sábado, 22 de maio de 2010

Como uma inocente crônica noturna pode se transformar numa verborrágica reflexão matinal

Boa noite, leitor. E sei que pode a você parecer suspeito, mas evocarei um aforismo materno para começar o post de hoje. Sinta-se em casa para afrouxar as cintas e bebericar do meu destilado, afinal estamos a sós esta noite.

No começo do ano, como alguns sabem, mudei-me para São Paulo, para uma nova época de vivências e toda aquela baboseira que dizem. E, por escolha minha, tendo condições para tal e com pleno apoio dos pais, estou morando sozinho. E lá vai a ressalva: minha mãe costuma dizer que a pessoa que mora sozinha, com o tempo, vai adquirindo hábitos estranhos, certamente egoístas por razões óbvias e muito particulares, do interior de cada um. O que torna uma futura convivência íntima com os outros muito mais difícil. Não sei se sabem também, mas sou alguém um tanto reservado, cheio de TOC's e com séria tendência ao isolamento social, de acordo com um teste de personalidade baseado no método junguiano. Teste bobo desses que circulam pela internet. Enfim. Não tenho aparentes problemas com a solidão moderada. Não preciso de pet's. Mas no campo da suposição tudo seriam flores.

Tentarei expor, para assim tentar entender, uma mania com relação aos meus vizinhos. Desde que me mudei, criei um forte vínculo com a família que mora ao lado e tento, desde então, supor como vivem, e sua história de vida até o momento, sem nunca ter trocado sequer uma palavra com algum deles. Mas a questão é um pouco mais emaranhada. Pense, por exemplo, que as paredes têm, sim, ouvido e que tiram suas próprias conclusões, baseadas em suposições. E pense na problemática que isso traz: não sei até que ponto a observação dos outros faz parte de uma analise benéfica da situação. É natural que quando se tem curiosidade sobre algo, há de se querer adivinhar seu comportamento. Até imaginei uma comparação válida com a personagem de James Stewart em Janela Indiscreta, a qual descobre um homicídio observando seus vizinhos pela janela do apartamento solitário, quando de uma perna quebrada. Porém a minha ligação com os vizinhos não é tão visual. Visualmente resume-se, em fato, a uma olhadela pelo olho mágico quando a família sai para passear e discute no hall, esperando pelo elevador. Então tal qual as paredes, ouço.

Resolvo meus problemas nos outros. Tiro conclusões sobre mim baseado nas conclusões que tiro sobre os outros os ouvindo desde a infância, fleumaticamente. Seja os casos problemáticos de família, seja um mendigo na rua, seja um velho acompanhado de seus pombos num banco solitário desde sempre, seja o silêncio desesperado dos angustiados. Ouço-os todos da mesma forma, com um grave prazer, um prazer-agulha. Um prazer desaconchegante, muitas vezes cruel, frio e dolorido. E tiro minhas conclusões.

E agora atenção, vamos fazer um teste. Peço ao leitor que, para continuar, tire as vestes habituais, até mesmo as pessoais. Dispa-se de seus julgamentos anteriores e posteriores, apenas se permita a ouvir o texto assim como ouço e relato o caso sob a frieza de meus juízos de valores pessoais, acompanhando, como se fôssemos uma só pessoa.

E assim ouço, também, meus vizinhos. Acrescentando que fui acometido por uma ingrata conjuntivite viral, que, em sua terceira semana de moléstia, deixou-me sem poder enxergar, restando-me, pois, a ouvir muito mais a vida alheia. E com a discrição habitual que me autorizo, digo que é uma família de média idade, recém estabelecida, e com um recém nascido. Isso são os fatos constatados. O fato-agulha que me pôs a escrever foi que, ouvindo certa noite, percebi que o bebê foi deixado cair no chão, o que desencadeou uma discussão memorável entre o casal, em meio aos lamentos chorosos do rebento, cada vez mais altos, pelos apartamentos.

Agora vejam como a mania de ouvir periga, sem que percebamos, cair num jogo interminável de pressupostos, com um número inconcebível de variantes, de acordo com a visão de mundo de cada observador, no caso a minha, impregnada já de juízos cristalizados em cada um, de acordo com cada experiência que é vivida ou que se ouve falar. Grosso modo precisamos, invariavelmente, de alguns juízos consolidados para continuar caminhando sem tropeçar, sabendo que o que há no meio do caminho é uma pedra, e que para não tropeçarmos, devemos desviar da pedra, que se configura como um obstáculo. Uma simples relação de causa e efeito já perene no imaginário de todos. Mas a partir do momento em que algo não fica nítido, ao nos depararmos com o desconhecido, por exemplo, buscamos no que já conhecemos (juízos cristalizados ajudam nesse processo de busca de nitidez como prováveis pressupostos), em relações de causa e efeito sobre o fato desconhecido, para tentarmos dá-lo uma "roupagem" do que já nos é conhecido, trazendo mais segurança e ajudando a ordenar o pensamento para as relações do porvir.

