sexta-feira, 9 de julho de 2010

Limelight

Em Luzes da Ribalta, Charles Chaplin é Calvero, um decadente palhaço cujos anos de glória já se foram, vivendo entre a solidão e a bebida. Calvero salva uma jovem e doente bailarina do suicídio e a ajuda a se restabelecer. Desse modo, recupera o que restou de sua autoestima para sair, com seus safos truques e gracejos, em busca de emprego. Ao final, apresenta um comeback, levando o saudoso público ao delírio. Arrebatado, o velho clown tem um infarto e morre nos bastidores, enquanto Terry, a dançarina, desfila seu número.

Em tom autobiográfico, Chaplin retrata o artista esquecido que tem seu apoteótico aplauso e sucumbe no momento em que desponta a jovem no palco recém-abandonado. Para o diretor italiano Bertolucci, as lágrimas derramam-se facilmente; o jornalista Antônio Maria, após assistir ao filme sete emocionadas vezes, afirmou ter descoberto chorando – o que doeu de um jeito especial – que ninguém tem pena de quem chora no cinema.

Há quem o considere fraco e melodramático, porém Luzes da Ribalta sintetiza toda a emoção provocada pelos clássicos. Quem fenece, afinal, não é só Calvero, mas o próprio Chaplin e toda uma era. Nos filmes antigos, mesmo no final feliz do herói que encontra o ouro, casa com a mocinha e pega o navio para a América, alguma coisa fica no caminho, solitária. Pois os aviões ainda decolam e se esvaem nas nuvens da noite do Magreb, e nós temos apenas Paris, onde Fred e Eleanor sapateiam felizes num universo perdido.

-x-

Minha bisavó morreu uns anos atrás. Não recordo a razão, provavelmente daquilo que abate os velhos, insuficiências e falências. De quando os médicos lhe deram uma semana, viveu um ano. Por obstinação, talvez. Foi-se ao amanhecer o dia de casamento do neto ao qual criara e que, nos derradeiros anos, se dispusera a assisti-la, de maneira determinada a zelar por ele até que estivesse entregue.

Lembro também da avó de Barack Obama, sua mentora e pilar da família, falecida na véspera da eleição que o tornou presidente. Na garantia do dever cumprido cedeu, quase num sossego, ao sono sem sonhos.
Tal qual Ezequiel Neves, crítico e produtor musical, morto na quarta-feira. Depois de meio ano no hospital, passou o último mês desenganado, dando a impressão de somente aguardar o dia sete de julho para ir embora – data do aniversário de morte de Cazuza, grande amigo e parceiro, finado havia exatos vinte anos.

Assombram-me as coincidências, mesmo descrente em destino. Religiosos e místicos encheriam a boca para atribuir razões celestes e divinas. Particularmente, não sei por que as pessoas morrem. Se decidem baixar a guarda na hora certa, ficam aliviadas – ou encantadas, como diria Guimarães Rosa – e deixam o tépido abraço apossar-se e tomar-lhes o último fio de vida, em uma sutil e inconsciente permissão para o definitivo adormecer. Ou um arroubo: Zorba, o grego, em pé de frente a janela, contemplando o entardecer e dando um berro de despedida. Pode ser pouco, uma prosaica indigestão, feito Saramago, bom herege, que tomou seu café da manhã e morreu.

A morte deve ser a noitinha, um cheiro de estrelas, um remate de clássico, no Corujão; a soberba desolação do fade out, a lágrima de canto de olho na sublime última cena. A solidão do filme velho é nada mais que o medo do poente, o temor e a certeza de um dia presenciar o próprio crepúsculo. Fechar a porta do estúdio, largar da terra como se houvesse sido apenas uma efêmera flor de quatro espinhos. O filme antigo é a beleza genuína porque é a beleza se pondo, afastando-se e sumindo no horizonte. Todo mundo viu nas telas, há décadas, e agora é visto só. E não importa se a casa está cheia, a rua abarrotada pela multidão; pouco interessa se é final de campeonato ou se o cinema lota de adolescentes. Ao pôr do sol escarlate, estamos sempre chorando sozinhos.

3 comentários:

Bá disse...

ALELUIA IRMÃOS!
Ainda bem que o post foi muito bom pra compensar suas férias do blog!

Igor disse...

Caralho, e o Paulo Moura morreu ontem...

RogérioBuratti disse...

inusitada forma de falar do fim, seja ele como for, e das ausências também. dificil falar do "ir-se embora" e respeitar os limites da não crença no destino.
por isto fico com o mistério, sou seu seguidor, neste caso. sabe-se lá o que tem por lá e até se lá existe.
Enquanto isto vamos nos supreender com as coincidências, sempre. sejam as que nos foi dado conhecer sejam as secretas.