quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Toda nudez será castigada

A organização WikiLeaks vem constrangendo governos e autoridades ao redor do globo há algum tempo, e 2010 foi definitivamente seu ano. Em julho, divulgou um vídeo de civis, entre eles jornalistas, sendo friamente assassinados por fuzileiros a bordo de um helicóptero americano no Iraque; pouco depois, tornou públicos relatórios de guerra com indícios de tortura e outros abusos cometidos pelos invasores. Nada, no entanto, comparado ao estardalhaço causado no mês passado, quando o site vazou uma imensa quantidade de documentos e notas diplomáticas de inúmeros países, cujo conteúdo abrange de assuntos íntimos à revelações de crimes hediondos praticados sob a chancela de grandes potências.

A reação foi célere: incriminações surreais suscitadas contra o editor da página, o australiano Julian Assange, diretamente do clímax da democracia mundial: a Suécia. Quando de sua estada no país como palestrante, Julian, de mordaz olhar de lince, teria feito sexo sem proteção com duas mulheres uma delas de origem cubana, anticastrista resoluta, porém de pernas pouco convictas. Posteriormente, o depoimento de acusação da lasciva Anna Ardin, a vítima, sofreu alterações, devido, especula-se, a exigências além-mar. Suas relações, dessa vez profissionais, revelam-se um bocado desimpedidas. Após alguns dias de perseguição, Assange entregou-se à Scotland Yard, sendo mantido preso em Londres até conseguir liberdade condicional mediante pagamento de módicas duzentas mil libras esterlinas de fiança. Com tal ninharia, poderia talvez adquirir uma modesta fábrica de preservativos, mesmo em Cuba, se assim desejasse.

Longe da Europa, o responsável inicial por essa embaraçosa enxurrada, o soldado americano Bradley Manning, está isolado numa penitenciária no estado da Virgínia. Bradley deu um golpe no sistema de segurança dos Estados Unidos e provocou uma crise diplomática sem precedentes munido apenas de sua inconsequência e um disco de Lady Gaga. É curioso constatar que a nação líder da desenvolta campanha internacional em defesa (legítima, diga-se de passagem) de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento na teocrática república iraniana, possua representantes como o político Mike Huckabee e o ex-embaixador na ONU John Bolton, ferozes incitadores da pena capital ao jovem militar que copiou os controversos e sigilosos dados de um computador do Exército enquanto cantarolava as aberrações gagaístas. A liberdade de expressão e o zelo pelos direitos humanos assumem diferentes valores a depender de quem é favorecido ou prejudicado; fossem chineses, Manning e Assange estariam em voga na Suécia por outra razão, provavelmente no páreo por um Nobel da Paz.

Sorte de Glorinha, Letícia, Dagmar, Salete, Geni e tantas outras pecaminosas personagens rodrigueanas por vivevem ao sul do Equador, nas proximidades dos trópicos do Méier e de Copacabana, em vez da gélida Escandinávia. Caso contrário, teriam de fugir não somente de seus pais e maridos irados, mas também da CIA e da Interpol, evitando arcar com os milhares de pounds de seus voluptuosos delitos. Adultério, incesto, defloramento, lesbianismo e congêneres devem, afinal, custar uma fábula pelas bandas do mar Báltico, ainda por cima se cometidos sem camisinha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

As músicas do Blog: Moginga's Groove #5

Pois é, nas férias temos um pouco mais de tempo para escrever para a Moringa. Eu disse um pouco, porque este fim de ano andei correndo mais que os maratonistas da São Silvestre. Vamos ao assunto. O blog desde sempre teve música, mas nunca nenhuma explicação sobre o porquê destas ou nunca nada muito relacionado. Logo que criamos o blog decidimos botar umas músicas para o leitor ouvir, não me lembro de quem partiu a idéia, mas me lembro de que foi consensual que tinha de ser algo nãomuito invasivo. Já bastava a pessoa estar lendo nossas besteiras, as quais justamente por acharmos besteiras, postergamos nossos textos a cada post, inflados de um preciosismo barato que a autocrítica construiu em cada um. Escrever é um parto, e, numa antinaturalidade impressionante, essa "vagina", que era para estar se alargando, comprime-se a cada parto/texto. (Sou o rei da analogia infeliz. Desculpe.)

E o consenso prosseguiu sobre o estilo de música. Era algo que estávamos descobrindo à época. A mim, pelo menos, completamente novo: o Jazz. Começou com Tomás me apresentando Miles Davis. Era a época em que o blog Jazzman ainda disponibilizava discos para download. Isso fez um estrago e tanto aos meus domingos: encheram-se, a partir daí, de música. Hoje posso dizer que meu maior hobby é acumular músicas no computador e organizá-las obsessivamente, colocando a capa dos discos, o ano, e outras informações a mais, feito um louco. Hoje acumulo pouco menos de 130 gigabytes de música. Grosso modo, primeiro veio o Rock e suas variáveis negras Blues e Funk, depois Jazz, e, no ano seguinte, o Samba me tomou. Não me considero eclético. Tenho o que me atrai de alguma forma, não é muita coisa. E, se acaso eu lhe disser que não estou fazendo nada, tenha certeza de que estarei arrumando minhas músicas.

Se fosse há 20 anos, eu não teria acesso a 95% da informação que consumo. Então, todas as manhãs agradeço ao que quer se seja de sagrado por eu estar no olho do furacão: em época de internet. De tanta liberdade, creio que o homem ainda não sabe o que fazer. Mas isso já é assunto para outro post.

E, assim, desde o primeiro Moringa's Groove, optamos por clássicos. Nada que seja muito inovador, tampouco invasivo, que atrapalhe a leitura. Na primeira lista constavam "So What", da magna obra de Miles Davis, Kind of Blue; "Take Five", de Dave Brubeck; "Tequilla", de Wes Montgomery; "Wave", do nosso Tom e "If I Were a Bell", também de Miles Davis.
Desse jeito fica fácil...

E fomos mantendo tradicionalmente o Jazz, com algumas variações na Bossa Nova e no Fusion, que não deixam de ser Jazz. Fomos criando algo meio padronizado desde as últimas listas de músicas. Nesta, que irei apresentar agora um pouco mais detalhadamente, Tomás escolheu 5 e eu outras 5.

