domingo, 18 de setembro de 2011

Drs.

Estudar qualquer coisa a fundo é, de forma quase fatal, perceber a impossibilidade de se chegar a uma resposta única e incontestável. Especialmente numa faculdade, onde tanto o conhecimento quanto as divergências tendem ao infinito. Curioso é que exatamente no mundo acadêmico seja encontrada uma quantidade desproporcional de pessoas que imaginam estar no píncaro das certezas. E dentre esses bem-sucedidos escaladores dos Everests da sapiência, grande parte é de leitores de orelhas ou, numa melhor hipótese, fartos conhecedores de um único ponto de vista. Daí ser rotineiro observar, pelos corredores, convicções desfilando para todos os lados, a indicar caminhos e fórmulas indubitáveis, qual religião, feito Cebolinhas a tramar infalíveis furtos dos Sansões da vida.

Sartre dizia que o verdadeiro pensamento pensa contra si mesmo. Pois de pouco vale um intelecto que não consegue pôr-se em xeque, desafiar-se, reduzir-se ao ridículo. Quem tem tantas certezas só pode ser um sagaz imbecil ou um gênio. Sabemos que gênios há poucos, mas velhacos estão transbordando, arcados sobre suas verdades.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pedido em ternura em manhã

E após um infeliz mês sem nenhuma postagem:

Pedido em ternura em manhã

vem, sorri
não olha diretamente
mas sorri soslaio tal de tímida 

procura
pelos cantos procura algo que perdeste
teus sapatos no chão
os brincos pelo tapete
pela parede os insetos
sim, procura

(procura no chão os insetos
na sobrancelha ofendida
na indisfarçada tensão alçada)

entre o toque nédio dos corpos
procura o olhar mais profundo

qual o que em enrubescer-te?

o que ocorrer, pois
ressimbolizo os significados

mas o pedido fixo pelas paredes:
o que nos sufoca:
só não deixa disso:
do sorriso:

o paliar do cessar
da angústia fremente:
a direção de um olhar
e dois cantos de boca