quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A praieira

Quando ainda morava no centro, subia a pé os poucos quarteirões entre a escola e minha casa para o curto almoço. Havia um boteco perto do prédio, com as prateleiras atrás do balcão lotadas de destilados baratos e algumas poucas cadeiras metálicas espalhadas sobre o chão sujo. A uma hora da tarde de dias comuns, ao lado da mulher gorda que passava roupa em uma tábua logo à porta, homens bebiam cerveja e davam risadas.
Igual a como quando passava de ônibus em frente a uma praça, longe de casa, e avistava uma turma de velhos a arrastar mesas de plástico para sob a sombra das árvores, tomando o mesmo líquido amargo e amarelado, naquela hora do dia na qual só queremos dizer não.
Seria descompromisso ou filosofia esse hábito de sentar e embriagar-se como se fosse sábado?

Em uma quinta-feira qualquer, uma garota de moletom cinza, atordoada por apostilas, engenharias e vontade de tomar sol, saiu pelos portões da escola, indo até o bar da esquina pedir uma cachaça. Era um daqueles momentos nos quais não se deseja guaraná, suco de caju ou bolo de fubá, nem bebidinhas de baixo teor do que seja. Ela, instantes antes sóbria e sã feito uma beata, tomava devassos goles de pinga e ainda saía sem pagar. Diz que sem querer, por não estar muito bem da cabeça.

Razão tinha aquele outro Chico, ao cantar que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

sábado, 15 de agosto de 2009

Rain fall down

No Rio de Janeiro, há algum tempo, um taxista me disse ter visitado o Cristo, por lazer e não a trabalho, apenas uma vez na vida. Seus filhos jamais haviam subido o Corcovado para deslumbrarem-se com a vista e terem uma perspectiva privilegiada sobre o bigode do Redentor.

Mais recentemente, passava pela catedral aqui em Ribeirão Preto, driblando o cocô dos pombos pelo chão, e notei que não lembrava de ter entrado ali em toda minha vida. Nunca fui frequentador assíduo de igrejas, de paróquias ou do pensamento de Deus, nem comparo a matriz desta cidade a um dos maiores cartões-postais do mundo. O intrigante é morar durante anos a poucas quadras e estudar ao lado dela, porém sequer cogitar adentrá-la.

-x-

Tive outro dia o imprevisível prazer de vagar, livre e desocupado, pela cidade sob chuva. Saí da escola, ao início de minhas breves férias, e atravessei as faixas de pedestre sem saber aonde ir. De repente, ao engrossarem os pingos, reparei que não era uma tarde comum e resolvi caminhar até minha casa. O pé-d’água não cessou por um segundo, com as pessoas, dentro de carros ou debaixo de marquises e guarda-chuvas, olhando compadecidas para o pobre rapaz encharcado – o fantasma sobre o qual escreveu Kerouac – dobrando sozinho as esquinas. Esqueço a catedral, as capelas e os bosques; as casas dos belos bairros altos, da água escorrendo veloz pelas calhas e das portas saindo direto para a rua são mais encantadoras. Quem mora nelas, como são os quartos, a cozinha? Há lareira? Para quê? O labirinto formado pelos paralelepípedos, as praças desertas, as lojas, escolas, academias. Tudo é mais vibrante do que a tétrica igreja. Mesmo as vias centrais, quando imersas no preto e branco da garoa, são mais coloridas.

Contemplo parte da cidade sob meus pés como se me pertencesse. Ando pelo passeio estreito, vendo velhas arrancarem ervas daninhas do jardim, ouvindo flautas soarem por trás das janelas, atento às discretas clínicas parecidas com residências, às casas similares a consultórios. Amigos, no meio da tarde na semana, bebendo chopp e conversando em restaurantes. Empregadas tirando o lixo para fora e seguindo ao ponto de ônibus, os seguranças cochilando sob seus guarda-sóis na calçada, a música ecoando do estúdio de dança. Todas as lembranças de coisas que não presenciei surgindo pelos portões daquelas casas de muros altos e canaletas sobrecarregadas e das que mais lembram bangalôs, com suas cercas baixas, como se não houvesse passado o tempo.

Talvez o carioca fosse tão turista quanto eu naqueles locais cheios de tradutores. Só ele deveria mesmo saber dos lugares em que a cidade pulsa, onde é linda quando chove.

sábado, 8 de agosto de 2009

Odeao Ócio

pensar pensar,
acatar Capitular
olhar o Nada
olhar ao nada

Nada ao Nada
despreencher o Vazio, lentamente mente
mentir?
pensar Pensar

mudar Alvoroçar
revo revolucionar a Mente a mente
filosofar com confabular

Com si.
É o ócio, esse bicho
que enlouquece espertecendo.