sexta-feira, 25 de março de 2011

Indolência

Hoje ando sempre com uma nota separada no bolso. 
Enquanto me houver condições, guardarei uma nota aleatória no bolso.
 Aleatória até por não me dar ao luxo de mensurar o quanto é necessário para uma noite. 
Mas sim, enquanto os ventos me forem favoráveis, para evitar a melancolia advinda de um desafeto com o Ego, andarei com uma nota no bolso. 
Boa vacina. 
Havia era bebido boas. 
Com velhos amigos, novos amigos.
 E foi no metrô. 
Voltando para casa num mais desses dias de cerveja durante as aulas, e lá que foi. 
Voltava falador, explanando os desdobramentos de alguma explicação sobre qualquer coisa. 
E todos ouvindo feito houvesse secular sapiência em minhas palavras.
E contudo o discurso se deu pela metade. 
No metrô nunca se sabe quando se precisa ir. 
E dissipar toda a conversa de pouquíssimo outrora, remoendo na solitária lembrança os até então últimos momentos vividos com a pessoa: companheira de metrô. 
Acontece geralmente é no Paraíso. 
E desço na outra estação, que estava cheia de gente. 
Onze horas não é mais horário de tanta gente. 
Desci do trem e havia mais que tudo isso aí de gente dita. 
Cada um indo pra cada outro lugar. 
Todos terrivelmente juntos em suas distâncias.
E já virando o corredor pude ouvir os versos do violino. 
Pelas escadas rolantes, então! 
Nem se fala... Só se ouve. 
Na escada automática, tomado por uma emoção proporcional à cerveja, tentei puxar do bolso uma moeda de um real. 
Mísera moeda, que jogaria no chão para o músico se virar depois. 
Porque eu me virava. 
E foi que houve. 
Houve que veio uma moeda de vinte e cinco centavos.
 Indigna ao músico, entretanto, comparada ao prazer de ouvir-lhe o violino, quase virginal.
Com rapidez, puxei outra moeda. 
Vinte e cinco centavos novamente. 
E tinha certeza da de um real. 
A impaciência tentou trazer à proa outra moeda, apostando no irremediável momento final, quando já do descer da escada rolante e do começar a andar novamente, rumo ao conforto do que se chama de cama. 
E foi de cinco centavos. 
E só. 
Já via as feições do músico, seu estojo aberto, ao léu do chão sujo. 
Sua boina. 
Sua nobreza em gestos, de emocionar a surdez. 
Dado o fim de uma escada rolante, sempre temos de voltar a andar. 
E a emoção que antes me enternecia, fatigava-me as costas. 
Fatigavam-me as pessoas pela rua, andando. 
E falando, mastigando. 
A miséria escancarada nos filmes piratas, no cheiro de milho verde misturado ao de yakissoba, no rosto das vedetes antigas, com novos batons, novas maquiagens.
 Infelizmente, todas as noites com novos batons ao ponto de ônibus. 
E as tristonhas vozes gradualmentalmente diminuídas.
 Tanto diminuídas de só e somente restar o ensurdecedor som de meus passos, empobrecendo o silêncio da noite – cobertor de alguns sonos à calçada.
 Incontornáveis passos. 
Irredutíveis passos irracionais. 
E os pés, que impassíveis seguiram adiante, juntos das mãos: ao bolso, na vergonha de oferecer somente as três moedas menores.
Na vergonha da indolência.
À música, não lhe eram dignas, pois.
 Desci da escada rolante e – assim simples – continuei andando.
 Um transeunte aos olhos estrangeiros.
E meus olhos úmidos de completa compreensão não me impediram de continuar andando. 
Andando. 
E logo a tristeza desse andar me bolinou, como um vento forte.
Pornograficamente.