quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Prosa de ébrio

Olhava fundo, ia sorvendo o whisky. Entardecer de chão quente. A bola ainda estava lá, intocada.
“A vida é muito louca mesmo.”
Ficaram as pedrinhas de gelo no copo. Brincava com elas usando o indicador. Derretiam.
“Quando damos conta já estamos nadando em nossa própria água.” disse, de olhos cerrados de malte.
“Como?”
E prosseguiu:
“Como esses gelinhos. Aí um dia, já exaustos de tanto nadar em nossos próprios fluídos, de remoer as mesmas experiências na água de nossos feitos, mágoas, heroísmos e desméritos, por tudo isso um dia cansamos de nadar e sumimos deste mundo.”
“E o que fica?”
“Não está vendo?” De gelo, só água no copo. “Nossos feitos ficam. Tudo é um fluxo, homem. Do micro ao macrocosmo. Sabe, ficam para serem usados novamente, como se fosse uma experiência de vida vivenciada por terceiros. Viramos belos exemplos.”, assopra cansado.
Olha longe, um pássaro tenta se equilibrar sobre a bola, mas escorrega e alça vôo.
“Continue.”
“E sabe qual a diferença entre as pessoas?”
“…”
“Diz respeito às suas respectivas ‘importâncias’ para o mundo.” e faz um rosto de auto-resigno perante sua momentânea genialidade.
“Sim, sim…” retruca com a certeza e compreensão totais que só os bêbados têm.
“Essa diferença está na distribuição da água que sobra. As grandes almas vieram de fôrmas-de-gelo semelhantes às nossas, só que sua água é usada por muitos outros. Minha água, com esta modéstia que Deus me deu, não encherá nem um outro dedal sequer. Mas os grandes homens, os grandes homens evaporam-se em milhares de milhares de micropartículas, participando de muitos outros cubos de gelo. Milhares d’outros cubos! Água é a vida em seu pleno sentido. Seu ciclo é o nosso. Somos água em todos os aspectos da vida.”
Quando notaram, a bola não estava mais. Já havia sido chutada por um moleque.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Da guerra interior e os malefícios epicuristas

Por nosso correspondente Igor, em 17/01, domingo à noite, diretamente do front de sua latrina.

Eu bem que poderia começar com uma citação do nosso aforista-mor, Nelson Rodrigues, mas, dadas as circunstâncias, seria melhor eu lembrar ao leitor alguns aspectos de sua vida. Conforme Ruy Castro, na biografia de Nelson, Anjo Pornográfico, o dramaturgo passou por maus bocados durante toda sua existência, e, para agravar a situação, a úlcera desde sempre o acompanhou. Tanto que tornaram-se famosos os seus suspensórios, pois tamanha era a dor que Nelson não conseguia usar cintos, e, em períodos de crises, alimentava-se de uma papinha preparada pela esposa. Nem de longe passo ou passei por tudo que Nelson Rodrigues passou; salvas as devidas proporções, porém, sou levado a crer que a dor deve ajudar no momento da criação.

Sobre algumas das técnicas-calmantes, o que temos aqui hoje é o alívio da dor de dentro, senhor leitor. Nada de cunho pseudopoético, falo da gastrite mesmo. E sua digievolução, a úlcera. Dizem que além da má alimentação; da não-produção de certas enzimas digestivas e da superprodução de ácido clorídrico, um dos grandes fatores dessa moléstia é o stress cotidiano, pelo qual todo ser urbanizado passa. Até os pombos. No entanto não me fixarei na ambiência do stress sucedido no ano nem às suas causas. Sei que a gastrite foi um dos males que me afligiram ano passado, e o alívio desta considero como um calmante de primeira. Fora a minha SII, que não comentarei por pura discrição. Parar de sentir dor é tão bom que chega a ser prazeroso.

Com efeito, me lembrei do assunto porque estou tendo hoje minha pior crise de gastrite da vida. Por estas letras pacíficas o leitor não toma completa idéia, mas lhe tentarei dar uma dimensão maior do que sinto agora. É uma vontade de jogar-se ao chão e mordê-lo a não mais, ou até quebrar os dentes, tamanha a histeria interior. É algo mais ou menos como uma ex-namorada de TPM dentro de seu estômago que passa a arranhá-lo até sangrar pelos seus erros do passado. O problema é que insisto em erros do passado. Eu sei o que devo comer para sofrer no porvir. Mas o que faço com esta negligência-humana que sou? Acompanhe, ressaltarei meus erros:

Antes de dormir, pela madrugada, comi meia torta de palmito e uma colher de brigadeiro. Fui dormir às 7h30 da manhã, acordei pelas 12h30, e junto do jornal do dia anterior digeri dois pãezinhos-de-fôrma com manteiga. Depois veio meio copinho de café. Já que havíamos combinado de almoçar fora, jejuei até às 5h da tarde. Batata, as dores começaram já àquela hora. E para amenizar a irritação decidi por comer uns tantinhos de farinha de mandioca, o que melhorou um pouco. Livrei-me, pelo menos, de me contorcer em público sem nem ao menos receber um trocado pelo espetáculo circense aos desavisados e sádicos. Havia, com a farinha, um tempo maior entre os espasmos de dor. Estávamos no Epicurista, restaurante de comida nordestina. Arroz-de-leite, carreteiro, baião-de-dois, lingüiças, almeirão refogado, e muita, mas muita pimenta. Por um instante me senti em pleno direito de amaldiçoar Epicuro e toda sua filosofia barata do prazer-miojo.

