terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fetiche (um pedido de auto-permissão)

“Pode sentar”, diz o de branco, estendendo o braço direito ao assento com a grande palma ao teto. E a cordialidade sorridente: “nome?”
“Álvaro.”
Alvinho para outros. Estava na cidade havia não muito, já adquirindo a habilidade de ficar enfermo sempre. Regularmente mês em mês, dir-se-ia até que gostava. Não se sabe o que lhe dava. Olha esguio o doutor, timidez na carne. Mesmo assim se acostumou a ir em um médico diferente a cada vez. Desta era um otorrinolaringologista.
“E então, o que sente?”
“Dor aqui”, apalpando as salivares com os finos dedos. “E mais uma dor que eu acho que é de garganta.”
“E a cabeça?”
“O que tem a cabeça?”
“Dói?”
“Aqui na frente.”
“Bem... Secreção?”
“Verde e opaca.”
“Qual cor?”
“Verde.”
“Hum.”
E torna a escrever num código certamente incompreensível.
“Vem pra cá, Álvaro”, mirando com as sobrancelhas à poltrona de apetrechos no canto da sala.
O rapaz levanta-se devagar, devagar se locomove e mais vagarosamente se senta. O doutor se achega ao rapaz, de olhar disperso e respiração alta de aflição. Mas era necessário.
Examina seus ouvidos, nariz, traqueia, e por fim pigarreia: “é... o que eu achei que fosse. Sinusite, senhor Álvaro. E está bem inflamada a garganta. Vamos voltar para a mesa.”
Já de volta:
“Olha, vou te receitar este antibiótico aqui”, apontando à receita, “um comprimido a cada doze horas, por dez dias. Dez dias são dez dias, não são nove nem sete, entende? Para o remédio funcionar.”
Pequeno e levemente curvado, Alvinho procura afundar-se à cadeira, tamanho o desconchavo. Tem um acanhamento angustiante, um medo de encarar-se no espelho.
Tenta dizer algo, balbucia, despronuncia duas ou três sílabas. O médico, numa tentativa de compreensão, aperta o cenho e vai com o corpo para frente, apoiando-se à mesa. O gesto ecoa pela sala.
Olham-se assim. Silêncio, desconcerto e incerteza se cruzam até que finalmente.
“O senhor pode me receitar, é... em injeções? É que sou muito desorganizado com horários, e vou acabar errando a hora de tomar os remédios, tenho certeza, é... Além disso sei que a melhora é muito mais rápida, sabe. Bem... Simplesmente as prefiro.” Terminando como a primeira respiração após um afogamento.
E de mão na caneta e face sisuda vem a réplica:
“Você quer que eu lhe receite injetáveis?”
Desviando o olhar, abaixa a cabeça a engolir seco e continuar; o pior já fora.
“...sim, é. Pode?”
Fixo aos olhos do paciente, abre um ligeiro sorriso no canto esquerdo da boca, como debochasse:
“Claro, Álvaro, como quiser. Mas deve saber que tem de ir à farmácia, aplicar o medicamento...” e enfático “...nos horários certos. São três dias.”
Agradecimento do paciente ao doutor, agora cúmplice. Aperto de mãos, à bela oposição entre a força do braço de um e a atrofiada musculatura de outro.
Alvinho saiu da sala menor do que entrou. Mas ao dar-se de costas ao médico, sorriu levemente, aliviado.
Foi direto à drogaria perto de sua casa. Conhecia o farmacêutico. Para um tímido incontrolável como Alvinho, tais visitas, que soariam martiriosas, eram compensadas pelo seu porvir.
De toda a farmácia, como de costume, podia-se ouvir os bofetões cada vez mais graves e os gritos de satisfação vindos daquela salinha. Enfim todos sabiam, sim, o quão prazerosas poderiam ser aquelas injeções.