sexta-feira, 5 de março de 2010

Exegese da manhã

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(João Cabral de Melo Neto)

É meia noite
zero hora
neste instante,
triste agora
o que me resta porém
a crer, senão na aurora que vem?

E tê-la teia
como a imagem
em perspectiva
de fios de tecelagem
ao astronômico claro:
cantos dos galos,

em cuja poesia
inscrita na pedra,
distante, dizia o poeta.

À semelhança,
cravo a impressão
do nascente:

azul
vermelho
verde

Azul:

Esta minha visão,
lembra-te que
de tão particular
tanto pode como não,
sendo então um azul
em cada míope.

E quando já de essa
nossa visão tratarmos
lembra-te que
a nós tudo pode:
do azul camaleão
ao céu de cefalópode.

Vermelho:

Bodnacsu a nzediti
Buodnacs a nizedit
Busodnac a nitzedi
Buscodna a nitized
Buscaodn a nitidze
Buscanod a nitidez

Buscando a nitidez,
junto do primo raio,
da lâmina-luz,
por entre as folhas
feixes tímidos de razão
adormecem o ébrio.

E de fios que eram,
vão se esquivando,
decidindo,
dissolvendo-se
em outros coágulos,
bem maiores estes já.

E tomando posição,
já bem ao norte
dispostas
belas esferas de certeza
voam dançando bailarinadas
: ao bem comum.

Verde:

E sem sombra de dúvida
o mistério com a nitidez finda.

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