terça-feira, 28 de abril de 2009

A festa de Carlinhos

Muito pra estas coisas não sou, mas
Carlinhos, amiguinho meu
Do Colégio S. Bartolomeu
Fazia anos e me chamou.

Chegando lá encontrei
Entre doces e refrescos
Um anjinho, desconfiei.
Cumprimentou-me cortês,
Hesitei.

E Carlinhos, mão no ombro, brilho no olho:
-Vem, Igor, ser gauche na vida!

(E até o presente instante,
o infante caso elucida minha ida.)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Descarga de consciência ou Leia em 12s


Quarta-feira eu estava cansado, mais cansado que muitos que se dizem no mais elevado grau da canseira. Era um bocado de canseira, uma canseira do Olimpo. O que importa foi eu ter ficado papeando com meu pai mais dois homens numa mesa de bar, daquelas altas, mesmo eu em meu inconcebível, icomensurável cansaço. Não tente abstrair a palavra, ela irá se tornar tão grande que sairá de sua casa ou onde quer que seja, e logicamente não conseguirá vê-la, então proponho que não percamos mais tempo tentando equivaler canseiras ou discorrendo sobre. Retomando o assunto, na pequena mesa conheci S, um rosto solitário cuja profissão não recordo, devia ser um bom homem. S permaneceu atrelado à mesa durante todo o tempo em que estive lá - levantando só para urinar - e não ouvi sequer uma opinião a respeito de algo, ou melhor, uma opinião verdadeiramente legítima, carimbada a cartório formada por S a respeito de algo. Sabe bem que em qualquer mesa de bar os assuntos são dos mais variados, e geralmente obedecem à famosa gradação, começando pelos mais sóbrios e sãos até os inevitáveis temas: filosofia, situação da nação, do mundo, a morte, a vida e os severinos... Em síntese, claro. Está no superego do globo. E o assunto dos assuntos regados a etanol proferidos num bar rende no mínimo uma tese de mestrado, não, duas teses de mestrado, porque a avaliação do que ocorreu na noite anterior é proporcionalmente mais segura conforme o número de pessoas que se lembram. Pude ver em S um certo estado de melancolia e solidão de alma, aplacados no momento pelo próprio momento em si, vi um sujeito solitário que gostava de um bom chopp, não queria desagradar ninguém, então apenas concordava com um ou outro, e, se por ventura emitia alguma tese fora do tom, tratava logo tornar à posição do interlocutor para se redimir perante os companheiros de prosa. Tal caso é mais comum que se pensa. Eu estranhara o fato de meu pai chamá-los de doutor, era doutor pra lá, doutor pra cá, raios, ele não chama ninguém de doutor, e só após conhecer D - que estava esperando um pouco de carne seca do restaurante ao lado, sentado à nossa mesa - percebi a admiração e respeito de meu pai por eles. A lembrança de D sobe-me à cabeça com uma riqueza muito maior de detalhes em comparado com a enfadonhice de S. Fora a personalidade saliente da mesa, como uma coroa cravejada de diamantes, mas quem salta aos olhos é o rubi, profundo e farto. D formou-se em medicina oftalmológica há um bom tempo, formou-se e partiu para os Estados Unidos, relatou-nos casos tristes e engraçados a respeito de sua longa residência e das mazelas que desgraçou na cidade. D fora viver o sonho americano e conseguiu, teve filhos, fez a vida em Nova York por quarenta anos, aposentou-se e voltou a Ribeirão Preto para viver. Nas poucas horas que tivemos contato com D, tomamos lições de oratória (ressaltou as qualidades de um queijo parmesão picado sobre a mesa como ninguém), assuntos biomédicos em geral, e sobre como em Nova York todos os restaurantes têm pelo menos um enfermeiro e todos os hospitais têm pelo menos um juiz de Direito plantonista. D tinha uma presença maravilhosa, sempre que me encontro com alguém de tamanha presença me espanto, talvez por eu ser enfurnado em mim mesmo, cheio de olhos. Contou sobre como o juiz plantonista do hospital interfere na coibição de um suicídio de um paciente que por conta da religião não deixa que lhe injetem sangue de outra pessoa, tratando-se, portanto, de um suicídio 'indireto' e sobre como todos os restaurantes têm uma ferramenta, uma espécie de tesoura-pinça, e como fazem os enfermeiros para retirarem pedaços de comida da faringe de pessoas engasgadas - geralmente velhos, disse D, apontando para si, levantando de sua cadeira a cada história contornada, devia gostar de ilustrar a situação. Meu pai me olhava, marcando um sinal de aprovação com a cabeça. Antes da história dos enfermeiros e juízes e da história de como tratou de um homem que passara mal no mesmo restaurante outro dia, D nos falou de seu amigo diplomata, dando a mim conselhos futuros, provenientes de um comentário feito por meu pai de que eu acabaria enveredando para a política internacional. "Em todo lugar há corrupção, há ambição, no Itamaraty não é diferente, veja só o que fizeram com fulano, meu amigo", disse ele. Fulano estava na condição de escolher o país em que iria exercer o cargo, escolhendo Paris, mandaram-no para a África, disseram que tinha sido por causa de seus sete filhos, pobre fulano.
Falou da juventude sem o costumeiro escapismo saudosista inerente à idade, como é atual o velho, que a sociedade educa o jovem para um mundo de rápidas e constantes mudanças por meio das fotografias da televisão, apontou à tevê: "A televisão é programada para mudar de imagem a cada doze segundos, olhe, olhe!" E apesar de não ver televisão, conheço bem o jovem de hoje, pobre do jovem de hoje. Nunca me encontrei com uma provecta criatura de tamanha vivacidade. Andarei mais por lá para ver se qualquer dia desses encontro D sentado naquele banquinho alto, gesticulando e passando aos seus ouvintes um tantinho de sua sabietude ateniense. Qualquer dia cansado desses, para descansá-lo.

