segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Last dance

Muitas pessoas afirmam não viver sem música, devendo à harmonia das notas musicais parte do significado e graça de suas vidas. Incluo-me nesse grupo e, apesar de músico relapso, sou ávido farejador de ritmos e melodias. Da mesma maneira que outros fanáticos, não me contento em ouvir uma boa canção, mas em buscar a razão, o contexto, o que veio antes e depois. Música é mais do que ruído; é uma máquina do tempo, de cores e de sentimentos. “Nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar. Música é perfume”, nas palavras de Maria Bethânia.

Pois então.

Faleceu no mês passado Walter Engracia de Oliveira, um senhor de 85 anos, em decorrência de complicações causadas por uma pneumonia. Era engenheiro, nascido em Ribeirão Preto. Foi professor da USP e prefeito da cidade de Atibaia, no interior do estado. Nos anos 40, fez um estágio com urbanistas na França, cultivando grande admiração pelo país.

Até aí morreu o Neves – ou o Walter, como preferir. Entretanto, um espantoso momento da vida desse homem aconteceu próximo a seu fim, com a cólera devastadora do Alzheimer estabelecida e suas memórias cruelmente dissipadas pela doença. O enfermo não conseguia sequer manter diálogos com outras pessoas; contudo, em um dia singular, cantarolou inteiras a Marselhesa e La Vie en Rose – respectivamente o hino da França e um clássico do cancioneiro do país, uma das mais ternas melodias já criadas.

Médicos e familiares ficaram pasmos com o surpreendente ocorrido. Não restou à música ser apenas uma derradeira e resistente lembrança na vida de Walter; coube a ela também o papel de um último e melódico suspiro.

6 comentários:

vec disse...

Belo texto.
O sofrimento se transforma em conforto em algumas notas.
É o mesmo paradoxo percebido quando Caetano cantava sobre as "duras poesias concretas" de uma maneira tão melódica.

Rafael Bin Bean disse...

É , eu esqueço o nome do meu filho, mas nunca esqueço La vie en Rose . . .

akele hug

vec disse...

o.O
O Bean tem filho?

Rafael Bin Bean disse...

o.O
O Cabral é cômico ?

Elza disse...

Sua paixão pelo obtuário lhe rende bons posts.
E viva a França.

vec disse...

o.O
O cabral É alguma coisa?