Para finalizar, como ainda não parei de sentir dor, como não estou calmo, como não estou em uma situação ideal para terminar um post, recomendo pelo menos um paliativo. Além de todos aqueles hidróxidos que você encontra facilmente nas drogarias, conheçam também uma erva cujo nome se justifica, pelo menos entre os que sofrem do mal estomacal: a espinheira-santa. Bendita seja ela e esse alívio, que me deixa escrever.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Jane Lee

“O bar ideal não existe na América. Um bar ideal é algo fora do nosso alcance. Em 1910, um bar era um lugar onde os homens iam se encontrar durante ou depois do trabalho, e tudo o que havia era um longo balcão, corrimãos de metal, escarradeiras, uma pianola para o fundo musical, uns espelhos, uns barris de uísque a dez centavos a dose ao lado de barris de cerveja a cinco centavos a caneca. Agora tudo o que há são enfeites cromados, mulheres bêbadas, veados, barmen hostis, proprietários espreitando nas portas, preocupados com seus bancos de couro e com a polícia, gritaria em momentos inoportunos e um silêncio mortal quando entra um estranho.”
Jack Kerouac, na voz de Old Bull Lee, o velho touro de New Orleans

Boteco não é o balcão meio sujo, o copo meio limpo e a cerveja inteira gelada. O boteco grã-fino, o new boteco, é igual à casa do Mickey: parece verdade, mas tudo foi cuidadosamente arquitetado para ficar daquele jeito. Eu também gosto – e muito – de ar condicionado, sanitário com bidê e bruschetta de atum. O problema, no entanto, transparece quando as coisas são artificiais, igual àquele bolo falso, dentro do fogão simulado no barco do Pato Donald, que por sinal é de mentira. São os pretensiosos “botecos” das garrafas de época espalhadas, do cardápio com um traço empolado de improviso e dos nomes pedantes de tão informais para os petiscos. Em vez da cebola em conserva, vemos aqueles monstros empanados e, no lugar da simples camisinha de cerveja, belos baldes cheios de gelo. Nem o torresmo ficou livre, perdendo seus pelos e o gosto de safena com limão e sal.

Em Minas, contemplo o autêntico e natural hábito de, no meio do dia comum, tirar uma hora para tomar alguma coisa no Mercado Central. E é um verdadeiro mercado, não uma aberração classe A, de chão polido e luz fria. As pessoas acotovelam-se sobre os balcões, degustam as mais duvidosas e deliciosas iguarias, conversam e gargalham enquanto dão goles em seus copos, satisfeitos e cordiais. É o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, do qual a civilização não havia de se distanciar. É o grito desesperado do Obelix, do Homer Simpson, do Hagar, o Terrível que ainda mora dentro de nós, naquele espacinho entre o fígado e o pâncreas. É um clamor agonizante contra os DJs, o ice de vodca e as camisas polo cheias de listras multidirecionais, números aleatórios e nomes de países escandinavos; um brado pela genuína vontade de engordar, dar risada e olhar o que escondem as saias, não suas etiquetas. É o que há de mais sincero, mergulhado num copo americano, ao lado da costelinha de porco.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

I'd really love to break your heart

Primeiramente venho agradecer a paciência dos parcos leitores que ainda de vez em quando entram aqui, e segundamente desejar-lhes que este ano que se foi tenha sido espetacular. Mais um ano. Mais um ano a menos. Porém minha real intenção neste ignorântico espaço da internet, hoje, é dizer sobre outra coisa: o leitor não se sente um reprimido? Reprimido. Sim, reprimido pelos dias, pelas roupas, pelo lugar em que vive, pelas cores e sons à sua volta, e, principalmente, pelos viventes que o cercam? Reprimido pela sua própria coerção! (você mesmo!) A cinta-liga não está muito apertada? O armário não está escuro, embolorado? Pois grite. Grite alto, grite surdo, grite, grite rouco e mudo. Eu bem que poderia citar Menudos, mas meu verniz cultural' vai além desses rapazes, para minha (in)felicidade. Já diziam Roland Orzabal e Curt Smith, do Tears For Fears, uma banda dos anos 80, e que apesar da sonoridade brega oitentista típica, simpatizo muito: Shout, shout, let it all out / These are the things I can do without / Come on, I'm talking to you, come on... em seu hit Shout. Falavam eles da teoria do Grito Primal, escrita pelo psicoterapeuta estadunidense Arthur Janov. Janov enfatiza, em seu livro, que por meio do grito o paciente é incentivado a libertar, expulsar, EXUMAR seus sentimentos mais primários, os quais, segundo ele, poderiam estar reprimidos. John e Yoko gritaram ao lado do professor Janov, e ficaram calminhos, calminhos...

Hoje foi o último dia dessa infernal maratona de provas. E o que resta a nós, pobres vestibulandos (palavra mais feia), é a angústia do esperar. No meu caso é um mês, um mês de grito, que, do antes do dia 4, todo dia é dia disso.

Obs: este é o primeiro duma série de tópicos sobre técnicas calmantes que vim a fazer uso nesse ano que – que bom que – se foi.