segunda-feira, 12 de abril de 2010

Está tudo na sua cabeça II

Pensando bem, o homem poderia ser menos expositivo em suas relações e/ou intenções.


“Carlos, por que pôs o volume do filme no máximo? Vou ficar surda!”
“Porque eu não tô escutando.”
"Ah é? Tá bom, então."
E sai do quarto irritada, sem saber dos porquês. Foi dormir no sofá.


Ainda à mesa de bar. "Pois é, eu bem que tentei chamar o Binho. Liguei pra ele, mas veio com uma história de esfirras que não entendi direito, com aquela voz calma que dá raiva: cara, sabe o que é, estou fazendo esfirras, e não posso sair com vocês agora. Já já elas ficam prontas."


João, meia hora antes, à moça: "...te amo."


Destarte fácil seria. Mas já éramos assim, não?

sábado, 3 de abril de 2010

Autumn leaves

A 24 de abril, por volta das três da tarde, Carlos sai pelos portões altos do S. Bartolomeu e cruza a rua. Olha atento o sinal, afrouxa a gravata e abre, em seguida, os botões do casaco. Na cabeça sopra aquela música que parece As Time Goes By, mas não é.

Entra na padaria e, ao pedir uma média e um pão de queijo, desarma-se do traje social e arregaça as mangas da camisa azul listrada. Mordendo o quitute, desabotoa e põe a roupa para fora da calça. A canção havia livremente largado uns pares de notas e tornado-se a de Casablanca. Lembra da matéria lida há pouco, em um dos tantos cafezinhos, relatando o hábito de Marilyn Monroe de circular nua pela casa, mania com a qual só Sinatra conseguira acabar. E interessava, se não era nem o Sinatra atuando no filme? Saindo, a cabeça de Carlos negligencia o troco e seu paletó, que, veja lá, fica tão bonito debruçado no balcão, discutindo o futebol com uma estopa de casaca mostarda.

Dentro do circular, retira de vez a gravata como quem larga uma cruz e lembra-se renitente do maço de cigarros esquecido no bolso do terno. Era light, sabor menta. Pensando um pouco, Carlos custa a recordar a última vez que sentira prazer inalando algo light e, ainda por cima, com sabor de menta. Talvez fosse no tempo em que usava sapatos, pois os larga na sarjeta ao saltar do ônibus. Estavam mesmo fora de moda desde quando Bogart vestira seu último paletó. Isso, era Bogart.

As meias pouco duraram. Temeroso em rasgá-las, Carlos guarda-as na lixeira reciclável dos metais. Sobrara, pelo menos, seu drops de hortelã, no bolso da frente. Desembala e cospe-os todos na grama. Hortelã, só no mojito. Queria sim um mojito, admitiu algumas vezes. Duvidava que um homem houvesse, em algum momento da História, recusado um mojito. Roga à sua camisa de algodão para que não o leve a mal e com ela veste um hidrante, vermelho do sol tomado diariamente das seis às dezenove.

Da calça escura, sofrida do excesso de cadeira acolchoada, separa-se no passeio feito uma mortalha. A cueca é vermelha, tão esquisita, dada por Stela, esta que o aguarda logo à frente. A moça, inteira sonolenta, próxima a uma cerca viva e em dia de folga, é conforto da cabeça aos pés. Nem tanto quanto a pobre cueca, caída no bueiro. Provocasse, quem sabe, uma enchente se chovesse.

Ao se deparar com Stela, nu em chapéu e pelo, Carlos retira cortês o panamá, arremessando-o na direção de um mancebo imaginário – assim como deveria fazer Bogart ao chegar em casa. Mal precisam os dois fixar os olhos uns nos outros, estando as íris já saudosas das cores verde, castanha ou azul mentolado exibidas outrora, perdidas pela curta distância do instante. Encontram-se as pupilas e os corpos sem aberturas prévias de braços, firma reconhecida e cobranças ou pastilhas para o hálito. Stela nada pensa; ele ainda matuta por que diabos o Sinatra mandou Marilyn vestir uma roupa. O mundo parece compreender, enfim.