terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Entre vidros

Pensei em uma narrativa em terceira pessoa para descrever o que está se passando aqui, mas creio que ficaria um tanto quanto limitado. Depois pensei numa narração em primeira pessoa (não como agora), com o personagem principal descrevendo sua moléstia de pré-morte. E, bem, depois lembrei-me de que o meu personagem vive num aquário, e tentar transmitir sua posição, mesmo que irracionalmente, seria um bocado impossível, visto que, logicamente, não sei dialogar com peixes. E, analisando muito bem a situação pela qual atravessamos nós dois, em meu quarto, decidi escrever eu, eu por eu.

Confesso que nestas linhas há um tom de remorso, por minha absoluta e humana comodidade em não ter limpado seu aquário. Nós que pensamos, esquecemo-nos de certas responsabilidades, a cargo de outras maiores (aparentemente), como comer, ou dar de comida ao subordinado próximo. Talvez esteja sofrendo, ou talvez não, sabe-se lá o que há naquela cabecinha minúscula e esbranquiçada do não viver.

O que sei é que, ao entrar no quarto, ver o peixinho imóvel, com a cabeça colada nas pedrinhas do aquário, trouxe-me um sentimento de profunda calma. Pareceu-me que gostei de ter livrado-me do fardo agonioso de tratar sem esperar melhoras do animal. E somente então após observar com minuciosidade percebi o resquício de vida que ainda lhe resta. Está ofegante, abdômen inchado, órgãos aparentes através da fina pele, escamas eriçadas, sem vida à vista. Uma cena horrível até aos sádicos.

E não pensem no meu sadismo em deixar o betta agonizar até morrer sem sequer tentar reanimá-lo. Tentei. Pesquisei na internet, fui a um profissional: hidropsia. Troquei a água, como os conformes, dei o medicamento antibiótico e a ração nutritiva. Percebi uma significativa melhora nos primeiros dias, porém o pobrezinho só arredondou-se mais.

E, a escrever aqui, penso em desligar seus aparelhos, dar a ele um fim como o que eu, em sanidade perfeita, pediria para mim. Mas não consigo, não consigo!
Fraqueza de minha parte? Maldade? Uma torrente de antagonismos paira por entre estas paredes. Festejei meu carnaval (como os mal-humorados festejam, está certo), e agora que voltei ao quarto e lembrei da agonia do bichinho preso no aquário, penso em matá-lo? Mas que egoísmo preguiçoso de minha parte, não? Mereço um tapa na cara.

Sinceramente, se sobreviver até manhã - a irônica quarta de cinzas - levá-lo-ei ao veterinário, o qual saberá o que não fazer, pelo menos. Somos dois animais aqui, e o único antagonismo nesta cena é que um cometeu mais erros que outro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Last dance

Muitas pessoas afirmam não viver sem música, devendo à harmonia das notas musicais parte do significado e graça de suas vidas. Incluo-me nesse grupo e, apesar de músico relapso, sou ávido farejador de ritmos e melodias. Da mesma maneira que outros fanáticos, não me contento em ouvir uma boa canção, mas em buscar a razão, o contexto, o que veio antes e depois. Música é mais do que ruído; é uma máquina do tempo, de cores e de sentimentos. “Nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar. Música é perfume”, nas palavras de Maria Bethânia.

Pois então.

Faleceu no mês passado Walter Engracia de Oliveira, um senhor de 85 anos, em decorrência de complicações causadas por uma pneumonia. Era engenheiro, nascido em Ribeirão Preto. Foi professor da USP e prefeito da cidade de Atibaia, no interior do estado. Nos anos 40, fez um estágio com urbanistas na França, cultivando grande admiração pelo país.

Até aí morreu o Neves – ou o Walter, como preferir. Entretanto, um espantoso momento da vida desse homem aconteceu próximo a seu fim, com a cólera devastadora do Alzheimer estabelecida e suas memórias cruelmente dissipadas pela doença. O enfermo não conseguia sequer manter diálogos com outras pessoas; contudo, em um dia singular, cantarolou inteiras a Marselhesa e La Vie en Rose – respectivamente o hino da França e um clássico do cancioneiro do país, uma das mais ternas melodias já criadas.

Médicos e familiares ficaram pasmos com o surpreendente ocorrido. Não restou à música ser apenas uma derradeira e resistente lembrança na vida de Walter; coube a ela também o papel de um último e melódico suspiro.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Porquê

Oh tortura de mundo...
Oh vida insana, cheia da demagogia bacana. À banana
[todos nós!

Oh mundo cruel, que pra viver não basta um só bacharel
Tem também de ter a perspicácia da falácia!

E nesta tonta tortura tola e torta é que contentamo-nos
Em permanecer perversamente
tortos,
tolos
e tontos.
Como as baratas à espera da vassoura.

Pois neste mundo, só vai pra frente, meu caro, quem mente.
E por isso rimo, choro no canto, canto meu choro.
Porque rimar é brincar de os problemas da vida
amenizar.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Groovin' high

Viver no alto e em meio a milhares de outros estranhos é curioso como poucas coisas. A vida alheia acontece em quadros incompletos, nos quais é preciso tanto ver e ouvir quanto imaginar o que se passa pelas janelas.

Tenho uma vizinha no edifício ao lado, que toca violão e trava longas conversas ao telefone às duas da madrugada. E uma tartaruga grande sobre a cama coberta pelo edredom rosa.
Outro vizinho, o qual vejo diariamente da janela do meu quarto, é todo bombadinho e parece não ter muitas camisas. Ao menos é raro vê-lo usando-as. Também fala ao telefone, mais cedo e alto. Isso quando não brinca com uma criança, que pula na cama e ri. Ou se não está enrolando alguma coisa estranha com os dedos.
Na sala de estar, o pai passa as noites à meia-luz. Não é possível ver bem o que faz, parece ficar até tarde tomando uísque e conversando sobre política e Hemingway com alguém; é uma daquelas salas com uma iluminação em que sempre se pode tomar um uísque e falar sobre os fatos como se estivesse acima deles. Mas, provavelmente, o velho fica apenas com a mulher, assistindo à novela.

No mesmo prédio, um casal juvenil às vezes se esquece de fechar as cortinas quando estas deveriam estar cerradas.

Do terraço, vejo uma jovem que demora muito a se vestir e caminha ocasionalmente na esteira. Seus pais bebem vinho – muito vinho.
A poucos andares, um homem tem o desagradável hábito de trocar nu a fralda do filho. Sob ele, um rapaz fuma sozinho na sacada.

Não queria ouvir o bombadinho gritando ao telefone com seus brothers, e sim saber o que a garota toca ao violão. Talvez se eu arremessasse uma pedra, com um bilhete colado, pedindo para tocar mais alto do que a chuva fina.