domingo, 29 de março de 2009

Uma pequena justificação atenuante...

É no sono que acontece, dispo-me de minha natureza taciturna e abro minha boca. E como estou perdido de sono e pormeti a mim mesmo não dormir antes de escrever aqui, lá vai. Primeiro me desculpem por essa mania chata de me desculpar. Tamanha insegurança? Sabe-se lá. Sei, porém, que a Moringa está um tanto abandonada por nós, queira nos desculpar, leitor, é a legítima falta de tempo, falo seguro das palavras, uma desculpa muito conveniente e comodista, não é? (não no nosso caso, pode ter certeza, não lembro mais de quem mora comigo.) Essa insegurança minha se transporta aos mais variados níveis do cotidiano, o que acabou em gerar, digo, incubar, uma ligeira hipocondria no meu ser. Já que estou aqui escrevendo, nessa noite vermelha de sábado para domingo, já que amanhã tenho muito a fazer do que não quero fazer, mas que preciso fazer, já que o sono me perturba... Desculpe, não tive como segurar o bocejo, é inevitável, não se acanhe em bocejar. E já que estou aqui me desculpando, aproveito a deixa para pedir a mais sincera escusa aos meus médicos, sei, falarão que o único prejudicado serei eu, mas tudo bem, a noite está linda. Vocês compreendem, doutores.

Tereza, dermatologista, não sei se seu nome é grafado com s ou z, mas oh, pouco importa agora. Quero lhe dizer que não estou levando o tratamento a sério, mal tenho tempo para realizar minhas necessidades básicas (absorção, excreção, evacuação...). Eu não estou administrando o Dermotivim Espuma como o indicado, só consigo lavar meu rosto quando saio de casa e quando chego, ou seja, antes de amanhecer e um tanto após o anoitecer, para estudar depois. Peço perdão por às 13 horas, não passar o filtro solar Epsol 30 Water gel, após não ter lavado meu rosto com o Dermotivim Espuma, também.

À noite o problema persiste, quando me contemplo no lar, depois de alguns segundos de nostalgia antecipada olhando para o teto, só me lembro de lavar o rosto com a espuma - ressalto, agradabilíssima espuma!- na hora da escovação noturna, após não ter estado com o Isotrexin gel prescrito para estar no rosto por duas horas exatas durante quinze noites, depois quatro horas por noite até a próxima consulta. Desculpe Teresa... Sempre me embanano na hora da escovação, por minha sobremaneira lerdeza. Demoro um bocado mais que noiva no dia do sim: é preciso escovar com o Sensodyne branqueador indicado pela multiladora, han, quer dizer, doutora Fátima, repetir o processo de escovação com o aparelho de contenção do ortodontista Rogério (que eu deveria usar a toda hora, tirar apenas para comer, ah, olhe bem para a minha cara, Rogério, só durmo com ele e está bom demais, qualquer abertura entre meus dentes será um charminho a mais!) Usar um enxaguante bucal, se necessário, fora os inconcebíveis Dermotivim Espuma e Isotrexin da dona Tereza.

É claro que muitas vezes acabo me esquecendo dos pormenores, você também se esqueceria, leitor. Ainda no pré-sono, dadas as minhas moléstias gástricas azia, refluxo e um translúcido início de gastrite, que deixa a vista opaca de dor, tomo um Gelmax, ou um Gastrosil, de espinehira-santa, antes de dormir. Mas não sem antes ter lembrado de aplicar o Budecort Aqua, prescrito pelo otorrinolaringologista, doutor Tácito, uma suspensão em spray nasal para os que padecem da tão temida cá por estas terras quase-semi-áridas durante o inverno, RINITE ALÉRGICA. Também parei com o antialérgico Zyxem que prescreveu, doutor Tácito, não foi descaso de minha parte, apenas esqueci a contagem dos dias e horários...

Se jovem, na flor da idade já estou assim, imagine daqui a uns bons 30 anos, suponho que terei de andar com uma bolsa de remédios acoplada a outra de primeiros-socorros, soro na veia, o braço picado cicatrizado, sem mencionar as ancas doloridas por injeções de morfina e insulina diárias. Prefiro gastar minha preciosa renda mensal deitado confortavelmente num divã a lamentar de tudo e de todos e de como a vida passou num piscar de olhos, e como no meu tempo era melhor, e essa juventude transviada, éramos todos mais recatados no meu tempo. Pelo menos seria mais prazeroso, convenhamos, leitor sem humor.

Sim, é um hipocondríaco de primeira! Um loucão! Deve tomar alguns frontais também, além de todas aquelas drogas que terminam em -ina, você deve estar pensando... Não, apenas usei o ignorântico espaço democrático da intenet para me redimir perante os médicos, exelentes médicos, e dizer que não sigo corretamente seus tratamentos, dada a famigerada falta de tempo (lê-se disfemisticamente, saco)... Ah! Uma coisa, só os xampus, Tereza, estou usando como falou, intercalar cada dia um, o Keirium gel e o Caspel, sem condicionador, e sabe que está dando resultado? Quer dizer, deve estar dando, um dia pode ser que dê. Enfim, o galo canta, vou dormir antes que o dia cresça e meu nível de melatonina desça. Nossos dias podiam ter 48 horas, não?

sábado, 21 de março de 2009

Ticking away

"And then one day you find, ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun.”