Segue a lista:

Desde a primeira lista de músicas para o blog, sempre teremos aqui Miles Davis. Desta vez com a música It Could Happen To You, do elegante Relaxin' with the Miles Davis Quintet, de 1956.









Meu Amigo Radamés, de Tom Jobim, do último álbum de Tom Antônio Brasileiro, de 1994. Certamente uma homenagem ao amigo, grande maestro e arranjador, Radamés Gnattali.










Mais recente versão de Eleanor Rigby, do grande guitarrista John Pizzarelli. É de um álbum totalmente dedicado ao quarteto de Liverpool. Meets the Beatles, de 1998. Sempre colocamos versões jazzísticas de Beatles feito essa.










Three to Get Ready, de um clássico dos clássicos: Time Out, do genial pianista Dave Brubeck. O álbum é de 1959.











Composta pelo fantástico guitarrista Pat Metheny, Question and Answer, do álbum Like Minds, do vibrafonista Gary Burton, ganhador do Grammy de 1999 para Melhor Performance instrumental individual ou em grupo. Não é para menos, visto que Burton se reúne com Chick Corea, Pat Metheny, Roy Haynes e Dave Holland. São músicos de primeiríssima. Não tinha como dar errado.








Agora um tema um pouquinho mais antigo, Moonglow, composta em
1934, aqui interpretada pelo cânone do clarinete Benny Goodman. Peguei a gravação de uma coletânea do artista de 2002, chamada Let's Dance.









Outro tema também antigo, famoso na voz de Billie Holiday, Deed I Do, aqui na voz de Katharine Whalen, em seu álbum Jazz Squad, de 1999. Afinal, temos também que prezar pelo contemporâneo (ok, nem tão contemporâneo assim). A moça é mais conhecida por emprestar seu swing à irreverente banda Squirrel Nut Zippers.









E por falar em contemporâneo, apresento-lhes um pedacinho da
vanguarda do jazz atualmente. Está aí uma das coisas que mais gosto de ouvir. Fundado pelo baterista David King, com performances assustadoras, o power trio The Bad Plus costuma pegar temas do Rock, entre outros, para improvisar em cima. A música da vez é uma versão de Flim, do DJ Aphex Twin. Está no álbum These are the vistas, de 2003.








Voltando à música um pouco mais comportada, colocamos Reunion Blues, do álbum homônimo do guitarrista Oscar Peterson, de 1971. Confirmam presença no álbum o grande vibrafonista Milt Jackson, o baixista Ray Brown e o baterista Louis Hayes.









E, para terminar, do fantástico álbum Águia Não Come Mosca, de 1977, a faixa Despertar, do maior trio de Fusion do Brasil: Azymuth. Esbanjando uma sonoridade única, constantemente sampleados por DJ's, são muito valorizados no exterior. Auto-intitulam sua música de "samba doido". Fica aí para quem quiser.







É isso.

sábado, 20 de novembro de 2010

Terra Seca





Ocorre que não sou muito afeito a feriados, tampouco a datas comemorativas, a não ser à sua imediata conseqüência: o hiato do cotidiano. Entretanto confesso que tenho apreço a certos dias do ano em que o recesso é destinado a uma reflexão necessária. Este é um deles. No dia da Consciência Negra, trago ao blog as palavras musicadas de Ary Barroso, na voz de Silvio Caldas.
Fiquem em paz.


O nêgo tá moiado de suó...

Trabáia, trabáia, nêgo
Trábaia, trabáia nêgo

As mãos do nêgo tá que é calo só...

Trabáia, trabáia nêgo
Trabáia, trabáia, nêgo

Ai, meu sinhô, nêgo tá véio
Não agüenta esta terra
Tão dura, tão seca, poeirenta...

Trabáia, trabáia nêgo
Trabáia, trabáia, nêgo
O nêgo pede licença pra parar
Trabáia, trabáia, nêgo
O nêgo não pode mais trabaiá

Quando o nêgo
Chegou por aqui
Era mais vivo
E
ligeiro que o saci

Varava estes rios, estas matas,
Estes campos sem fim
Nêgo era moço, e a vida,
Um brinquedo prá mim
Mas esse tempo passou
E essa terra secou...
A velhice chegou
E o brinquedo quebrou

Sinhô, nêgo véio tem
Pena de ter se acabado
Sinhô, nêgo véio carrega
Este corpo cansado...

sábado, 6 de novembro de 2010

Os loucos de toda ordem

Quando ainda estava em ritmo de vestibular, sem tempo para nada e estudando feito um louco, ouvi de alguém (acho que do irmão do Tomas, Jorge, num comentário neste mesmo Blog) que na faculdade as coisas piorariam. Pensei que seria impossível, afinal eu não conseguia mais ver filmes, tampouco ler o que quer que fosse que não fosse assunto para passar no vestibular. Pois bem. É verdade. As coisas pioraram. Um pouco também por culpa minha, está certo, porque andei me metendo com a tal da Política Acadêmica, o que fez tudo virar de cabeça para baixo, feito a Mafalda ao descobrir que estamos no Hemisfério Sul. E só agora estou voltando aos eixos. Não digo que preciso de férias, mas sim de uma boa rotina. Sabe, aquela coisa chata? Exatamente. Mas vou parar de reclamar e avisar de uma vez que o Blog continuará vivo. E que logo menos estaremos colocando novas músicas.


Até.


Os loucos de toda ordem

§ 1º
            (Cotidianamente sem ver,
o sóbrio sem saber sente.)

Sente e sabe e sofre sempre
              sempre sempre, em frente.

              Sempre só sempre sóbrio
sempre sempre, em frente.

Sempre só sempre sóbrio
              qual displicente se sente.
             
              Sempre severo servente
qual displicente se sente.

Sempre severo servente
              sempre sofre e sabe e sente.

§ 2º

Se sabe, é sem ver:
            se sem ver, sem ter:
                           se sem ter, sem crer:
                                         se sem crer, sem ser.
Ora,
se não é,
               sem se ver se vê,
pois.

§ 3º

E, sua dor de cabeça
sobre o travesseiro,
sem paz sob os sábados
se abstém o sóbrio a findar
sempre 
por em linha reta andar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Rebel waltz

Perdão ao leitor por tratar de assunto tão aborrecido, prometo ser a primeira e última vez.

