domingo, 17 de janeiro de 2010

Jane Lee

“O bar ideal não existe na América. Um bar ideal é algo fora do nosso alcance. Em 1910, um bar era um lugar onde os homens iam se encontrar durante ou depois do trabalho, e tudo o que havia era um longo balcão, corrimãos de metal, escarradeiras, uma pianola para o fundo musical, uns espelhos, uns barris de uísque a dez centavos a dose ao lado de barris de cerveja a cinco centavos a caneca. Agora tudo o que há são enfeites cromados, mulheres bêbadas, veados, barmen hostis, proprietários espreitando nas portas, preocupados com seus bancos de couro e com a polícia, gritaria em momentos inoportunos e um silêncio mortal quando entra um estranho.”
Jack Kerouac, na voz de Old Bull Lee, o velho touro de New Orleans

Boteco não é o balcão meio sujo, o copo meio limpo e a cerveja inteira gelada. O boteco grã-fino, o new boteco, é igual à casa do Mickey: parece verdade, mas tudo foi cuidadosamente arquitetado para ficar daquele jeito. Eu também gosto – e muito – de ar condicionado, sanitário com bidê e bruschetta de atum. O problema, no entanto, transparece quando as coisas são artificiais, igual àquele bolo falso, dentro do fogão simulado no barco do Pato Donald, que por sinal é de mentira. São os pretensiosos “botecos” das garrafas de época espalhadas, do cardápio com um traço empolado de improviso e dos nomes pedantes de tão informais para os petiscos. Em vez da cebola em conserva, vemos aqueles monstros empanados e, no lugar da simples camisinha de cerveja, belos baldes cheios de gelo. Nem o torresmo ficou livre, perdendo seus pelos e o gosto de safena com limão e sal.

Em Minas, contemplo o autêntico e natural hábito de, no meio do dia comum, tirar uma hora para tomar alguma coisa no Mercado Central. E é um verdadeiro mercado, não uma aberração classe A, de chão polido e luz fria. As pessoas acotovelam-se sobre os balcões, degustam as mais duvidosas e deliciosas iguarias, conversam e gargalham enquanto dão goles em seus copos, satisfeitos e cordiais. É o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, do qual a civilização não havia de se distanciar. É o grito desesperado do Obelix, do Homer Simpson, do Hagar, o Terrível que ainda mora dentro de nós, naquele espacinho entre o fígado e o pâncreas. É um clamor agonizante contra os DJs, o ice de vodca e as camisas polo cheias de listras multidirecionais, números aleatórios e nomes de países escandinavos; um brado pela genuína vontade de engordar, dar risada e olhar o que escondem as saias, não suas etiquetas. É o que há de mais sincero, mergulhado num copo americano, ao lado da costelinha de porco.

11 comentários:

Bá disse...

Gostei TOMMY..Mas agora o Igor se sentiu ofendido com o Pinguimm hahah

Bá disse...

Ahhh..
"bruschetta de atum"

Igor disse...

Que nada, Bárbara, tá tudo assim mesmo. Maior palhaçada esses botecos pé-limpo. Outra palhaçada são essas temakerias com ingredientes exóticos, que servem tudo menos temaki, ao som de um easy-listening. E o Pinguim já não é mais boteco faz tempo, apesar da tradição.

Tomas disse...

O Pinguim inventou essa coisa toda, não finge ser o que não é. A bruschetta é por sua conta, só peço pra trocar o atum por outro sabor.

Duuda disse...

eu so queriia saber: a costelinha de porco é com mel?

Igor disse...

Porra, mas eles dão de boteco? (Além de enfatizarem todo o charme da década de trinta, e o aspecto do chopp mitologico)
E depende da casa. Concordo, os do centro têm disso mesmo. Mas não creio que fingem ser um boteco chique.
São restaurantes.
E pega BH - a cidade dos botecos - no pinguim de lá tem tanta coisa que pode ser o que quiser, menos boteco.

Tomas disse...

Então ué, o Pinguim é isso. Faz parte da história (com H maiúsculo, se preferir).

Igor disse...

Nah, já que a bruschetta é por minha conta, que fique você de pagar a cevada e o torresmo dessafenado. (ri muito nessa parte)

Rayzah disse...

Bom, eu não sou cliente de botecos mesmo, então não sou a pessoa mais apta a avaliar. XD
De qualquer forma, aqui onde eu moro boteco é só copo-sujo. asiudhasidusha

o/

RogerioBuratti disse...

o melhor é saber onde se está, porque se está e, principalmente o que se quer. o pinguim de BH é ótimo e os botecos do mercado também o são. o que não se pode é tratar "bruscheta de atum" (que para mim é de gosto duvidoso)como boa só porque é requintada. Podiam até inventar um outro prato para não contaminar a imagem boa e velha brusqueta. Bom é o que é bom, ruim é o que é ruim, simples assim.
Mas o simples é sempre bom, mas para achá-lo assim precisamos também de bons (e de simples) olhos.
Belo texto o seu.

Bá disse...

Tomy vc precisa conhecer o BAR DO SHINGU de Pres Venceslau!! ahhaha