domingo, 11 de outubro de 2009

Confissão - parte II

“...Confesso que foi doloroso a mim, nunca quis magoá-la, fazê-la chorar, não conseguiria, desconfio que sou um fraco. E mando, pois, esta correspondência a você, que preciso de uma resposta de imediato. Soube por meio de um amigo, que por sua vez soube com outro amigo. Por uma boa quantia, era um especialista em deixar o caminho livre para calhordas. Calhordas feito eu. Não me sinto o chão em que piso.

No início deste mês ele começou o serviço, foi aos poucos, soube onde pisar, é alto o sujeito, de uns prováveis cinqüenta anos de idade, cabelos grisalhos, um verdadeiro tipão irresistível às mulheres, desses que as desfalece com o olhar, com um único tragar. Começou seguindo-a, atentando ao seu modo de caminhar, anotando suas leituras e lugares. Pouco tempo passado tinha já em mãos uma ficha e perfil psicológico de minha mulher. Restava marcar a data do encontro.

Agora não mais sei se ela me amava, foi doloroso a mim, ao meu ego, para dizer a verdade. Minha parte no contrato era simplesmente continuar com a rotina, patética rotina senão pelo riso da loura, que já se fazia necessário às minhas tardes, para não me enforcar diante da inundação diária de papéis de pessoas de nomes e locais e vidas desconhecidas que eu carimbava. Burocrática vida de merda, estamos no século da burocracia, Humberto.

Sem mais delongas, ela se foi no último dia 3. Estou só desde então, em minha casa instalou-se uma verdadeira desordem, e o álcool, ele só me acentua o amargo da boca. Ela partiu, deixou tudo para trás sem pensar duas vezes. Imagino se todas as mulheres têm em si essa volatilidade, ou se realmente contratei o melhor profissional da praça. O melhor canalha da praça. Ou, em terceira hipótese, deveria estar tão entediada quanto eu, para saltar à primeira aventura extraconjugal, ainda que provocada por mim. Veja você, ela o conheceu em seu consultório, como um paciente comum, e em duas semanas me abandonou como um cachorro velho. Levou uma bolsa de roupas e a escova dental sem deixar nem ao menos um bilhete. Como pude ser tão estúpido? Se a tivesse matado eu não teria sido tão estúpido. E hoje, Humberto, minha loura decidiu, num ímpeto feminino, voltar para os braços do noivo; sem sofrer desejou-me sorte futuramente e também se foi, queria vida séria, disse. Não teria sido tão estúpido. O espelho me esbofeteia quando o vejo, assim que ler dê retorno do postal. Sem chacotas, Humberto, sem chacotas. Estou desesperado.




Estêvão M. F. ”

Um comentário:

amauri disse...

Meu caro Igor
Seu texto está belíssimo! O tom confessional está digno de uma novela machadiana.
Preciso confessar que a dentista loira de sorriso escancarado, corpo esculpido e olhar inebriante continua me tirando o sono. Ouço seus passos nas escadas de madrugada... far away, so close.
A garagem cheia de ecos e cheiro de gasolina ainda é o meu paraíso primo basílico.
Ela continua solteira... até quando?
Grande abraço
amauriZÃO