quarta-feira, 10 de março de 2010

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Enquanto andava desocupado, George Harrison fez uma música, belíssima por sinal, chamada Something. Para variar, uma de amor. Ouvindo, é fácil concluir que Harrison idealiza seu sentimento e a própria amada ao dizer, por exemplo, que não precisa de mais nenhuma amante e ao enunciar o terno mistério na maneira com a qual ela se move. A antítese, no entanto, encontra-se no seio da própria canção. Na ponte, o beatle, em tom de desabafo ou de angústia, responde às dúvidas da musa se o seu amor ainda crescerá. Tal qual o rapaz sufocado pelas súplicas e apelos apaixonados da jovem namorada, George humildemente confessa que não sabe.

E como saberia? Tantas paixões dobrando as esquinas e as dezenas de amores à primeira vista até ocorrer – ou não! – o grande, único e eterno, que não há resposta mais sincera que um I don't know. Alguns podem denominar frieza e insensibilidade o desalento de não ouvir um "eu te amo" respondido à queima-roupa, ou não encontrar um anel, nem posto no papel o grande amor. Deveriam, contudo, valorizar a cautela, o zelo pelo grande amor. Sendo até um amor menor, um amor a mais. Mesmo que só um sonho de valsa, pode-se bem, em vez de arrancar-lhe a embalagem num segundo e devorá-lo em duas mordidas, desenrolá-lo como um sudário e comer pelas bordas, descascando camada por camada de chocolate. De quebra, se por acaso em algum lugar de seu sorriso ela souber, fazer do embrulho escarlate uma singela circunferência à guisa de aliança, deixando ao nó a vontade de permanecer firme, mas também a liberdade suficiente para desatar-se.

Terminaria a frase da guitarra de Harrison com um fim? George larga sua derradeira nota como um suspiro, sabe-se lá de quê. A incerteza não é sinal de um hesitante subterfúgio, feito uma mudança de assunto. Revela-se nada menos que um imenso e genuíno afeto; um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias.

2 comentários:

Thaís disse...

Obrigada por voltar, Tomas! Agora tenho o que fazer nas horas vagas... hahaha, beijos!

Vec disse...

Bela resposta, rapaz...
Eu apenas discordo, e você já tem
meus parágrafos sobre isso.
Abraços e belo texto