quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Querida

Dia bom é dia comprido, com mais de vinte e quatro horas. Dia de asfalto quente, ônibus fervilhando e chofer atrasado. Dia em que dá para correr, ir ao cinema, sonhar meia hora e ver os outros de novo, mas com outra roupa. Dia de duas barbas feitas, de trabalho, prostração, teatro, seresta, esbórnia e grande prêmio de Fórmula 1. Dia de quilômetros; de tomar um porre na hora do almoço e outro depois do jantar. De praia, restinga, meandro e chapada. Dia para não se pensar bem sobre o que acontece. Do firmamento encerrando-se no meio da tarde, feito uma cortina ao remate do espetáculo, em nuvens de filme de catástrofe.

Logo esvaziam as ruas, distraídos os transeuntes atrás de seus guarda-chuvas, e fica escancarado que do mundo ainda não nos pertence nem a metade. Sobram nuvens a condensar quando querem, despejando água à gosto próprio. Longa é a tarde, longa é a chuva.

Mais do que a chuva, porém, são os precedentes. O clima pesado, o vento forte, as nuvens cobrindo os céus há pouco claros. A unção das gotas, transbordando de flores. É uma curta reprodução do que sentimos nesses dias da vida nos quais sabemos que algo grande está para acontecer, tão imenso quanto a tempestade. Olhar para a abóbada nublada das quinze pras quatro, ou para a escuridão avermelhada da noite, como se estivesse sempre prestes a amanhecer. "Como se o céu vendo as penas morresse de pena e chovesse o perdão."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Progressãoes

D
Da
Dad
Dado:
Dados de vidas.
Dados demográficos.
Dados em gráficos.
Dados brancos, e pretos.
Dados pelo verde tapete do triste do croupier – Oh!,
Ingratos dados...

Tragicômicos, dados dicoatômicos.
Dados são vidas.