sexta-feira, 19 de março de 2010

A mão que segura Lucas

Lucas segura uma mão;
ele gosta de skate,
mas agora segura uma mão.

Gosta de andar pela cidade com seu skate,
com seu skate e com seus amigos,
descendo as ladeiras mais perigosas do mundo
com seu skate.

Mas agora segura uma mão.
E essa mão segura a mão de Lucas,
que segura uma mão que respeita muito,
sem saber por quê.

E não é a mão que ajudou Lucas
a atravessar a comprida avenida,
tendo ele ficado bravo de ter que
segurar uma mão para atravessar
a comprida avenida, que para Lucas
era só mais uma avenida,
afinal já tem 14 anos.

Não é a mão da mãe de Lucas
que ele segura
e que segura a mão de Lucas.

[A mãe de Lucas cuida de Lucas.]

Não é uma mão qualquer,
é uma mão mais pesada.
Mais pesada que qualquer
outra mão para Lucas, já que
segura forte a mão de Lucas,
que por sua vez segura forte também.

E essa força para Lucas
tem uma força mais forte
que as outras forças de mãos
que se seguram de forma
recíproca e com força.

Mas não é a mão
do pai de Lucas,
que para Lucas é
o melhor pedreiro
das redondezas.

[A mão que Lucas segura e que segura a mão de Lucas não tem calos como a mão do pai.]

E é também mais leve.
Mais leve que todas
as outras mãos que
Lucas já pôs a mão.

[É cheia de emoção, mas Lucas não sabe por quê.]

A mão que segura a mão
de Lucas não pega só a mão,
vai pelos braços,
chega ao coração,
e arrepia onde Lucas tem pêlos.

Mas a mão que Lucas aperta
e que aperta a mão de Lucas
não é a mão que Lucas
apertou com força outro dia:
uma mão pesada
e leve e cheia de emoção
mesmo sem saber por que
e que também arrepiou Lucas.

Não.

A mão que aperta
a mão de Lucas não
é a mão de Maria Luisa,
sua namoradinha,
a mais bonita da escola.

[A mão que aperta a mão de Lucas é menor.]

É menor que todas as outras mãos
que Lucas já apertou na sua vida
inteira de rapaz de 14 anos
e que gosta de andar
de skate com seus
amigos pelas
ladeiras.

E dentro de Lucas,
mesmo sem saber por quê,
é também a mão mais bonita que já viu no mundo inteirinho.

[Mais bonita que a sua namorada Maria Luisa, que Lucas gosta muito mesmo, mas ainda assim é mais bonita.]

E enquanto Lucas
segura a mão que
segura a mão de Lucas,
pensando em como é
bonita e pequena e leve
e para Lucas muito pesada também,
essa mão que ele aperta
e que aperta
a mão dele com força.
Que é cheia de emoção e que arrepia.

Enquanto isso, todos estão lá:
a mãe de Lucas enxuga os olhos,
o pai de Lucas olha pela janela,
Maria Luisa dorme,
e Lucas agora segura a mãozinha como alguém segura um passarinho ferido.

[Ele segura a mão como um pai segura a mão de um filho, que também segura a mão do pai.]

E de repente,
sem saber por quê, Lucas chora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

114

Enquanto andava desocupado, George Harrison fez uma música, belíssima por sinal, chamada Something. Para variar, uma de amor. Ouvindo, é fácil concluir que Harrison idealiza seu sentimento e a própria amada ao dizer, por exemplo, que não precisa de mais nenhuma amante e ao enunciar o terno mistério na maneira com a qual ela se move. A antítese, no entanto, encontra-se no seio da própria canção. Na ponte, o beatle, em tom de desabafo ou de angústia, responde às dúvidas da musa se o seu amor ainda crescerá. Tal qual o rapaz sufocado pelas súplicas e apelos apaixonados da jovem namorada, George humildemente confessa que não sabe.

E como saberia? Tantas paixões dobrando as esquinas e as dezenas de amores à primeira vista até ocorrer – ou não! – o grande, único e eterno, que não há resposta mais sincera que um I don't know. Alguns podem denominar frieza e insensibilidade o desalento de não ouvir um "eu te amo" respondido à queima-roupa, ou não encontrar um anel, nem posto no papel o grande amor. Deveriam, contudo, valorizar a cautela, o zelo pelo grande amor. Sendo até um amor menor, um amor a mais. Mesmo que só um sonho de valsa, pode-se bem, em vez de arrancar-lhe a embalagem num segundo e devorá-lo em duas mordidas, desenrolá-lo como um sudário e comer pelas bordas, descascando camada por camada de chocolate. De quebra, se por acaso em algum lugar de seu sorriso ela souber, fazer do embrulho escarlate uma singela circunferência à guisa de aliança, deixando ao nó a vontade de permanecer firme, mas também a liberdade suficiente para desatar-se.

Terminaria a frase da guitarra de Harrison com um fim? George larga sua derradeira nota como um suspiro, sabe-se lá de quê. A incerteza não é sinal de um hesitante subterfúgio, feito uma mudança de assunto. Revela-se nada menos que um imenso e genuíno afeto; um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Exegese da manhã

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(João Cabral de Melo Neto)

É meia noite
zero hora
neste instante,
triste agora
o que me resta porém
a crer, senão na aurora que vem?

E tê-la teia
como a imagem
em perspectiva
de fios de tecelagem
ao astronômico claro:
cantos dos galos,

em cuja poesia
inscrita na pedra,
distante, dizia o poeta.

À semelhança,
cravo a impressão
do nascente:

azul
vermelho
verde

Azul:

Esta minha visão,
lembra-te que
de tão particular
tanto pode como não,
sendo então um azul
em cada míope.

E quando já de essa
nossa visão tratarmos
lembra-te que
a nós tudo pode:
do azul camaleão
ao céu de cefalópode.

Vermelho:

Bodnacsu a nzediti
Buodnacs a nizedit
Busodnac a nitzedi
Buscodna a nitized
Buscaodn a nitidze
Buscanod a nitidez

Buscando a nitidez,
junto do primo raio,
da lâmina-luz,
por entre as folhas
feixes tímidos de razão
adormecem o ébrio.

E de fios que eram,
vão se esquivando,
decidindo,
dissolvendo-se
em outros coágulos,
bem maiores estes já.

E tomando posição,
já bem ao norte
dispostas
belas esferas de certeza
voam dançando bailarinadas
: ao bem comum.

Verde:

E sem sombra de dúvida
o mistério com a nitidez finda.