terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Estudo sobre a ironia: O Destino ou A Força da Banalidade

– Quem fala?
– Eu, né!
– Eu quem? – Você não sabe mais quem sou, amor?
– Isso lá é hora de ligar?
– Que falta de consideração. Não sei por que não desliguei na sua cara agora.
Ela deitada na cama rosa, com os pezinhos na parede, sujando-a. A camisola cede, as pernas todas para fora. O cabelo longo escorrido lembra uma cachoeira, linda como nunca. Não consegue dormir.
– Não consigo dormir!
– Ah, amor, desculpe, cabeça nas nuvens, sabe como é. O Jarbas disse que não vai aceitar o acordo, acabou, amor, tudo acabado. Me chamou pra tomar um café no Stack`s, bar mais caro da cidade. O que vai querer? Esses pãezinhos-de-mel são deliciosos. Vou ficar neles e mais um expresso. Sugiro a você este aqui, que é uma das maravilhas do paladar, você vai ver. Disse o desgraçado, com o charuto na boca, apontando pro cardápio na maior calma do mundo, frieza de advogado mesmo, e aquele jeito de falar que parece que tá ruminando, o gordo.
– Fica preocupado não, essas coisas se resolvem, assim, num pisco.
– É... acabou. Mas então diga, por que ligou?
– Já disse, insensível, não consigo dormir, tive um sonho estranho.
– Ah, ha! Eu aqui de cabelo em pé por causa do puto do Jarbas e você me vem com essas preocupações gratuitas. Faz o seguinte: toma um banho quente, pensando em mim, daquele jeito, depois pega uma toalha fofinha, se enxuga, coloca a camisola que eu gosto, e depois dorme abraçadinha com o ursinho que te dei.
– Não, acabei de sair do banho, só quero falar com você. O ursinho tá aqui.
Diz ela, entre risadinhas. E o ursinho entre suas pernas, acariciando-a, mas nada de mal faz ele.
– Quer saber o sonho?
– Poxa, amor, to morrendo de sono, ainda tenho que tomar banho, não durmo sem um banho, você sabe, e esse chuveiro quebrou, justo agora. Não vai ficar tristinha?
Manhosa:
– Vou! Eu sonhei que tava dormindo e você apareceu da minha janela, mas veio co...
– Então eu vou colocar no viva-voz e consertar o chuveiro enquanto isso...
– Nossa, você me interrompe, tive um sonho estranho, você estava... Eu me preocupo com você, porra! Não entende?
– Caramba, tá no viva voz já, pode falar da sua vida que eu estou ouvindo, mas calma, foi um sonho, só um sonho. Não tem motivo pra se preocupar, a não ser que o Jarbas mande alguém aqui pra acabar comigo de vez...
– Não fala besteira! Ai, amor, acabei de lembrar, hoje lembrei de você. Um amigo no trabalho tava comendo aqueles amendoins que você gosta, não sei o nome.
– Peraí, vou pegar um banquinho. Vou deixar o celular em cima da pia.
– ...
– Pronto, e ainda coloquei música. Marvin Gaye.
– Ui, sexy. Tô ouvindo.
Seus pezinhos escorregam pela parede, até se encontrarem e entrarem na mais perfeita e ocasional comunhão. Está mais calma, seus olhos se fecham, seus lábios se abrem:
– Então, amor, vou contar. Eu estava dormindo, quando você me acordou, e tinha entrado pela janela, acho que voando, não lembro ao certo. Você tava entrando quando tropeçou e bateu com a cabeça no chão. Depois disso você levantou, com a cabeça sangrando, me olhou meio inerte, deu um sorriso e saiu voando pela janela de onde tinha entrado.
– Que coisa mais sem pé nem cabeça.
– É, rende um Dalí.
– Ou um Magritte. Han, entendeu, entendeu? Vai, foi engraçado…
– Mas eu fiquei preocupada, resolvi te ligar pra ver se estava tudo bem.
– Benzinho, minha querida, meu pernilzinho, eu já disse, é só um sonho, um sonho bobo, sem direção.
– ...
– Eu também, sabe, a gente tem que ser mais pé-no-chão, a vida não é fácil. Não dá tempo de ficar imaginando coi... - Sss Ssstáck!
Som de côco a ser tomado. Silêncio.
– Amor? Que barulho foi esse?
Ela senta na cama. Pezinhos no chão gelado. Aquela sensação gelada.
– Amor, porra!
– Aarr. Não consigo me mexer, o chão do boxe tava um pouco molhado, o banquinho escorregou... Ai!, caramba, tá doendo, minha barriga, dor de gastrite, minha cabeça. É sangue no chão. Tá turvo. Tô com medo.
Finda num chorinho de criança irresponsável.
– Não fecha o olho por nada desse mundo amor meu deus tá me ouvindo vou ficar aqui com você vou falar com você calma vou chamar a ambulância tá tudo bem vai ficar tudo bem só não fecha o olho tá bem? vou continuar conversando com você te amo amor. Amor, não fecha o olho. Não fecha.
Cortina aberta, o vento entra agudo no apartamento. E, gelada, pega o fixo e disca. Como é sexy, sua postura, seu perímetro. Até ao telefone não perde o appeal. Até desesperada é sexy, a maldita.

7 comentários:

Lelê disse...

Curta. (eu e meu cabelo escorrido fazemos o papel dela - sempre gostei de falar besteiras meishmo)

Rafael Bin Bean disse...

Bilgor,
Tu és o cara das construções imagéticas ! ! ! Não sei por que, mas vi o casal , vi o banheiro e tdo mais !!!!


Akele Hug

jorge disse...

muito boa, continua?

Elza disse...

Adorei,
continua não
o bom é acabar assim

Igor disse...

Não, não continua. Mas vou fazer outros estudos, hehe.

Lais B. disse...

Bah... adorei.
foi tu que escreveu?
eu ri muito numas partes, mas o final me deixou tipo "O.O"
eaiuheaiuahuiaheiuhae
:}

Karol Bianchi disse...

Igooor, realmente muito boa!
Como disse Bim, vi tudo também. hahah
Um beijo.