quarta-feira, 25 de maio de 2011

Esquife

Estava em um táxi numa dessas madrugadas secas, e o motorista maldizia o calor, a poeira, o vento. Afirmava que há trinta anos, quando na minha idade, era tudo diferente. A temperatura no inverno não superava os trinta e cinco graus e talvez até chovesse entre agosto e setembro. Porém agora, em nossos tempos, ninguém mais crê em Deus ou, ao menos, poucos são verdadeiramente devotos. Daí a certeza de o mundo estar desandando – inclusas as condições atmosféricas. Deus detém o poder e nos castiga com estiagem, rinite, tempestades de areia, morte de primogênitos e passageiros bêbados no banco de trás.

Apesar dos problemas respiratórios, não creio em coisa alguma. Desacredito em energias, sobretudo nas positivas; o universo não conspira e, caso o fizesse, certamente seria contra nossas possibilidades egoístas. O cosmos é um assombro caótico, não o programa da Ana Maria Braga. Todo destino que possa haver é naturalmente adverso, pois somos mortais e, ainda por cima, caímos em qualquer conversa. Enquanto embala seus dados, um onívoro deus dá risadas do louvor e soluça embriagado de éter.

Encolhido em seu lençol de desígnios, Deus é traição. Pessoas são abortadas, moídas, devoradas, e as noites deixam de acontecer. Enquanto se lê o jornal e mastiga o pão num café, criancinhas levam tiros e as estrelas explodem inconscientes em supernovas.

Tenho notícia de um professor cuja filha há pouco faleceu em um acidente de carro. Dia comum, perfeitamente sã; no entanto, perdeu o controle do veículo e foi de encontro a um ônibus. Morreu na hora e, dizem os especialistas, sem dor. O homem, após uma longa semana, voltou normalmente ao trabalho, esclarecendo, convicto, que aquilo havia de acontecer: sua filha fora "levada" para que ele e sua ex-esposa, mãe da garota, voltassem ao Senhor. Estavam arredios da labuta divina, deveras terrenos, extremamente carnais. Deus, num sacro ciúme, arrancou-lhes a jovem a fim de que se aproximassem novamente Dele.

É cruel e insensato atacar com carradas de vazio o parco consolo dos enlutados e discutir a metafísica em velórios. A razão não costuma prover muito conforto. Contudo, os males reais são suficientemente graves para que não nos esforcemos em acrescentar-lhes mil sentidos imaginários. Em buscar a justificativa ao fracasso e o motivo do câncer, um sentido na agitação feroz e sem finalidade que é a vida – e os fenômenos meteorológicos. Nada é para ser. As coisas apenas são, tristes, áridas, ordinárias como elas são.

domingo, 15 de maio de 2011

Fragmento

Ah! Nunca vi tanta felicidade neles. E os médicos falaram que têm demência. Empurraram ele na rampa, e ficou na maior felicidade, assistiu novela lá, na cadeira-de-rodas. E o sorvete, não tinha como montar direito, então eu coloquei castanha, tudo picadinho, sabe? O Eduardo tirava os confetes, pensava que eram comprimidos!