Mais uma coisa, leitor, use mais doze segundos de seu dia para refletir acerca da obra de Dalara Darabi, pintora iraniana de carreira efêmera que ganhou notoriedade internacional por aos dezessete anos ter sido presa, acusada pelo Estado do Irã por um assassinato que nega ter cometido. Dalara será enforcada nesta segunda-feira, aos 23 anos. Fica aqui uma pintura dela.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tune-up

Não é novidade que o tédio domina a indústria fonográfica e, consequentemente, a imprensa musical. No mês passado, por exemplo, a Rolling Stone americana elegeu os melhores álbuns homônimos da história, em mais uma enfadonha lista. São famosos também os rankings de melhores canções, discos, instrumentistas… Tudo um aborrecimento, uma imensa falta de assunto.

Listas sempre causam polêmica e mexem com gosto e orgulho alheios. E não poderia ser diferente, afinal, qual é o método? Meia dúzia de jornalistas e personalidades do rock citando alguns grandes nomes e esquecendo outros gigantes de fora do gênero. Sem pauta suficiente ou propagandas de desodorante para dar volume a revista e nem uma nova salvação da música para estampar na capa da edição? Dá-lhe lista!

Bons anos atrás, durante um carnaval, lembro de a MTV ter feito um Top 500, repetido algumas vezes ao longo do feriado. Provavelmente ninguém queria trabalhar, e um gênio da preguiça sugeriu a ideia. Não sei qual foi o critério (se é que havia um) na ordem dos quinhentos diferentes clipes passados naqueles dias. No entanto, ao menos eles foram honestos.

E honestidade é uma virtude cada vez mais rara por essas bandas. Pouco me importa se Carla Bruni canta bem, se Roberto Justus deveria estar interpretando Sinatra ou se o AC/DC é puro mais do mesmo. Eles acreditam naquilo que fazem e o fazem por isso. Difícil é engolir outra coletânea do Aerosmith, mais uma produção de Timbaland e conjuntos musicais com dez mulheres, sendo que uma canta e nove rebolam.

Sejamos honestos, por favor, e com uma pitada mínima de dignidade.