sábado, 11 de setembro de 2010

The magnificent dance

Em sublimes outdoors, gôndolas e intervalos comerciais não são vendidos meros produtos, mas conceitos. Qualquer porcaria recauchutada é uma nova maneira de se fazer alguma coisa. Nessa Copa do Mundo, um fabricante de veículos tentou emplacar, através de uma campanha de gestuais irritantes e estúpidos, um "novo jeito de torcer" – igualmente irritante e estúpido. A Brahma, por sua vez, inventou o brahmeiro, padrão obsceno de indivíduo que, segundo ela, representa o brasileiro: batalhador, guerreiro e, obviamente, um alcoólatra em potencial.

Logo, comprar desvairadamente é pouco; há de se fazer parte de grupos fiéis de consumo, representados por vigorosos líderes, hábitos e, especialmente, conceitos. Se tenho determinado computador ou tal carro, não sou apenas um satisfeito proprietário, e sim membro de uma família, frequentador de um templo e sócio de um clube que se reúne todas as quartas para jogar sinuca.

Semana passada, vi o anúncio de um shopping center a ser construído no Rio de Janeiro. É, por excelência, o mais recente conceito de compras e serviços. Juntar-se-á, aliás, a outros dois shoppings e a um centro empresarial de certa empreendedora, em uma mesma avenida. Provavelmente, o último conceito em avenidas.

E os jornais? A Folha de S. Paulo sofreu uma reestruturação no início do ano, visando "adequar-se às mudanças no mercado e na mentalidade do leitor". Os textos encurtaram, os títulos coloriram-se e a linguagem foi simplificada. Um contemporâneo conceito de jornal, como se vê. Imagino que o perfil de leitor – "cosmopolita e esclarecido" – para o qual apontam os editores e executivos seja formado de idiotas. De certa maneira, não deixa de ser o que há de mais atual em conceito de seres humanos.

No entanto, o ápice dos novos conceitos são os empreendimentos imobiliários. Ribeirão Preto, particularmente, vive há algum tempo um boom de edifícios e condomínios, todos cheios de conceitos. São inventivas concepções de lazer, convivência e praticidade, destinadas a um público exigente, sofisticado e de indiscutível requinte e bom gosto, que busca moradias diferenciadas e modernas. Living spaces ou style homes, localizados em espaços prime, pródigos em walkmobility e equipados com home offices e wash lounges. Possuem espaços gourmet, onde são preparados risotos e degustadas cervejas que harmonizem com a mandioquinha orgânica. As crianças têm cyber room para se divertir e garage band para tocar suas guitarras; as mulheres dispõem de salão de beleza no térreo e fitness center com personal trainer. Enfim, um mix inovador e arrojado de alto padrão, um smart building. Certamente, em vez de engenheiros e arquitetos, quem projeta tais construções são publicitários. Nelas, afirmam, as famílias serão mais harmoniosas, os casais mais apaixonados e as empregadas mais bem pagas. Isso tudo criptografado em híbridos esdrúxulos de estrangeirismos e neologismos, arremedos que não significam, em rigor, merda nenhuma.

São, contudo, perfeitamente sintéticos, pois correspondem à definição exata desses conceitos. Merda nenhuma, eu quero dizer.

6 comentários:

Augusto disse...

Aposto que vc mudou seu jeito de torcer! ahahaha

Bá disse...

Ah super bonitos os pulinhos da Hyundai! hahaha
Lindo,Tommy! Parabéns

Rogerio Buratti disse...

vou nomeá-lo meu personal writer, contratá-lo para meu home office e será indicado ainda meu private barmann and barbecue exclusiv. assim teremos, quem sabe, um felicity home, ou happy home ou mesmo um especial building digno de um resort stile.
Nosso carro ? aquele do cho cho

Giovanna disse...

Falou muito e bonito!

Kenia disse...

E essa furia do mundo? hahaha
Adoro essses seus textos tomy! Faça como desta vez, avise quando postar.
Grande beijoo

kenia disse...

uma pergunta: cade a musica???