quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A uma morena


Não tens, amor, idéia
não tens também, meu bem, noção.

Não não tens nem, amor
juízo de valor
do vão de alma,
um estado tão,
do breu clarão
torpor que me tiraste.

Da terceira margem peguei
tua mão pensa a mim paciente
e invertidamente
à caverna platônica voltei,
sensível, porém, que me tornaste.

Ao hóspito main-espaço me guiaste.
Ao tato.
Ao vital tato.

Sensível à vida de homem,
sim,
simples homem
assim que te sente.

Te ouve
entestar criança ao meu peito apegada, corada...

Te pega
o perfume dos cabelos teus, longa colcha macia, o sono sacia...

Te cheira
o inefável sorriso, indelével...

Te morde
os sôfregos olhos sob sobrancelhas furtivas, felinas...

Te vê
como ouves o outro,
redundantemente humana,
como nunca com o outro fui,
que me tanto agrada.

E agora agradeço
a engrandecer-te,
minha sípida frutacor
fonte odora de flor.

2009 / 2011

sábado, 12 de dezembro de 2009

Tiny capers

O Rodolfo não tinha mais que dezessete, e tratava sempre de raspar seu fino bigode pelas manhãs e pentear o cabelo com gel, a fim de levantá-lo como uma falésia no litoral norte. O colégio era feito para as aulas de literatura e os desfiles de belos dentes, calças caras e a devoção pelas garotas loiras, com as blusas arregalando olhos pelos corredores.

Mas o importante era a sexta-feira, quando saía do laboratório de biologia, ao meio dia e quinze, e via-se livre para pensar no que faria dali poucas horas, após puxar suas barras de metal. Era um rapaz asseado, de carregar um frasquinho de perfume junto à escova de dentes e um protetor neutro para lábios ressequidos. Cogitava, em um futuro próximo, adquirir um estojo de maquiagem, tão preocupado era em corrigir as pequenas rugas que jurava surgirem em sua testa. Ficava muito atento aos braços robustos e aos pelos do corpo – ou à dedicação em mantê-los ausentes. Era um bom partido, diriam algumas avós; um colosso de rapaz, para bisavós. Um moço cosmopolita, moderno: o novo homem, afirmariam os publicitários.

Naquela noite de sexta, certamente iria a algum lugar bonito ver gente bonita. Rodolfo adorava ver gente bonita, e sentia-se deprimido só de passar pelo centro da cidade e avistar aquela réplica senegalesa de civilização, fazendo-o suar e ter náuseas com o cheiro das ruas. Em sua noite, só encaixavam-se programas fantásticos, nos quais vestia sua camisa polo de listras vermelhas sobre fundo preto e bebericava uísque diluído em taurina, cafeína e guaraná. Para ser completo, havia de sorrir às garotas loiras, as mesmas favoritas da luz do dia, no entanto mais rosadas as bochechas e curvados os cílios, e soltar o papo de que “as coisas não são mais como costumavam ser”, apontando um cara estranho, no canto, a ameaçar a boa vista. Praticava a conversa mole, sacana e absolutamente desinteressante. No fundo, era um rapaz bastante superficial.

O êxtase de Rodolfo eram as baladas de sábado à noite, quando punha uma fita no pulso e circulava pela riqueza de uma vida que parecia lhe pertencer. Deveriam – pensava ele – é mudar a ordem das coisas, e dar as pulseiras aos senegaleses, podendo assim vê-los de longe e mudar de calçada. Talvez até costurar algo que os identificasse por suas camisas, ou riscá-las de giz.

Era uma vida classe A, uma vida top essa vida de Rodolfo. Por que não poderia ser o mundo todo assim, um camarote?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um trocado pra compensar

Não são tão reconhecidas e legitimadas críticas advindas de meros casos pessoais, ainda mais de adolescentes, mas não posso oferecer nada além de minha experiência e opinião de vestibulando.

Ano de vestibulando não é fácil, diriam já meus professores, os quais também, a esta altura, com as mudanças nas principais provas do país; a reformulação do ENEM e seu posterior furto; o fechamento de escolas pela iminente pandemia da Nova Gripe e os conseguintes atrasos nas programações dos cursos preparatórios, encontram-se senão mais esbaforidos que os próprios alunos. Estes que se prepararam o ano todo para a famosa maratona de vestibulares de agora, enquanto aqueles só terão um pouco descanso por Janeiro. E nessa maratona, muitos vestibulandos precisam viajar para fazer provas em outros estados, isso se nos restringirmos aos que têm condições financeiras de viajar a outras localidades. Ou até mesmo de estudar num curso preparatório, dada a deficiência do ensino público.

No último sábado, às 7h30, a fim de fazer a prova da UFMG no dia seguinte, e já exausto por estar no aeroporto desde às 6h30 da manhã, fui chamado à sala de embarque. O voo, que iria de Ribeirão Preto a Belo Horizonte pela Passaredo, estava com sua prévia de atraso esgotada. Tratou-se, porém, de um engano. Logo que entrei na sala ouvi o chamado para embarque, não sem antes ter reparado na simpática figura do senador Aloisio Merdacante. Qual foi meu espanto: o avião de nosso voo partiria para Brasília, levando todos ali presentes, inclusive o senhor senador, menos aqueles destinados a Minas, obviamente. Ao tirarmos satisfações com a funcionária do aeroporto, descobrimos que o voo só sairia às 10h30.

Pela contestação, eu, minha mãe e minha irmã, que estavam comigo, fomos beneficiados com a honrosa quantia de R$15,00 de consumação na cafeteria do aeroporto. Esperamos, contudo, até às 11h25, hora que o avião, depois de retornar de Brasília, finalmente voltara. Cinco horas de espera. Mas o que é esperar para quem trabalha a semana inteira?

Mais que o suposto escândalo das passagens aéreas, mais que botar a culpa no Governo, na Burocracia, mais que a vergonhosa falta de profissionalismo da Passaredo, mais que a típica moral cristã brasileira, deturpada por si mesma em essência, o que fala mais alto nisso tudo é o imenso desrespeito que somos vítimas a cada dia. A escola ensina que há 500 anos.