quarta-feira, 20 de maio de 2009

Taxonomia

Era um sabiá.
Ouviram.
Pensaram.
Anos atrás se sabia do sabiá.
Hoje se sabe também
do assobiar do pássaro
Que ainda porém
de um sabiá não passará.

[fim]

Adendo
Ao Homem, maniento:

Pois saiba que não,
não fará não de mim
nem não, de ninguém fará sabiá
saber só
só somente assobiar,

E tampouco
(bem pouco, quase nada)
lhe trará a alegria do voar

sem com a mente, e
com os pés, principalmente
desfrutar aqui o de bom
que cá no chão antes há.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Bear Mountain

Em On The Road, logo no início da trama de Kerouac, Sal Paradise chega a Denver, após semanas de ansiedade e desejo quase incontrolável de quebrar sua monótona rotina através das estradas da América. Ao situar-se na frenética vida suada e boêmia que levavam seus camaradas na cidade – entre serviços de manobrista, jams poéticos, álcool e benzedrina –, Sal nota que as modestas 24 horas de cada dia não seriam suficientes para sobreviver àquilo tudo. Assim, no êxtase da noite fervorosa do velho Colorado, Salvatore conclui, delirante e devasso, que não vai mais dormir.
Eis que me encontro num labirinto semelhante ao beatnik. Não estou no Oeste, não tomo carona nem uísque para esquentar a goela permeada pela gélida ventania das highways. Mas me afundo em mols de cadeiras, aulas, provas, módulos, fórmulas, regras, truques, anomalias e exceções, matando uma dúzia de leões amarelos com listras roxas por dia.
Deus, depois de criar o mundo, o homem e os ursos panda, resolveu que todos os seus filhos deveriam começar cedo a fazer algo parecido e, da costela de alguma coisa bem grande e feia, fez o vestibular.

Qualquer dia desses, delirante e exausto, eu também paro de dormir.