Difícil saber a exata motivação de certas coisas. Talvez a ignorância – no mais ingênuo sentido da palavra, o do verdadeiro desconhecimento, quase cândido. Quem sabe a estupidez, não propriamente a falta de cultura, porém de discernimento. Quiçá ambas se abracem violentamente, gritando de paixão feito duas embevecidas amantes.

Comenta-se há algum tempo na internet, nos periódicos e nos almoços inteligentes que a candidata à presidência Dilma Rousseff era terrorista. Dilma teria planejado e participado de assaltos a banco e assassinatos, tramado revoluções e subvertido a paz social. Foi até presa, veja só. Corre pela rede, inclusive, uma tosca montagem de ficha criminal da candidata.

Desconcertantes não são apenas as alegações, mas as bocas de onde saem. Pessoas com plena consciência do longo período de governo militar pelo qual passou o Brasil, uma ditadura que atropelou a liberdade e os direitos humanos; época de censura, intolerância, tortura e mortes oficializadas. Jornais, orgulhosos das repreensões de outrora, proclamam e publicam o embuste da terrorista, os mesmos dignos canais de imprensa que, há cinquenta anos, clamavam junto à família brasileira pelo fim da onda de comunismo e de cubanização do país, abrindo suas redações e pernas tortas para a salvação golpista dos militares. Chamam agora os anos de chumbo de "ditabranda" e anunciam, à moda leviana dos profetas de 64, uma iminente ameaça às instituições e à ordem nacional.

"Terrorista" era a denominação dos generais para os que lutavam contra a repressão, a maneira pela qual identificavam aqueles que não amavam o Brasil e sua soberania verde, amarela, branca e azul anil. É, aliás, a palavra escrita nos cartazes de perseguidos políticos em lugares os quais vários meios de comunicação, em sua sanha democrática, regozijam-se em condenar, a exemplo da ilha dos Castro. Poderia chamar hipocrisia; contudo, as acusações demonstram-se lamentavelmente francas. Não há dúvida da quantidade de brasileiros "esclarecidos" saudosos das paradas militares, das aulas de educação moral e cívica e dos milagres de caserna, nem da força daqueles que ainda vibram, embora na surdina, ao ver um mendigo apanhando e chamam movimentos sociais de vagabundagem.

O egoísmo e os interesses escusos de classe incitam toda sorte de preconceitos e factoides e tentam validá-los dentro do debate político. Uma pena que parte considerável dos tais esclarecidos tomem partido de opiniões tão ardis, distantes de qualquer tipo de discussão de ideias e projetos; uma tríade febril de ignorância, estupidez e amnésia. Amostra de uma mentalidade tacanha, presunçosa e que se atira, sôfrega como um náufrago agarrado à sua tábua, a todo raciocínio grosseiro afeito a satisfazer sua mesquinhez.

sábado, 11 de setembro de 2010

The magnificent dance

Em sublimes outdoors, gôndolas e intervalos comerciais não são vendidos meros produtos, mas conceitos. Qualquer porcaria recauchutada é uma nova maneira de se fazer alguma coisa. Nessa Copa do Mundo, um fabricante de veículos tentou emplacar, através de uma campanha de gestuais irritantes e estúpidos, um "novo jeito de torcer" – igualmente irritante e estúpido. A Brahma, por sua vez, inventou o brahmeiro, padrão obsceno de indivíduo que, segundo ela, representa o brasileiro: batalhador, guerreiro e, obviamente, um alcoólatra em potencial.

Logo, comprar desvairadamente é pouco; há de se fazer parte de grupos fiéis de consumo, representados por vigorosos líderes, hábitos e, especialmente, conceitos. Se tenho determinado computador ou tal carro, não sou apenas um satisfeito proprietário, e sim membro de uma família, frequentador de um templo e sócio de um clube que se reúne todas as quartas para jogar sinuca.

Semana passada, vi o anúncio de um shopping center a ser construído no Rio de Janeiro. É, por excelência, o mais recente conceito de compras e serviços. Juntar-se-á, aliás, a outros dois shoppings e a um centro empresarial de certa empreendedora, em uma mesma avenida. Provavelmente, o último conceito em avenidas.

E os jornais? A Folha de S. Paulo sofreu uma reestruturação no início do ano, visando "adequar-se às mudanças no mercado e na mentalidade do leitor". Os textos encurtaram, os títulos coloriram-se e a linguagem foi simplificada. Um contemporâneo conceito de jornal, como se vê. Imagino que o perfil de leitor – "cosmopolita e esclarecido" – para o qual apontam os editores e executivos seja formado de idiotas. De certa maneira, não deixa de ser o que há de mais atual em conceito de seres humanos.

No entanto, o ápice dos novos conceitos são os empreendimentos imobiliários. Ribeirão Preto, particularmente, vive há algum tempo um boom de edifícios e condomínios, todos cheios de conceitos. São inventivas concepções de lazer, convivência e praticidade, destinadas a um público exigente, sofisticado e de indiscutível requinte e bom gosto, que busca moradias diferenciadas e modernas. Living spaces ou style homes, localizados em espaços prime, pródigos em walkmobility e equipados com home offices e wash lounges. Possuem espaços gourmet, onde são preparados risotos e degustadas cervejas que harmonizem com a mandioquinha orgânica. As crianças têm cyber room para se divertir e garage band para tocar suas guitarras; as mulheres dispõem de salão de beleza no térreo e fitness center com personal trainer. Enfim, um mix inovador e arrojado de alto padrão, um smart building. Certamente, em vez de engenheiros e arquitetos, quem projeta tais construções são publicitários. Nelas, afirmam, as famílias serão mais harmoniosas, os casais mais apaixonados e as empregadas mais bem pagas. Isso tudo criptografado em híbridos esdrúxulos de estrangeirismos e neologismos, arremedos que não significam, em rigor, merda nenhuma.

