domingo, 27 de setembro de 2009

Blue sunday

Hoje encontrei uma barata no meu quarto. Estava agonizante, mexendo devagar as pernas, cercada por formigas oportunistas. O inseto parou ao lado da porta do banheiro, justo no lugar onde eu já havia passado pouco antes, prostrado tal qual houvesse simplesmente desistido . Nem sei como não o vi, grande e escuro, mas, graças a Deus, moribundo. Também desconheço a maneira que entrou, como ousou.
Barata é a coisa mais infeliz no mundo. Mais triste que morte na família, que gol contra. A barata não tem razão nem amor à vida. Ela vai para cima de você, do seu Raid e de suas havaianas – seja correndo, seja voando. É valente, luta e esbraveja. É uma estúpida de uma forte; até feminina no gênero, de tão persistente, teimosa e cega.
Agora é primavera: em breve, estarão por aí, alegres a desovar. Li outro dia, inclusive, que as baratinhas recém-nascidas, logo que saem de seus ovos, vão cada uma para um lado. Caso dê algo errado com alguma, as outras têm a sorte de seguir outra direção. A natureza é uma merda de inteligente quase sempre.
Quando me for, elas ainda estarão vivas, aos bilhões. Não posso vencê-las, nem dedicando minha vida a isso. Malditas, ridículas baratas.

domingo, 6 de setembro de 2009

Confissão - Parte I

Boa noite, leitor, estava eu mexendo em algumas tranqueiras do escritório quando me deparei com esta carta, endereçada ao antigo e já falecido morador de minha atual casa, Humberto S. Ramos, grandioso advogado e pintor que não tive o prazer de conhecer. Me espantei com o conteúdo da carta, bastante interessante, o qual irei dividir em dois posts para não prolongá-los muito e para não cansarem da cópia meus dedos. Apreciem:



"São Paulo, 14 de Junho de 1959



Querido amigo Humberto,



fui um doente em minhas ações, perdoe-me por favor.
Não suportava mais.
Não mais me ocorria seu cheiro de quando nos conhecemos, agridoce, de dama da noite, recém regada, sutil, que despertava do amargo os homens, e me lembrava um gosto anil, certa parte do céu, talvez. Ainda me recordo das noites pensando no que diria a ela, uma vez que eu a via todas as manhãs na garagem escura e úmida de nosso apartamento, éramos vizinhos, como sabe você. E apesar dos períodos insones, delirantes a remontar sua imagem, a única expressão de minha face enrubescida, todas as manhãs, era um amarelado 'bom dia', quente ainda do gosto matutino do café. Depois dela, está certo, minha escovação nunca foi a mesma, o que não fazemos pelas belas dentistas, não é?... As manhãs eram feitas ao sabor refrescante do dentifrício e da sensação do fio dental me rasgando a gengiva, renovada de esperanças, entretanto, ao lembrar que iria vê-la nas sombras da garagem. O local dos carros era nossa ambiência em comum, tornou-se o passo inicial para conquistá-la. Certo dia lhe perguntei se já se acostumara com a escuridão. Sorriu com aqueles dentes escancaradamente, harmoniosamente belos. Lembra-se do seu sorriso? Nos casamos no dia 27 de Julho daquele ano, você esteve presente.

Passados seis anos contratei ele. Profissional de mão cheia. Disse que o serviço não tardaria, tentaria fazê-lo o mais rápido possível, indolor a todos. Eu a amava, sim, de peito aberto, nossa vida, porém, tomou-se por um marasmo gradual, até o rebentar. E para tornar pior minha angústia, conheci um fator acelerador do processo. Uma loura. Uma incendiária loura, de intimidar-se por tamanha beleza, tamanha austereza, tamanha leveza com que tratava dos assuntos pragmáticos problemáticos do cotidiano, uma pena a planar pela praça. Por tamanho infinito em seus olhos, profundos lagos azuis. Pelo seu riso, Humberto, emocionava-me seu riso. Eu me via Narciso naqueles olhos loucos. Duas mulheres em uma vida curta, pouco parece, Humberto, mas tomaram minha vida como dois goles lentos de gim..."