sexta-feira, 23 de julho de 2010

Breve Tratado sobre professores, "café" e farinha de pão

(Ao som de It never entered my mind, gravada pelo Miles Davis Quintet)


Aprende-se nessa vida desde sempre. Desde bebê: do engatinhar ao andar das nossas primeiras sílabas às incansáveis perguntas sobre o mundo e todas as suas partes e seu funcionamento e os porquês de tudo isso. Criança é um bicho chato mesmo. Mas faz parte da bioquímica desses pequenos seres aporrinhadores a tal da curiosidade, sua fomenta por tudo que é novo, a paixão interior pela descoberta etc. Sei é que continuamos a aprender mesmo depois dessa explosão de hormônios que nos faz crescer e parar de perguntar tanto. (E no caso de alguns, como eu, só na casca do pão, porque no miolo mantém ainda aquela insaciável e terrível curiosidade [causando por vezes disparates desnecessários] que às vezes faz de nós farinha.)


Ao longo da vida, esse nosso aprendizado é facilitado por algumas pessoas, condutores do caminho entre o conhecimento e a mente humana. No senso comum, os professores. Todos nós precisamos desses facilitadores de aprendizado, nem que por um determinado período de tempo, até porque o autodidata, esse aprende a sê-lo. Mas não entremos nos méritos do autodidatismo. Fiquemos com os facilitadores.

Agradeço de joelhos a quem facilitou meu aprendizado. De forma alguma os renego. Obrigado, tia Patrícia, por ter-me ensinado a escrever e a ler. Obrigado a todos os facilitadores da minha vida: professores da primeira, segunda, terceira e quarta séries. Assim como todos os outros. Nomes que ficaram, e se citados, encompridariam o texto de forma a perder sua real missão, dignos, porém, do mais puro agradecimento. Contudo, em maioria, não são meus verdadeiros professores. Explicarei o conceito pessoal.

Cuidarei com o maior esforço para não ser piegas. Creio, pois, que o processo de aprendizagem se estende muito mais que o mero repasse de conhecimento escolar/formal, o qual se acumula pelo simples estudo. Falo da sabietude de encontrar e interpretar a poesia da calçada suja em que se anda. De compreender com compaixão. De encontrar algo por trás de um olhar qualquer. Seja um sentimento de ódio ou graça, mas seja um sentimento. Aprender a ver, e, por consequência, ser.

E quando estendo o conceito de aprender, também o faço com o de quem o auxilia: o professor. Não diga professor em vão. Há mais que nobreza no termo, há um certo grau de sacralidade. Há uma respeitabilidade imensa quando me refiro a algum professor desta vida, de parca porém curiosa (em ambos os sentidos) experiência. Por isso a diferenciação entre facilitadores e professores.

Professores mesmo, foram poucos, tendo a carteira assinada para estar lá ou não. Só agradeço de os ter conhecido.


* * *

Dia desses, após um jogo do Brasil na Copa visto na casa de um amigo, Silas, já estávamos arrumando as coisas para ir embora quando encontrei, sobre a mesa, entre milhares de cigarros fumados, bolsas, latinhas meio cheias meio vazias e papéis espalhados, um recado da empregada da casa aos seus moradores, com alguns itens que precisavam ser comprados, nada de importante. Fato é que peguei o papel e com um deprimente ar classemedista de deboche perguntei o porquê da palavra café estar entre aspas e os outros itens não. Alguns fingiram não ouvir, afinal já havia passado do grau etílico aceitável, em que se pondera alguma coisa. Silas, porém, olhando-me com um certo desconcerto respondeu:

– Será que é por que ela não tem o ensino básico completo?

Está certo que já estávamos todos claramente afetados pelo álcool, passamos o dia bebendo, isso, entretanto, não me imuniza de minha infante estupidez. Provavelmente com o ar provocativo e insistente que me é característico, não me recordo, perguntei novamente, enfático, o porquê das aspas no bilhetinho. Só houve tempo de ouvir por trás Lelo e sua voz:

– Esssscroto! – em um volume muito alto, deu um susto em todos ao redor – Não é você o culto, o intelectual, o que sabe das coisas? Não entende o que está escrito aí, por acaso? Ela pôs a porra das aspas porque não é o café que é para ser comprado, e sim o pó de café! Ou você acha que é para comprar simplesmente a merda do café em grãos? Se você passou na Fuvest mas é um idiota e não entende a porra da metonímia, aí é problema seu! Escroto! – Termina Lelo, numa bronca mais que merecida. Embaraço foi pouco. Fomos embora todos juntos logo depois.

Lelo é conhecido nos meios acadêmicos como provavelmente uma das pessoas mais engraçadas da faculdade. De gestos espalhafatosos, um mito do Movimento Estudantil, famoso também pela voz estridente, que pode ser ouvida a quilômetros, com a irresistível mania de evocar o "Braseeel" na função fática de nossa língua. Além de um grande conhecedor de Direito Urbanístico. Literalmente, uma grande pessoa.

Tenho um enorme carinho pelas pessoas que conheci e que pude conviver por esses tempos, vividos em São Paulo. Tenho também aprendido mais que poderia supor minha vã filosofia, seja na limitada sala de aula, nos livros, ou nos outros ao meu redor. Principalmente nos outros ao meu redor. No entanto, aqui em São Paulo, nenhuma pessoa ainda me havia despertado algo que, depois de alguma reflexão, eu pudesse chamá-la de professor, em seu mais belo, honroso sentido. Obrigado, Lelo, mito e professor.


Obs.: Maira e Lelo, já que não vou poder desejar as felicidades a vocês ao vivo, que seja por aqui mesmo. Parabéns!

4 comentários:

mari disse...

Graaaaaaaaaaaaaaaaaande. Já te falei e falo de novo: ótimo.
Quer saber, Igor, você é meio que meu professor.
Beijinhos

Anônimo disse...

Quando quer, voce sabe ser um bom professor.

Bá disse...

Normalmente seus textos me cansam,mas esse eu li inteiro e adorei..Bom mesmo
Grande "Lelo",te deu um pintocoptero bem merecido! hahaha
Beijoss

vec disse...

"café bom é aquele coado na meia."
Faltou isso, po.