terça-feira, 26 de julho de 2011

Jeremiada quase um panegírico a algum porquê - em prosa


Ao som de qualquer choro.

Ainda com todo o resto, a ela, velha de guerra: à palavra que subsiste. A todas as metáforas infelizes, mas principalmente aos infelizes escrevo. A todos os medrosos. Aos inertes, que em sua matéria terrivelmente deixam-se levar pelo arrependimento de regar sempre vasos vazios. Ao próprio arrependimento... A todas as formas malacabadas. A tudo que é realmente triste. E por isso engraçado... Aos piegas... A todos os virgens, todos, mas principalmente aos que só se masturbam escrevo. A todas as crianças e toda a espontânea pureza que nos brindam. A todos os inocentes culpados, mas a todos os culpados, principalmente. A todas, todas as letras dadas ao esquecimento... A tudo que um dia quiseram nos contar! Aos padres. A todos os padres, mas principalmente aos já conformados com o sacro silêncio escrevo. Às palavras tolhidas que raspam na garganta dos covardes; e assim: a todo o covarde que ao espelho já se acarou... Mas principalmente a todos os simplesmente covardes escrevo. Ao hermetismo. A todo maldito hermetismo escrevo. Não se desejando escancarar, ou simplesmente não se conseguindo. E para além de si: dizente também de muitos outros infinitos. À terra molhada de sangue, urina ou simplesmente chuva. Às entrelinhas da chuva... Aos não compreendidos. Aos que da arte fazem sua vida; ao jogo de luz e sombra do teatro, que não passa da vida; mas principalmente aos que da vida fazem sua arte escrevo. À imoralidade dos que amorais se dizem! Aos imorais! Aos mortos! Aos mortos esquecidos... Mas principalmente aos vivos esquecidos escrevo. Aos velhos ao léu, num apelo ao sagrado a que não seja eu um desses. À toda dicotomia; a todos os maniqueísmos. A todos os pensamentos simples; a todos os pensamentos belos, por sua simplicidade... A todos os insetos! Estes sim, ostentam da mais profunda sinceridade em seus lábaros. A tudo de mais sujo; a tudo de mais sujo que já viveu e que nunca foi vivo, nem morto; a tudo de mais sujo e mais simples escrevo. Às pedras! Professoras de sabietude certa... Às sensações duras: ao arrepio na nuca e à boca seca da verdade; à toda verdade dita; mas principalmente à toda verdade não dita escrevo... À latente subversão dos objetos na sintaxe universal. Assim, ao rostinho escarlate das garotas apaixonadas. Mas principalmente ao rubro de submissão no rosto das mulheres apaixonadas. Ao ansioso suor do sovaco. A todas as domésticas, as bichas e as pretas escrevo. Aos miseráveis de toda ordem! A todas as unhas encravadas. À náusea. A tudo que é oprimido; a tudo que é verdadeiramente oprimido; mas principalmente a todo o grande vazio, na bagagem que lhe foi impingida, que esse termo traz consigo. À nova pintura do quarto, sem acabamentos, no entanto. E aos pregos, que, os martelando, entortam em suas impenetráveis paredes brancas... À insônia, à insônia, à insônia... Ao amargo dum café puro, mas principalmente ao simplesmente amargo escrevo. A essa lua, que sem um cognaque não me diz absolutamente nada. À insônia! À insônia! À insônia! Ao agudo duma dor de berne. À ingenuidade e a bruteza da ignorância. A tudo que é torto e coxo. Às margens antes que ao fundo. À leviandade do que parece importar; à leviandade do que escrevo; à toda leviandade; à mediocridade; e a todos os médios, mas principalmente a todos os baixos escrevo; aos porcos de espírito, compreendo-os todos! Aos sóbrios, que sempre sofrem tanto... À hipocrisia paulistana, mas olhe, principalmente à hipocondria paulistana escrevo! À ironia, que ainda salvará o mundo! A todo cheiro de mijo e merda pelas ruas: seja deste nosso cotidiano; seja do carnaval que acabou de ser. Ao que mata para comer; à insalubridade que nos bate à porta e nos bota medo. Ao riso histérico das donas de casa. À Sé, que é tào linda à meia-noite... À insensatez morta de frio! E aos que, ainda que sem dedos, compram-nos anéis. À toda arte inculta e feia. À anti-estética. A tudo que é anti- e contra-, a tudo que é an- e in-, apo- e ab-, hipo- e sub-, hiper- e supra-, mas principalmente a tudo que é quase- escrevo. À toda absolutização de relativos, porque assim fica mais fácil... E ao adágiário popular, que antes que às margens paradoxalmente chega ao fundo... À toda e qualquer falta lexico-gramatical. A todos os poetas; a todos os poetas menores, formidáveis como nunca, contudo... Mas principalmente aos exegetas da calçada em que se anda escrevo.

sábado, 2 de julho de 2011

Tipo um romance

(Atrasado para o dia 12)

Foi na dele. Entre os impostores do salão, tinha os dentes mais bonitos. E ainda lhe contaria o que faltava nela. Queria o nome sussurrado em seu ouvido; Marcus James é de arrepiar qualquer cristã se bem soprado, de assalto. Ou provocar riso, de deboche. Não foi, e ele falou meio assim, antevendo reação adversa. "Não sei pra que outra história de amor a essa hora".

Mas ela estava tipo afim.

– Não entendo do que você ri.
– Eu não entendo as suas piadas.

Fitava-o cândida, parecendo esperar alguma coisa. Ele fazia de conta não conseguir, empurrando a culpa feito batata quente.

"Bobagem te cantar agora. Eu, tonto; você, falando grego. Logo você, que ignora Rilke e desconhece como sorri assim, aérea igual a mulher do Francis. Nem quero tentar lhe dizer."
"Tenta dizer nada, chega de falar do esmalte, que tem meu esmalte, diabo?

– Não sei, daí...

"Por que somente agora você vem?"


E passam os meses, corridos, inúteis, embaralhados, arquitetando assunto só para poder continuar amassando o nariz naquele nariz. Afastava os amigos, aceitava o perigo, a loucura.
No domingo, contudo, tentou ser simples, tal qual um ramalhete, finalmente. Fatal.

Aceitaria um poema, um chocolate, uma desculpa. Engoliria a outra. Mas não, rosas não! – ela, farta de arranjos. A flor supre a ausência de ideia.