quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Toda nudez será castigada

A organização WikiLeaks vem constrangendo governos e autoridades ao redor do globo há algum tempo, e 2010 foi definitivamente seu ano. Em julho, divulgou um vídeo de civis, entre eles jornalistas, sendo friamente assassinados por fuzileiros a bordo de um helicóptero americano no Iraque; pouco depois, tornou públicos relatórios de guerra com indícios de tortura e outros abusos cometidos pelos invasores. Nada, no entanto, comparado ao estardalhaço causado no mês passado, quando o site vazou uma imensa quantidade de documentos e notas diplomáticas de inúmeros países, cujo conteúdo abrange de assuntos íntimos à revelações de crimes hediondos praticados sob a chancela de grandes potências.

A reação foi célere: incriminações surreais suscitadas contra o editor da página, o australiano Julian Assange, diretamente do clímax da democracia mundial: a Suécia. Quando de sua estada no país como palestrante, Julian, de mordaz olhar de lince, teria feito sexo sem proteção com duas mulheres uma delas de origem cubana, anticastrista resoluta, porém de pernas pouco convictas. Posteriormente, o depoimento de acusação da lasciva Anna Ardin, a vítima, sofreu alterações, devido, especula-se, a exigências além-mar. Suas relações, dessa vez profissionais, revelam-se um bocado desimpedidas. Após alguns dias de perseguição, Assange entregou-se à Scotland Yard, sendo mantido preso em Londres até conseguir liberdade condicional mediante pagamento de módicas duzentas mil libras esterlinas de fiança. Com tal ninharia, poderia talvez adquirir uma modesta fábrica de preservativos, mesmo em Cuba, se assim desejasse.

Longe da Europa, o responsável inicial por essa embaraçosa enxurrada, o soldado americano Bradley Manning, está isolado numa penitenciária no estado da Virgínia. Bradley deu um golpe no sistema de segurança dos Estados Unidos e provocou uma crise diplomática sem precedentes munido apenas de sua inconsequência e um disco de Lady Gaga. É curioso constatar que a nação líder da desenvolta campanha internacional em defesa (legítima, diga-se de passagem) de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento na teocrática república iraniana, possua representantes como o político Mike Huckabee e o ex-embaixador na ONU John Bolton, ferozes incitadores da pena capital ao jovem militar que copiou os controversos e sigilosos dados de um computador do Exército enquanto cantarolava as aberrações gagaístas. A liberdade de expressão e o zelo pelos direitos humanos assumem diferentes valores a depender de quem é favorecido ou prejudicado; fossem chineses, Manning e Assange estariam em voga na Suécia por outra razão, provavelmente no páreo por um Nobel da Paz.

Sorte de Glorinha, Letícia, Dagmar, Salete, Geni e tantas outras pecaminosas personagens rodrigueanas por vivevem ao sul do Equador, nas proximidades dos trópicos do Méier e de Copacabana, em vez da gélida Escandinávia. Caso contrário, teriam de fugir não somente de seus pais e maridos irados, mas também da CIA e da Interpol, evitando arcar com os milhares de pounds de seus voluptuosos delitos. Adultério, incesto, defloramento, lesbianismo e congêneres devem, afinal, custar uma fábula pelas bandas do mar Báltico, ainda por cima se cometidos sem camisinha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

As músicas do Blog: Moginga's Groove #5

Pois é, nas férias temos um pouco mais de tempo para escrever para a Moringa. Eu disse um pouco, porque este fim de ano andei correndo mais que os maratonistas da São Silvestre. Vamos ao assunto. O blog desde sempre teve música, mas nunca nenhuma explicação sobre o porquê destas ou nunca nada muito relacionado. Logo que criamos o blog decidimos botar umas músicas para o leitor ouvir, não me lembro de quem partiu a idéia, mas me lembro de que foi consensual que tinha de ser algo nãomuito invasivo. Já bastava a pessoa estar lendo nossas besteiras, as quais justamente por acharmos besteiras, postergamos nossos textos a cada post, inflados de um preciosismo barato que a autocrítica construiu em cada um. Escrever é um parto, e, numa antinaturalidade impressionante, essa "vagina", que era para estar se alargando, comprime-se a cada parto/texto. (Sou o rei da analogia infeliz. Desculpe.)

