sábado, 24 de outubro de 2009

Três Caravelas

Parte pelo todo. Não, não se trata da metonímia. E pra contar a parte vou ter de resumir o todo. Direi quando pude perceber realmente o poder do pequeno quando este é inserido no contexto do grande, do todo. Foi faz dois anos, numa comunidade do orkut onde havia os mais calorosos debates sobre qualquer assunto que qualquer dos participantes ativos quisesse expor, desde que esperasse réplicas indecorosas de qualquer outro participante que quisesse. Grande comunidade, lá se falava de tudo, mas era engolida pelo indecente desejo de visibilidade de seus participantes (cinéfilos carentes, professores amargurados, universitários babacas, um pleonasmo, amadores frustrados de toda espécie e outros tipos) ou simplesmente pela vontade de meter o bedelho em assuntos alheios, não sabidos, e digo, dar pitaco em tudo era o segundo maior prazer da Sub/Super. Era como abreviávamos seu nome. A regra era: criar um tópico sobre determinado assunto para que os membros replicassem dizendo se o objeto/personalidade em voga era subestimado ou superestimado. Tudo isso era hilariante. O primeiro e grande prazer era presenciar as mais absurdas posições, desde convicções de berço à ideologias de bolso defendidas com verve pelos seus pronunciadores e, claro, esperar as réplicas e tréplicas as quais iam tomando corpo na discussão, que podia ir para o lado pessoal, virar briga de galo, soco de boteco, virar tratados sobre o Direito brasileiro e seus não cumprimentos pela sociedade boba, ou simplesmente ser trocada por outro assunto. Mas tudo com muita classe. Tinha que ter bagagem pra sobreviver na Sub/Super e aos seus membros. Tinha que ter bagagem, ou, no mínimo, um saco roxo.

Aprendi um bocado naquela comunidade do orkut (paradoxo?). Eu gostava mais de a ler do que expor minha singela opiniãozinha classemedista. Doía ser ofendido lá, mas a gente vai ganhando calos e a boca vai amargurando, também. Maravilha de época quando não se tem um horizonte pré-definido na terra. Só no éter.

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Hoje ouvi a Voz do Brasil (sim, aquele programa de rádio que seu cão velho ouvia pouco antes de morrer). Ouvi um comentário sobre como no Brasil há a retração das moedas, metade delas estão fora de circuação, guardadinhas, muito bem guardadinhas nos cofrinhos dos brasileiros, em especial pelas classes pouco mais favorecidas, que preferem moeda-papel, até mesmo pelo fácil manuseio. E no ato, ao ouvir isso, lembrei dum tópico que criei nessa comunidade, sobre cofrinhos, e um dos participantes respondeu algo como "cofrinhos acabam com o propósito da moeda: liquidez". Lembro que sempre tive cofrinhos, sem, no entanto, pensar muito além de seu limite visível, as paredes de meu quarto. Foi uma revelação, derrubou muralhas. Foi a minha América descoberta. Como os cofrinhos de cada casa conseguem, juntos, reter metade das moedas no país. Um mero hábito medievalesco. E foi aí, para mim, que esse conceito de parte expandiu-se ao todo. Sem analogias de merda, como a das pecinhas do quebra-cabeça, nem apologias a hábitos saudáveis que devemos todos ter por um mundo melhor. Digo mais pela beleza da epifania em si, uma poesia. Desde então as guardo como jóias. Num cofre a sete chaves.

domingo, 11 de outubro de 2009

Confissão - parte II

“...Confesso que foi doloroso a mim, nunca quis magoá-la, fazê-la chorar, não conseguiria, desconfio que sou um fraco. E mando, pois, esta correspondência a você, que preciso de uma resposta de imediato. Soube por meio de um amigo, que por sua vez soube com outro amigo. Por uma boa quantia, era um especialista em deixar o caminho livre para calhordas. Calhordas feito eu. Não me sinto o chão em que piso.

No início deste mês ele começou o serviço, foi aos poucos, soube onde pisar, é alto o sujeito, de uns prováveis cinqüenta anos de idade, cabelos grisalhos, um verdadeiro tipão irresistível às mulheres, desses que as desfalece com o olhar, com um único tragar. Começou seguindo-a, atentando ao seu modo de caminhar, anotando suas leituras e lugares. Pouco tempo passado tinha já em mãos uma ficha e perfil psicológico de minha mulher. Restava marcar a data do encontro.

Agora não mais sei se ela me amava, foi doloroso a mim, ao meu ego, para dizer a verdade. Minha parte no contrato era simplesmente continuar com a rotina, patética rotina senão pelo riso da loura, que já se fazia necessário às minhas tardes, para não me enforcar diante da inundação diária de papéis de pessoas de nomes e locais e vidas desconhecidas que eu carimbava. Burocrática vida de merda, estamos no século da burocracia, Humberto.

Sem mais delongas, ela se foi no último dia 3. Estou só desde então, em minha casa instalou-se uma verdadeira desordem, e o álcool, ele só me acentua o amargo da boca. Ela partiu, deixou tudo para trás sem pensar duas vezes. Imagino se todas as mulheres têm em si essa volatilidade, ou se realmente contratei o melhor profissional da praça. O melhor canalha da praça. Ou, em terceira hipótese, deveria estar tão entediada quanto eu, para saltar à primeira aventura extraconjugal, ainda que provocada por mim. Veja você, ela o conheceu em seu consultório, como um paciente comum, e em duas semanas me abandonou como um cachorro velho. Levou uma bolsa de roupas e a escova dental sem deixar nem ao menos um bilhete. Como pude ser tão estúpido? Se a tivesse matado eu não teria sido tão estúpido. E hoje, Humberto, minha loura decidiu, num ímpeto feminino, voltar para os braços do noivo; sem sofrer desejou-me sorte futuramente e também se foi, queria vida séria, disse. Não teria sido tão estúpido. O espelho me esbofeteia quando o vejo, assim que ler dê retorno do postal. Sem chacotas, Humberto, sem chacotas. Estou desesperado.




Estêvão M. F. ”