Isso num primeiro momento, pois ao tomarmos contato com a verdade do que nos era desconhecido - meu vizinho me contando sua vida, por exemplo - dissipamos essa "roupagem" e o que sobra são as associações. Para ficar mais claro, seria como imaginarmos a casa de um amigo antes de conhecê-la. Para isso buscamos referências em nossa própria casa e nas outras casas que já vimos, dentro de nossa concepção de casa, e buscamos compor seu interior com objetos, que dentro do campo do que nos é conhecido, preencheriam a mobília, de acordo com o que cremos que nosso amigo gosta. Entretanto, quando factualmente visitamos esse amigo, a imagem da casa dele que fica em nossa mente é a de sua real casa, seja melhor ou pior do que a imaginamos.

Esclarecidos alguns pontos, voltemos aos vizinhos. Ouvindo-os supus que lá temos um triste caso em que o rebento rebenta com a concórdia do lar. Motivo indireto das cada vez mais comuns dissidências entre o casal. Pois bem, imagine o leitor que eles não se amam por enquanto, tomando como pressuposto que o amor é um sentimento que é construído pelo tempo, dadas as devidas variantes de cada caso. Sendo assim, é pressuposto também que ambos já não se amavam desde sempre, não sendo amigos de infância, então. Apesar disso, talvez fossem apaixonados. Dados os pressupostos que apaixonados transam, e, talvez, por descuido, tenham tido um filho, tomando como outro pressuposto que a criança não foi escolha dos apaixonados. Um acidente. Continuando, tomados os cuidados, cuido que durante a gravidez, o vizinho perca o desejo pela vizinha, justamente por causa desta. Assim, supondo que a raça humana geralmente busque, mesmo que instintivamente, o próprio conforto físico e emocional, incluso aí o não-desgaste emocional, o vizinho transparece sua falta de desejo sexual e consequente falta de desejo de ajuntar-se com a vizinha por meio de atitudes bruscas, incongruentes com as atitudes deste até o momento, que, instintivamente, também, fazem a vizinha se afastar, para proteger a si e ao bebê. Deste modo, por meio de discordâncias e brigas supostamente sem sentido, instala-se o caos no cotidiano de meus vizinhos. A ponto de deixarem cair o bebê no chão e culparem-se mutualmente, prejudicando além de si mesmos - ex-apaixonados - seu filho, que reificado pelo casal como uma bola de tênis, diante da crise familiar, cresce vendo e ouvindo o mundo desordenado. Para os que se dizem normais, mais um caso de psiquiatria.

Até que ponto devemos buscar no que já conhecemos, nas experiências vividas e ouvidas, respostas para o desconhecido? Isso é voluntário? Até que ponto devemos fixarmo-nos em pressupostos baseados em nossos juízos já cristalizados para tirar conclusões conformes (somente, talvez, a quem as tira)? E tais conclusões? Restringem-se à medida da capacidade criativa/cognitiva de cada um, sendo então um privilégio de alguns parcos? Ou inconscientemente todos as fazemos, em maior ou menor nível? Se sim, de que servem então? Ordenar o pensamento na lógica de que guardamos meias de mesma cor em gavetas separadas de meias de outra cor? E, finalmente, se sim, devemos estar, pois, no cerne dos estereótipos, que são pressuposições, de maneira generalizada, comuns a todos. De qualquer modo, ficam aí algumas reflexões.

E, sob esse estereótipo da sentença de minha mãe no começo deste texto (das manias excêntricas de cada um que mora sozinho), creio que no entanto o problema não é sobre se é saudável eu continuar estereotipando meus vizinhos deste modo, e sim sobre se eu tenho consciência de como se dá isso. A nitidez é fundamental para permanecermos sóbrios. E uma coisa é certa, é mais produtivo que alimentar um pet.

domingo, 9 de maio de 2010

Late, late show

Uma das tantas coisas que me aborrecem na imprensa televisiva e na comunicação em geral são os depoimentos dramáticos. Não pelo drama em si, eventualmente legítimo, mas pelas lágrimas. Também não devido às próprias lágrimas, muitas vezes sinceras e sem sombra de encenação, e sim pelo rapaz da câmera que, ao perceber um prenúncio de choro, foca a arma preta gigantesca carregada sobre seu ombro nos olhos do retratado, aguardando o pranto.

O zoom arruína a emoção. É como um poema, um texto, uma declaração, com sua mensagem oculta, terrível e belíssima posta em negrito, destacada em maiúsculas, feito noticiário investigativo. O assassinato hediondo de qualquer lirismo que tenha ousado disfarçar-se entre as palavras; poesia esquartejada, posta em sacos plásticos e espalhada por várias lixeiras em cantos distintos da cidade.

As lágrimas mais sinceras que já presenciei sempre saíram na surdina, fugidas, renegadas; lentas só para contrariar a sobriedade. O lamento surdo ouvido através das paredes, esse sim é melancólico. É o choro discreto na poltrona do cinema.

A explicitação sangra a sutileza e a transforma em uma linguiça de chouriço, pendurada num açougue: é só pedir, embalar e comer. O jornalismo dado por arte existe, em menores tiragens e endereços obscuros, à margem das sensacionais reportagens conduzidas pelos grandes e bons. Tão bons que perderam, em meio a um contrato e outro, a distinção entre o enternecedor e o burlesco. Esse jornalismo está mais para uma imensa e enfadonha nota de rodapé do que para um texto literário. Uma rubrica de lágrima escorrendo no domingo à noite.