sábado, 7 de fevereiro de 2009

Groovin' high

Viver no alto e em meio a milhares de outros estranhos é curioso como poucas coisas. A vida alheia acontece em quadros incompletos, nos quais é preciso tanto ver e ouvir quanto imaginar o que se passa pelas janelas.

Tenho uma vizinha no edifício ao lado, que toca violão e trava longas conversas ao telefone às duas da madrugada. E uma tartaruga grande sobre a cama coberta pelo edredom rosa.
Outro vizinho, o qual vejo diariamente da janela do meu quarto, é todo bombadinho e parece não ter muitas camisas. Ao menos é raro vê-lo usando-as. Também fala ao telefone, mais cedo e alto. Isso quando não brinca com uma criança, que pula na cama e ri. Ou se não está enrolando alguma coisa estranha com os dedos.
Na sala de estar, o pai passa as noites à meia-luz. Não é possível ver bem o que faz, parece ficar até tarde tomando uísque e conversando sobre política e Hemingway com alguém; é uma daquelas salas com uma iluminação em que sempre se pode tomar um uísque e falar sobre os fatos como se estivesse acima deles. Mas, provavelmente, o velho fica apenas com a mulher, assistindo à novela.

No mesmo prédio, um casal juvenil às vezes se esquece de fechar as cortinas quando estas deveriam estar cerradas.

Do terraço, vejo uma jovem que demora muito a se vestir e caminha ocasionalmente na esteira. Seus pais bebem vinho – muito vinho.
A poucos andares, um homem tem o desagradável hábito de trocar nu a fralda do filho. Sob ele, um rapaz fuma sozinho na sacada.

Não queria ouvir o bombadinho gritando ao telefone com seus brothers, e sim saber o que a garota toca ao violão. Talvez se eu arremessasse uma pedra, com um bilhete colado, pedindo para tocar mais alto do que a chuva fina.

6 comentários:

Rafael Bin Bean disse...

Esse post me lembrou duma crônica do Mario Prata, acho que é "Binóculos", esse lance de morar em prédio é um luxo para a criatividade!

akele hug

Laura Issa disse...

Tômas querendo paquerar a vizinha...hmmmmmm!

vec disse...

Como o Big Brother estava presente na nossa vida desde os primórdios das edificações.
Eu sei, a comparação foi exclusivamente pra te irritar. Nada comparado às camisetas usadas por seu companheiro de blog, meu caro.
Abraços

Tomas disse...

Nossa Victor, pare que você está me deixando muito irritado.

Elza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elza disse...

Entendendo as noites em claro de um cavalheiro...