quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Deslize


"Alô?"
"Oi..." 
Até pouco acima dos joelhos, seu vestido negro refulgia pelo banheiro.
"Ah, você me acordou, aconteceu alguma coisa, por acaso?" 
O banheiro, uma asséptica branqueza de dó a quem o fez. 
Na cabina: "Não. Tá tudo bem aí?" 
"Tá sim, por quê?" 
"Por nada... curiosidade." 
"Então por que me ligou agora? Não sei nem que horas são, Kátia."
Sentada na latrina, escorre as pernas para abri-las. Enrola o cabelo com o dedo."Eu tava numa festa, ainda tô, na verdade, fiquei um pouco tonta e vim pro banheiro, queria conversar com você, queria te ver..." 
"E aí pensou vou ligar pro Hugo, já que ele não deve estar dormindo agora, três e meia da manhã. Tá no banheiro ainda?" Ouvia-se ruídos estridentes de abre-fecha e música e vozes opacas.
Riu um pouco: "Tô. Sentada numa cabine."
"Você passou da conta, né?"
"Tô meio tonta, mas, sinceramente, o que que muda?"
"E então? Fala."
"Ah, eu tô aqui numa festa com a Ca, a Jé e as outras meninas, hoje é aniversário da Raquel, você conhece a Raquel?"
De semi encerrados olhos, no breu do solitário quarto: "Não."
"Ah, mas é claro que conhece, conheceu ela naquela exposição do Tom. Você até comentou o vestido dela."
"E eu lá comento a roupa dos outros? Nunca fiz isso, Kátia!"
"Para mim, pelo menos, comentava. Lembro que me disse, ao pé do ouvido, que com ela vestida daquele jeito a levaria junto comigo para a cama. Na hora, lembro que fiquei bravíssima com você, não falei mais nenhuma palavra durante o resto da noite, mas queria te dizer que no fundo eu gostei. Depois disso, pensei várias vezes em nós três..." Ele, embora nada vendo, olha para o teto. Pensa. "A cada frase sua era um friozinho que me dava aqui. Saudade do seu jeito de canalha discreto."
"E me diz agora, de madrugada. Não dá pra entender. Por quê?"
"Eu já disse, fiquei com saudades, porra. As pessoas falam que você mudou muito desde que saiu daqui. Que está largando tudo. Que tá deixando tudo pra depois, você não era assim."
"Quem te disse isso? Como pode me ligar pra falar isso? Quais são seus critérios Kátia? Você não sabe o que acontece aqui, você não tá aqui, ou tá? Você não sabe do que tá falando. Olha, por favor, não me liga mais, ainda mais de madrugada. Nã..."
"Não desliga!"
Volta a fechar os olhos, em silente resignação. "Não me interrompe."
"Olha como mudou, tá perdendo rápido a paciência. Você não era assim..." E as lágrimas de rímel principiam um doce contraste com a candura do chão. "Eu te ligo pra falar que tô com saudades e você fica aí, na sua posição do alto, me xingando. Tudo mudou muito, se você soubesse como eu queria voltar no tempo e parar lá, mas foi tudo muito rápido, nossa vida mudou tanto. Eu não queria. Eu não queria isso!" Os soluços tomam forma, impedindo-a de continuar.
"Você tá bêbada. Vai pra casa, toma um banho e dorme, que é a melhor coisa que você faz."
"Você não pode fazer isso comigo."
"Fazer o quê?"
"A Ca tá com um cara que eu não conheço. A Jé, com o Renato. Tá todo mundo com alguém, aí me deu vontade de você, não dá pra entender?"
"Pára com isso, Kátia, não tem mais nada a ver. Você sabe que era impossível continuarmos."
"Mas claro! Com ninguém se esforçando pra isso, lógico!"
"Então tá."
E mia: "Espera, não desliga."
"Kátia, por favor, você me liga de madrugada, eu estava dormindo, fica melhor e me liga depois."
"Não! Não faz isso comigo. Não desliga!"
"O quê?"
E o aparelho celular resvala suavemente, entre as lágrimas e o vestido."Não desliga, Hugo!" Escorrega até o começo de suas grossas pernas, por baixo do vestido frio. "Não desliii." Desliza por cima de sua calcinha quente. "Nãããoo-hô, hô, hô." Desliza. "Hai, Hugo, hai, não desliga!"

Um comentário:

Victor disse...

Hombre, tem explicação pra sua tendência a redações eróticas?