E o consenso prosseguiu sobre o estilo de música. Era algo que estávamos descobrindo à época. A mim, pelo menos, completamente novo: o Jazz. Começou com Tomás me apresentando Miles Davis. Era a época em que o blog Jazzman ainda disponibilizava discos para download. Isso fez um estrago e tanto aos meus domingos: encheram-se, a partir daí, de música. Hoje posso dizer que meu maior hobby é acumular músicas no computador e organizá-las obsessivamente, colocando a capa dos discos, o ano, e outras informações a mais, feito um louco. Hoje acumulo pouco menos de 130 gigabytes de música. Grosso modo, primeiro veio o Rock e suas variáveis negras Blues e Funk, depois Jazz, e, no ano seguinte, o Samba me tomou. Não me considero eclético. Tenho o que me atrai de alguma forma, não é muita coisa. E, se acaso eu lhe disser que não estou fazendo nada, tenha certeza de que estarei arrumando minhas músicas.

Se fosse há 20 anos, eu não teria acesso a 95% da informação que consumo. Então, todas as manhãs agradeço ao que quer se seja de sagrado por eu estar no olho do furacão: em época de internet. De tanta liberdade, creio que o homem ainda não sabe o que fazer. Mas isso já é assunto para outro post.

E, assim, desde o primeiro Moringa's Groove, optamos por clássicos. Nada que seja muito inovador, tampouco invasivo, que atrapalhe a leitura. Na primeira lista constavam "So What", da magna obra de Miles Davis, Kind of Blue; "Take Five", de Dave Brubeck; "Tequilla", de Wes Montgomery; "Wave", do nosso Tom e "If I Were a Bell", também de Miles Davis.
Desse jeito fica fácil...

E fomos mantendo tradicionalmente o Jazz, com algumas variações na Bossa Nova e no Fusion, que não deixam de ser Jazz. Fomos criando algo meio padronizado desde as últimas listas de músicas. Nesta, que irei apresentar agora um pouco mais detalhadamente, Tomás escolheu 5 e eu outras 5.

Segue a lista:

Desde a primeira lista de músicas para o blog, sempre teremos aqui Miles Davis. Desta vez com a música It Could Happen To You, do elegante Relaxin' with the Miles Davis Quintet, de 1956.









Meu Amigo Radamés, de Tom Jobim, do último álbum de Tom Antônio Brasileiro, de 1994. Certamente uma homenagem ao amigo, grande maestro e arranjador, Radamés Gnattali.










Mais recente versão de Eleanor Rigby, do grande guitarrista John Pizzarelli. É de um álbum totalmente dedicado ao quarteto de Liverpool. Meets the Beatles, de 1998. Sempre colocamos versões jazzísticas de Beatles feito essa.










Three to Get Ready, de um clássico dos clássicos: Time Out, do genial pianista Dave Brubeck. O álbum é de 1959.











Composta pelo fantástico guitarrista Pat Metheny, Question and Answer, do álbum Like Minds, do vibrafonista Gary Burton, ganhador do Grammy de 1999 para Melhor Performance instrumental individual ou em grupo. Não é para menos, visto que Burton se reúne com Chick Corea, Pat Metheny, Roy Haynes e Dave Holland. São músicos de primeiríssima. Não tinha como dar errado.








Agora um tema um pouquinho mais antigo, Moonglow, composta em
1934, aqui interpretada pelo cânone do clarinete Benny Goodman. Peguei a gravação de uma coletânea do artista de 2002, chamada Let's Dance.









Outro tema também antigo, famoso na voz de Billie Holiday, Deed I Do, aqui na voz de Katharine Whalen, em seu álbum Jazz Squad, de 1999. Afinal, temos também que prezar pelo contemporâneo (ok, nem tão contemporâneo assim). A moça é mais conhecida por emprestar seu swing à irreverente banda Squirrel Nut Zippers.









E por falar em contemporâneo, apresento-lhes um pedacinho da
vanguarda do jazz atualmente. Está aí uma das coisas que mais gosto de ouvir. Fundado pelo baterista David King, com performances assustadoras, o power trio The Bad Plus costuma pegar temas do Rock, entre outros, para improvisar em cima. A música da vez é uma versão de Flim, do DJ Aphex Twin. Está no álbum These are the vistas, de 2003.








Voltando à música um pouco mais comportada, colocamos Reunion Blues, do álbum homônimo do guitarrista Oscar Peterson, de 1971. Confirmam presença no álbum o grande vibrafonista Milt Jackson, o baixista Ray Brown e o baterista Louis Hayes.









E, para terminar, do fantástico álbum Águia Não Come Mosca, de 1977, a faixa Despertar, do maior trio de Fusion do Brasil: Azymuth. Esbanjando uma sonoridade única, constantemente sampleados por DJ's, são muito valorizados no exterior. Auto-intitulam sua música de "samba doido". Fica aí para quem quiser.







É isso.