Há dias em que demoro a pegar no sono. Enquanto tento adormecer, pensamentos inusitados surgem na mente. Às vezes tento organizar fatos, mergulhando neles e procurando, através de lembranças, alguma pista de quando se deram.
Percebi que uma série desses acontecimentos marcantes, de anos atrás, ocorreram em períodos de tempo muito pequenos. Aquilo que à época chamaria de anos eram, na verdade, meses ou semanas. Referências – seja algum lugar onde morei, alguma viagem que fiz ou uma final de Copa do Mundo – revelam-se períodos curtos para tantas recordações. O que ocorre hoje aparenta ser breve e distante.
Quando era pequeno, me disseram que os anos passavam mais rapidamente conforme envelhecíamos. E é verdade. Não sei se os dias eram lentos, se os meses arrastavam-se. Os anos, porém, eram intermináveis.
Os especialistas devem saber a razão; eu tento esboçar o porquê. Aos dez anos, por exemplo, um ano representa 10% do que se viveu até então. Com vinte anos, 5%. Aos cinquenta, apenas 2%. O que são 2%? Pouco, quase nada. Um ano valia mais no início, apesar do tempo continuar sendo o mesmo. Aquele mesmo pai que jamais encontramos.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Um Pontinho

Que é que é?
Um pontinho preto
Meio manco meio mané?
Inteiro vermelho laranja amarelo verde azul indigo lilás, ora, tanto faz! - diz o velho, sorrindo branco.
Que
de pontual acaso
de um pontinho
eu não passo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

I Know There's An Answer

Desculpe, leitor, se não o agradei com o último post. Ele ficou, ao meu ver, bastante humorado e lúdico, não sendo logicamente de bom grado apagá-lo a esta altura. Gostei muito dos comentários, serei um pouco mais seletivo na escolha do texto ao blog, companheiro do anonimato. Bem ou mal, através dos comentários sabemos que outras pessoas nos leem. Creio que o verdadeiro chulo é o que andamos cativando (desde sempre?), nós brasileiros. O post irá ilustrar minha ideia, feito na madrugada de sábado, acompanhe.


Fui a um aniversário infantil. O ambiente embalado pelo Dj contratado, o qual tocava algumas músicas dance, nada em especial. Ao fundo avós, tios, tias, amigos e agregados, todos falando alto e gesticulando devido ao som, que não poupava os ouvidos ali presentes. Mesas vazias à frente, pista de dança vazia.

O nosso amigo Dj, encarando a pista muito vazia para um início de festa, e querendo fazer jus ao seu cachê, mudou de repertório: funk. Instantes após as primeiras batidas a pista se encheu de crianças de doze anos de idade a dançar o ritmo, e não se cabiam em si mesmas de contentamento. Algumas meninas se atreveram mais, desceram até o chão, chão, chão, despudoradas no olhar e nas mãos.

Entretanto posso dizer que a pista realmente ferveu quando começou, tão amado entre os baixinhos, o sucesso Créu, seguido de suas trocentas versões, inclusive uma paródia de Ilariê. As crianças, sim, ainda crianças, se atiçavam conforme as velocidades graduais da dança. Durante a última, os meninos formaram um círculo, deitados no chão, fingindo copular com o mesmo, achando a situação toda muito natural e divertida. Estavam se descobrindo, apenas.

Os adultos e os não tanto que viram, ou permaneceram indiferentes, ou se espantaram de ver como as crianças brincavam, também permanecendo, porém, indferentes de uma certa forma. Que fariam, afinal? O desespero nos trouxe o riso.

Durante o Parabéns a Você a cerimônia ocorreu nos conformes de uma festinha infantil, Com Quem Será, bolo e docinhos ao fim. Tudo muito lúdico. E agora, eu com a lembrancinha nas mãos, e a aniversariante em sua casa, provavelmente abrindo seus presentes de mulher - já não se ganha mais brinquedos aos doze - só me ocorre um pensamento: preciso rever meus conceitos.

terça-feira, 3 de março de 2009

ARDOLESCÊNCIA

te como

redonda prismática trigonometricamente como
redundantemente te como
como com amor,
com sorriso
como com bossa

como na fossa
como na escada
como lá atrás
como quem faz
que não quer ver

como como leão
na savana louco
doido de paixão
o rei do coito jus faz
à hegemonia do comer

te como

métrica linfática roboticamente como
cotidianamente te como
como café de manhã
como abelha na flor
como fedelho
come no chuveiro

te como

utópica retórica metaforicamente como
adolescentemente te como

romântica semântica antagonicamente como
etimologicamente te como
tal qual tu, feito eu
como nossos pais
comeram
um dia
te como