sábado, 11 de julho de 2009

Um dia na vida

A mais bela canção de John Lennon e Paul McCartney, na minha imparcial opinião, é A Day in the Life, do mítico álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Última faixa do disco, começa tímida, fundida a aplausos e guitarras da música anterior. O piano une-se, logo no início, à batida do violão, e Lennon canta – quase narrando – uma notícia de jornal. Trata-se da morte de Tara Brown, jovem playboy e figura fácil na Swinging London dos anos 60, vítima de um acidente de carro que o matou na hora.

A letra estende-se em banalidades da cabeça do beatle para ser transportada, após um impetuoso vórtice orquestrado, à porção McCartney da parceria. Paul canta, em poucos versos, a autobiográfica rotina de um jovem que perdeu a hora, do pular da cama até o cigarro e devaneio no segundo andar de um ônibus inglês. Ao deixar a palavra "sonho" no ar, a voz de Paul é substituída pela de John, em gritos ou gemidos acompanhados da orquestra. Esta, por fim, desaba, e dá lugar à última estrofe: mais uma peça do noticiário, dessa vez os buracos em uma cidade na Inglaterra, contada por Lennon. A música termina com um mesmo acorde tocado simultaneamente por vários pianos, ecoando até vagarosamente desaparecer.

Escrevi isso tudo só para falar sobre os obituários, aquele canto esquecido do jornal, em especial a historinha do defunto do dia. Lá repousa o talento de montar pequenos romances, microbiografias sobre anônimos que passaram. Apelidos de infância, namoradas roubadas, as viagens mais importantes de uma vida: é o que se encontra resumido em seis ou sete breves parágrafos. Não é tendência nem debate, não precisa de efeito; não vai sair nas cartas dos leitores no dia seguinte.

Transformar coisas aparentemente insignificantes em algo grandioso é o pulo. A epopeia de um velho e um peixe-espada, o milagre do moribundo cantarolando a Marselhesa, o resfriado do Frank Sinatra, o diabo dos quatro mil buracos em Blackburn, Lancashire. Qualquer pulha bate os olhos na televisão e escreve sobre andar para trás. As nuances dos grandes acontecimentos e os fatos que sequer são manchete separam, no entanto, os textos nascidos para serem sublimes daqueles que se tornam notáveis. E as canções. Simples letra e melodia sobre as notícias, oh boy.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Monólogo sobre a divergência do dissimulacro universal

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,

Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
(Álvaro de Campos)


Menezes, português todo erudito, óculos fundos, calças no umbigo, suéter de balõezinhos bordados, todos amarelos e verdes, pega a mulher pelos braços, joga-a sentada na cama, olhando fixamente para sua dúvida maior.

MENEZES:

(olhando nos olhos)
Deixe-me falar.

Mulher, eu não te entendo.
Juro por Deus que não te entendo.


(abre os braços para cima, num evidente apelo ao divino)
Já houve retórica tão inapalpável?


(enfático) 
Pois me resta lhe perguntar agora, livre e direto, POR QUÊ?


(a perder o fôlego)
Por que não és direta comigo? Se queres comer bacalhau à moda do porto me perguntas se quero comer um bacalhau à moda do porto ao invés de simplesmente tascar uma lasca e comê-lo.
Simplesmente.


(divagando ao ritmo da fala, pausada, nervosamente)
Mulher, a vida não deveria ser mais simples?


(bota as mãos no bolso, vira-se de costas para ela, de frente a um espelho, olhando-a)
Entendo, pois, as ruas inclinadas e pedras no sapato de tua bioquímica, mas juro que não te entendo, mulher.


(gira em torno de si, como um cão atrás do rabo, coçando a iminente careca)
Por que não me respondes, evasiva, o que te pergunto?


(tornando ao olhar fixo)
Ficas com essa cara de gosto ruim, não te entendo, mulher!


(meiguinho, o rechonchudo)
Que te fiz? Magoei? Estou tão certo de meu raciocínio... que chego a duvidar de mim, ponho-me em réu e proponho dizer a verdade, nada além da verdade ao meu eu, que não deixa de ser teu, também.
Mas diz: Por quê?


(já desistente da réplica muda dos finórios olhos que a ele vêm, um império)
Fala, mulher, não sou teu adivinho.

. . .

(e deixa o palco após um profundo e interminável olhar, remanescente da dúvida)