quinta-feira, 28 de abril de 2011

Poema

Não posto aqui há um tempo, por falta de qualquer causa. Daí, saio correndo, tento quase ser atropelado, fito bem os olhares transeuntes, almoço no balcão e pulo uma poça. Peço um quilo de papel almaço e pago com um tango. As moças somem pelos túneis e os sacerdotes anunciam o fim, eu bebo uma e duas garrafas em busca de um sopro desacanhado, procuro no breu a consolação e a rota de fuga das platitudes.

– Ah, não existe coisa mais triste que ter paz


De repente, mudam as nuvens; ao sacar o relógio do bolso, notam-se as mesmas estações, mas alguma coisa morna e ingênua escapou e está delicadamente largada na faixa de pedestres. Nada mais senão tocar uma marcha e impedir que se extingua a graça do que acaba de acontecer. Uma lágrima suada no papel, fotografia, essência cravada na camisa. Um fio de novelo esticado pelo labirinto. Acho que escrevo para não me perder.