sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Rebel waltz

Perdão ao leitor por tratar de assunto tão aborrecido, prometo ser a primeira e última vez.

Difícil saber a exata motivação de certas coisas. Talvez a ignorância – no mais ingênuo sentido da palavra, o do verdadeiro desconhecimento, quase cândido. Quem sabe a estupidez, não propriamente a falta de cultura, porém de discernimento. Quiçá ambas se abracem violentamente, gritando de paixão feito duas embevecidas amantes.

Comenta-se há algum tempo na internet, nos periódicos e nos almoços inteligentes que a candidata à presidência Dilma Rousseff era terrorista. Dilma teria planejado e participado de assaltos a banco e assassinatos, tramado revoluções e subvertido a paz social. Foi até presa, veja só. Corre pela rede, inclusive, uma tosca montagem de ficha criminal da candidata.

Desconcertantes não são apenas as alegações, mas as bocas de onde saem. Pessoas com plena consciência do longo período de governo militar pelo qual passou o Brasil, uma ditadura que atropelou a liberdade e os direitos humanos; época de censura, intolerância, tortura e mortes oficializadas. Jornais, orgulhosos das repreensões de outrora, proclamam e publicam o embuste da terrorista, os mesmos dignos canais de imprensa que, há cinquenta anos, clamavam junto à família brasileira pelo fim da onda de comunismo e de cubanização do país, abrindo suas redações e pernas tortas para a salvação golpista dos militares. Chamam agora os anos de chumbo de "ditabranda" e anunciam, à moda leviana dos profetas de 64, uma iminente ameaça às instituições e à ordem nacional.

"Terrorista" era a denominação dos generais para os que lutavam contra a repressão, a maneira pela qual identificavam aqueles que não amavam o Brasil e sua soberania verde, amarela, branca e azul anil. É, aliás, a palavra escrita nos cartazes de perseguidos políticos em lugares os quais vários meios de comunicação, em sua sanha democrática, regozijam-se em condenar, a exemplo da ilha dos Castro. Poderia chamar hipocrisia; contudo, as acusações demonstram-se lamentavelmente francas. Não há dúvida da quantidade de brasileiros "esclarecidos" saudosos das paradas militares, das aulas de educação moral e cívica e dos milagres de caserna, nem da força daqueles que ainda vibram, embora na surdina, ao ver um mendigo apanhando e chamam movimentos sociais de vagabundagem.

O egoísmo e os interesses escusos de classe incitam toda sorte de preconceitos e factoides e tentam validá-los dentro do debate político. Uma pena que parte considerável dos tais esclarecidos tomem partido de opiniões tão ardis, distantes de qualquer tipo de discussão de ideias e projetos; uma tríade febril de ignorância, estupidez e amnésia. Amostra de uma mentalidade tacanha, presunçosa e que se atira, sôfrega como um náufrago agarrado à sua tábua, a todo raciocínio grosseiro afeito a satisfazer sua mesquinhez.