sábado, 29 de janeiro de 2011

Summer '68

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado


Vinicius de Moraes

Se fosse inventada a pílula contra a ressaca, não haveria culpa nem dor de cabeça. Restaria, no entanto, ânsia suficiente para despejar na sepultura, que tão irreverentemente se assemelha a um vaso, um bocado de cinismo, outrora diluído em gim. Poderíamos enfim degustar o sensabor da noite passada, sem o doce do rum e o amargo particular das línguas entorpecidas. Contudo, os melancólicos desencantos, na falta de um dedo na garganta, permaneceriam em seu íntimo intocado.

Assim, continuaríamos sem nada a dizer antes de bater a porta. Seguiríamos passando as noites petrificados por um perfume ou cismados pelo impulso de uma valsa, criando novas formas de distração, acompanhadas de velhas agonias; insistiríamos em proclamar um tal desapego, despojando-nos, ao menos em frente aos outros, do desejo de não ser sós. Mas somos, e por isso ouvimos jazz, pedimos um dedo d'água e duas pedras de gelo e precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas, ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.

Tememos sair distraídos sem dar duas voltas na chave pois lavramos um incorrigível esquecimento. Entramos em elevadores imaginando encontros extraordinários e ajeitando o cabelo, como se algo no mundo deixasse de acontecer devido a uma franja mal arrumada. Imploramos a nossos escrúpulos para abrandarem os pudores e permitirem-nos encontrar qualquer coisa de flor em meio a impassível multidão; uma pele de sabor levemente salgado, quadris que se movimentem em displicente harmonia, uma voz capaz de silenciar as caixas de som. Em cada brinde, suplicamos por uma recompensa, ainda que migalha, pelos dias nos esquivando de nós mesmos, tentando remediar o indelével sentimento de partida a cada minuto. Voamos rasante sobre o abismo da apatia, olhando desesperados ao redor à procura de olhos que sejam como os nossos.