parar de bater em mulher e maltratar menina daquele jeito. Sabe que até gostei do gosto do sangue? É, achei bom, um vermelho bonito sai de dentro de gente feia. O vagabundo, depois de gritar feito louco, olhou pra baixo e desmaiou, tão corajoso era, né, tão valente, vagabundo, desmaiou de saber que não vai mais poder maltratar menina. Foi aí que liguei pra polícia, por mim eu enfiava uma faca nele, devagarinho que dói mais, mas sabe como é pobre, se fode de todo lado. Fui esperta de ter ligado. Agora ele tá enrolado bem mais que eu, e vai é viver pra sofrer, e quando sair da cana, manso é que não vai tá. Eu e a menina vamos embora pra São Paulo. Fácil também é que não vai ser. Minha cumadre mora lá e assim que acabar tudo isso ela vai me dar um arrego, só por uns tempos, até a gente se acertar. Vagabundo, não quero nunca mais ver a cara dele. Remorso? Nem um pinguinho de nada.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Melô da Isotretinoína

Terminei meu tratamento com o capeta dos remédios e pra não deixar a semana em branco, aí vai o melô que fiz num comentário no Neurotropina:

Ina iina, não, não é a cocaína!

Ina iina, muito menos cafeína!
Ina iina, já foi seu tempo, anfetamina!
Ina iina, é menos mal que heroína!
Ina iina, cum'bucado de adrenalina
Essas rima são minha sina!
Ina iina, as espinha aglutina!
Ina iina, mas cuidado que alucina...
Ina iina, o cérebro não raciocina!
Ina iina, siga certo a rotina,
Que sem disciplina, cê se arruína!

E, você, leitor recém-chegado, o blog não é tão ruim, experimente os outros posts.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Estudo sobre a ironia: O Destino ou A Força da Banalidade

– Quem fala?
– Eu, né!
– Eu quem? – Você não sabe mais quem sou, amor?
– Isso lá é hora de ligar?
– Que falta de consideração. Não sei por que não desliguei na sua cara agora.
Ela deitada na cama rosa, com os pezinhos na parede, sujando-a. A camisola cede, as pernas todas para fora. O cabelo longo escorrido lembra uma cachoeira, linda como nunca. Não consegue dormir.
– Não consigo dormir!
– Ah, amor, desculpe, cabeça nas nuvens, sabe como é. O Jarbas disse que não vai aceitar o acordo, acabou, amor, tudo acabado. Me chamou pra tomar um café no Stack`s, bar mais caro da cidade. O que vai querer? Esses pãezinhos-de-mel são deliciosos. Vou ficar neles e mais um expresso. Sugiro a você este aqui, que é uma das maravilhas do paladar, você vai ver. Disse o desgraçado, com o charuto na boca, apontando pro cardápio na maior calma do mundo, frieza de advogado mesmo, e aquele jeito de falar que parece que tá ruminando, o gordo.
– Fica preocupado não, essas coisas se resolvem, assim, num pisco.
– É... acabou. Mas então diga, por que ligou?
– Já disse, insensível, não consigo dormir, tive um sonho estranho.
– Ah, ha! Eu aqui de cabelo em pé por causa do puto do Jarbas e você me vem com essas preocupações gratuitas. Faz o seguinte: toma um banho quente, pensando em mim, daquele jeito, depois pega uma toalha fofinha, se enxuga, coloca a camisola que eu gosto, e depois dorme abraçadinha com o ursinho que te dei.
– Não, acabei de sair do banho, só quero falar com você. O ursinho tá aqui.
Diz ela, entre risadinhas. E o ursinho entre suas pernas, acariciando-a, mas nada de mal faz ele.
– Quer saber o sonho?
– Poxa, amor, to morrendo de sono, ainda tenho que tomar banho, não durmo sem um banho, você sabe, e esse chuveiro quebrou, justo agora. Não vai ficar tristinha?
Manhosa:
– Vou! Eu sonhei que tava dormindo e você apareceu da minha janela, mas veio co...
– Então eu vou colocar no viva-voz e consertar o chuveiro enquanto isso...
– Nossa, você me interrompe, tive um sonho estranho, você estava... Eu me preocupo com você, porra! Não entende?
– Caramba, tá no viva voz já, pode falar da sua vida que eu estou ouvindo, mas calma, foi um sonho, só um sonho. Não tem motivo pra se preocupar, a não ser que o Jarbas mande alguém aqui pra acabar comigo de vez...
– Não fala besteira! Ai, amor, acabei de lembrar, hoje lembrei de você. Um amigo no trabalho tava comendo aqueles amendoins que você gosta, não sei o nome.
– Peraí, vou pegar um banquinho. Vou deixar o celular em cima da pia.
– ...
– Pronto, e ainda coloquei música. Marvin Gaye.
– Ui, sexy. Tô ouvindo.
Seus pezinhos escorregam pela parede, até se encontrarem e entrarem na mais perfeita e ocasional comunhão. Está mais calma, seus olhos se fecham, seus lábios se abrem:
– Então, amor, vou contar. Eu estava dormindo, quando você me acordou, e tinha entrado pela janela, acho que voando, não lembro ao certo. Você tava entrando quando tropeçou e bateu com a cabeça no chão. Depois disso você levantou, com a cabeça sangrando, me olhou meio inerte, deu um sorriso e saiu voando pela janela de onde tinha entrado.
– Que coisa mais sem pé nem cabeça.
– É, rende um Dalí.
– Ou um Magritte. Han, entendeu, entendeu? Vai, foi engraçado…
– Mas eu fiquei preocupada, resolvi te ligar pra ver se estava tudo bem.
– Benzinho, minha querida, meu pernilzinho, eu já disse, é só um sonho, um sonho bobo, sem direção.
– ...
– Eu também, sabe, a gente tem que ser mais pé-no-chão, a vida não é fácil. Não dá tempo de ficar imaginando coi... - Sss Ssstáck!
Som de côco a ser tomado. Silêncio.
– Amor? Que barulho foi esse?
Ela senta na cama. Pezinhos no chão gelado. Aquela sensação gelada.
– Amor, porra!
– Aarr. Não consigo me mexer, o chão do boxe tava um pouco molhado, o banquinho escorregou... Ai!, caramba, tá doendo, minha barriga, dor de gastrite, minha cabeça. É sangue no chão. Tá turvo. Tô com medo.
Finda num chorinho de criança irresponsável.
– Não fecha o olho por nada desse mundo amor meu deus tá me ouvindo vou ficar aqui com você vou falar com você calma vou chamar a ambulância tá tudo bem vai ficar tudo bem só não fecha o olho tá bem? vou continuar conversando com você te amo amor. Amor, não fecha o olho. Não fecha.
Cortina aberta, o vento entra agudo no apartamento. E, gelada, pega o fixo e disca. Como é sexy, sua postura, seu perímetro. Até ao telefone não perde o appeal. Até desesperada é sexy, a maldita.