São, contudo, perfeitamente sintéticos, pois correspondem à definição exata desses conceitos. Merda nenhuma, eu quero dizer.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre alguns direitos

Não costumo colocar textos deste tipo aqui, entretanto, para não cairmos no marasmo, lá vai, apesar de eu já ter perdido o fio da meada do assunto há tempos. Pensando bem, sempre é tempo. Ainda mais em eleições. Leia se quiser.
A Veja de 26 de Maio de 2010 traz em sua capa uma foto da promotora Vera Lúcia de Sant’Anna, acusada de maus-tratos contra sua ex-futura filha adotiva, de dois anos, com o título da manchete em grandes letras e tipografia clara, a qual se lê à distância: “A CONFISSÃO DA BRUXA”. Percebemos claramente que houve violação de direitos quando nos referimos à criança, de fato agredida e com grandes hematomas pelo corpo. Terrível. De um certo modo, porém, muito mais sutil, talvez, outros direitos, não menos importantes ou que não devam ter o devido amparo, são feridos pelo próprio periódico em sua reportagem de capa. Atenho-me a um exemplo, somente, para não cair na chacina jornalística descrita por Tomas, em outros posts. Mas não se preocupe, leitor, exemplos é que não faltam: semanalmente a revista encarna o magarefe, assim como boa parte da imprensa nacional.

Ao alegar a o direito à liberdade de expressão, tão caro aos que no Brasil já viveram a verdadeira censura, jornalistas e noticiários se apoderam deste para atuar em outras esferas, violentando, muitas vezes, outros direitos, como é no caso os direitos à honra e à imagem de Vera Lúcia, previstos na nossa Constituição Federal. Nossa Lei maior. E sem querer bancar o legalista, tal qual os direitos mencionados acima, há, para a ofendida, o direito de resposta, proporcional à ofensa, e com indenização, também no mesmo artigo da Constituição.

Meritocraticamente, Vera Lúcia pode, de fato, ter sido a agressora da garota, sofrendo esta a devida punição legal, após um julgamento ocorrido nos trâmites da lei, sem outras violações de direitos. No entanto, levado pela comoção nacional, o periódico, comparando a promotora a uma bruxa de histórias infantis, deu-se ao trabalho de, além de constranger direitos fundamentais, inerentes a todos, julgar Vera Lúcia perante a sociedade, sem se dar conta de que é, ainda e infelizmente, um importante formador de opiniões.

Sob a égide de um moralismo desqualificado, para não dizer feudal, não condizente à complexidade da sociedade brasileira, e invocando a sacralidade de um direito (liberdade de imprensa e de expressão) em irracional detrimento de outros, parte da imprensa nacional e setores não-progressistas no que se refere à devida observância dos direitos humanos foram terminantemente contra o ranking de qualidade midiática proposto pelo Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3).

E é contra tal corrente, de visão deturpada, inflando certos direitos e omitindo outros, que se mostra o PNDH-3, para além de seu caráter informativo, ajudando a tutelar direitos fundamentais, a exemplo do famigerado e tão discutido ranking, que seria feito democraticamente para definir a qualidade dos meios de comunicação e de seu conteúdo, dada a – ainda, outros ventos estão por vir com a internet – incontestável importância do papel social desempenhado atualmente pela mídia nativa.

É de grande valor uma correta, plural e eqüitativa noção dos direitos fundamentais, que o PNDH-3 nos ajuda a ter, para uma sociedade também mais correta, plural, eqüitativa. E saudável.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fetiche (um pedido de auto-permissão)

“Pode sentar”, diz o de branco, estendendo o braço direito ao assento com a grande palma ao teto. E a cordialidade sorridente: “nome?”
“Álvaro.”
Alvinho para outros. Estava na cidade havia não muito, já adquirindo a habilidade de ficar enfermo sempre. Regularmente mês em mês, dir-se-ia até que gostava. Não se sabe o que lhe dava. Olha esguio o doutor, timidez na carne. Mesmo assim se acostumou a ir em um médico diferente a cada vez. Desta era um otorrinolaringologista.
“E então, o que sente?”
“Dor aqui”, apalpando as salivares com os finos dedos. “E mais uma dor que eu acho que é de garganta.”
“E a cabeça?”
“O que tem a cabeça?”
“Dói?”
“Aqui na frente.”
“Bem... Secreção?”
“Verde e opaca.”
“Qual cor?”
“Verde.”
“Hum.”
E torna a escrever num código certamente incompreensível.
“Vem pra cá, Álvaro”, mirando com as sobrancelhas à poltrona de apetrechos no canto da sala.
O rapaz levanta-se devagar, devagar se locomove e mais vagarosamente se senta. O doutor se achega ao rapaz, de olhar disperso e respiração alta de aflição. Mas era necessário.
Examina seus ouvidos, nariz, traqueia, e por fim pigarreia: “é... o que eu achei que fosse. Sinusite, senhor Álvaro. E está bem inflamada a garganta. Vamos voltar para a mesa.”
Já de volta:
“Olha, vou te receitar este antibiótico aqui”, apontando à receita, “um comprimido a cada doze horas, por dez dias. Dez dias são dez dias, não são nove nem sete, entende? Para o remédio funcionar.”
Pequeno e levemente curvado, Alvinho procura afundar-se à cadeira, tamanho o desconchavo. Tem um acanhamento angustiante, um medo de encarar-se no espelho.
Tenta dizer algo, balbucia, despronuncia duas ou três sílabas. O médico, numa tentativa de compreensão, aperta o cenho e vai com o corpo para frente, apoiando-se à mesa. O gesto ecoa pela sala.
Olham-se assim. Silêncio, desconcerto e incerteza se cruzam até que finalmente.
“O senhor pode me receitar, é... em injeções? É que sou muito desorganizado com horários, e vou acabar errando a hora de tomar os remédios, tenho certeza, é... Além disso sei que a melhora é muito mais rápida, sabe. Bem... Simplesmente as prefiro.” Terminando como a primeira respiração após um afogamento.
E de mão na caneta e face sisuda vem a réplica:
“Você quer que eu lhe receite injetáveis?”
Desviando o olhar, abaixa a cabeça a engolir seco e continuar; o pior já fora.
“...sim, é. Pode?”
Fixo aos olhos do paciente, abre um ligeiro sorriso no canto esquerdo da boca, como debochasse:
“Claro, Álvaro, como quiser. Mas deve saber que tem de ir à farmácia, aplicar o medicamento...” e enfático “...nos horários certos. São três dias.”
Agradecimento do paciente ao doutor, agora cúmplice. Aperto de mãos, à bela oposição entre a força do braço de um e a atrofiada musculatura de outro.
Alvinho saiu da sala menor do que entrou. Mas ao dar-se de costas ao médico, sorriu levemente, aliviado.
Foi direto à drogaria perto de sua casa. Conhecia o farmacêutico. Para um tímido incontrolável como Alvinho, tais visitas, que soariam martiriosas, eram compensadas pelo seu porvir.
De toda a farmácia, como de costume, podia-se ouvir os bofetões cada vez mais graves e os gritos de satisfação vindos daquela salinha. Enfim todos sabiam, sim, o quão prazerosas poderiam ser aquelas injeções.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Breve Tratado sobre professores, "café" e farinha de pão

(Ao som de It never entered my mind, gravada pelo Miles Davis Quintet)


Aprende-se nessa vida desde sempre. Desde bebê: do engatinhar ao andar das nossas primeiras sílabas às incansáveis perguntas sobre o mundo e todas as suas partes e seu funcionamento e os porquês de tudo isso. Criança é um bicho chato mesmo. Mas faz parte da bioquímica desses pequenos seres aporrinhadores a tal da curiosidade, sua fomenta por tudo que é novo, a paixão interior pela descoberta etc. Sei é que continuamos a aprender mesmo depois dessa explosão de hormônios que nos faz crescer e parar de perguntar tanto. (E no caso de alguns, como eu, só na casca do pão, porque no miolo mantém ainda aquela insaciável e terrível curiosidade [causando por vezes disparates desnecessários] que às vezes faz de nós farinha.)


Ao longo da vida, esse nosso aprendizado é facilitado por algumas pessoas, condutores do caminho entre o conhecimento e a mente humana. No senso comum, os professores. Todos nós precisamos desses facilitadores de aprendizado, nem que por um determinado período de tempo, até porque o autodidata, esse aprende a sê-lo. Mas não entremos nos méritos do autodidatismo. Fiquemos com os facilitadores.

Agradeço de joelhos a quem facilitou meu aprendizado. De forma alguma os renego. Obrigado, tia Patrícia, por ter-me ensinado a escrever e a ler. Obrigado a todos os facilitadores da minha vida: professores da primeira, segunda, terceira e quarta séries. Assim como todos os outros. Nomes que ficaram, e se citados, encompridariam o texto de forma a perder sua real missão, dignos, porém, do mais puro agradecimento. Contudo, em maioria, não são meus verdadeiros professores. Explicarei o conceito pessoal.

Cuidarei com o maior esforço para não ser piegas. Creio, pois, que o processo de aprendizagem se estende muito mais que o mero repasse de conhecimento escolar/formal, o qual se acumula pelo simples estudo. Falo da sabietude de encontrar e interpretar a poesia da calçada suja em que se anda. De compreender com compaixão. De encontrar algo por trás de um olhar qualquer. Seja um sentimento de ódio ou graça, mas seja um sentimento. Aprender a ver, e, por consequência, ser.

E quando estendo o conceito de aprender, também o faço com o de quem o auxilia: o professor. Não diga professor em vão. Há mais que nobreza no termo, há um certo grau de sacralidade. Há uma respeitabilidade imensa quando me refiro a algum professor desta vida, de parca porém curiosa (em ambos os sentidos) experiência. Por isso a diferenciação entre facilitadores e professores.

Professores mesmo, foram poucos, tendo a carteira assinada para estar lá ou não. Só agradeço de os ter conhecido.


* * *

Dia desses, após um jogo do Brasil na Copa visto na casa de um amigo, Silas, já estávamos arrumando as coisas para ir embora quando encontrei, sobre a mesa, entre milhares de cigarros fumados, bolsas, latinhas meio cheias meio vazias e papéis espalhados, um recado da empregada da casa aos seus moradores, com alguns itens que precisavam ser comprados, nada de importante. Fato é que peguei o papel e com um deprimente ar classemedista de deboche perguntei o porquê da palavra café estar entre aspas e os outros itens não. Alguns fingiram não ouvir, afinal já havia passado do grau etílico aceitável, em que se pondera alguma coisa. Silas, porém, olhando-me com um certo desconcerto respondeu:

– Será que é por que ela não tem o ensino básico completo?

Está certo que já estávamos todos claramente afetados pelo álcool, passamos o dia bebendo, isso, entretanto, não me imuniza de minha infante estupidez. Provavelmente com o ar provocativo e insistente que me é característico, não me recordo, perguntei novamente, enfático, o porquê das aspas no bilhetinho. Só houve tempo de ouvir por trás Lelo e sua voz:

– Esssscroto! – em um volume muito alto, deu um susto em todos ao redor – Não é você o culto, o intelectual, o que sabe das coisas? Não entende o que está escrito aí, por acaso? Ela pôs a porra das aspas porque não é o café que é para ser comprado, e sim o pó de café! Ou você acha que é para comprar simplesmente a merda do café em grãos? Se você passou na Fuvest mas é um idiota e não entende a porra da metonímia, aí é problema seu! Escroto! – Termina Lelo, numa bronca mais que merecida. Embaraço foi pouco. Fomos embora todos juntos logo depois.

Lelo é conhecido nos meios acadêmicos como provavelmente uma das pessoas mais engraçadas da faculdade. De gestos espalhafatosos, um mito do Movimento Estudantil, famoso também pela voz estridente, que pode ser ouvida a quilômetros, com a irresistível mania de evocar o "Braseeel" na função fática de nossa língua. Além de um grande conhecedor de Direito Urbanístico. Literalmente, uma grande pessoa.

Tenho um enorme carinho pelas pessoas que conheci e que pude conviver por esses tempos, vividos em São Paulo. Tenho também aprendido mais que poderia supor minha vã filosofia, seja na limitada sala de aula, nos livros, ou nos outros ao meu redor. Principalmente nos outros ao meu redor. No entanto, aqui em São Paulo, nenhuma pessoa ainda me havia despertado algo que, depois de alguma reflexão, eu pudesse chamá-la de professor, em seu mais belo, honroso sentido. Obrigado, Lelo, mito e professor.


Obs.: Maira e Lelo, já que não vou poder desejar as felicidades a vocês ao vivo, que seja por aqui mesmo. Parabéns!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Limelight

Em Luzes da Ribalta, Charles Chaplin é Calvero, um decadente palhaço cujos anos de glória já se foram, vivendo entre a solidão e a bebida. Calvero salva uma jovem e doente bailarina do suicídio e a ajuda a se restabelecer. Desse modo, recupera o que restou de sua autoestima para sair, com seus safos truques e gracejos, em busca de emprego. Ao final, apresenta um comeback, levando o saudoso público ao delírio. Arrebatado, o velho clown tem um infarto e morre nos bastidores, enquanto Terry, a dançarina, desfila seu número.

Em tom autobiográfico, Chaplin retrata o artista esquecido que tem seu apoteótico aplauso e sucumbe no momento em que desponta a jovem no palco recém-abandonado. Para o diretor italiano Bertolucci, as lágrimas derramam-se facilmente; o jornalista Antônio Maria, após assistir ao filme sete emocionadas vezes, afirmou ter descoberto chorando – o que doeu de um jeito especial – que ninguém tem pena de quem chora no cinema.

Há quem o considere fraco e melodramático, porém Luzes da Ribalta sintetiza toda a emoção provocada pelos clássicos. Quem fenece, afinal, não é só Calvero, mas o próprio Chaplin e toda uma era. Nos filmes antigos, mesmo no final feliz do herói que encontra o ouro, casa com a mocinha e pega o navio para a América, alguma coisa fica no caminho, solitária. Pois os aviões ainda decolam e se esvaem nas nuvens da noite do Magreb, e nós temos apenas Paris, onde Fred e Eleanor sapateiam felizes num universo perdido.

-x-

Minha bisavó morreu uns anos atrás. Não recordo a razão, provavelmente daquilo que abate os velhos, insuficiências e falências. De quando os médicos lhe deram uma semana, viveu um ano. Por obstinação, talvez. Foi-se ao amanhecer o dia de casamento do neto ao qual criara e que, nos derradeiros anos, se dispusera a assisti-la, de maneira determinada a zelar por ele até que estivesse entregue.

Lembro também da avó de Barack Obama, sua mentora e pilar da família, falecida na véspera da eleição que o tornou presidente. Na garantia do dever cumprido cedeu, quase num sossego, ao sono sem sonhos.
Tal qual Ezequiel Neves, crítico e produtor musical, morto na quarta-feira. Depois de meio ano no hospital, passou o último mês desenganado, dando a impressão de somente aguardar o dia sete de julho para ir embora – data do aniversário de morte de Cazuza, grande amigo e parceiro, finado havia exatos vinte anos.

Assombram-me as coincidências, mesmo descrente em destino. Religiosos e místicos encheriam a boca para atribuir razões celestes e divinas. Particularmente, não sei por que as pessoas morrem. Se decidem baixar a guarda na hora certa, ficam aliviadas – ou encantadas, como diria Guimarães Rosa – e deixam o tépido abraço apossar-se e tomar-lhes o último fio de vida, em uma sutil e inconsciente permissão para o definitivo adormecer. Ou um arroubo: Zorba, o grego, em pé de frente a janela, contemplando o entardecer e dando um berro de despedida. Pode ser pouco, uma prosaica indigestão, feito Saramago, bom herege, que tomou seu café da manhã e morreu.

A morte deve ser a noitinha, um cheiro de estrelas, um remate de clássico, no Corujão; a soberba desolação do fade out, a lágrima de canto de olho na sublime última cena. A solidão do filme velho é nada mais que o medo do poente, o temor e a certeza de um dia presenciar o próprio crepúsculo. Fechar a porta do estúdio, largar da terra como se houvesse sido apenas uma efêmera flor de quatro espinhos. O filme antigo é a beleza genuína porque é a beleza se pondo, afastando-se e sumindo no horizonte. Todo mundo viu nas telas, há décadas, e agora é visto só. E não importa se a casa está cheia, a rua abarrotada pela multidão; pouco interessa se é final de campeonato ou se o cinema lota de adolescentes. Ao pôr do sol escarlate, estamos sempre chorando sozinhos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pedra de Ci

Aos Andrade do Brasil e à toda turma de 22



Brasil, me ufano do meu,


Camelo tal que bufando

Caminha, e já caminhou


Foi muito, desde Caminha





Com suas vergonhas tão...


Safadinhas desde então!


Me ufano do meu pé - que


De grande até lembra um mapa


Da minha cara marcada


De sol e tapa, do meu


Corpo mole, dançante



Um rascunho do mundo,


Inexpropriavelmente
 

Meu, que em todos há em si.


agosto, 2009

sábado, 22 de maio de 2010

Como uma inocente crônica noturna pode se transformar numa verborrágica reflexão matinal

Boa noite, leitor. E sei que pode a você parecer suspeito, mas evocarei um aforismo materno para começar o post de hoje. Sinta-se em casa para afrouxar as cintas e bebericar do meu destilado, afinal estamos a sós esta noite.

No começo do ano, como alguns sabem, mudei-me para São Paulo, para uma nova época de vivências e toda aquela baboseira que dizem. E, por escolha minha, tendo condições para tal e com pleno apoio dos pais, estou morando sozinho. E lá vai a ressalva: minha mãe costuma dizer que a pessoa que mora sozinha, com o tempo, vai adquirindo hábitos estranhos, certamente egoístas por razões óbvias e muito particulares, do interior de cada um. O que torna uma futura convivência íntima com os outros muito mais difícil. Não sei se sabem também, mas sou alguém um tanto reservado, cheio de TOC's e com séria tendência ao isolamento social, de acordo com um teste de personalidade baseado no método junguiano. Teste bobo desses que circulam pela internet. Enfim. Não tenho aparentes problemas com a solidão moderada. Não preciso de pet's. Mas no campo da suposição tudo seriam flores.

Tentarei expor, para assim tentar entender, uma mania com relação aos meus vizinhos. Desde que me mudei, criei um forte vínculo com a família que mora ao lado e tento, desde então, supor como vivem, e sua história de vida até o momento, sem nunca ter trocado sequer uma palavra com algum deles. Mas a questão é um pouco mais emaranhada. Pense, por exemplo, que as paredes têm, sim, ouvido e que tiram suas próprias conclusões, baseadas em suposições. E pense na problemática que isso traz: não sei até que ponto a observação dos outros faz parte de uma analise benéfica da situação. É natural que quando se tem curiosidade sobre algo, há de se querer adivinhar seu comportamento. Até imaginei uma comparação válida com a personagem de James Stewart em Janela Indiscreta, a qual descobre um homicídio observando seus vizinhos pela janela do apartamento solitário, quando de uma perna quebrada. Porém a minha ligação com os vizinhos não é tão visual. Visualmente resume-se, em fato, a uma olhadela pelo olho mágico quando a família sai para passear e discute no hall, esperando pelo elevador. Então tal qual as paredes, ouço.

Resolvo meus problemas nos outros. Tiro conclusões sobre mim baseado nas conclusões que tiro sobre os outros os ouvindo desde a infância, fleumaticamente. Seja os casos problemáticos de família, seja um mendigo na rua, seja um velho acompanhado de seus pombos num banco solitário desde sempre, seja o silêncio desesperado dos angustiados. Ouço-os todos da mesma forma, com um grave prazer, um prazer-agulha. Um prazer desaconchegante, muitas vezes cruel, frio e dolorido. E tiro minhas conclusões.

E agora atenção, vamos fazer um teste. Peço ao leitor que, para continuar, tire as vestes habituais, até mesmo as pessoais. Dispa-se de seus julgamentos anteriores e posteriores, apenas se permita a ouvir o texto assim como ouço e relato o caso sob a frieza de meus juízos de valores pessoais, acompanhando, como se fôssemos uma só pessoa.

E assim ouço, também, meus vizinhos. Acrescentando que fui acometido por uma ingrata conjuntivite viral, que, em sua terceira semana de moléstia, deixou-me sem poder enxergar, restando-me, pois, a ouvir muito mais a vida alheia. E com a discrição habitual que me autorizo, digo que é uma família de média idade, recém estabelecida, e com um recém nascido. Isso são os fatos constatados. O fato-agulha que me pôs a escrever foi que, ouvindo certa noite, percebi que o bebê foi deixado cair no chão, o que desencadeou uma discussão memorável entre o casal, em meio aos lamentos chorosos do rebento, cada vez mais altos, pelos apartamentos.

Agora vejam como a mania de ouvir periga, sem que percebamos, cair num jogo interminável de pressupostos, com um número inconcebível de variantes, de acordo com a visão de mundo de cada observador, no caso a minha, impregnada já de juízos cristalizados em cada um, de acordo com cada experiência que é vivida ou que se ouve falar. Grosso modo precisamos, invariavelmente, de alguns juízos consolidados para continuar caminhando sem tropeçar, sabendo que o que há no meio do caminho é uma pedra, e que para não tropeçarmos, devemos desviar da pedra, que se configura como um obstáculo. Uma simples relação de causa e efeito já perene no imaginário de todos. Mas a partir do momento em que algo não fica nítido, ao nos depararmos com o desconhecido, por exemplo, buscamos no que já conhecemos (juízos cristalizados ajudam nesse processo de busca de nitidez como prováveis pressupostos), em relações de causa e efeito sobre o fato desconhecido, para tentarmos dá-lo uma "roupagem" do que já nos é conhecido, trazendo mais segurança e ajudando a ordenar o pensamento para as relações do porvir.

Isso num primeiro momento, pois ao tomarmos contato com a verdade do que nos era desconhecido - meu vizinho me contando sua vida, por exemplo - dissipamos essa "roupagem" e o que sobra são as associações. Para ficar mais claro, seria como imaginarmos a casa de um amigo antes de conhecê-la. Para isso buscamos referências em nossa própria casa e nas outras casas que já vimos, dentro de nossa concepção de casa, e buscamos compor seu interior com objetos, que dentro do campo do que nos é conhecido, preencheriam a mobília, de acordo com o que cremos que nosso amigo gosta. Entretanto, quando factualmente visitamos esse amigo, a imagem da casa dele que fica em nossa mente é a de sua real casa, seja melhor ou pior do que a imaginamos.

Esclarecidos alguns pontos, voltemos aos vizinhos. Ouvindo-os supus que lá temos um triste caso em que o rebento rebenta com a concórdia do lar. Motivo indireto das cada vez mais comuns dissidências entre o casal. Pois bem, imagine o leitor que eles não se amam por enquanto, tomando como pressuposto que o amor é um sentimento que é construído pelo tempo, dadas as devidas variantes de cada caso. Sendo assim, é pressuposto também que ambos já não se amavam desde sempre, não sendo amigos de infância, então. Apesar disso, talvez fossem apaixonados. Dados os pressupostos que apaixonados transam, e, talvez, por descuido, tenham tido um filho, tomando como outro pressuposto que a criança não foi escolha dos apaixonados. Um acidente. Continuando, tomados os cuidados, cuido que durante a gravidez, o vizinho perca o desejo pela vizinha, justamente por causa desta. Assim, supondo que a raça humana geralmente busque, mesmo que instintivamente, o próprio conforto físico e emocional, incluso aí o não-desgaste emocional, o vizinho transparece sua falta de desejo sexual e consequente falta de desejo de ajuntar-se com a vizinha por meio de atitudes bruscas, incongruentes com as atitudes deste até o momento, que, instintivamente, também, fazem a vizinha se afastar, para proteger a si e ao bebê. Deste modo, por meio de discordâncias e brigas supostamente sem sentido, instala-se o caos no cotidiano de meus vizinhos. A ponto de deixarem cair o bebê no chão e culparem-se mutualmente, prejudicando além de si mesmos - ex-apaixonados - seu filho, que reificado pelo casal como uma bola de tênis, diante da crise familiar, cresce vendo e ouvindo o mundo desordenado. Para os que se dizem normais, mais um caso de psiquiatria.

Até que ponto devemos buscar no que já conhecemos, nas experiências vividas e ouvidas, respostas para o desconhecido? Isso é voluntário? Até que ponto devemos fixarmo-nos em pressupostos baseados em nossos juízos já cristalizados para tirar conclusões conformes (somente, talvez, a quem as tira)? E tais conclusões? Restringem-se à medida da capacidade criativa/cognitiva de cada um, sendo então um privilégio de alguns parcos? Ou inconscientemente todos as fazemos, em maior ou menor nível? Se sim, de que servem então? Ordenar o pensamento na lógica de que guardamos meias de mesma cor em gavetas separadas de meias de outra cor? E, finalmente, se sim, devemos estar, pois, no cerne dos estereótipos, que são pressuposições, de maneira generalizada, comuns a todos. De qualquer modo, ficam aí algumas reflexões.

E, sob esse estereótipo da sentença de minha mãe no começo deste texto (das manias excêntricas de cada um que mora sozinho), creio que no entanto o problema não é sobre se é saudável eu continuar estereotipando meus vizinhos deste modo, e sim sobre se eu tenho consciência de como se dá isso. A nitidez é fundamental para permanecermos sóbrios. E uma coisa é certa, é mais produtivo que alimentar um pet.

domingo, 9 de maio de 2010

Late, late show

Uma das tantas coisas que me aborrecem na imprensa televisiva e na comunicação em geral são os depoimentos dramáticos. Não pelo drama em si, eventualmente legítimo, mas pelas lágrimas. Também não devido às próprias lágrimas, muitas vezes sinceras e sem sombra de encenação, e sim pelo rapaz da câmera que, ao perceber um prenúncio de choro, foca a arma preta gigantesca carregada sobre seu ombro nos olhos do retratado, aguardando o pranto.

O zoom arruína a emoção. É como um poema, um texto, uma declaração, com sua mensagem oculta, terrível e belíssima posta em negrito, destacada em maiúsculas, feito noticiário investigativo. O assassinato hediondo de qualquer lirismo que tenha ousado disfarçar-se entre as palavras; poesia esquartejada, posta em sacos plásticos e espalhada por várias lixeiras em cantos distintos da cidade.

As lágrimas mais sinceras que já presenciei sempre saíram na surdina, fugidas, renegadas; lentas só para contrariar a sobriedade. O lamento surdo ouvido através das paredes, esse sim é melancólico. É o choro discreto na poltrona do cinema.

A explicitação sangra a sutileza e a transforma em uma linguiça de chouriço, pendurada num açougue: é só pedir, embalar e comer. O jornalismo dado por arte existe, em menores tiragens e endereços obscuros, à margem das sensacionais reportagens conduzidas pelos grandes e bons. Tão bons que perderam, em meio a um contrato e outro, a distinção entre o enternecedor e o burlesco. Esse jornalismo está mais para uma imensa e enfadonha nota de rodapé do que para um texto literário. Uma rubrica de lágrima escorrendo no domingo à noite.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Está tudo na sua cabeça II

Pensando bem, o homem poderia ser menos expositivo em suas relações e/ou intenções.


“Carlos, por que pôs o volume do filme no máximo? Vou ficar surda!”
“Porque eu não tô escutando.”
"Ah é? Tá bom, então."
E sai do quarto irritada, sem saber dos porquês. Foi dormir no sofá.


Ainda à mesa de bar. "Pois é, eu bem que tentei chamar o Binho. Liguei pra ele, mas veio com uma história de esfirras que não entendi direito, com aquela voz calma que dá raiva: cara, sabe o que é, estou fazendo esfirras, e não posso sair com vocês agora. Já já elas ficam prontas."


João, meia hora antes, à moça: "...te amo."


Destarte fácil seria. Mas já éramos assim, não?

sábado, 3 de abril de 2010

Autumn leaves

A 24 de abril, por volta das três da tarde, Carlos sai pelos portões altos do S. Bartolomeu e cruza a rua. Olha atento o sinal, afrouxa a gravata e abre, em seguida, os botões do casaco. Na cabeça sopra aquela música que parece As Time Goes By, mas não é.

Entra na padaria e, ao pedir uma média e um pão de queijo, desarma-se do traje social e arregaça as mangas da camisa azul listrada. Mordendo o quitute, desabotoa e põe a roupa para fora da calça. A canção havia livremente largado uns pares de notas e tornado-se a de Casablanca. Lembra da matéria lida há pouco, em um dos tantos cafezinhos, relatando o hábito de Marilyn Monroe de circular nua pela casa, mania com a qual só Sinatra conseguira acabar. E interessava, se não era nem o Sinatra atuando no filme? Saindo, a cabeça de Carlos negligencia o troco e seu paletó, que, veja lá, fica tão bonito debruçado no balcão, discutindo o futebol com uma estopa de casaca mostarda.

Dentro do circular, retira de vez a gravata como quem larga uma cruz e lembra-se renitente do maço de cigarros esquecido no bolso do terno. Era light, sabor menta. Pensando um pouco, Carlos custa a recordar a última vez que sentira prazer inalando algo light e, ainda por cima, com sabor de menta. Talvez fosse no tempo em que usava sapatos, pois os larga na sarjeta ao saltar do ônibus. Estavam mesmo fora de moda desde quando Bogart vestira seu último paletó. Isso, era Bogart.

As meias pouco duraram. Temeroso em rasgá-las, Carlos guarda-as na lixeira reciclável dos metais. Sobrara, pelo menos, seu drops de hortelã, no bolso da frente. Desembala e cospe-os todos na grama. Hortelã, só no mojito. Queria sim um mojito, admitiu algumas vezes. Duvidava que um homem houvesse, em algum momento da História, recusado um mojito. Roga à sua camisa de algodão para que não o leve a mal e com ela veste um hidrante, vermelho do sol tomado diariamente das seis às dezenove.

Da calça escura, sofrida do excesso de cadeira acolchoada, separa-se no passeio feito uma mortalha. A cueca é vermelha, tão esquisita, dada por Stela, esta que o aguarda logo à frente. A moça, inteira sonolenta, próxima a uma cerca viva e em dia de folga, é conforto da cabeça aos pés. Nem tanto quanto a pobre cueca, caída no bueiro. Provocasse, quem sabe, uma enchente se chovesse.

Ao se deparar com Stela, nu em chapéu e pelo, Carlos retira cortês o panamá, arremessando-o na direção de um mancebo imaginário – assim como deveria fazer Bogart ao chegar em casa. Mal precisam os dois fixar os olhos uns nos outros, estando as íris já saudosas das cores verde, castanha ou azul mentolado exibidas outrora, perdidas pela curta distância do instante. Encontram-se as pupilas e os corpos sem aberturas prévias de braços, firma reconhecida e cobranças ou pastilhas para o hálito. Stela nada pensa; ele ainda matuta por que diabos o Sinatra mandou Marilyn vestir uma roupa. O mundo parece compreender, enfim.